terça-feira, setembro 30, 2014

OPERAÇÃO FAROFA


POR LETÍCIA VIDICA

- Tem certeza que vocês não querem que eu vá com meu carro? – era Betina quem perguntava pela enésima vez enquanto esperávamos a Madame Lili sair do quarto para pegarmos a estrada.

- Não se preocupe, Betina. Meu carro está zero bala. Levei para revisão na semana passada – esse era Tavinho, o nosso motorista da vez que tinha a missão de nos conduzir até a casa de praia da tia de um amigo dele (resumo: um programa mico à vista). – Lili, Liliiii...vamos logo !!

- Liliana, quantos dias você pretende ficar nessa praia? Não era só um final de semana, gente? – me assustei com a quantidade de malas que a Lili trazia para sala.

- Ai, Di, estou levando só o básico... nada demais. – respondia ela com a maior naturalidade e sem culpa alguma.

- Se isso é o básico, acho melhor a gente repensar na proposta da Betina de irmos também com o carro dela. Só o seu básico já ocupou todo o carro do Luis Otávio.

Depois de um arranca rabo básico entre o casal por conta da quantidade de malas, Lili conseguiu se convencer e reduzir as três malas para duas e nos apertamos no carro do Tavinho rumo ao nosso final de semana na praia.

A grande ideia de ir para praia surgiu da Lili que convenceu a gente que seria divertido. Eu tentei convencer o Pedro, mas ele estava atolado de trabalho e preferiu ficar em casa adiantando o serviço. Daí, a minha missão (quase) impossível foi a de convencer a Betina que ela ainda tinha idade para esses programas de índio e que sem ela não teria graça(claro que joguei com todas as cartas que pude – uma delas era sobre quem ficaria comigo enquanto o casal estaria brigando ou se atracando em algum matagal).

Nós não fazíamos muita ideia para onde estávamos indo, só sabíamos que era na casa de praia da tia de um amigo do Tavinho. Tiro no escuro total. Mas lá vou eu com meu espirito aventureiro ne?

****

O primeiro mico da noite foi que pegamos um transito do cão para chegar na estrada. Parecia que toda a cidade tinha resolvido ir pra praia naquele final de semana. E olha que nem era véspera de feriado e muito menos dia de pagamento.
Imagina o conforto: apertadas disputando espaço com as malas da Lili!

E, se não bastasse o congestionamento...

- Que cheiro de queimado é esse? – perguntei ao sentir um odor diferente que parecia sair do carro do Tavinho.

- Acho que é do seu carro, Tavinho. – concordava Lili.

Dito e feito. O carro do Tavinho ferveu no meio da estrada. Resultado: três belas mocas ajudando a dar um tranco no carro, empurrando ele no meio da estrada até o acostamento, aguardando por mais de três horas a chegada de um guincho do seguro e com um medo danado de ser assaltada no meio da estrada. Isso é ou não é divertido?

- Quem foi o gênio que fez a revisão no seu carro, Tavinho? – era Lili, ou melhor, Liliana Bittencourt quem cruzava os braços e dava ares de que a baiana estava baixando nela.

- Foi um camarada meu, Lili. – respondia com tom de poucos amigos.

- Mais um daqueles seus amigos idiotas que tirou diploma por correspondência?! Você não disse que estava tudo certo com esse museu que você chama de carro? Custava ter aceitado a carona da Betina? - ...e blablabla, seguidos de troca de palavras nada carinhosas, chutes e pontapés. E, claro, tinha sobrado para mim e a Betina apartarmos a briga.

- Podem parar com essa palhaçada agora!! Não adianta lamentar. Está feito. Agora é torcer para esse guincho chegar logo. – eu colocava um ponto final no barraco.

Falando em guincho, Deus ouviu nossas preces e ele chegou. Tivemos que seguir viagem dentro do carro do Tavinho em cima da caçamba do guincho. Detalhe que o guincho só pode nos levar até a entrada da estrada que dava acesso a praia porque senão corria o risco de encalhar. Enquanto o Tavinho tentava qualquer sinal de comunicação com uma pessoa que estivesse na casa, aguardamos embaixo da neblina até o sol começar a raiar.

- Gente, eu falei que essa viagem ia ser mico. Convite do Tavinho, estamos indo na casa sei lá de quem no meio do nada... só podia dar merda. O que eu não faço por vocês? – era Betina quem bufava acendendo o vigésimo cigarro.

- Desculpa, meninas. Eu só coloco vocês em confusão ne? Prometo recompensá-las quando a gente chegar na praia.

- Se a gente chegar né, Lili. To começando a desconfiar que essa casa nem existe.

- Calma, gente, vai dar tudo certo. Afinal, emoção e aventura faz parte da viagem ne? Uhu!! – essa ridícula era eu tentando motivar a galera.

Mais alguns minutos intermináveis depois e um carro surgiu para nos resgatar. Era o Diogo, o dono da casa. Nos enfiamos dentro do carro dele e seguimos por mais outros intermináveis minutos até chegarmos na casa que ficava, literalmente, no meio de uma mata e do nada. Um show à parte de pernilongos.

