quarta-feira, agosto 29, 2012

HOMEM COMPROMISSO




POR LETÍCIA VIDICA

Prestes a entrar numa ducha quente, fui interrompida pela campainha. ‘Ué, será que o interfone quebrou? Quem será essa hora? O seu Zé não disse nada?!. Fiquei surpresa em ver o Pierre parado na porta do meu apartamento segurando uma pizza e uma garrafa de vinho.

- Posso saber o que você está fazendo aqui?! - eu esbravejei surpresa.

- Nossa, é assim que você recebe os amigos?! Já foi melhor hein? Posso entrar? Eu trouxe a sua pizza favorita, um vinhozinho e até uns chocolates. – sorria ele tentando me enfeitiçar.

Jogo muito baixo para quem tinha acabado de chegar do trabalho e ia preparar um miojo. Mas eu ainda não estava entendendo toda aquela gentileza. Deixei ele entrar e foi logo se apossando do sofá.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntei de braços cruzados ao vê-lo sentando como em um trono no MEU sofá.

- Nada. Só quis vir te visitar. – respondeu ele naturalmente.

- E a Olívia? – perguntei antes que ela resolvesse fazer plantão na porta do meu prédio.

- Essa semana ela está na casa da mãe dela. A cesária está marcada para semana que vem. – respondeu ele calmamente. Nem parecia que ele era o pai da criança.

- Pierre,você não toma jeito. A sua mulher prestes a parir e você aqui em casa?!
Olha, se a bolsa estourar eu é que não vou na maternidade...já não basta ter estado na despedida de solteiro e no casamento?! – bufei.

- Relaxa, Diana. Vamos comer? A pizza vai esfriar. – como eu odiava aquela calma dissimulada dele!!!

****

- Eu não acredito que o Pierre teve a pachorra de aparecer na sua casa!!! – esbravejava Betina, enquanto ouvia aquela história absurda que eu contava em um dos nossos sagrados happy hours.

- Ai, gente, dá um desconto. Ele levou pizza e vinho. Merece uns pontinhos... – era Lili que tentava amenizar a história.

- Acorda, Lili!!! Ele queria era comer outra coisa se você quer saber... – eu dizia.

- Mas e a Olívia? Essa mulher é muito da estranha se quer saber... como assim ela está quase parindo e o marido dela vai levar pizza para ex namorada? E o que você fez, Diana?

***

Eu estava morrendo de fome e não pude deixar de resistir às guloseimas que o Pierre tinha levado para a minha casa. Eu bem sabia onde aquilo ia terminar, mas a minha fome falou mais alto. Depois de saciada, fomos tomar um ar na varanda e eu preparava o meu espírito para resistir a toda e qualquer tentação.

- E você e o Pedro? É verdade que vocês se separaram?

- Pierre, acho que eu não te devo mais satisfações, não é mesmo? – eu não queria tocar naquele assunto.

- Claro, claro... eu estou perguntando como amigo. Não quero te magoar.. só isso! – desbaratinava ele.

- Eu não estou mais com o Pedro, se quer saber. Ele voltou para Londres. Cansei de homem confuso, viu? – joguei uma indireta para ver se ele se tocava e levava o burro embora da minha casa.

- Achei que de burro já bastava eu. Apesar de não gostar desse cara, achei que ele era capaz de te fazer feliz... é um babaca mesmo. –

Só pode ser brincadeira! O Pierre tá atolado até o pescoço e ainda acha que pode me aconselhar?

- Tá ficando tarde, Pierre. Amanhã, eu acordo cedo... acho que a Olívia tá precisando de você . – quem sabe assim ele iria embora. Eu não estava nada confortável com aquela situação.

- Deixa eu ficar aqui essa noite – suplicou ele como um gatinho no cio, mas eu respirei fundo para não ser enfeitiçada por aquela voz de seda.

- Nem pensar, Pierre. As coisas mudaram agora. Você é um homem casado se não se lembra. – hello!

- Sou casado mas não estou morto. Eu não vou mentir que sinto sua falta... deixa eu ficar vai. – dizia ele tentando tocar nos meus cabelos.

- Para, Pierre. Já faço muito em te abrir a porta, tentar ser sua amiga... não confunde as coisas. Eu não vou ser sua amante... – ERA SÓ O QUE FALTAVA!

- Não seria uma má idéia... o que tem, Diana? Ia ser bem legal te visitar de vez em quando...

Eu não estava acreditando no que eu ouvia. Era isso mesmo?!

***

- O QUÊ?! – berrou Betina chamando a atenção dos outros frequentadores do bar. – O Pierre passou dos limites né?

- Eu também desacreditei quando ele me fez essa proposta... virar amante de ex-namorado já é um pouco demais né? – dei um gole no chope.

- Mas você aceitou?!

- Claro que não, Lili. Mas a culpa é minha, eu sei...

- Culpa do quê? O cachorro aqui é ele, Diana. – bufava Betina.

- Mas eu deveria ter dado um basta desde o começo, Bê. Mas não. Lá fui eu ser amiga, abrir a porta, dar o colo e o corpo e agora ele acha que é assim. Fácil!!! – suspirei fundo.

***

- Pierre, por favor, vai embora! Eu não quero ser grossa com você, mas eu serei se preciso hein? – eu me dirigia à porta batendo as tamancas e fula para não dar um tapa na cara dele ou um beijo naquela boca.

- Desculpa, Diana. Eu não quero te desrespeitar. Você entendeu errado. Eu sei que sou casado, mas você também sabe que eu gosto de você e que eu fui forçado a fazer isso.
Eu achei que não teria mal nenhum... – ele tentava se explicar.

- Achou mas se enganou. O casamento, para mim, é algo para se respeitar, Pierre. Não sei de onde tirou essa idéia de jirico que eu seria sua amante. Nem morta!!! Agora, por favor, vai embora. – abri a porta e nem olhei para vê-lo ir embora.

***

- Isso mesmo, amiga. Colocou ele no lugar dele. – brindava Betina.

- Acho que pegou pesado, Diana. Pensa bem – filosofava Lili – ele era seu namorado, daí a Olívia se meteu na história, tirou ele de você... não seria pecado tirar ele
dela também! –

- Cala a boca, Liliana. Não coloca minhocas na cabeça da Diana. – minha advogada do diabo parecia mais nervosa do que eu. Essa era Betina.

- Não é uma questão de disputa, Lili. Acontece que eu sei muito bem a confusão que o Pierre é. Não vale a pena colocar a mão nessa fogueira. Além do mais, ultimamente... eu acho que ando com um carimbo de amante na testa... se não bastasse o Pierre... eu
encontrei o Juca.

***

Eu voltava do supermercado para casa a pé. A noite estava linda e eu resolvi praticar uns exercícios. De repente, ouvi uma voz que me chamava e quando olhei para trás vi o Juca.

- Oi, gata, perdida por aqui? – ele se aproximava me dando beijinhos na bochecha. Ou melhor, quase na boca, mas desviei.

- Eu moro naquele prédio ali e você?

Vi que ele se engasgou na resposta. Deu uma desculpa qualquer e logo me convidou para
um chope. Como eu estava cheia de sacolas de supermercado, convidei-o a subir no meu apartamento.

- Que casa linda hein! Igual a dona – emendava um xaveco.

- Pronto. Podemos ir.

- Tem certeza que quer sair? – dizia ele me dando um abraço por trás. – Você podia cozinhar algo para gente... e depois...

- E depois você vai para a casa da sua esposa?

O Juca quase desmaiou com o meu golpe fatal. Até me empurrou para longe dele.

- Esposa?! Tá ficando louca, gata? Que papo estranho é esse?

- Não precisa mentir,Juca. Eu fiquei sabendo que aquela festinha era sua despedida de solteiro. Ia me enrolar até quando?

- Eu ia te contar, gata. Mas não tem nada a ver... isso é algum impedimento para mim?

Meu Deus, virei a rainha dos casados e não estou sabendo?

***

- Que cara de pau! Ainda pergunta se tem impedimento? – questionava Betina. – E você disse o quê?

- Eu aceitei tomar o chope, mas não fiquei com ele.

- Fica atiçando, Diana. – dizia Lili.

- Eu não fiz nada demais. Só tomei um chope. Mas deixei bem claro que aquela era a nossa despedida. – eu ri – Coloquei ele no lugar dele.

- Mas e o Juca já casou?

- Ai, Betina, bem entrei nesses pormenores. Já basta ter entrado na história do Pierre né?

Continuamos jogando conversa para o ar. Na hora de ir embora, enquanto aguardava o carro chegar do valet, fui abordada por um homem.

- Desculpa ser chato, mas eu não pude deixar de reparar em você a noite inteira. – dizia ele – Prazer, Eduardo.

Quando ele me deu a mão, não pude deixar de reparar na aliança que ofuscava os meus olhos. Mais um não!!!!! O que está acontecendo? Casamento virou troféu, por um acaso? Ou algum chamariz para conseguir mulher? Antes que ele se engraçasse mais comigo, meu carro chegou e eu agradeci a todos os deuses. Sozinha sim, amante nunca. Me poupe né?

PAPO DE CALCINHA: E, VOCÊ, JÁ ATRAIU MUITOS HOMENS CASADOS? O QUE ACHA DE SE ENVOLVER COM UM DELES?

quarta-feira, agosto 08, 2012

FESTA NO APÊ


POR LETÍCIA VIDICA


- ... eu estou ótima, meninas. Não podia estar melhor. Cansei de sofrer. Não vou negar que eu ainda penso no Pedro. Vai ser normal, por um tempo. Mas preciso deixar a minha vida mais colorida sabe? Tá muito sem graça. Estou precisando de novas emoções. – eu desabafava para minhas escudeiras em nosso sagrado ritual de sexta-feira.

- Assim que se fala, minha amiga. Nessa vida, a gente tem que ter histórias para contar. Bora preencher as páginas desse livro aí. – era Lili que me animava.

Eu realmente estava mais animada e pronta para novas aventuras. Aproveitamos o
momento feliz para brindarmos com nossas canecas de chopes. Em meio ao nosso brinde, fomos surpreendidas por um bonitão que parecia bem íntimo da Lili.

- Liloca, quanto tempo!!! Continua uma gata hein? – dizia o bonitão beijando e dando um apertão na Lili.

- Oi, Breno, tudo bem? – dizia Lili, com sua familiar voz de sedução. Logo nos ligamos que ele se tratava de um affair antigo. – Já tá indo embora?

- É, estou esperando o Juca. Ele foi no banheiro. Falando nisso, a gente tá indo lá para o apê dele. Vai rolar uma festinha lá. Só para os amigos. E, claro, que vocês são minhas convidadas de honra, meninas.

Rimos sem graça com o convite de última hora, mas Lili parecia bem interessada em conferir a festinha. O tal do Juca voltou do banheiro. Era gatíssimo por sinal e fez questão de reforçar o convite. Disse que não aceitava desculpas e passou todos os seus contatos para gente.

- Você não disse que estava precisando de novas emoções, amiga? Olha só como Deus é bom. Simbora para festinha do Juca?

- Meninas, vocês podem ir. Eu tô legal. Já passei da idade das festinhas. – era Betina que tentava pular fora.

- Ai, Lili, mas a gente nem conhece esses caras direito. Vai saber se essa festinha não é só um prato cheio para atacar a gente? – mesmo excitada com a aventura, fiquei com a pulga atrás da orelha.

- Podem parar de graça. Betina, nem pense em não ir com a gente, tá legal? Você tem muita juventude para gastar que eu sei. E, Diana, relaxa! O Breno é um velho amigo.
Eu conheço ele muito bem. Não tem perigo algum. E aí, bora?

Como negar baladinhas era uma afronta para a Lili, mergulhamos rumos a tal festinha. Como eu estava na pista para novos negócios, deixei o medo de lado e corri para o abraço.

***

- Tem certeza que o prédio é esse, Lili? – perguntava Betina, já irritada, depois de darmos cinco voltas no quarteirão. – Se não for esse, estou dando meia volta e indo embora hein?

- Calma, Betina, é esse mesmo! Acabei de mandar uma mensagem pro Breno. Ele tá descendo.

- Gente, se a coisa esquentar lá em cima, a gente sai correndo hein? – eu alertava as meninas. Afinal de contas, vai que a gente era o prato principal da festinha.

***
Entramos no tal apê e mal conseguíamos respirar. A festinha estava bombada. Saía gente pelo ladrão e não havia espaço que já não tivesse sido preenchido. O Breno veio nos receber (já parecendo um pouco animado), agarrou a Lili e se embrenhou no meio da festa. Betina resolveu ir pegar um drinque e logo vi que se enturmou com a turma da caipirinha. Ela adorava bancar o barman nas festinhas. E eu fui tomar um ar na varanda junto com a galera do fumódromo e do narguilé.