- Gente, fiquem à vontade. A casa é de vocês. Podem se ajeitar onde quiserem ok? – esse era Diogo tentando ser simpático.

- Isso é a casa? – era Betina quem cochichava no meu ouvido.

O que em nossa imaginação tratava de uma super mansão de praia, na verdade, era uma daquelas casas velhas de alguma tia gorda que comprou na década de 80 e que nunca mais foi visitar sabe? Mas que o sobrinho bicho grilo se apossou como seu templo de paz interior e de local isolado e seguro para chamar os amigos para uma festança nos finais de semana. A super casa se resumia a uma sala, um quarto e um único banheiro. Isso mesmo. Um único banheiro. Pensa se a Lili, a rainha da vaidade quase não trucidou o Tavinho por causa disso?

Tudo estaria certo se essa enooorme casa estivesse disponível apenas pra gente. Como chegamos cedo, a maioria ainda estava dormindo e outros começavam a retornar da noitada. Era gente pelo ladrão. Logo nos entreolhamos desesperadas sem saber onde se acomodar. Gentilmente, o dono da casa nos cedeu o quarto que mais parecia um quarto de albergue coletivo pela quantidade de mulheres e malas que estavam lá. Depois de desviarmos dos milhares de colchões no chão, achamos um cantinho para gente.

- Diz que isso é um pesadelo e não está acontecendo ne? Estou me sentindo uma adolescente em um albergue de quinta categoria.

- Calma, Betina, o negócio agora é relaxar. Pensa que amanhã a gente já vai embora. Bora pra praia que a gente ganha mais.

- Diana, olha só quem eu encontrei perdido aqui na casa? – essa era Lili com voz de quem já tinha tomado uma caipirinha pra relaxar.

- William?! – me assustei. Era só o que faltava encontrar ex-peguete nesse final de semana mico.

- Oi, gata. Que bom te ver. – esse era William que lançava o seu sorriso encantador e me dava um beijo apertado e molhado entre a minha orelha e a minha nuca. Ai, meu Deus, eu sou uma mulher fiel. Não me deixe cair em tentação. O Pedro não merece!!!

- Nossa, você?! - me desvencilhei daquele beijo antes que meu corpo ousasse tremer mais. Incrivel como esse William mexia com a minha libido. – Bem, a gente se encontra ne? Vamos pra praia meninas?

- Opa, praia! Acho melhor eu acompanhar as mocinhas. Vai ser mais seguro.

Não tive como falar não e saímos em caravana até a praia que ficava há algumas léguas de distância.

- Pelo amor de Deus, desse jeito a gente vai chegar na África. Cade essa praia?! – reclamava Betina.

Finalmente, encontramos a praia. A caminhada valeu a pena. Era realmente incrível. Uma praia pequena, fechada entre as matas e pedras com ares de que o homem ainda não tinha a descoberto e nem desbravado. Montamos acampamento naquele paraíso.

- Agora sim hein? Só saio daqui amanhã à noite na hora de ir embora. Não volto para aquele albergue de quinta tão cedo. – essa era Betina que colocava seus óculos escuros e deitava em sua canga.

- Lili, que história é essa de William aqui?! Te mato se você sabia disso e não me avisou. O Pedro não pode nem sonhar que ele está aqui.

- Relaxa, Diana. O Tavinho me comentou mas ele não tinha me dado certeza. E se eu te falasse você não viria ne?

- Óbvio que eu não viria. Você tá louca em não me contar nada? E agora? O pior é que ele gosta de me tentar.

- Tentação boa ne, Diana? Eu bem vi como você ficou quando ele te beijou.

- Não complica, Betina. Falando nele...

William e Tavinho se aproximaram da gente. Tavinho sentou ao lado de Lili e William se sentou ao meu lado com todo aquele braço forte e suado encostando no meu. Ficamos jogando conversa fora por alguns instantes, até a fome de alguém falar mais alto.

- Tem uma cabana aqui perto que vende um peixe bem maneiro. Se quiserem, posso ir lá buscar. Vamos comigo, Diana?

Esse era William. Antes que eu negasse, ele já tinha puxado o meu braço e minhas amigas me olhavam com cara de boa sorte e não perca o juízo.

....

- Sozinha aqui na praia ou tá sozinha mesmo? – perguntava ele enquanto caminhávamos até a tal cabana.

- Sozinha aqui na praia. – respondi secamente.

- Não imaginava que você viesse. E o seu namorado?

- O Pedro? Ficou em São Paulo.

- E deixou essa joia rara sozinha?!

- William, falta muito para chegar nessa cabana? Estou ficando cansada. – desbaratinei.

- Mais cinco minutos e a gente chega. Quer que eu te carregue no colo?

Dei um olhar de poucos amigos para ele e seguimos em silêncio até a tal cabana. E, em silêncio, eu retornei de volta a praia. Quando chegamos lá, a praia estava lotada e só com o grupo que estava na casa. Obvio que o peixe que compramos não deu nem pro cheiro. Todo mundo atacou e eu acho que comi só um espinho.

....

- Meninas, os meninos estão organizando um luau na praia hoje à noite. Quem topa? – essa era uma loura peituda, a la panicat, que estava hospedada na casa também.

- Eu vou e vocês vão comigo hein?

- Ah, Lili, eu estou ardendo o corpo todo. Acho que peguei muito sol hoje à tarde. – resmungava Betina.

- Também não estou afim e será mais seguro para mim e para o meu relacionamento ficar longe do William.

- Rolou alguma coisa na hora do peixe? Vocë voltou com uma cara.

- Não rolou nada, Lili. E nem vai rolar, mas é claro que ele vai ficar dando indireta e tentar me vencer pelo cansaço. Não estou afim. Vou ficar por aqui, ver se tem algo na geladeira e vou cozinhar porque estou com fome.

- Bem, eu sei que eu vou. Não vou deixar o meu Tavinho solto por aí com essa loira falsificada dando sopa. Eu bem vi ela olhando para ele hoje à tarde lá na praia. Se mudarem de ideia, sabem o caminho hein?

Enquanto Betina descansava no quarto, fui bisbilhotar na geladeira e resolvi cozinhar um prato típico de praia: macarrão com salsichas, a salvação dos famintos praianos. Em meio ao meu momento chef e também divagando com saudades do Pedro, fui surpreendida com um cheiro no cangote.

- Hmmm... vim seguindo esse cheiro maravilhoso lá da praia.

Derrubei a colher do molho no chão.

- Voce está louco??? – era William quem me assustava na cozinha.

- Desculpe. Eu não queria te assustar. Vim buscar cerveja e senti esse cheiro maravilhoso. Vim olhar quem cozinhava.

- Pronto. Já viu que sou eu, agora pode ir. Você e suas cervejas.

- O que está acontecendo, Diana? Você está estranha. Desde que chegou aqui, você me evita, não olha nos meus olhos, parece que tá fugindo de mim, é isso?

William segurou minhas duas mãos e me imprensou na pia. Fiquei sem reação e senti que ele se aproximava demais de mim...

... antes que ele me beijasse, Tavinho entrou na cozinha.

- Ops. Diana? William?

- Não é nada disso que você está pensando, Luis Otávio. – fui me desculpando.

- Eu não estou pensando nada. Ah, o Pedro ligou no meu celular agora há pouco. Queria falar com você. Disse que o seu está na caixa postal.

Ao final desta declaração, senti um baita remorso e culpa. Tavinho e William seguiram com as cervejas para o luau, eu perdi a fome, apaguei o fogo e fiquei na varanda tomando coragem para ligar para o Pedro.

.....

- Ai, aquele quarto está quente demais. – essa era Betina quem tinha resolvido acordar. – ainda bem que esse inferno acaba amanhã. Não vejo a hora de pegar a estrada e voltar para o meu lar doce lar...ih, que cara é essa? Algum bicho te mordeu?

- Quase...

Contei o que tinha acontecido na cozinha para Betina que me convenceu de que eu não tinha feito nada de errado e que, se isso estivesse me incomodando, que eu falasse com o William. Me vesti de coragem e fomos até o tal luau. A gente tinha perdido o sono e resolvemos aproveitar a noite linda que fazia.

Quando chegamos lá, estava rolando o maior barraco. Lili estava se atracando com a loira falsificada porque disse que ela estava dando em cima do Tavinho que assistia a briga de camarote e não movia uma palha para separar a briga. Claro que eu e a Betina tivemos que nos meter no meio e levar a Lili para longe dali.

Depois de muito custo, ela se acalmou e resolveu voltar pra festa. Algumas caipirinhas depois, ela, Tavinho e a loira conversavam como se fossem amigos de infância. Ninguém diria que eles tinham se atracado minutos antes.

Betina resolveu bancar a bartender, coisa que ela adorava, e logo se engraçou com o Diogo, o dono da casa que resolveu não só provar dos drinks da Betina, mas como provar da própria. Os dois se perderam atrás de uma pedra qualquer.

De longe, vi o William se engraçando com uma moreninha e senti um ódio e um alívio ao mesmo tempo. Ódio porque, como assim eu sou trocada tão fácil assim? Alívio porque parecia que ele me deixaria em paz. Já tinha encontrado outra pessoa para se distrair.

A festa, literalmente, acabou quando o sol raiou e alguém resolveu voltar para casa. Me perdi da Betina que tinha desaparecido a noite toda e da Lili que também tinha sumido com o Tavinho e com a loira do tchan.

.....

- Não vou te deixar voltar sozinha para casa. Te devo um pedido de desculpas. – esse era William que me abordara no meio do caminho de volta.

- Acho que você realmente foi longe demais.

- Eu me empolguei. Voce ainda mexe comigo, Diana. Eu não vou negar.

- Mexo tanto que você me trocou pela moreninha rapidinho hein...- ops, escapou.

- Que declaração foi essa? Ficou com ciúmes? – ria William da minha declaração ridícula.

- Ciumes eu tenho do Pedro que é meu namorado. Voce é apenas um amigo.

- Por que você quer que seja assim... eu não...

- William, vamos parar com isso. Não adianta insistir porque daqui não vai sair nada. Na boa, para de me xavecar. Já não rola mais nada e não perde seu tempo comigo ok?