- Isso eu não admito. Sozinha na varanda não vale né? – era o gato do Juca que me flagrava no momento solidão. – Não tá curtindo a festa?

- Que nada! Tá tudo ótimo. Eu estou esperando as meninas. – respondi sem graça e tentando não olhar para aquele bíceps nu (como ele era gatooo!!!) – Falando nisso, você viu a Lili por aí?

- Ih, relaxa, gatinha. – dizia ele colocando o braço musculoso em volta do meu pescoço. – A Lili está em boa companhia. – sorriu ele maliciosamente – Fica tranquila que eu não vou te deixar sozinha. Aceita minha companhia? – sugeria ele me dando o braço.

Quem vai negar o convite de um gato desses? Ele me puxou para a sala e logo me enturmou com a galera. Que presente hein? Entre uma caipirinha e outra, ele aproveitava para me abraçar (como ele adorava me abraçar) e repetir que eu era linda.

- Amiga, o gato tá na sua hein? – dizia Betina.

- Eu estou até estranhando. Eu não estava mais acostumada com tanto elogio assim.
Nossa, mas cadê a Lili? Já faz mais de uma hora que a gente chegou e ela sumiu! Tô ficando preocupada...

- Parece até que não conhece sua amiga, Diana. Aposto que está melhor que a gente.

- Gataaaa... vem dançar comigo vem. – Juca me puxava pelo braço e me levou para o meio da pista para dançar um funk no meio das garotas piriguetes da festa.

Deixei o álcool da cachola dançar por mim. Quando vi, eu estava rebolando até o chão e o Juca me admirava com carinha de safado sentado no sofá. Essa noite promete! Acho que vou ter liberar geral hein?

Depois de bancar a Valeska quase popozuda, dei uma fugidinha para a varanda, onde estavam Betina e seus fumantes. Minha amiga parecia bem enturmada por lá, praticamente, atracada em um menino que parecia cheirar leite e devia passar o dia todo compondo novos pancadões.

- E aí, Diana quebra barraco! Arrasou na sala hein? Para quem disse que não sabia mais dançar...

- Tem coisas que a gente nunca esquece, não é mesmo? – emendei.

- ‘Peraí, eu te conheço... eu vou lembrar... espera aí – dizia uma garota ruiva, enquanto emendava seu segundo cigarro fazendo força para lembrar de mim – Já sei!
Você é a garota do pneu... isso mesmo, a garota do pneu.

Eu não estava entendendo bulhufas, mas independente de onde ela me conhecia, o que eu menos queria era encontrar alguém que me conhecesse.

- Do casamento da Olívia e do Pierre. Isso mesmo. Como eu pude esquecer! Tudo bom? Prazer, eu sou a Paulinha. – dizia ela me puxando e me dando um beijo, enquanto eu permanecia estática prestes a ter um surto. – Eu sou prima da Olívia, praticamente irmã...

Pronto, fudeu. A minha máscara ia cair.

- ... e você... é a Diana não é mesmo? A ex do Pierre? Gente, essa garota é irada... não é que ela...

Antes que a bocuda da Paulinha terminasse a história, fomos interrompidas pelo Juca que chegava.

- Ahá, encontrei a minha Lady Di – dizia ela passando o braço sobre o meu pescoço e me dando um apertão – Não some não, gata. Tá tudo bem por aqui? Estão tratando a minha deusa bem? – dizia ela me dando um beijinho na bochecha e emendando um apertão.

- Jucaaaa – gritava a Paulinha – Você não vai acreditar. Eu conheço a Lady Di. A gente se encontrou no casamento da Olivinha...acredita?

- Olivinha, grande Olívia – suspirava Juca como se já conhecesse Olívia de outros carnavais – Mas como assim? Quer dizer que você não é exclusividade só minha, gata?

Paulinha ameaçou começar a recontar a história do pneu furado no dia do casamento do Pierre, mas antes que a galera – que já estava aflita pelo fim da história – soubesse que eu tinha ido espionar o casamento do meu ex, fomos interrompidas pelo Luis Otávio que chegara na festa. Eu quase surtei quando vi ele e o Juca se cumprimentando como velhos conhecidos.

- Diana? Betina? Ué, conhecem o Juca? A Lili tá aqui também? – ele perguntava assustado.

- A Lili? A Lili? – eu engasguei.

- Ela tá por aí... – completou Betina quase enfiando um maço de cigarros inteiro na boca.

Parecendo perceber o embaraço, Juca levou Tavinho para um drinque.

- Ferrou! Cadê a Lili? – eu perguntava.

- Não sei, Diana. Mas agora a casa caiu para ela.

Calmamente e arrumando os cabelos, Lili apareceu na varanda na maior cara lavada.

- Liliana Bittencourt, teu santo é forte! Onde você se meteu mulher?

- Calma, gente! Eu estava ótima... só estava relembrando alguns assuntos com o
Breno... e vocês estão curtindo a festa?

- A festa está ótima, mas pode azedar para você. Você não sabe quem acabou de chegar! Luis Otávio.

Lili ficou pálida e sem palavras. Parecia até que ia ter um treco.

- Oi, Lili! Tudo bem com você? – dizia Luis Otávio na varanda.

- Oi, Tavinho, que coincidência! Você conhece o Juca? – perguntou ela.

- Para você ver, gata. O mundo é um ovo. O Jucão aqui é um grande amigo do futebol. – dizia Tavinho abraçando Lili numa atitude suspeita de quem ia dar o bote.

Nessa hora, Breno apareceu na varanda com dois copos de caipirinha.

- Lili, tá aqui a sua bebida ...

Breno também pareceu se assustar com a cena e ficou parado com as bebidas nas mãos.

- Oi, Breno, TUDO BEM? – enfatizou Luis Otávio – Então, VOCÊ E A LILI já se conheciam? – alfinetou.

Um silêncio mortal pairou no ar. Eu esperei a hora em que os dois iam se atracar e alguém voaria da varanda. Juca percebendo a situação convidou todo mundo para ir à sala ouvir um de seus amigos tocar violão. O clima de luau no apê pareceu esfriar os ânimos.

Enquanto todos se distraíam com o violão na sala, Juca me puxou pelas mãos e saímos de lá sem ninguém notar.

- O que foi, Juca? ´- perguntei ainda um pouco ingênua ao entrar naquele quarto.

- Minha princesa merece um lugar mais reservado. – dizia ele trancando o quarto – Aqui é o meu castelo, gata. E eu quero você... – dizia ele me agarrando e me pressionando contra a porta.

- Calma, vai com calma – respondi, tentando me desvencilhar daqueles braços fortes e daqueles músculos todos. Confesso que me assustei um pouco com a reação. Depois de passar tanto tempo transando só com o Pedro, eu me sentia como uma virgem novamente.

- Relaxa, Lady Di! – dizia ele beijando o meu pescoço e tentando me beijar.

- Mas e todo mundo? As meninas vão sentir minha falta...

- E dai? Tá todo mundo bem distraído lá na sala e outra, aqui no meu castelo, mando eu...fica tranquila... agora relaxa e vem aqui.

Fui vencida pelo meu tesão, por aqueles músculos, pelo xaveco barato, pela aventura e pela minha enorme vontade de me disvirginar do Pedro. Caí na cama e nos braços do Juca.

***

Quando saímos do quarto, havia apenas meia dúzia de pessoas na sala. Saí arrumando o cabelo e ainda tentando disfarçar o que tinha acontecido. Não me dei conta, mas ficamos mais de uma hora trancados naquele quarto. Já eram quase cinco da manhã.

- Acho que é hora de criança ir para casa, não é mesmo? – era Betina quem fazia o chamado tentando se desvencilhar dos braços do MC Moleque dela.

- Que isso, gente. Tá cedo... vamos beber mais uma? – sugeria Juca cheio de ânimo.

- Acho melhor a gente ir mesmo – Lili concordava como quem quisesse se livrar do Tavinho. Ele não parecia com cara de bons amigos.

Depois de convencermos todos que era hora e de mais uma saideira de caipirinha, conseguimos escapar do apê. Mas eu ainda tive que prometer ao Juca que eu voltaria qualquer dia desses para uma visitinha íntima. Como se ele fosse lembrar quem sou eu no dia seguinte... abafa!

- Gente, que noite maluca! Mas a festinha foi sensacional... – eu dizia enquanto dirigia para casa. – Lili e o Tavinho? O que você disse para ele?

- Ai, gente, o Luis Otávio não está com essa moral toda para me cobrar fidelidade, vamos combinar né? Eu omiti algumas verdades, não contei que eu transei com o Breno, mas disse que a gente ficou sim. Afinal, o fofoqueiro do Juca já tinha contado para
ele.

- Adorei que você meteu um galho na cabeça do Tavinho. – ria Betina – Cornooo...

- E, você, hein bem? E aquele garotinho cheirando leite? E aí rolou? – eu perguntava.

- Ai, meninas, o menino estava com os hormônios à flor da pele. Me levou pro banheiro e tentou fazer o serviço, mas ele era péssimo... eu quase tive que ensinar?! – ria Betina. – Assim não dá, hein? Na próxima festinha, se ele estiver, eu estou fora!!!

- Gente, eu preciso contar um bafão para vocês... – confessava Lili – O Breno me contou que essa festinha foi a despedida de solteiro do Juca, acreditam?

Eu quase bati o carro. Freei com tanta força que faltou pouco para não entrar no poste.

- O QUÊ???? O Juca vai casar? O que é isso agora? Eu virei presente de despedida de solteiro? Que filho da mãe. E ele não me disse nada... mas ele não estava de aliança, estava?

- Pelo que o Breno me contou, a namorada dele mora no interior. Ele se casa daqui duas semanas... Diana, pensa pelo lado positivo, você foi praticamente a noiva...

Rimos para não chorar. Apesar de ficar pasmada com o fato do Juca ser noivo, resolvi dar um desconto já que ele tinha me proporcionado fortes emoções. E isso era tudo que eu precisava. Fomos para casa ansiosas pela próxima festinha no apê.

PAPO DE CALCINHA: E VOCÊ JÁ CURTIU UMA FESTINHA NO APÊ?

terça-feira, julho 31, 2012

SESSÃO DESAPEGO


POR LETÍCIA VIDICA

- É hora de desapegar, Diana! – dizia Jane, a minha terapeuta, com sua calma infernal e sua voz professoral.

Foi para isso que eu usei o limite do meu cheque especial e retornei ao divã (mesmo depois de uma falsa alta dada por ela – acho que ela não aguentava mais me ouvir -)?! Para ouvir que é hora de desapegar?! Legal, mas fiquei com cara da panza esperando a tal receita para o desapego. Mas a olhadinha para o relógio era um sinal de que a minha sessão tinha terminado depois de passar uma hora (que mais pareceu um minuto) desabafando sobre o último fora que levei do Pedro e sobre como retomar a vida amorosa novamente. Resultado foi esse singelo conselho da minha terapeuta.

Como ela não me passou a receita e nem alongou nossa conversa freudiana e jungiana, saí do consultório com cara de marmota. Desapegar, desapegar, desapegar... foi o que a Jane mais repetiu naquela sessão. Só esqueceu de dizer como fazer isso. Só um chocolatinho quente no frio daquela noite para me fazer relaxar.

Banho tomado, chocolatinho bebido, rango devorado e sono perdido. Quase meia-noite e eu não conseguia pregar o olho e, além do mais, eu estava elétrica. Seria capaz de correr uma maratona. Algo me incomodava, mas eu não sabia o quê. Nada na tevê para assistir, nenhum vizinho para espionar da varanda e vontade zero de sair. Me joguei na cama.

Percebi que tudo naquele quarto, naquele apartamento me incomodava. As cores, a disposição dos móveis, tudo mais do mesmo. Abri o meu guarda-roupa e as roupas quase caíram em mim. Estava uma zona. Resolvi começar a arrumar. Que mal tem em fazer um faxininha geral em plena madrugada? Apesar da minha vontade ser a de tacar fogo em tudo e chamar o Luciano Huck para um ‘lar doce lar’, apelei para a realidade e comecei a arrumar apenas o meu guarda-roupa afim de me livrar de algumas pecinhas e abrir um pouco mais de espaço.

No meio da bagunça, entre montes de roupas velhas jogadas no chão prontas para o descarte e no encontro de outras esquecidas num canto qualquer do meu guarda-roupa, encontrei uma caixinha vermelha. Era o meu baú de lembranças. Eu já nem lembrava mais que guardava aquilo.