Virei as costas, acelerei o passo e sai batendo as tamancas. Entrei na casa louca para tomar um banho e dormir. Ledo engano, a fila do banheiro tinha senha. Estava enorme, o povo gritava, batia e algum infeliz não abria a porta há quase uma hora!!!

Resolvi ir comer porque meu estomago lembrava que a minha ultima refeição tinha sido o espinho do peixe da tarde passada. Hmmm, aposto que aquele macarrão com salsichas está ótimo para a minha fome. Encontrei apenas a panela raspada que algum infeliz laricado tinha comido e ainda ouvi comentários de que o macarrão estava uma delicia.
Restava então ir na padaria mais próxima que ficava a algumas léguas.

No caminho, encontrei Betina e Diogo que riam à toa. Nem vou dizer por que ne? Perguntaram onde eu ia e resolveram me acompanhar.
Algumas léguas depois, localizamos a padaria pela fila que dobrava a esquina. Tinha me esquecido da hora do rush do pão. Tres pessoas na nossa frente e o padeiro anunciava que tinha acabado o pão, a farinha, que o padeiro tinha pedido demissão por exploração no trabalho.

Lá vamos nós e todos os turistas para o supermercado. Alguns empurras depois e conseguimos resgatar alguns pacotes de pão de forma e biscoitos. Enfrentamos a fila quilométrica do caixa, a lerdeza do operador e a falta de sinal que atrasava o pagamento via cartão de crédito.

....

Chegando na casa, tive que brigar com uma meia dúzia de folgados que não tinham nem colaborado com o dinheiro do pão e se achavam no direito de comer o pacote todo. Finalmente, comi um lanche e aproveitei que o povo ia para a praia e fui tomar um banho.
Um minuto depois de ensaboada, a água acabou. Que situação!

Sai molhada, ensaboada e cheirando a bacalhau do banheiro.

- Eu quero ir embora desse inferno agora! – eu bufava no quarto.

- Ih, calma, onde está o seu espírito aventureiro?

- Não me zomba, Betina. Tudo tem limite. Eu estou fedida, sem banho, com fome e morrendo de saudades do meu namorado. Não é uma boa hora para falar em aventura.

- O Tavinho disse que quer pegar a estrada bem de noitinha. Ele quer fugir do congestionamento.

- Eu estou falando serio. Não aguento mais. Tem alguma rodoviária aqui perto?

Incrivel como ninguém dá moral para as minhas crises. As meninas colocaram o biquíni e me convenceram de ir para praia. Para elas, tudo parecia o paraíso. Ao lado do bonitão do Diogo e pagando de primeira dama, a Betina tinha se esquecido de todo o perrengue e se portava como primeira dama. A Lili bancava a namorada perfeita e marcava território conversando como a melhor amiga BFF da loira peituda. E, eu, emburrada embaixo do meu óculos escuros, observando os amassos do William e da moreninha da noite passada no meio do mar. Que ódio!!!

....

Como a animação da galera estava me irritando, acabei capotando na praia e hibernei a tarde toda. Acordei assustada com a Lili e a Betina que me chamavam avisando que já ia começar a escurecer e que era hora de começarmos a arrumar as nossas coisas. Perdi a noção total do tempo, mas agradeci a Deus por retornar ao meu cantinho.

A nossa partida foi muito mais tranquila. Também ninguém merece ne? Não pegamos transito, o carro do Tavinho não pifou e quando cheguei em casa ainda encontrei o Pedro por lá com um jantarzinho pronto, salvando a larica do meu final de semana.

- Nossa, amor, você não existe. Esse arrozinho, esse bifinho, essa saladinha...ai, meu Deus...estão demais. – eu comia, falava e beijava o Pedro.

- Impressão minha ou você não comeu nada nessa viagem?

- Nem te conto, amor. Foi a maior operação farofa da minha vida...

PAPO DE CALCINHA: VOCE JÁ SE METEU EM UMA OPERAÇÃO FAROFA?

quinta-feira, julho 17, 2014

BENDITO ZAP ZAP



POR LETÍCIA VIDICA


- Lili, dá para parar de mexer nesse celular? – eu perguntava incomodada com a impaciência da minha amiga que não parava de olhar o visor do celular.

- Ai, meninas, me desculpem. Desde anteontem que eu não falo com o Tavinho. Ele não dá um sinal de vida. E o pior é que ele fica online no whatsapp e não fala comigo. Olha só...ele acabou de entrar há dois minutos e não respondeu a minha mensagem!!! Será que aconteceu alguma coisa?

- Ainda bem que eu odeio essas tecnologias. Viu só, Diana? Fica insistindo para eu ter essa porcaria de zap zap e para quê? Para enlouquecer como a Lili? – era Betina quem zombava da cena e, como sempre, confirmava mais uma tese.

- Ah, não exagera. A Lili não é parâmetro né? Calma, Lili...vai ver o celular dele está com problemas...

- E ele não conseguiu consertar até agora?

- ... ou talvez ele esteja sem sinal de internet...

- O celular do Tavinho é 4G e tem uma das internets com a tecnologia mais recente em todo o mundo. Ele comprou essa droga, inclusive, e gastou horrores só para ficar 48 horas conectado... já sei...vou tentar o Facebook...

Nada convenceria a cegueira tecnológica da minha amiga. Ela estava decidida a fazer o Tavinho dar um sinal de fumaça, ou melhor, mandar um balãozinho no celular dela.

***

- Ué, Dona Diana, a senhora vai ficar até mais tarde no escritório hoje? – questionava a minha secretária ao me ver ainda sentada em minha mesa às nove horas da noite de uma sexta-feira.

- Não, não...eu estou esperando o Pedro. Combinamos de ir jantar hoje. Falando nisso, ele me ligou? Tem algum recado na secretária eletrônica?

- Que eu tenha atendido não...

-... estranho, mas tudo bem. Aproveite seu final de semana. Ele já deve estar chegando.

Quarenta minutos depois e nem sinal de fumaça, nem mensagem no facebook e, muito menos, um balãozinho do zap zap. Aquela mistura de úlcera com ansiedade gástrica amorosa me consumia. Comi meu orgulho, montei na minha raiva e liguei para ele. Trim, trim, trim... e caixa postal. Como eu odeio essa voz.

Ok, respira. Tá tudo bem. Deve ter sido um atraso. Um atraso de duas horas ok. Nada típico para o Pedro, mas pode acontecer ne? Vamos ligar mais uma vez. Cinco ligações depois e nada. Caixa postal.

***

- Ué, você não disse que ia jantar com o Pedro hoje? - perguntava Betina surpresa ao me ver chegar no bar do Pedrão.

- Por favor, uma caipirinha de saquê com muito saquê... estou precisando... nem me fala o nome daquele infeliz. – eu bufava. – A gente combinou de ir jantar e ele me deixou plantada lá... nenhum sinal de fumaça sequer.
- Já viu se ele está online no whatsapp?

- Lá vem você e esse zap zap, Lili. Não encana, Diana. Deve ter acontecido algo. Tá tudo bem. Se acalma. Lembre-se que o Pedro não é o Tavinho.

- Hmmm... o que você quer dizer com isso, Betina?!

- Calma, meninas. Não vou estragar a noite de vocês.

Eu bem que tentei esquecer o bolo que o Pedro tinha me dado, mas estava humanamente impossível. Eu não conseguia ficar mais de cinco minutos sem olhar para a tela do meu celular, a cada três minutos abrindo o whatsapp e fuçando no Facebook.

***

- Nossa, amor, você demorou! – era Pedro quem me esperava deitado no sofá da minha casa.

- O que VOCÊ está fazendo aqui que NÃO foi jantar comigo como a A GENTE combinou?! – cuspi fogo.

- Mas eu te avisei. Te mandei um whatsapp. Eu tive uma reunião de última hora com um novo cliente e tive que ir jantar com ele. Eu disse que viria para cá.

- Inventa outra, Pedro. Eu não recebi nenhuma mensagem sua. E custava me ligar?

- Olha aqui... veja o meu celular, Diana... olha... eu te mandei mensagem.

- MAS EU JÁ TE DISSE QUE EU NÃO RECEBI MENSAGEM NENHUMA!!! Você me deixou plantada duas horas no escritório. Custava deixar um recado com minha secretária?

- Não exagera, Diana. Eu já te expliquei que eu te mandei mensagem e que eu tive um jantar de negócios. Achei que você seria mais compreensiva.

- Mais compreensiva?! Me poupe, Pedro. Eu vou tomar banho.

Dei as costas para ele e fui batendo as tamancas para o quarto. Entrei no banho odiando o Pedro e querendo que ele desaparecesse da minha frente. Até demorei no banho para me acalmar, mas estava adiantando.

Quando saí do chuveiro, vi que uma luz piscava no meu celular. Ao desbloqueá-lo, para a minha surpresa, lá estava a mensagem do Pedro. “Amor, me desculpe. Vou ter que jantar com uns clientes. Nos vemos mais tarde na sua casa”. Pois é, riam da minha cara! Ironias da internet 3Jegue como eu costumo chamar o 3G da minha operadora celular.

Com a cara caída no chão, corri para a sala para me desculpar com o Pedro, mas já era tarde. Ele já tinha ido embora. Acho que leu meus pensamentos.

Me joguei no sofá e escrevi uma mensagem para ele. “Amooorrrr, volta! Me desculpa. A culpa não foi sua. A sua mensagem só chegou agora”. Vi que ele tinha entrado no whatsapp há cinco minutos, mas acho que ele resolveu me dar um castigo virtual porque não me respondeu.

Tive que dormir com o rabinho entre as pernas e com o celular embaixo do travesseiro, mas tudo se resolveu no dia seguinte.

Ai, ai, como eu sinto falta do velho orelhão viu? A vida era bem mais fácil e os relacionamentos também.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ SOFREU DE ANSIEDADE POR CONTA DO WHATSAPP?

quinta-feira, maio 29, 2014

SÍNDROME DA CEGONHA


POR LETÍCIA VIDICA

- Oi, Diana, que horas você vai passar aqui?

- Alô.. mãe?! Você sabe que horas são? – eu respondia com a voz abafada de quem acabara de ser acordada sem conseguir abrir os olhos e tentando colocar o Tico e Teco no lugar.