Parei a arrumação e comecei a fuçar na caixinha. Me surpreendi com tantas memórias. Encontrei o meu primeiro (e último) diário. Reli algumas páginas e vi que ainda sou a mesma boba apaixonada que ainda sonha em encontrar um príncipe encantado. Me surpreendi com uma foto da turma do colegial em um churrasco de formatura num sitio.
Nossos sorrisos descompromissados refletiam a nossa responsabilidade zero e a gente ainda nos julgávamos estressados e sobrecarregados!!!

Em meio as papeladas, encontrei uma foto minha e do Pedro abraçados quando éramos adolescentes. Nessa hora, me bateu uma saudade imensa dele. A menina daquela foto jamais sonharia que um dia ia gostar tanto daquele magricela. Achei também uma cartinha de amor que ele me escreveu em um velho guardanapo depois da primeira noite que passamos juntos, uma foto nossa na pousada onde rolou o nosso primeiro beijo e mais fotos e mais cartas e mais fotos. Guardar ou queimar?!

Achei que não fazia mais sentido guardar tantas lembranças e coloquei no monte das coisas a desfazer. Guardei apenas a nossa foto de infância. Aquela eu queria conservar. Quem sabe, pelo menos, a nossa amizade verdadeira possa voltar um dia.
Terminei a faxina quando a manhã já anunciava. Juntei vários sacos de roupas velhas para doação e uma caixa com pertences do Pedro esquecidos em casa.

***

- Nossa, que cara é essa? – perguntava Betina ao me flagrar de olheiras nos pés ao meio-dia.

- Não preguei o olho essa noite. – eu dizia sem conseguir abrir os olhos e largada no sofá.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntou ela assustada.

- Baixou a cabocla faxina em mim e eu resolvi dar uma geral na casa, limpar meu guarda roupa, jogar fora umas roupas velhas e me desfazer de algumas lembranças...

- Nossa, que pique, amiga! Mas podia fazer a sessão desapego pela manhã? Tinha que ser de madrugada?

- Eu estava meio de bode ontem e resolvi dar uma mudada. Cansei da mesmice da minha vida, dos meus relacionamentos, acho que eu estou carregando muita tralha velha
comigo há muito tempo... é hora de abrir espaço né?

- Foi na Jane ontem né? – desvendava a charada.

- Como você sabe?

- Nem precisa perguntar. Foi ela quem pediu para você fazer isso?!

- Digamos que me estimulou. Veio com um papo que é hora de desapegar e tals, mas não me disse como. Arrumei o meu jeito.

- E vai jogar tudo isso fora?- apontava Betina para os sacos.

- Se quiser alguma coisa, pode pegar. Se não, vou levar para um brechó na segunda. Só deixa essa caixa aí que são as coisas do Pedro. Ainda não sei o que eu vou fazer.

- Ué, devolve para ele. Já que é para desapegar que seja totalmente né?

***

Eu ainda não sabia o que fazer com as coisas do Pedro. Se eu ligasse para ele e pedisse para buscar, ele poderia entender como uma falta de educação minha ou que eu estava arrumando motivos para ele me ver. Fiquei matutando o que fazer, porém a vida foi mais rápida do que eu. Pedro apareceu lá em casa sem convite.

- Posso entrar?! Nossa, vai se mudar? – dizia ele se desvencilhando dos sacos.

- Apenas uma faxininha necessária. Senta. Mas o que te traz aqui? – perguntei ainda surpresa com a visita.

- Eu vim me despedir. Estou voltando para Londres amanhã. Vou ficar mais um tempo por lá e eu não queria ir sem falar tchau para você. – ele parecia nervoso.

- Não precisava se incomodar. – mentira! Pelo menos, dessa vez, ele se preocupou em me avisar que ia partir. Coisa que não fez quando chegou.

- Desejo boa sorte a vocês. – eu cutuquei.

- Vocês?! – ele se assustou com a pergunta. Não sei por quê.

- Ué, a Camila não vai junto? – alfinetei.

- Não, não... a gente foi coisa passageira. – dizia ele cabisbaixo. Parecia envergonhado em me dizer aquilo.

Só Deus sabe o quanto eu vibrei com aquela resposta. Ele confessou que o lance deles não passou de fogo de palha e que ela não chega aos pés do que ele quer. Mas não me confessou o que ele queria. Ofereci um suco e, quando voltei da cozinha, flagrei ele fuçando na caixinha de lembranças que eu ia me desfazer.

- Nossa, você ainda tem essa foto? - ele admirava nossa foto de infância – Que tempo bom! – suspirava ele.

- Ah, aproveitando... essa caixinha é sua. São suas coisas. Separei para você levar.
– eu disse ríspida.

- Você quer mesmo que eu leve isso? – ele pareceu se assustar com a devolução.

- Eu quero. Fiz uma faxininha necessária lembra?

- Mas eu achei que...

- Achou o quê, Pedro? Que eu ia carregar essa tralha velha por toda a minha vida? – pronto, falei.

Pedro me olhou já entendendo o recado de que era hora de sair pela culatra, recolheu suas coisas com um ar de tristeza no coração, me deu um abraço, pegou a caixinha e saiu pela porta como um cãozinho sem dono.

Quando eu ameaçava fechar a porta, Pedro voltou. Ficou me olhando e eu senti que ele ameaçava um beijo. Porém, brequei sua ação.

- Eu volto, tá bom? – dizia ele com olhos marejados.

- Fique tranquilo. Você não me deve mais satisfação não é mesmo?

Fechei a porta rapidamente para não mudar de idéia. Já que era para desapegar, que fosse desapego total. Chega de manter a sujeira embaixo do tapete.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ FEZ UMA SESSÃO DESAPEGO? QUAL FOI O MOTIVO DO DESAPEGO?

PAPO DE CALCINHA NA BIENAL

ANOTEM NA AGENDA:

COMPROMISSO FIRMADO???



MENINAS, ESPERO TODAS VOCÊS VIU???

terça-feira, julho 17, 2012

NO ESCURINHO DO CINEMA


POR LETÍCIA VIDICA

- Oi, gata! Que tal um chopinho lá no Pedrão hoje? – era Lili que sugeria uma antecipação do nosso sagrado happy hour.

- Valeu, Lili, mas eu ainda tenho que terminar uns relatórios aqui e depois vou pegar um cineminha. – eu dizia ainda enfiada numa pilha de projetos.

- Cineminha?! Nossa, a fila anda mesmo hein. O Pedro nem esfriou e já tem outro na parada? Pode desembuchando. Quem é o bofe? – a típica curiosidade de Lili falava por ela.

- Fila? Que fila, Lili. E não tem bofe nenhum. Eu vou ao cinema sozinha mesmo. Qual o problema? – é, qual é o problema?!

- Fala logo, Diana. Se quiser, eu não conto nem para a Betina. Quem é ele? – insistia minha querida amiga ainda não convencida de que eu ia realmente ao cinema apenas com minha ilustre companhia. – Se não tem ninguém, o que tá pegando? Você tá bem? Tá precisando desabafar? Se quiser, a gente deixa a cervejinha para amanhã e a gente te acompanha no cinema.

- Lili, eu agradeço, mas eu estou ótima. Não me leve a mal. Eu não quero companhia. Eu quero pegar um cinema sozinha mesmo. Podem ir no bar sem mim. Se a sessão não acabar tarde, eu passo lá. – eu respondi querendo me livrar logo da ligação para não me atrasar para a sessão.

- Tem certeza? Olha, quando comprar o ingresso manda uma mensagem dizendo qual é a sala e qualquer coisa me dá um toque no celular hein? Ah e não vai assistir aquelas comédias românticas hein? Você pode sair de lá direto para o divã... – desatou ela a me dar várias orientações como se eu fosse uma adolescente virgem prestes a ter um encontro com um espinhudo da internet.

Depois de eu ter encarado muitos fantasmas comigo mesma antes de decidir ir ao cinema sozinha, ainda tive que convencer a Lili, a Betina(que não convencida pela história da Lili) que também me ligou e, até mesmo, a minha secretária. Gente, qual o problema em ir ao cinema sozinha?! Eu ainda não tinha essa resposta, mas era o que eu queria buscar. Afinal de contas, eu era uma virgem nesse lance de ir ao cinema sem ninguém.

Adiei perder essa virgindade porque, em alguns raros momentos, eu tinha uma companhia masculina para me acompanhar. Em outros momentos nem tão raros assim, eu tinha minhas fiéis escudeiras. E, na maioria dos momentos, eu recorria ao sofá da minha sala onde a minha própria companhia não é tão assustadora.

E assustadora foi a reação de algumas pessoas quando eu decidi que queria me aventurar indo só ao escurinho do cinema. Para alguns, a minha atitude era digna de uma internação no hospício ou assemelhava-se ao suicídio. “Você tá louca?! Vai fazer o que sozinha num cinema?! Não é mais fácil cortar os pulsos?” Já para outros, era uma atitude de total elevação espiritual. “Eu super apoio a sua atitude. Acho que somos autossuficientes e não há mal nenhum em sentar numa sala de cinema e assistir um filme oras.” Dividida, entre opiniões resolvi provar.

Confesso que, durante alguns momentos do dia, pensei em desistir da idéia ou chamar reforço, mas fui dura na queda e parti para o cinema alone.

Uma das coisas que eu temia era em ser o único ser da face da terra que tivesse tido a ilustre idéia de ir a um cinema em plena quinta-feira à noite. Ledo engano, primeiro porque numa cidade como São Paulo, o único lugar onde você fica sozinha é dentro do banheiro da sua casa (isso se você não resolver tomar um banho com alguém).
Assustei-me ao encontrar uma fila considerável na bilheteria. Tudo bem se o mais velho da fila não passasse dos dezesseis anos.

Esqueci completamente que estamos em julho e que pré-adolescentes estão em férias. E qual o melhor lugar do mundo para se divertir nas férias? O cinema!!! E se a sessão
for noturna, é quase uma transgressão.

Tentei me sentir natural em meio àqueles adolescentes cheios de espinhas na cara e não me incomodar com os beijos que os casais à minha frente, nas minhas costas e ao meu lado trocavam. Era mais um sinal de que eu podia ter ficado literalmente para titia solteirona, mas... resolvi não focar nisso naquele momento. Preferi me distrair com os assuntos teenager. Tinha esquecido o quanto era realmente estressante decidir entre fazer o meu niver numa balada ou um churras no sítio.

Naquele momento, bateu uma saudade imensa dos meus tempos de colégio, onde eu ia ao cinema com meus amigos, meus namoradinhos e não me preocupava se no dia seguinte eu tinha algum projeto para entregar, chefe para encarar e blablabla... nossa, parece até que faz um século que vivi isso e nem se passaram 20 anos!!!

Comecei a reparar para ver se tinham outros seres autossuficientes como eu na fila, reparei numa morena que parecia sozinha, mas logo percebi que um bonitão esperava ela do lado de fora da fila. ‘Tudo bem, Diana, aja naturalmente. Respira fundo”. Quando o bilheteiro me chamou e eu disse o nome do filme, prestei bem atenção para saber se a sala estava vazia. Eu ia ver uma comédia nacional e em meio a filmes de ação e outras apostas de hollywood, a possibilidade de eu ser a única na sala era grande. Contei as cadeiras rapidamente e vi que, pelo menos, outros trinta me acompanhariam na sessão.

Ufa!!! Estágio 1 superado. Como ainda faltava quase uma hora para o filme, resolvi comer alguma coisa. Meu estômago dava sinais de que a minha última refeição não tinha deixado mais nenhuma faísca dentro de mim. Enquanto eu esperava a comida, fui surpreendida pela Betina.

- Betina?!

- Eu não acreditei quando a Lili me contou. Você tá bem, lindona? Vai mesmo ao cinema sozinha? – dizia num tom que lembrava o da minha mãe, não sei por quê.

- Betina, eu estou ótima. Gente, eu só quero ir ao cinema sozinha e nada mais. Qual é o problema? – eu estava começando a me irritar com aquela vigilância tola.

- Problema nenhum. Eu, inclusive, já fiz isso muitas vezes e adoro. Agora você ... depois desse rolo todo do Pedro... está mesmo preparada para encarar isso?!

- Fica tranquila. O Pedro não tem nada a ver com essa minha decisão... mas você não vai sair com a Lili? – desbaratinei.

- Vou. É que eu tive que vir resolver uma coisa aqui no shopping e resolvi ver se estava tudo bem com você. Promete que liga para gente quando sair da sessão?

Nossa, da próxima vez, eu vou ao cinema em uma sessão em Marte. Assim vai ser mais difícil a supervisão. Falando em sessão, corri para a sala. Entrei correndo, mas o trailer nem tinha começado. Quando entrei, não tive coragem de encarar as pessoas. Ok que eu seja autossuficiente, mas ainda sentia o peso da recriminação nas costas. Todo mundo entra no cinema com a amiga, o namorado, a turma, a mãe, a sogra e assim vai e eu entrava sozinha.