- Sei muito bem que horas são. Hora de sair da cama. – era o espírito mandão da minha mãe quem falava agora.

- Mãe, pega leve. Hoje é domingo. São dez horas da manhã. Eu vou onde? Passar aí para quê? – eu respondia bufando.

- Como para quê, Diana?! Você esqueceu? Hoje é o chá de bebê da sua prima. Olha, sem enrolação. Levanta dessa cama que eu vou te esperar e vê se não demora. Sua tia odeia atraso hein?

Putz! Eu realmente tinha me esquecido completamente do emocionante chá de bebê da minha prima Adriana. Mas a minha querida mãezinha tinha feito o favor de me lembrar. Me espreguicei e me assustei ao esbarrar o meu braço no rosto do Pedro. Eu também tinha me esquecido completamente que ele estava ali.

- AHN? O quê? Quem era? – ele acordou assustado.

- Era a minha mãe para me lembrar do chá de bebê da minha prima. Vontade zero de ir.

- Vai lá, amor. – disse ele me dando um selinho na buchecha – Vai treinando. Aproveita e bebe da mesma água dela.

- Tá ficando louco, Pedro? !t

- Ué, não ia ser nada mau termos um filhinho hein? Já estou ficando velho, Diana. Quero ser pai e não avô.

Desconsiderei a loucura do Pedro naquele momento e pulei da cama rumo ao emocionante chá de bebê

***

- A próxima é você hein, Diana! – era minha prima Adriana que começara a brincadeira que eu mais odiava ‘quem é a mamãe’.

- Nossa, eu não vejo a hora de ter mais um netinho... – divagava minha mãe.

- Melhor se acelerar, Diana. Namorado bonitão você já tem. Agora só fazer o principezinho.

- Gente, relaxa! Vamos curtir a maternidade da Adriana? Ela ainda tem que reinar muito e eu não tenho nenhuma pressa para isso agora. – eu tentava desviar o assunto, mas foi em vão. Passei a tarde toda tendo que aguentar as lamentações da minha mãe querendo mais um neto, a encheção de saco das minhas tias e o papo sobre fralda e bebês entre minhas primas mamães.

***

- Nossa, gente! Vocês viram o passarinho verde? Para quê tanta animação para uma segunda de manhã? – eu perguntava ao ver aquele burburinho todo na recepção do escritório.

- A Julia vai ser mamãe! Isso não é tudo? – dizia a minha secretaria.
Meu Deus! É alguma síndrome da cegonha? Um baby boom? Mês passado, a garota do almoxarifado saiu em licença maternidade, a contadora está grávida de três meses e agora a recepcionista?

- Cuidado, Diana. Você pode ser a próxima hein?

- Ih, gente, vou começar a trazer água de casa porque eu não bebo mais a daqui hein? Parabéns, Julia! E o papai está feliz?

Percebi que todos me fuzilaram ao final da pergunta. Senti que tinha dado uma bola fora. Alguém desviou o assunto e só depois fiquei sabendo que o pai da criança não queria saber da criança. A Julia tinha engravidado em alguma saída com um peguete que agora dizia que não pegou. Ops, que triste, mas como eu ia adivinhar?!

***

- Lembra do Lima, aquele meu amigo do futebol? O filho dele nasceu hoje. Aproveitei que estava livre à tarde e fui na maternidade. Um meninão. O Lima nem parecia o Hulk que ele é em campo. Estava todo emocionado – contava Pedro com a cabeça deitada em meu colo – Deve ser uma emoção danada ser pai ne?

- Eita... não me olha asssim não. – eu recriminava o olhar de cachorro pidão que o Pedro lançava sobre mim.

- A gente bem que podia começar a planejar, Diana... ia ser tão legal. Que tal a gente começar treinando hoje? Olha aí o seu celular e vê se é o seu período fértil.
Aquela conversa nem parecia de um casal normal. O namorado preocupado com o período fértil da namorada e ela querendo fugir dele.

- Para de loucura, Pedro. Você está emocionado por causa do seu amigo. Vai passar. – desbaratinei.

- Eu não estou brincando, Diana. Olha aí no seu celular... – insistia ele.

- Eu vou olhar so pra você parar de pirar.

Quase tive um treco quando vi no meu aplicativo menstrual que eu deveria estar menstruada, mas não estava. Oh-oh!

- Será que você tá grávida? Vamos comprar um teste?

- Não pira, Pedro. Isso é sério. – respondi preocupada e irritada com ele. – Não pode ser...

- Pode sim ou você não quer ter um filho comigo?

- Pedro, por favor, sem crise psicológica agora. Esse não é o momento!!

- Para você nunca é o momento ne, Diana?

- Pedro, a gente mal voltou a namorar...você ainda não sabe se fica aqui ou em Londres ...eu mal consigo pagar o meu aluguel e você quer que eu tenha cabeça para engravidar? Me poupe ne?
Saí batendo as tamancas, mas muito preocupada e desesperado com a hipótese de estar grávida.

***

- Ia ser bem engraçado te ver como mamãe.

- Não brinca, Betina. Isso é assunto sério. – eu brigava com Betina que me zuava ao terminar de ouvir o meu desespero sobre a suposta gravidez. – O pior é que o Pedro acha isso normal, não tira da cabeça essa ideia de ser pai...

- Mas isso ia ser tão ruim assim, Diana? O Pedro te ama. Ia ser um super pai. Eu não podia escolher para melhor para o meu filho.

A questão é que eu não estou preparada para isso agora.

- Não está agora, não estará depois e nunca vai estar... ninguém se prepara para isso mesmo que planeje... – dizia Betina.

- Pior é que a pressão tem sido tanta que estou com medo de ser contagiada. É minha mãe querendo mais um neto. Minhas tias fazendo promessa para eu ser a próxima da filha. O Pedro querendo ser pai... uma onda de bebês no meu trabalho e agora a minha menstruação que não vem?! Eu vou surtar. Pedrão, desce mais uma, por favor.

- Calma, Diana. A gente te ajuda a cuidar da criança. – brincava Betina.

- O que vai ser de mim? Eu mal sei cuidar de mim!!! E se o Pedro voltar pra Londres? Serei praticamente uma mãe solteira...

Ficamos divagando mil e uma possibilidades sobre minha gravidez até altas horas da madrugada.

***

Cheguei em casa na ponta dos pés para não acordar o Pedro que estava lá. Fui direto para o chuveiro e, para minha surpresa, ao tirar a roupa tive a melhor notícia da noite. O Chico estava lá. Eu tinha menstruado. Soltei um berro de alegria no banheiro que acordou o Pedro e toda a vizinhança.

- O que foi, Diana? – perguntava Pedro assustado.

- Desculpa, amor. Te acordei. Mas não foi dessa vez, eu menstruei.

Pedro me olhou desconsolado, fechou a porta do banheiro e voltou a dormir. Sei que aquele meu momento egoísta foi uma decepção para ele, mas eu nem liguei. Afinal de contas, a cegonha ainda tinha muita gente para atender antes de mim. Ufa!!!

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ PASSOU PELA SÍNDROME DA CEGONHA?

domingo, maio 04, 2014

OS PIORES ENCONTROS DO MUNDO


Por Letícia Vidica

- E aí, Betina, como foi o encontro como bofe ontem? - perguntava a curiosa da Lili em mais um happy hour de sexta das garotas super poderosas no bar do Pedrão.

- Uma merda! - respondia seca e friamente nossa amga Betina.

- Nossa, mas o que aconteceu? O advogado lá não era tudo de bom, estava cheio de amor para dar? - perguntei.

- Primeiro, ele está muito longe de ser um advogado. Está mais para estagiário...você acredita que a gente saiu para beber e o cara ficou bebendo água com gelo a noite toda?! Um duro.

- Eu não creio. Que coisa mais bizarra!

- Este acaba de entrar para minha black list dos piores encontros do mundo. Não quero vê-lo pintado nem de ouro... se precisar de mim para ser aprovado no estágio, eu reprovo. - finalizava o assunto com um gole brusco de caipirinha.

- Mas o que você esperava, Betina? Já te disse para parar de sair com esses garotões cheirando a leite. O máximo que eles vão poder te pagar é um MC lanche feliz. - eu respondia rindo.

- Isso. Podem me exorcizar mesmo. Eu mereço.

- Nossa, gente, não tem nada pior do que encontro ruim. Acho que só tem uma coisa que vence isso é transa ruim.

- Nossa, Diana, nem fala. Uma vez saí com um cara bombadão lá da minha academia. Todo metido a máquina de sexo. Na hora H, além de eu quase ter que chamar o Procon por propaganda enganosa, o malhadão não conseguiu concluir o serviço. Pior, ainda perguntou se eu gostei. Claro que eu fingi que sim, mas fiz questão de ir embora correndo de lá.

Caímos na gargalhada e pedimos mais uma rodada de caipirinhas com uma gordurosa porção de pastel.

- E você, Diana, qual foi o seu pior encontro? Vamos lá...a brincadeira tá ficando interessante. - instigava Betina.

- Hmmm... uma vez saí com um cara que era mais feminino do que eu...todo vaidoso, uma voz toda meiga e acreditam que ele usava saquinho plástico só para não sujar o tênis? Achei aquilo uó...brochei geral quando vi isso e o pior...acabamos indo parar num drive-in para conversar e, mesmo com as urradas do casal da cabine ao lado, o cara não fez nada e ainda tinha um papo chatíssimo. Agradeci por ele não ter me procurado mais.

- Ai, isso é péssimo. É claro que a gente gosta de um homem cheirosinho, bem arrumado, mas não precisa ser demais. Uma mão suja de graxa e uma jogada na parede não faz mal a ninguém. - ria Lili.

- Eu acho que os pseudos encontros perfeitos são os piores. Aqueles que parecem que serão perfeitos, mas aí uma frase mal dita ou uma desculpinha esfarrapada acaba com todo o clima. - eu completava.

- Lembrei que uma vez saí com um cara que pediu e comeu quase todo o cardápio do restaurante. Era uma draga. E o pior é que ele achava sexy ... que terrível! - dizia Betina.

- Mas pior que comer é a falta de assunto. Nada mais péssimo do que um assunto que não flui no primeiro encontro...aquele silêncio constante...ter que ficar fazendo interrogatório para um assunto fluir... muito chato!