Sentei no meu lugar e fiquei mexendo no celular para o tempo passar. Nessa hora,
senti falta de uma companhia para jogar papo pro ar assim como as pessoas ao meu redor faziam. Porém, essa solidão repentina durou apenas até o trailer e o filme começarem.

Confesso que, durante a sessão, eu dava umas olhadinhas para o lado para me certificar de que não havia ninguém ao meu lado. Vai que algum fantasminha camarada quisesse bater um papinho né? Apesar da sala ter, pelo menos, umas 50 pessoas, cada uma sentara em um canto e eu me sentia um pouco sozinha demais na minha fileira.

Entrei no clima do filme, engraçadíssimo, por sinal. Era uma comédia romântica feita por homens que tratava de assuntos de mulheres. Eu estava precisando de um pouco de besteirol para me animar e também não tava afim de colocar o tico e teco para pensar naquela noite. Sei que ri como uma doida, às vezes, até um pouco alto demais. Mas e daí? Estava todo mundo rindo mesmo... e, confesso, que em algumas cenas mais românticas deixei meus olhos marejar e foi inevitável não pensar no Pedro ou no Pierre ou no que eu queria para mim ou me imaginar sendo aquela atriz ouvindo tudo aquilo projetada na tela do cinema. Porém, o letreiro subiu e eu esqueci rapidamente de tudo.

O filme passou e eu nem senti tanto assim a solidão. Amei a experiência científica. Na hora de sair, nem liguei se a galera do fundão reparava que eu estava só e não saía comentando o filme com ninguém. Acho que essa é parte chata da solidão da telona. Terminar o filme e não ter com quem comentar ... mas, para isso, a gente recorre às amigas.

Decidi dar uma passadinha no bar do Pedrão. Porém, no meio do caminho enquanto eu pagava o ticket do estacionamento, fui surpreendida. Encontrei o Pierre e a Olívia na fila. Que beleza hein Deus? Tudo que eu mais queria era encontrar o meu ex e a sua esposa para confirmarem a minha solidão.

- Oi, Diana, tudo bem? – dizia Olívia com a sua insuportável simpatia. – Eu disse para o Pierre que era você e ele não quis acreditar...

- Oi, gente, tudo bem? – respondi sem graça – Achei que você já estivesse na maternidade... ainda tá passeando com esse barrigão? – desbaratinei.

- Ela é louca. Nunca vi ter desejo de ir ao cinema antes de parir. Mas e você tá sozinha? O Pedro tá com você? – perguntava Pierre.

Ferrou. O que eu ia dizer? Confessaria que estava sozinha , que era autossuficiente ou inventaria que o Pedro estava no banheiro? Fui salva pelo gongo, ou melhor, pelo caixa que me chamava para pagar o ticket. Paguei, me despedi do casal e ufa! Não respondi a pergunta. Saí do shopping rindo pela cena e feliz pela minha atitude. Fiz uma Diana feliz.

- Diana!!! Que bom que você veio!!! – brindava Lili ao me ver chegar no bar do Pedrão.

- Calma, gente. Eu to viva. Não fui tarada no cinema...infelizmente – eu ria e pedia um chope. – Amei a experiência. Farei mais vezes se querem saber...

- Olha, amiga, eu te admiro. Fiz isso uma vez e não deu certo. Acho que tenho algum problema não diagnosticado. Acredita que eu chorei com filme de ação? – confessava Lili. – Saí de lá para curar uma depressão e peguei outra. Tipo vírus.

- Ah, eu adoro ir ao cinema sozinha. É uma ótima terapia para me fazer relaxar dos processos. Eu apoio. Acho que todo mundo tinha que,pelo menos, uma vez na vida escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho e ir ao cinema sozinha.... – dizia Betina.

- Acho que agora vou arriscar plantar a árvore. – eu ria – A única coisa chata foi encontrar o casa 20 na fila do estacionamento... acredita que o Pierre e a Olívia me flagraram no shopping?

- E aí? E você? Bancou a autossuficiente?

- Fiquei gelada, Lili. Mas ainda bem que na hora que eu ia ser desmascarada o caixa do estacionamento me chamou. Ufa!!! Eu disse que estava preparada para a experiência científica, mas eu não contava com esses aliados me espionando ...

Continuamos a noite rindo e dividindo nossas experiências solitárias.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ FOI AO CINEMA SOZINHA (O)? CONTE COMO FOI A EXPERIÊNCIA.

sexta-feira, julho 06, 2012

VIRANDO O JOGO



POR LETÍCIA VIDICA

Parei de respirar e quase tive um treco quando vi o Pedro saindo da garagem da casa da mãe dele. Eu estava estacionando o meu carro frente a casa dos meus pais, quando o vi pelo espelho retrovisor. Pensei que era uma miragem. Afinal a saudade era tanta que eu não me assustaria se estivesse imaginando ele. Não, não era uma miragem. Era Pedro em carne e osso. Mas como assim ele voltou e não me disse nada? Antes que escapasse, larguei o carro de qualquer jeito e gritei o nome dele.

- Pedro?! – eu disse descendo do carro esbaforida.

- Diana?! – ele respondeu ainda um pouco sem graça. Parecia até que tinha visto um fantasma. Ou pior achei que ele não estava tão feliz em me ver quanto eu estava em vê-lo. – Quando você chegou? Por que não me disse nada?

Fiz tantas perguntas a ele enquanto eu o abraçava e era retribuída com um abraço frio. Algo estava errado. Eu conheço meu eleitorado.

- Eu cheguei há dois dias... eu ia te procurar.

- Há dois dias?! Como assim? Ia me procurar quando?

Eu não consigo entender o Pedro. Eu fico aqui louca para ele voltar e ele retorna sem me dar um sinal de fogo?! Antes que respondesse a todas as minhas perguntas, um carro se aproximou e, para minha surpresa, quem estava dentro dele era a Camila, a Globeleza. Pedro me abraçou, me deu um beijo na bochecha, disse que tinha um compromisso e que me procuraria para gente conversar melhor.

Fiquei com cara de tacho e coração partido ao vê-lo partir no carro com a Globeleza e me deixando perdida e só na rua. Como assim? O que eu fiz? O que está errado nessa história? Perdi o chão. Inventei uma enxaqueca e fui rapidamente embora da casa dos meus pais.

****

- Eu não estou ficando louca, Betina. Tem algo muito errado com o Pedro! Ele voltou e não me disse nada, me tratou com uma frieza absurda, aquela Camila foi busca-lo cheia de sorrisos... eu não estou com um bom pressentimento.

- Calma, Diana. Ele não disse que ia te procurar? Calma! Não esquece que vocês deram um tempo. Sei lá... vai ver ele quer pensar, ainda está respeitando o seu tempo.

- Não, Betina. Eu conheço o Pedro. Ele quer me dizer algo, mas não tem coragem. Ele está fugindo de mim. Eu não vou deixar isso acontecer...

- E o que você vai fazer?

Antes que a minha ansiedade me matasse, pisei em cima do orgulho, me agarrei na confiança e liguei para o Pedro convidando-o para jantar. Me arrumei toda poderosa e fui ao encontro dele. Resolvi levá-lo ao restaurante japonês que ele tanto gostava.

- Nossa, você está linda! – ele me disse quando chegamos ao restaurante.

- É para você – ataquei.

- Não mereço tanto – desbaratinou ele.

Passamos a primeira hora do jantar falando bobagens. Ele me contou sobre sua vida em Londres, seus novos amigos, mas a gente conversava com uma certa frieza mesmo em meio a tantas confidências. Era como se fosse apenas o Pedro amigo que estivesse ali. O
Pedro amante estava perdido em algum lugar... eu queria encontra-lo.

Num momento entre o final do jantar e a sobremesa, não suportei mais aquele joguinho e coloquei as cartas na mesa.

- O que aconteceu, Pedro? Por que você voltou, não me procurou e está me evitando a noite toda? – vomitei tudo nele.

Pedro abaixou os olhos, respirou fundo, tomando coragem para me dizer algo que, com certeza, me magoaria. Eu conheço aquele olhar.

- Eu estava sem coragem de te procurar. Eu preciso confessar que ... que... a melhor coisa seja seguirmos cada um o seu caminho.

Paralisei. Para, volta tudo... eu estou ficando louca?! Não ouvi isso (de novo).

- Diana, eu não quero te magoar, mas... eu não sou capaz de suportar a presença do Pierre entre nós.

- Pedro, evolui. Mesmo depois desse tempo todo você ainda não conseguiu esquecer do Pierre?! A essa hora deve estar quase trocando a fralda da filha dele, o Pierre está muito bem casado, se quer saber... e ele não fugiu do altar porque eu vi... – ops, falei demais.

- Você foi ao casamento dele?!

Bendita hora que eu resolvo falar demais. O Pedro me pegou no pulo do gato. Já que era para colocar as cartas na mesa, resolvi contar rapidamente a minha aventura – da despedida de solteiro à espionagem na igreja.

- E depois disso tudo você ainda acha que esqueceu dele, Diana? Olha, você sabe que eu te adoro, mas não dá mais para viver com esse fantasma no meio da gente.

- Pedro, peraí... eu não estou entendendo nada. Eu tava quieta no meu canto, você vem me declarando esse amor todo, me fazendo quase pirar... daí eu me dou conta de que você é o cara certo, de que eu gosto de você e agora vem com esse papinho para cima de mim? Não vira o jogo não! – me irritei.

- Diana, você foi forçada a me escolher. O Pierre sempre te dominou. Mais dia, menos dia ele vai correr atrás de você de novo e você vai ficar toda abalada. E eu? Como fico?

- Você fica comigo. Simples assim... a não ser que você já tenha com quem ficar... – já que era para virar a mesa, resolvi virar. – Tem outra na parada né?

Pedro abaixou os olhos novamente e suspirou, como sempre faz, antes de atirar uma
bomba atômica.

- Não fica brava. Aconteceu. Eu voltei a sair com a Camila.

- A Globeleza?! – eu sabia. Praticamente, surtei naquele momento. – Você podia ter sido mais sincero e poupado esse esforço todo e ido direto ao ponto. Então, a questão aqui não é o Pierre e sim a sua nova namoradinha...

- Eu não estou namorando ela. Aconteceu. Ela foi me visitar em Londres e...

- Nem precisa continuar a história. Vai me dizer que estava carente e já tinha visualizado que eu estava com o Pierre e aproveitou o abrigo dela?! Olha, Pedro, eu jamais imaginei isso. E sabe o que mais dói? É que, dessa vez, eu sei o que eu quero, mas mais uma vez ... tenho na minha frente um homem que não sabe o que quer.

- Diana... – dizia ele pegando nas minhas mãos – Eu adoro você. Sabe o quanto você é especial para mim... eu não queria te magoar...

- Tarde demais, Pedro. Garçom! – acenei pedindo a conta. Eu queria fugir dali.

- Eu te levo para casa. Afinal de contas, ainda somos amigos não é mesmo?

- Pedro! Agora quem quer um tempo sou eu..., inclusive, na nossa amizade.

- Mas...

- Mas nada! Pra mim, já deu! Aqui está a minha parte. Bom te ver. Vou pegar um taxi.

Sai feito um furacão do restaurante e, assim que dobrei a esquina, desabei em lágrimas.

***

- Mais uma vez, não! De novo, não. Eu não aguento mais tanta decepção – essa era eu chorando as pitangas no carro da Betina que tinha ido até lá me buscar.

- Que desgraçado! Por essa, nem eu esperava!!! E agora?! Ele virou totalmente o jogo
contra você!!!

- É um covarde isso sim. Tem medo de arriscar. Mas ele sempre foi assim. Eu devia ter sido mais esperta. Idiota!!! Pior, me trocou pela Globeleza!! Aquela vaca deu o bote direitinho!!! Tenho que parabeniza-la.

- Calma, Diana. Logo mais, ele vai ver quem é ela e vai se dar conta do que ele perdeu.

- Betina, eu to cansada de ter que esperar os homens acordarem para se darem conta do meu valor. Eu sei o meu valor!!! Cansei de brincar disso, sabe?!

- Mas vai fazer o que agora?!

- Vou ter que aprender a desapegar né? Simbora, mais uma vez, a dar a volta por cima.
To ficando craque nisso...

- Vai ficar bem mesmo?!

- Vou tentar.

Desci do carro e entrei no prédio, mais uma vez, desconsolada. Eu sempre soube que o Pierre era meio confuso e imaturo. Não me surpreendeu tanto o tombo que levei dele, mas o Pedro tinha virado o meu porto seguro. Tinha acendido em mim algo bom e calmo. Achei que era amor. Será que é? Esse tombo eu não esperava... achei que essa cama era elástica, mas hoje vi que é mais uma cama de gato! Ai, meu Deus, vamos mudar a brincadeira?!

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ ACHA QUE OS HOMENS SEMPRE VIRAM O JOGO OU NÃO?

DICA: ADQUIRA JÁ! "MULHERES SOLTEIRAS NÃO SÃO DE MARTE", EDITORA UNIVERSO DOS LIVROS, AUTORA: LETÍCIA VIDICA. LEIA MAIS AVENTURAS DA DIANA NESSE LIVRO DIVERTIDO!!!

quarta-feira, junho 27, 2012

O CASAMENTO DO MEU EX



POR LETÍCIA VIDICA

Acordei, ou melhor, saí da cama porque eu não tinha conseguido pregar o olho a noite inteira. Eu fiz de tudo para esquecer que dia era aquele, mas era humanamente impossível esquecer que aquele era o dia do casamento do Pierre. Tudo parecia um sonho ou um pesadelo. Eu ainda não acreditava que ele ia realmente casar com a Olívia.

- Bom dia, gata! Como você está?

Pressentindo como eu estaria, as meninas baixaram lá em casa logo cedo e até trouxeram o café da manhã.

- Gente, eu não estou nada bem. Estou péssima. Tenho que confessar. – eu dizia me jogando de pijamas no sofá.

- Pois não devia. Não se esqueça que foi você mesma quem entregou ele de bandeja para
a Olívia. – era Betina, como sempre, me trazendo à realidade.

- Eu sei, Betina. Eu não tive escolha. Não tive saída. E vocês bem sabem que eu não quero ficar com ele ...

- Então, levanta essa cabeça, sai desse sofá e vamos dar uma volta. – dizia Lili.

- Lili, você não vai ao casamento? – eu perguntava retomando a consciência do nosso plano de vigiar o casamento do ex.

- Claro que eu não vou. O Tavinho vai sozinho mesmo. – respondeu com naturalidade.

- Tá ficando louca?! – sacudi Lili para ela relembrar nosso plano - Você vai sim e não se esqueça de nos atualizar minuto a minuto sobre cada detalhe da cerimônia e do casamento.

As meninas ainda tentaram me convencer a desistir dessa idéia, mas eu precisava de uma olheira amiga no território alheio.

***

- Diana, eu ainda acho que isso é loucura. – dizia Betina, tentando me fazer desistir da idéia de espionar a cerimônia atrás da moita – Já não basta a Lili na festa?

A contragosto, carreguei a Betina comigo até a porta da igreja. Detalhe: fomos à caráter e bolamos a péssima idéia de, no caso de sermos flagradas, dizermos que estávamos indo a uma festa de formatura. Eu sabia que era loucura, mas eu só ia acreditar que não era um sonho se visse com meus próprios olhos o Pierre entrando naquela igreja. Ficamos à espreita do outro lado da rua.

- Diana, isso é loucura. É piração! Vamos embora. Alguém pode nos ver...

- Eu não arredo o pé daqui... olha lá... é ele, é ele... achei que ele ia desistir na última hora sabia? – suspirei ao constatar com meus olhinhos o Pierre entrando na igreja ao lado da minha ex-sogrinha. Ele estava bem bonitão, aliás.

Com a ajuda de um binóculo, vimos a entrada do Pierre, dos padrinhos e da noiva... a Olívia, mesmo barriguda, estava muito bonita. Vimos tudo de camarote.

- Agora, podemos ir embora. Estou convencida de que o Pierre fez a escolha mais sensata. – eu dizia quando percebi que os convidados começavam a sair da igreja.

- Diana, vai te entender hein?

Quando voltamos para o carro, fomos surpreendidas por um imprevisto. O pneu do meu carro estava furado. E as únicas vivas almas que poderiam nos ajudar eram os convidados do casamento do Pierre. O posto mais próximo estava longe e a bonitona da Lili fez o favor de desligar o celular. E agora?! Antes que tentássemos uma saída pela culatra, fomos novamente surpreendidas pelos pais do Pierre que haviam parado o carro próximo ao nosso. Que infeliz coincidência!!! Imagina a minha cara de tacho?

- Diana?! Que bom te ver , minha linda. – abraçava-me a minha ex-sogrinha. – O que faz por aqui? Veio para o casamento? – perguntava como quem havia decifrado facilmente o meu plano totalmente falível.

- Casamento? Que casamento? ! – desbaratinei.

- Do Petico. Não teve jeito. Casou. Mas você bem sabe o que eu acho daquela golpista ... – declarava sua opinião sussurrando ao meu ouvido.

Enquanto eu tentava me desvencilhar daquela cilada, mais e mais convidados foram se aproximando do burburinho. Eu não sabia onde enfiar a minha cara. Era visível que eu estava ali espionando. Eu nem sabia o que dizer. E, quase enfartei, quando o Pierre se aproximou. Ele me olhou sem graça, mas deu um sorriso aliviador e de quem havia adorado a minha idéia.

- Filho, olha que surpresa boa!! Venha aqui ajudar as meninas com o pneu...

- Não, pelo amor de Deus – eu impedia – já liguei para o seguro (mentira!!). Você vai se sujar. Sua noiva está te esperando... – eu disse tentando impedir que o Pierre arrumasse o meu pneu e antes que a Olívia se desse conta da minha presença. Tudo bem que ela foi gentil, mas o casamento era dela né?

- Não é nada, Diana. Troco isso num segundo. Você já me ajudou tanto ... – dizia ele lançando aquele olhar malicioso de quem acabara de lembrar da noite da despedida de solteiro.

Depois de muito fuzuê, só consegui desvencilhar todo mundo quando a Lili apareceu e o Tavinho se dispôs a me ajudar. Porém, quando achei que o inferno tinha acabado, a minha ex-sogra lançou a brilhante idéia de me convidar para a festa. E ela só arredou o pé dali quando prometi que ia aparecer.

- Gente, que enrascada eu me meti!!! – eu dizia andando de um lado a outro da rua.

- Eu avisei! E agora? Vai aparecer com a cara lavada na festa? – criticava Betina enquanto acendia o quinto cigarro para não me dar uma surra pela loucura.

- Não sei o que fazer, Betina. E você viu o Pierre? Achando graça e concordando com essa idéia maluca da mãe dele? Ele é imaturo mesmo... – acho que, nessa hora, eu já transpirava de nervoso.

- O cara casa, você aprova, depois vem espionar e ele que é imaturo? – era Luis
Otávio que se intrometia. Tive que concordar com ele.

***

Pneu consertado, partimos para a festa. Não tive saída. Quando entrei no salão, percebi que todos ficaram boquiabertos com minha presença. E, surpreendemente, Olívia foi a primeira a me receber:

- Que bom te ver aqui! Isso prova mais uma vez que você realmente é uma mulher admirável. – ela dizia.

- Olívia, não foi a minha intenção! Eu ...

- Não precisa dizer nada... você é muito bem-vinda viu? Fique à vontade!!

Mais uma vez, pasmei com a atitude dela. Se fosse eu, acho que teria pedido para os seguranças me retirarem. Sentei em uma mesa e fiquei paralisada. Ainda não acreditava que, depois de ter sido a despedida de solteiro do Pierre, eu ainda estava na festa de casamento?!

- Gente, pede pro garçom uma bebida bem forte! E depois prometem que vão me internar?
Ainda não acredito que eu estou aqui.

Tomei alguns drinques para me acalmar, mas nada adiantava. Resolvi ir até o banheiro para respirar melhor. Enquanto eu respirava fundo encostada na pia, fui flagrada pela Dani, namorada do Digão.

- Diana?! Você está bem? Tá pálida!

- Eu estou bem sim. Foi apenas um mal estar. – menti

- Se eu não tivesse visto com meus olhos, não acreditaria que você está aqui... que idéia foi essa, mulher? Corajosa hein?

Eu não estava afim de confessar o meu plano para a Dani, então desbaratinei e corri para o jardim do salão para tomar um ar. Quando achei que estava em território seguro, como um passarinho, Pierre se aproximou de mim...

- Não sabe o quanto eu estou feliz por ter você aqui...

- Pierre?! Volta lá para dentro. A Olívia está te esperando...

- Eu só queria te agradecer mais uma vez. – dizia ele se aproximando um pouco demais de mim.

- Não tem que me agradecer por nada. – eu me afastava para não cometer mais uma loucura – Por sinal, a sua festa está linda e eu já vou embora.

- Fica? – dizia Pierre puxando minha mão.

- Ficar para quê? Eu já nem sei o que eu estou fazendo aqui ... não tem mais espaço para você na minha vida e nem na sua para mim. Acabou! Essa é a sua nova vida, Pierre. Seja feliz nela.

- Daria tudo para que fosse você vestida de branco lá no altar ao meu lado.

Golpe baixo!!

- Não diga isso. Você tem uma grande mulher ao seu lado ...

Pierre ousou se aproximar de mim mais uma vez, mas fomos flagrados pela Olívia. Achei que dessa vez ela me arrancaria da festa pelos cabelos, mas novamente agiu com elegância.

- Meu amor, é hora da valsa... da nossa dança! Vamos lá? – ela disse estendendo as mãos para ele.

Pierre se recompôs, deu o último gole no espumante, se despediu com os olhos e seguiu para a dança deles. Naquele momento, voltei à realidade e, mais uma vez, constatei que era a dança deles, não a nossa. E que eu não queria que a dança fosse nossa. Entende? Eu não queria ser a Olívia naquela noite. Naquele momento, me bateu uma saudade imensa do Pedro.

- Diana? Diana? DIANA???? – berravam Lili e Betina.

- Tá tudo bem? – perguntava Lili

- Eu estou ótima. Melhor não poderia estar. – eu confessava com sinceridade, mas minhas amigas me olhavam com espanto. Aposto que acharam que eu havia enlouquecido.

- É hora de partir, meninas. Acabou! Agora, acabou de vez.

Sem entender nada, as meninas concordaram com a idéia e, aproveitando a euforia dos convidados com a valsa dos noivos, saímos sem sermos notadas.

- E o Luis Otávio? – perguntei, já no carro.

- Aquele ali é um arroz de festa. Quis ficar, claro. Mas eu não podia te abandonar nessa hora tão difícil, amiga. – dizia Lili.

- Obrigada, amiga, mas eu estou bem. Como nunca estive. Agora acabou de vez mesmo. – eu dizia olhando os carros passarem pelo vidro e rindo aliviada.

- Diana, eu espero que essa sua loucura passe logo. Olha, essa vai ser mais uma daquelas noites malucas ao lado de vocês.- dizia Betina.

- Meninas, vocês podem achar bobeira o que eu vou dizer, mas talvez o Pierre tenha achado a mulher da vida dele. E não sou eu. Ver o Pierre ali naquela situação, casando só me fez afirmar ainda mais que a nossa história acabou e que eu gosto mesmo é do Pedro. A Olívia vai fazê-lo feliz, eu sei disso.

Betina e Lili ficaram me olhando com cara de quem não havia entendido nada, mas eu falava a verdade. Para mim, aquele casamento encerrava a nossa história. Pelo menos, por enquanto ...

PAPO DE CALCINHA: O QUE VOCÊ ACHOU DA LOUCURA DA DIANA? ACHA QUE AGORA ELA ESQUECE DO PIERRE DE VEZ? JÁ PASSOU POR ALGO PARECIDO?

domingo, junho 17, 2012

GAROTA IPHONE



POR LETÍCIA VIDICA


- Olha, eu estou pegando a minha bolsinha e estou indo embora. Cansei de tentar fazer vocês prestarem atenção em mim, tá legal? Fui vencida por esses bichinhos virtuais...
– eu bufava e ameaçava ir embora, puta porque Lili e Betina não paravam de mexer nos celulares na mesa do bar do Pedrão.

- Pode falar, Diana!!! Sem estresse! Eu só estou respondendo um email de um cliente. – dizia Betina não ligando a mínima para a minha reclamação.

- Você não vive dizendo que seu expediente é em horário comercial?! Por que atender cliente às onze horas da noite de uma sexta-feira?! E você, Liliana, que tanto posta nesse facebook? Que tanto fica dando check-in, dizendo onde está, o que está comendo... pra mim, já deu!!

Surtei geral. Confesso que eu já não estava num bom dia, mas há tempos essa dependência das meninas pelo celular andava me irritando. A Betina, de uns tempos para cá, não largava o novo Iphone dela. Arranjava motivo para tudo só para olhar o email do trabalho, atender cliente remotamente, pesquisar processos... tudo bem, se ela não fizesse isso toda vez que estávamos juntas. A Lili, depois que ficou fera nos aplicativos, vivia se exibindo nas redes sociais. Arrumava motivo em qualquer coisa só para acessá-los. Era para dizer onde estava, para localizar algo, para tirar fotinho...

Eu nunca fui fissurada por tecnologia. Só aceitei ter um rádio porque fui forçada pelo meu querido chefe, mas o meu celular ainda era daqueles bem fora de moda sabe?

***
- Rita, acho que chegou alguma encomenda errada para mim. Eu não comprei nenhum celular novo!!! – eu dizia encucada com a caixa de Iphone, que encontrei em cima da minha mesa logo quando cheguei ao trabalho.

- E aí, Diana, o que achou do seu novo acessório de trabalho? Gostou da surpresa? – dizia Fred, meu chefe, todo feliz em me inserir no mundo dos smartphones.

- Isso é para mim? – desdenhei. Era tudo que eu não precisava no momento.

- Como ISSO??!!! Isso é um Iphone. A melhor invenção de todos os séculos. E é inadmissível que publicitários, como nós, continuemos fora disso. A partir de agora, ele será sua nova ferramenta de trabalho.

Fred terminou a frase como um político termina seu último discurso antes das eleições
– convicto de que será o vencedor. E eu fiquei com cara de bunda ao final. Nem aplaudi. Porém, o pessoal da agência pirou no meu novo aparelhinho. Poxa, eu estava tão feliz com o meu tijolinho...

- Fred... acho que não será necessário mais um aparelho. O rádio já me satisfaz.

- Jamais!!! Não aceito devolução e pode ficar tranquila que as contas serão pagas pela agência.

Pelo menos uma vantagem em tudo isso né? Porque as desvantagens de ter um aparelho da empresa iam ser muitas.

***

- Podemos entrar ou ainda está de mal da gente?

Essas eram Lili e Betina que chegavam abraçadas a pizzas e cervejas como um pedido de desculpas.

- Podem entrar. Fiquem à vontade. Estou terminando de enviar um relatório ... – eu disse me agarrando ao meu novo bichinho virtual, quase meia-noite de uma sexta-feira, enviando um projeto.

- Como assim?! Você quase mata a gente e agora está aí de Iphone? Mas a língua é mesmo maldita né? – ironizava Betina.

- Se eu pudesse, eu jogava isso pela janela. Isso aqui é o meu mais novo instrumento de trabalho. O Fred inventou um blábláblá de que publicitários não podem viver sem isso...

- Ele está certíssimo!!! – vibrava a tiete do Steve Jobs, Lili.

- OK se eu tivesse continuado tendo vida depois que esse bichinho entrou na minha vida... agora tudo é motivo para ver email, fazer teleconferência, mandar projeto... eu não vivo mais!!!! Mal consigo dormir!!! O Fred não para de me encher com isso...

Mal terminei de falar no meu querido chefe e ele me chamou no rádio cobrando deadline do projeto. Isso já é demais não é? Além de eu trabalhar de casa, não ganhar um real a mais por isso, ainda sou cobrada para ser mais rápida no envio?

- Acho que nem se um detetive estivesse me seguindo, eu me sentiria tão perseguida. – eu bufava e me rendia a um pedaço de pizza de mussarela.

- Calma, Diana. Tempos modernos. Isso é apenas mais um ônus do seu bônus. Crescer profissionalmente tem dessas coisas viu? – dizia Betina parecendo minha mãe quando me recrimina por ter crescido.

- Mas tudo tem seu lado positivo, aposto que você vai se amarrar nos aplicativos.

]Para me alegrar e me viciar, Lili passou a madrugada toda me ensinando tudo sobre os aplicativos, programas e todas as funções do celular. Mais uma vez, paguei minha língua. Fiquei fascinada e viciada naquilo.

***

- O que acha desse produto, Diana? – perguntava Fred em meio a uma reunião.

- O quê? – respondia dispersa. Eu não estava atenta a reunião porque não conseguia parar de jogar em um aplicativo novo do Iphone – algo como imagem e ação.

- O projeto que eu te enviei? – questionava ele.

- Você não me mandou nada, Fred. Não tinha email na minha caixa postal.

- Te mandei um link pelo celular ontem. – respondia ele rispidamente.

- Ontem?! Domingo?!

Fred me fuzilou como seu eu tivesse cometido o maior pecado do mundo porque não abri o bendito link em pleno domingo. Alguém pode lembra-lo de que domingo é dia santo? É o dia em que até Deus descansou?

Ao final da reunião, preparei os meus ouvidos para a bronca.

- Diana, nunca mais faça isso!

- O que eu fiz, Fred?

- Eu te mando um projeto importantíssimo, você não vê e me deixa com cara de pateta na frente dos nossos clientes? – bufava ele.

- Desculpe, Fred. Ontem, eu tive um compromisso pessoal, aliás, só para lembrar eu tenho vida pessoal. Achei que não teria problema se você me enviasse isso na segunda, ou melhor, hoje durante o meu horário de trabalho.

- Foi justamente por isso que te demos o Iphone. Para que possamos localizá-la e resolver as pendências fora daqui.

- Tudo bem. Só faltou você dizer que também vai pagar esse adicional a mais né? Por que se for para fazer de graça, eu devolvo agora mesmo o aparelho e com muito prazer.

- Também não é assim. – recuava ele.

- É assim sim!!! Desde que você inventou essa história de Iphone comercial, eu não tenho mais vida, Fred. Não tem mais dia e hora. Você não quer que eu descanse um minuto sequer? Calma! Quando esse troço não existia eu trabalhava tão bem quanto agora não é mesmo?

Joguei as cartas na mesa, inclusive correndo o risco de terminar a noite no departamento pessoal. Porém, o Fred foi sensato e percebeu que estava pegando pesado, mas não quis fazer o favor de levar o Iphone. Tive que aprender a conviver com ele assim mesmo.

***

- Você não falou que ia devolver o aparelho?

- Eu adoraria, Betina, mas você acha que meu chefe deixou? Falando nele ... tava demorando para ele me chamar...

- Nananinanão. – brecava Lili – A gente não prometeu que não íamos mais tocar nos celulares quando estivéssemos juntas?

- Mas, Lili, pode ser importante... – eu respondia tentando tirar o Iphone da mão dela.

- A Lili tá certa. A gente cumpriu nossa promessa, agora é a sua vez.

Não teve jeito. Tive que me render a elas. Afinal de contas, eu tinha sido a primeira a levantar a bandeira de que a vida é melhor sem esse aparelhinho. O problema é que, quando fiz isso, eu ainda não tinha me tornado uma garota Iphone – totalmente dependente desse brinquedinho... espero que a associação de dependentes de celulares anônimos ainda tenha alguma vaga em aberto. Acho que vou precisar deles!

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ É UMA VICIADA EM CELUARES? CONHECE ALGUÉM ASSIM? ACHA POSSÍVEL VIVER SEM ELE POR ALGUNS 'MINUTINHOS'?

segunda-feira, junho 11, 2012

DESPEDIDA DE SOLTEIRO



POR LETÍCIA VIDICA


- Ué, Lili, você não ia sair com o Tavinho hoje? – eu perguntava enquanto tomávamos nosso choppinho de todas as sextas.

- Vocês não vão acreditar. O Tavinho foi numa despedida de solteiro...

- E qual o problema nisso? Quem sabe assim ele não toma juízo e casa logo com você – brincava Betina.

- Tô falando sério, gente. A despedida de solteiro é do Pierre. Acreditam que ele teve a cara de pau de convidar o Luis Otávio para o casamento?

Engasguei com o chopp e a coxinha.

- E desde quando eles são amigos? – assustou-se Betina também.

- Eles andaram se encontrando numas baladas aí.

- E quando ele vai casar? – perguntei rapidamente esperando o golpe mortal.

- Semana que vem. Mas, fica tranqüila, que eu não vou e nem vou deixar o Tavinho ir.

- Duvido que ele não vai. Ele já sabe disso?

- Bem, Betina... ele disse que vai mesmo sem mim.

- E claro que você vai, Lili. – eu dizia. Era essencial ter um aliado no território inimigo.

Terminamos a noite bolando planos infalíveis e, até engraçados, sobre como espionar o casamento do Pierre com a Olívia Palito.

***

Acordei no meio da madrugada com a impressão de quem alguém berrava meu nome. Achei que era apenas um sonho, mas o eco estava cada vez mais forte. Foi quando meu interfone tocou e o Seu José, o porteiro, confirmou a minha desconfiança. O Pierre era quem berrava na portaria do prédio. Desci num pé só, ainda bêbada de sono.

- Você ficou louco agora? Quer que eu seja despejada? – dizia irritada para o Pierre que estava visivelmente bêbado e cercado pelos amigos que pareciam impedir aquela cena patética.

- Diana, eu preciso falar com você...deixa eu subir!! – ele dizia tentando se desvencilhar dos braços do Digão e tentando me agarrar.

- Desculpa, Diana. Não deu para impedir. – dizia Digão – Ele insistiu muito e, antes que ele enfiasse a cara no poste, a gente teve que acompanhar.

- E onde ele estava? – perguntei preocupada.

Todos se entreolharam tomando coragem. Quem seria o primeiro a confessar que aquela era uma das últimas noites de solteiro dele?

- Olha, antes que eu vire assunto na próxima reunião de condomínio, me ajudem a levá-lo lá pra cima.

Os meninos me ajudaram a levar o Pierre até o meu apartamento e fiz todos prometerem que, assim que amanhecesse, alguém viria buscá-lo.

- Diana, eu quero você. Fica comigo. Eu te amo... – ele dizia entre um soluço e outro e um trançar das pernas.

- Pierre, tudo que você precisa agora é de um banho , cama e café forte.

Depois do banho, o Pierre desabou na minha cama. Fiquei olhando para ele sem acreditar naquela cena. Eu não acredito que eu salvei a bebedeira do meu ex-namorado na despedida de solteiro dele e que ele vai acabar essa noite aqui na minha cama!!! Não é possível. Só pode ser carma. Fiquei olhando o Pierre dormir feito um bebê e, antes que eu resolvesse deixar o tesão falar por mim e tará-lo ali mesmo, peguei um cobertor e fui dormir na sala.

***

Acordei com o Pierre sentado na minha frente com uma xícara de café.

- Pierre?! Que horas são?

- Toma, fiz para você! É o meu pedido de desculpas pelo papelão de ontem à noite. Não sei o que eu disse, o que eu fiz, como eu vim parar aqui...mas sei que caí em boas mãos.

- Você não se lembra de nada mesmo? – confirmei.

- Nadinha!

- Que pena! – ironizei. – Quer que eu refresque a sua memória?

Ao sinal positivo, contei sobre o papelão que ele aprontou na porta do meu prédio e como eu curei a bebedeira dele.

- Diana, me desculpe! Eu estou sempre te metendo em confusão né? – assumia ele sem jeito e mexendo nos cabelos, como sempre fazia quando ficava nervoso e sem-graça por algo.

- Digamos que sim. – oras, eu tinha que dizer a verdade (ando trabalhando com a sinceridade)

- Eu não queria que soubesse dessa maneira, mas eu me caso semana que vem. Não teve jeito. Mas você bem sabe que se você piscar, eu volto correndo.

Abaixei a cabeça sem graça (por quanto tempo quis ouvir isso, mas agora não surte efeito).

- Mesmo que eu piscasse, Pierre, as coisas não são mais tão simples assim. Existe um filho entre nós agora. Duas vidas que dependem de você.

- Eu sei disso, mas eu também não acho justo me enganar. Eu sei que não sou o cara que você pensou que eu fosse um dia... sou confuso, inconstante... te traí... mas você não pode duvidar de uma coisa... eu te amei muito, acho que ainda amo... mas não posso estragar a sua vida como fiz com a minha. Talvez ficar com o Pedro seja a melhor coisa que você faz da sua vida.

Pela primeira vez, ouvi algo sensato da boca do Pierre. Não é que a paternidade muda mesmo as pessoas? Ele se aproximou de mim, pegou nas minhas mãos, fomos nos aproximando e deixei me levar. Nos beijamos. Não me perguntem como e nem onde, só sei que transamos. Ok, ok... podem me fuzilar. Isso não significa que eu ainda goste dele, mas significa que é coisa de pele. Eu não consigo controlar os meus instintos quando ele se aproxima. Porém, fomos chamados à realidade,quando o celular dele tocou e percebi que era a Olívia.

Pierre foi para a sacada e pude ouvi-lo dizendo que já estava chegando em casa. Me senti péssima. A que ponto eu cheguei? De namorada a amante? Não podia ser assim.

- Adorei te ver, Diana. – ele disse tentando me dar mais um beijo, mas me esquivei enrolada no lençol.

- Acabou, Pierre. De verdade, acabou. Isso não está certo. Vai para sua casa, volta para Olívia.

- Mas... eu achei...

- Mas nada e não ache nada. Seja muito feliz ou, pelo menos, faça essa criança e a Olívia feliz ok?

Virei as costas e fui para o chuveiro. Quando saí, ele não estava mais lá. Eu, obviamente, caí em prantos no sofá da sala.

***

Depois do pranto, caí no sono. Afinal, eu nem tinha dormido direito na noite passada. Na melhor parte do sono, fui acordada (novamente) pelo Seu José, o porteiro. Meu coração gelou quando ele disse que a Olívia estava lá embaixo. ‘Minha Nossa Senhora, o que ela quer?’

- Oi, Olívia!

- Posso entrar?

Mesmo que eu dissesse não, aquela barriga de oito meses já estava praticamente na minha cozinha. Pedi que ela sentasse, ofereci uma água, mas ela não quis nada. Era visível que tanto eu quanto ela estávamos nervosas. Pela primeira vez, a gente se encarava assim – a sós – e frente a frente. Depois de um silêncio mortal, ela desandou a falar.

- Eu vim aqui porque sei que o Pierre veio te procurar. Sei que ele passou a noite aqui.

Gelei. Pronto. Agora, ela ia sacar uma arma e me matar. Já vi isso em vários filmes. Mas, peraí, como ela sabia disso?

- Ninguém me contou nada. Eu segui o Pierre... a noite toda.

- Seguiu? Como assim? Com essa barriga? – essa mulher só pode ser louca.

- Eu vi quando ele veio berrar na porta do seu prédio. Vi o quanto ele gosta de você ainda. Adoraria que ele gostasse de mim
desse jeito. Eu sei que ele só vai ficar comigo por causa da criança...

- E você quer ele mesmo assim? – gente, cadê a auto-estima dessa mulher?!

- Eu não quero ficar sozinha. Eu só vim aqui para dizer que eu nunca tirei o Pierre de você. Aconteceu. Ele sempre foi muito claro. Sempre disse que te amava, que você é a mulher da vida dele, mas que ele jamais será o seu homem...

Eu estava passada. Ele disse tudo isso mesmo ou ela está blefando?

- Eu não estou te entendendo, Olivia. Se você sabe de tudo isso porque veio até aqui?

- Eu queria ouvir da sua boca se você ainda quer o Pierre. Se você quiser, eu termino tudo com ele. Mas se não quiser, eu vou lutar para fazê-lo o homem mais feliz do mundo.

Que sinuca de bico!!! Quanta pressão!!! O que eu ia dizer para uma mulher enlouquecida de amor, prestes a ter um filho, a uma semana do casamento?! Eu não podia simplesmente dizer ‘pára tudo’. Confesso que fui surpreendida novamente.

- Olívia, nem sei o que dizer. Mas já que está sendo sincera comigo, eu serei com você. Eu gostei muito do Pierre sim. Lutei para que a gente desse certo, mas eu não posso suportar a indecisão e a incostância dele. Já basta eu. Eu sou uma mulher que preciso de um porto seguro. E, graças a Deus, eu encontrei isso no Pedro. Essa noite, com o Pierre aqui, vi que entre a gente é coisa de pele. Ele está realmente longe de me dar tudo que eu sempre quis. Olívia, o caminho está livre para você. E faça isso. Faça ele muito feliz.

Olívia levantou e me deu um abraço. Incrivelmente, verdadeiro. E eu me senti mais aliviada. Não ia poder suportar o peso de uma vida por destruir uma família que nem começou.

***

- Eu estou PAS- SA – DA!! Como assim você foi a despedida de solteiro do Pierre e ainda virou amiguinha da Olívia?!! Diana, a sua vida tá melhor que a novela das nove. – dizia Lili.

- Nem eu acredito no que eu fiz e no que eu passei. Mas eu estou bem mais aliviada.

- Atitude nobre, amiga. Nem eu sei se seria capaz. – aplaudia Betina.

- Vocês queriam que eu fizesse o quê?

-Eu só quero saber se esse lance de coisa de pele é verdade ou é história para boi dormir.

- Não, Lili, é verdade. Quando eu vi o Pierre aqui todinho para mim, deitado na minha cama, fiquei excitada na hora. Um tesão
enlouquecedor. Mas depois que a gente transou, eu não senti aquela vontade de antes de ficar com ele para a vida inteira.
Passou!

- Tô de queixo caído!!! E que mulher de atitude essa Olívia não? – dizia Lilia

- Atitude?! Para mim, isso é obsessão. Rodar a madrugada inteira atrás do Pierre? E se ela parisse no meio do caminho?

- Se ela parisse, você seria a madrinha, minha amiga!!! – alfinetava Betina

Rimos para não chorar.

PAPO DE CALCINHA: O QUE VOCÊ FARIA NO LUGAR DA DIANA? APOIARIA O CASÓRIO? IA CURAR A BEBEDEIRA DELE? SE ALGUMA SITUAÇÃO PARECIDA JÁ TE ACONTECEU, DIVIDA COM A GENTE!!! :>)

terça-feira, junho 05, 2012

UM DIA DE FÚRIA




Por Letícia Vidica


Acordei assustada com a mistura do som estridente do meu despertador que berrava dizendo que eu estava atrasada e com a balada do toque do meu celular – era minha secretária me relembrando da reunião que eu teria com o meu cliente mais adorado (assim mesmo, com ironia) e me dando a péssima notícia de que a mulher do meu chefe tinha resolvido ficar doente justo naquela manhã. Resumo da ópera: eu ia aturar o nosso tão adorado cliente na apresentação daquele projeto.

Pulei da cama e, ainda sonolenta, travei uma guerra para encontrar o meu terninho da sorte. Onde será que a Cida colocou esse bendito terno? Eu não lembro de ter mandado para lavar. Ai, meu Deus! Não encontrei o meu tal amuleto e vesti qualquer roupa (o que não era bom sinal). Saí comendo uma bolacha de maisena murcha, bebendo um Yakult no elevador e tentando arrumar o meu cabelo no espelho do prédio, deixando (claro) a maquiagem entre um farol e outro.

***

Logo na porta, dei de cara com o congestionamento do bairro inteiro. Xinguei o folgado do filho do meu vizinho que insiste em parar o carro de qualquer jeito impedindo a minha saída, xinguei o carro da frente que andava feito lesma – Ô vida boa hein!!
Tem gente querendo ir trabalhar... –
e assim foi o caminho inteiro, xingando, buzinando e me maquiando. Sem contar nas milhares de ligações da minha secretária, Rita, me alertando sobre o meu atraso (caramba, eu sei que estou atrasada. Por que não me deram um helicóptero ao invés de um nextel?).

Senti de cara que aquele seria mais um dia daqueles. Quem disse que mulher é 100% emoção, errou feio. Somos 100% hormônios e não somente quando menstruamos. Pior. Somos dominadas pelos hormônios do mal que, do nada, resolvem atacar e nos trazem mais um dia de fúria. Um dia daqueles que você sente que pode matar uma pessoa, trucidar e outras maldades mais. Sem contar com a paciência zero...

... por falar nisso, foi assim que eu fiquei quando cheguei na garagem do prédio da agência e não encontrei uma bendita vaga.

- Senhora, você não pode deixar o carro aí – dizia o manobrista que lia o horóscopo no jornal e me recriminava (sem olhar na minha cara e sem se mover) porque eu tinha estacionado o carro no corredor central.

- O quê? Eu não posso parar aqui? Mas eu também não posso esperar. – eu dizia descendo toda descabelada. – Vai demorar muito para pegar a minha chave?

- Senhora, você não pode parar ai. Tem vaga no terceiro subsolo.

Senti o sangue ferver nos olhos, mas só não joguei o carro em cima dele porque ia demorar ainda mais e eu já estava atrasada. Transformei a garagem na pista de Interlagos e cheguei ao terceiro subsolo em cinco segundos. Enquanto eu xingava todas as gerações da família daquele manobrista, raspei meu carro na maldita pilastra da garagem. Não, não pode ser. O que mais me falta acontecer hoje?? Que merda que eu fiz. Incrível que quando você faz uma merda dessas, um batalhão de manobristas aparecem – não sei se é para te ajudar ou para ter mais uma fofoca para comentar na hora da janta.

***

- Dona Diana, a senhora está atrasada e o homem está uma fera. – era a desesperada da Rita me avisando pela qüinquagésima vez que eu estava atrasada.

- Eu sei, Rita. Não precisa repetir. E o Fred? Já chegou?

- Nada dele. Parece que vai demorar.

Como não ia ter jeito, respirei fundo e fui enfrentar os leões. Encontrei o chatonildo do Marcelo, o meu amado cliente (um sessentão que adora vestir as roupas do neto), andando todo posudo de um lado a outro. Sem contar nos olhares assustados e fuzilantes de toda minha equipe.

- Desculpem a demora. – disse

- Cadê o Fred? – perguntou ele.

- Bom dia para você também, Seu Marcelo. – retruquei – O Fred teve um incidente familiar e não deve chegar a tempo. Se o senhor não se incomodar, posso representá-lo. Afinal, sou a responsável por sua conta. Muito prazer! – eu disse esticando a mão a ele com todo cinismo do mundo.

Respirei fundo e comecei a apresentação. Falei feito uma gralha por meia hora e, ao final, apenas ouvi:

- Não gostei. – disse o velho metido a jovem.

- O quê? – acho que eu não tinha entendido direito – Existe alguma coisa que o senhor queira que a gente altere no projeto?

- Não sei. Só sei que do jeito que está não vai dar. Eu não gostei.

Como assim eu ralo meses para fazer um projeto decente para esse produto porcaria que eu nem sei se alguém vai querer comprar; enfrento um puta trânsito, bato o meu carro na garagem para ouvir simplesmente que ele não gostou porque não gostou?! Tá de brincadeira comigo né?

- Senhor Marcelo, o produto será lançado daqui a três dias. O senhor tem que me dizer o que não te agradou para que nós possamos alterar.

- Pois bem, menina. É exatamente por isso que contratamos vocês. – respondia ele ironicamente.

- Se deixarmos as coisas mais clean... seria uma boa para o senhor? – se intrometia uma das minhas funcionárias, a Susi.

- Isso, lindinha. Clean. Essa é a palavra. – respondia o barrigudo com jeito de quem mais queria comer a Susi do que tinha gostado da idéia dela.

Antes que eu respondesse e mandasse ele para as cucuias, o Fred chegou esbaforido. Percebendo o meu nervoso, ele colocou panos quentes no Marcelo, conseguiu tirá-lo da agência convidando-o para um almoço e prometendo que íamos entregar um trabalho mais clean. E eu? Claro que fiquei puta porque senti que aquele velho babão estava era mais travando uma guerra contra mim. E mais puta ainda eu fiquei quando fui surpreendida na minha sala pela ‘ingênua’ Susi.

- Pode falar, Diana?

- Entra, Susi. – respondi calmamente para não voar no pescoço dela.

- Queria te pedir desculpas por me intrometer daquele jeito na reunião. Quis te ajudar.

- Obrigada pela preocupação, Susi. Mas se você queria realmente me ajudar, deveria ter dado aquela idéia clean durante a elaboração do projeto. Você sabe muito bem que eu sou super aberta a novas idéias. Nunca proibi ninguém de me procurar e de
opinar. Mas eu sinceramente não entendi porque você ficou quieta o projeto inteiro, atrasou os prazos e agora quer salvar a pátria com a sua idéia clean?!

A garota me olhava com os olhos arregalados e ficou muda por alguns segundos pensando no que responder. Adorei deixar os meus hormônios falarem por mim. E, antes que os dela resolvessem falar também, o Fred entrou na sala.

- Podemos conversar, Diana? – dizia ele.

- Claro. Já terminamos de conversar, não é, Susi? – eu expulsava ela – E, ah, não esqueça que temos apenas três dias para uma idéia clean. – alfinetei.
Susi saiu com o rabinho entre as pernas e Fred sentou-se frente a mim. Cruzou os dedos, me olhou no fundo dos olhos e veio com aquela voz professoral.

- O que está acontecendo com você, Diana?

- Comigo?! Nada. Eu estou ótima. – era visível que eu estava péssima.

- Pode se abrir comigo. Sou seu chefe, mas também seu amigo. Sei que o Marcelo não é um cliente fácil. Ele é um pouco exigente, eu sei. Tenha paciência com ele.

- O problema não é ser exigente, Fred, mas sim desmerecer e desdenhar do meu trabalho sem motivo. Se ele estiver incomodado em ser atendido por uma mulher mais nova e que em nada parece uma mulher fruta, como a Susi, pode tirar a conta dele de mim. Será um prazer. – mais um hormônio respondia por mim.

- Nem me passa pela cabeça tirar isso de você. Você sabe que é a melhor publicitária que temos aqui. Acho apenas que você tem que ter jogo de cintura com ele e também com a sua equipe.

- Como assim, com a minha equipe? Alguém está descontente e eu não estou sabendo? – perguntei já desconfiando o nome do passarinho verde.

Antes que o Fred respondesse, meu celular tocou. Olhei no visor e vi que era minha mãe. Atendi porque ela estava insistente na chamada.

- Mãe, eu não posso falar agora... tá, mãe. Depois eu resolvo isso... eu estou em reunião. – com muito custo desliguei o telefone. Meu irmão tinha aprontado alguma, mas não dei tempo para ela me contar os detalhes. Eu já tinha coisa demais com o que me preocupar. – Continue, Fred.

- Não. Ninguém me disse nada...

- Pode ser sincero... eu quero saber... só assim poderei ser mais flexível com a minha equipe.

Fred confessou que a bocuda da Susi andava reclamando por ai que eu estava pegando no pé deles, que eu não aceitava as idéias deles e outras baboseiras mais. Senti o sangue borbulhar na veia. Porém, respirei, agradeci o toque do meu chefe, mas decidi resolver do meu jeito.

***

- Vai comer essa porcaria, Diana? – era Rita que chegava com o hambúrguer que eu tinha pedido de almoço na lanchonete da esquina.

- Estou sem cabeça e sem tempo para comer algo decente. O chatonildo me deu três dias para mudar o projeto, acredita? E ainda tenho que ter uma idéia clean. Tudo culpa daquela Susi melancia.

- Hmmm... a senhora bem sabe o que eu acho dela. Cuidado, viu? Ah, sua mãe ligou e disse para você ligar para ela urgente.

Eu já tinha esquecido completamente da ligação da minha mãe. Engoli o hambúrguer e tomei coragem para telefonar. Eu sabia que a parte dois do meu dia ia ser tão ruim quando a primeira.

- Oi, mãe!

- Se eu tivesse que morrer já tinha morrido né, Diana? – cobrava pelo atraso da ligação.

- Pois vejo que não morreu. Está vivinha da silva. Diga.

- O seu irmão...

- O que ele aprontou dessa vez?

- Foi mandado embora ontem, chegou de madrugada cheio de pinga na cabeça e a Dona Lourdes veio me dizer que ele está andando com
uns caras vagabundos da rua debaixo.

- E o que eu posso fazer?

- Como? Você tem que falar com ele.

- Eu?! Tá de brincadeira, mãe! Eu estou cheia de problemas de verdade para resolver no trabalho e a senhora vem pedir para eu dar bronca naquele vagabundo? – disse brava.

- Não fale assim do seu irmão.

- Vagabundo sim. Por essa sua atitude é que ele está do jeito que está. Desculpe, mãe, mas dessa vez eu não vou me meter.

- Diana, Diana...

- Beijo mãe!

Desliguei o telefone fula da vida. Se o meu irmão tivesse tido metade da responsabilidade que eu tenho, aposto que ele não estaria assim. Mas meus pais quiseram mimá-lo. Deu no que deu.

***

- Pegou pesado, hein, chefinha. Reunião a essa hora? – reclamava o Beto, um dos caras da minha equipe.

- É, Beto. Sinal de que a coisa está feia. Cadê a Susi? – reparei que ela não estava lá.

- Ela disse que tinha um compromisso. – respondeu a outra.

- E sai assim sem me avisar?! Ela sabia da reunião. Ritaaaa.... – berrei e todos me olharam assustados.

Fiz a Rita ligar para a bonitona e ela teve que dar meia volta na garagem e me engolir naquela reunião. Falei sobre o nosso prazo apertado e sobre a mudança da idéia.

- Clean? Quem foi o gênio que resolveu isso? – perguntava o Beto. – A gente vai levar, no mínimo, uma semana para fazer isso.

- Não seja pessimista, Beto. Vamos ser otimistas, assim como a Susi...afinal a idéia é dela. Três dias são suficientes para isso, não é mesmo?

- É, bem... eu não sabia... – gaguejava a geniazinha, tomando conhecimento da merda que ela tinha feito.

- Olha, a gente não tem tempo a perder. Então, conto com a colaboração de vocês. A partir de hoje, teremos que esticar o horário para cumprir o prazo. E eu gostaria de nomear a Susi como supervisora desse projeto. A idéia dela foi de grande utilidade para nós e tenho certeza que ela sabe como fazer. Tenham uma boa noite!

Susi me olhava espantada e todos fuzilavam ela. Não bancou a espertona querendo desbancar a todos? Agora te vira, negona!
Fui para minha sala e, ao sentar na minha mesa, percebi que não estava bem. Comecei a sentir uma tontura, dor de cabeça , mal estar. Resultado: saí de ambulância do escritório para o hospital. Tive uma crise de stress, ou melhor, de hormônios.

***

- Se queria se matar, Diana, era só me avisar que eu te jogava da ponte Estaiada. – essa era Betina que aparecera no hospital para me acompanhar.

- Bê, eu não estou em momento de broncas, tá legal?

- Mas precisa ouvir umas verdades, sim. Você não vai salvar o mundo e o seu salário não paga a sua vida. Por isso, para e
respira ok?

Betina estava certa. Olha onde eu tinha ido parar por causa do Marcelo, da Susi, do projeto clean, do meu irmão e, principalmente, da minha teimosia em querer salvar o mundo e deixar os hormônios me dominarem? Terminei a noite no soro e com uma injeção sossega leão na bunda. Pois é, bem feito... para mim! Mas confesso que, ufa!!, foi um dia aliviador. Só peço, hormônios queridos do meu coração, que mandem um SMS da próxima vez para anunciar a chegada.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ TEVE UM DIA DE FÚRIA? DEIXOU OS HORMÔNIOS FALAREM POR VOCÊ?

quarta-feira, maio 23, 2012

HOMEM ENIGMA: DECIFRA-ME SE FOR CAPAZ


POR LETÍCIA VIDICA



“... aqui está tudo bem. Quero que aproveite muito por aí também e..., para ser sincero, não acho justo te fazer esperar por mim. Vamos levando e quando eu voltar a gente resolve. Mas promete que vai ser feliz????? Saudades de quem te quer bem...”




-... Pedro – terminei de ler o email ainda pasma assim como as caras das minhas duas amigas que prestavam atenção ao que eu acabara de ler – e então? Ainda tem coragem de dizer que isso não é um fora?


- Ah, Di, veja pelo lado positivo ... – lá vinha Lili com sua positividade – ele não te deu um fora...foi até romântico... te desejou saudades!!!


- É, Diana, eu não vejo porque tanto estresse. O Pedro foi um cara sensato, como sempre. Não é justo te deixar aqui plantada esperando por um cara que ninguém sabe quando volta e se volta... – completava Betina.

- Gente, eu chamei vocês aqui hoje para serem sinceras comigo. Podem pegar pesado. Admitam!!! Eu levei um fora do Pedro. – eu dizia me jogando desconsolada no sofá.

- Eu não diria que isso é um fora e sim uma oportunidade. Aproveita, boba. Se joga no mundo!! Fica aí choramingando... vai que o Pedro nem é o cara da sua vida?

- A Lili está certa. Você não estava aí se questionando se gostava ou não do Pedro? Chegou a hora de saber.

- Bela ajuda hein? – eu respondia querendo acreditar que ainda não falávamos a mesma língua – mas o que foi esse ‘quando eu voltar a gente resolve’? quer dizer então que ele nem pensa em voltar? Ou pior, se pensa, já planeja como admitir que tudo acabou.

Passamos a noite matutando para desvendar a mensagem subliminar que existia por trás do email do Pedro. Ou melhor, eu tentei desvendar porque as minhas amigas tentavam me convencer de que era piração minha e eu devia (mais uma vez) dar a volta por cima e seguir em frente.

***

Uma semana depois daquele email e da sessão caça ao tesouro, resolvi passar na casa dos meus pais para dizer que estava viva. Enquanto descia do carro, fui atropelada pela minha ex-futura-atual sogra que chegava do mercado e não se conteve ao me ver.

- Minha linda, que bom te ver!!! Você não morre mais. Hoje mesmo falei de você...

- Oi!! – respondi ainda assustada com a abordagem – falou de mim com quem?

- E com quem mais poderia ser? Com o Pedro!

Tentei conter a excitação e alegria em saber que o Pedro ainda falava de mim ... e, ainda por cima, com a mãe. Era sinal de que alguma importância eu deveria ter. Bastava saber qual seria.

- Não fala que eu te contei, mas ele está morrendo de saudades de você!!! – sussurrava a sogrinha no meu ouvido.

- Ele disse isso mesmo? – perguntei ainda desacreditada como se um flash back acontecesse naquele momento e eu me visse de frente àquele email da semana passada que dizia que eu tinha que ser feliz e depois a gente ia resolver tudo. Onde entrava a saudade nisso?

- Claro!!! Se eu fosse você, ia lá fazer uma visitinha surpresa para ele... aposto que ele ia adorar. – agora ela atacava de cupido.

- Que isso! É loucura. O Pedro me odiaria por toda a vida se eu fizesse isso. E a senhora sabe que a gente deu um tempo né?

- Bobagem, garota!!! Tempo só na sua cabeça porque o Pedro não vê a hora de voltar para ficar com você. Agora deixa eu entrar antes que meu marido venha me procurar. Você sabe que eu gosto muito de você e torço para que dê certo ne? Conte comigo viu? E, ah, segredinho nosso!!! – ela me deu um beijo na bochecha e me deixou pasmada e parada frente ao portão da casa dos meus pais.

Para o mundo que eu quero descer!! Será que é verdade tudo isso que eu acabei de ouvir? O Pedro está mesmo com saudades minhas e quer voltar? Não pode ser. Aposto que é jogada da mãe dele. Mas por que ela mentiria pra mim? E por que ele não foi sincero comigo naquele email se sentia tudo isso? Antes que minha cabeça fundisse, fui flagrada pelo meu pai que tinha saído na garagem para colocar o lixo para fora.

- Aconteceu alguma coisa, Diana? Estou te achando muito dispersa, filha. – dizia minha mãe enquanto arrumávamos a mesa para o jantar.

- Nada demais, mãe. – eu não queria preocupa-la com esse assunto, mas mãe a gente não engana.

- É o Pedro não é?

- Como você sabe? ... é ele sim. Encontrei a mãe dele lá no portão...

- Eu sabia. Ontem ela passou aqui e disse que o Pedro não vê a hora de voltar para te ver ... quis até que eu ajudasse a unir vocês, mas eu prefiro não me meter.

Atitude sensata a da minha mãe.

- Eu não consigo entender por que ele diz que está com saudades de mim para todo mundo, mas não declara isso para mim? Eu escrevi um email praticamente me humilhando para ele, abrindo o meu coração e ele só me responde dizendo que eu não tenho que esperá-lo .... que não é justo...poxa, quem tem que saber o que é justo ou não sou eu!! Estou errada mãe? Não consigo entender os homens. – eu desabafava já com os olhos cheios de lágrima.

- Não tente nos entender, filha. – era meu pai que ouvia a conversa sorrateiramente e agora acariciava minha cabeça. – O Pedro teve uma atitude admirável. Pense nisso. Ele é um grande homem. Que homem deixaria uma mulher como você solta por aí correndo o risco de perdê-la para sempre? E só para te dar o direito de ser feliz?

- Eu não sou tudo isso, pai. E não venha defendendo o Pedro !!! – eu relutava.

- Seu pai está certo, Diana. Vocês nunca serão felizes enquanto o fantasma do Pierre viver entre vocês. Aproveita esse tempo e
viva, filha!!! Aproveite o tempo que a vida te deu. Eu também acho que você precisa respirar um pouco sozinha para colocar as coisas no lugar... O Pedro vai voltar e tudo vai ficar bem.

Será que tudo vai ficar bem mesmo? Foi o que me questionei enquanto voltava para casa. Entre um farol e outro, resolvi entrar no meu Facebook e me deparei com um clipe postado pelo Pedro na minha página inicial. Era a minha música favorita de uma banda inglesa que nós dois gostamos. Seria lindo se ele não tivesse enviado justamente a música que eu considero a mais triste e que sempre brincava que era a mais triste e linda forma de amor de dizer adeus. A música dizia que ‘pessoas vem e pessoas vão e é preciso deixa-las sair pela mesma linda porta que entraram para que possam retornar um dia pelo mesmo caminho’. Pedro postou o vídeo e apenas escreveu: ouvi isso hoje no rádio e me fez lembrar de você.

Mais um enigma de Pedro para desvendar: ele lembrou de mim porque eu sempre comento da música ou havia um pouco de indireta para mim naquela mensagem? Seria a mais triste e linda forma de amor que ele encontrou para me dizer adeus?



PAPO DE CALCINHA: AMIGA, VOCÊ ACHA QUE OS HOMENS SÃO ENIGMÁTICOS?