Passamos a noite toda divagando sobre os piores encontro que já tivemos e rimos muito também. Quem nunca né?

PAPO DE CALCINHA: Qual foi o pior encontro que você já teve/

domingo, abril 13, 2014

DE PERNAS PRO AR


POR LETÍCIA VIDICA


Tive o meu bate-papo de meninas interrompido pela vibração do meu celular. Cessei a minha gargalhada que, com certeza, tinha sido causada por alguma bobagem que a Lili tinha dito. Dei o último gole, travei uma batalha dentro da minha bolsa até encontrar o meu celular. Ufa!

- Puta que pariu!! Esqueci completamente. Eu tenho exames ginecológicos amanhã de manhã. Que horas são? Que merda! Onze horas. Meninas, tenho que ir embora. Só uma idiota como eu para marcar exames às 07 horas da manhã de uma sexta-feira.

- Relaxa, garota. Não vai. Simples assim.

- Simples assim para você que tem médico particular, Liliana. Eu não tenho Bittencourt no nome. Eu dependo de plano de saúde. Quase um SUS, vamos dizer. Sabe quando eu marquei esses exames? Há dois meses. Beijinhos, amo vocês, mas vou nessa.

****

Quando o meu despertador tocou às 05 horas da manhã, eu quase quis matar a mim mesma. Sonâmbula, tropecei no vento, tomei um banho, coloquei a primeira roupa que sorriu para mim no guarda-roupa, fiz um coque básico, peguei a chave do carro e levei meu corpo para dentro dele.

Incrível que como por mais a gente se programe para chegar com uma hora de antecedência na clínica, essa é uma tarefa puramente impossível. Nem bem raiou o sol e eu já estava no meio do congestionamento.

Finalmente, cheguei na clínica para enfrentar a maratona de exames internas dentro do meu ser. Eu odiava passar por tudo aquilo, mas era necessário. A recepção já estava lotada. Peguei a senha e vi que outras trinta pessoas estavam na minha frente. Olhei os sites, li meus emails, joguei Candy Crush, fucei no facebook até ser chamada.

***

- Diana...

Uma enfermeira que parecia ter a metade da minha idade e o dobro do meu humor àquela hora da manhã me chamou na porta da sala.

- Por aqui, por favor, Dona Diana. Tire toda a parte de baixo e tem um avental ali dentro do banheiro. Fique à vontade.

É possível ficar à vontade dentro de uma sala gelada ao lado de duas mulheres estranhas que estão prestes a analisar a sua mais profunda intimidade?! É, meus amigos, isso é a vulvoscopia e a colposcopia. Só pelo nome já deveria dar medo.

Se não bastasse a enfermeira simpática, agora eu encararia a médica primária feliz.

- Dianinha, abaixa mais. Coloque as pernas nas almofadas e deixe o bumbum bem na pontinha da maca. Vai ser rapidinho...

Apesar da voz doce de professora primária, eu não estava nada confortável parecendo uma rã com as pernas abertas com toda a minha intimidade sendo explorada e cavucada por aquela mulher. Como eu odiava tudo aquilo. Mas, como tudo que está ruim pode piorar, quase desmaiei quando olhei para a televisão à minha frente e vi que minha perseguida era a atração principal. Quem foi o gênio que teve a ideia brilhante de fazer desse exame um verdadeiro big brother? Fechei os olhos porque aquilo tudo estava me dando enjoo.

- Prontinho. Está tudo bem com a sua menininha. - dizia a médica feliz ao finalizar o exame.

Já eu saía como uma pata, com uma leve cólica e muito estranha por saber que aquela mulher agora era tão íntima assim de mim.

***

- Diana. Diana... Diana...

Acho que ainda estava meio tonta ou sonolenta que só ouvi chamarem meu nome na terceira chamada. Ao contrário da enfermeira simpática e da médica feliz, me deparei com uma enfermeira prestes a se aposentar com cara de quem estava totalmente descontente com o trabalho.

- Tira a parte de cima.

Nossa, calma! Seja delicada. Eu sou sensível!

Agora, eu ia encarar um ultrassom de mamas. Isso mesmo. Era a vez de explorar os meus seios. Sem um bom dia sequer, a médica ranzinza jogou aquele gel gelado nos meus seios e começou a fazer a ultrassonografia com aquele aparelho nada agradável. Que situação mais desconfortável! Tentei me concentrar nos afazeres do dia, mas não estava nada bom aquele gelzinho e aquela exploração Discovery Channel nas minhas mamas.

*****

Como eu queria ir para casa, mas ainda faltava o exame mais invasivo de todos. O ultrassom transvaginal. Quem foi o ginecologista depravado que inventou isso?! Além de atrasada para uma reunião importantíssima que eu tinha marcado, contando com a falsa pontualidade dos laboratórios de exame, o meu nome nunca era chamado. Eu já não tinha mais desculpa para inventar para minha secretária sobre o meu atraso.

Trinta longos minutos de atraso depois, muitas lidas na revista Caras (amassada) do ano passado e uma supervisionada no instagram...fui chamada.

A prima da enfermeira simpática chamou o meu nome com uma voz doce de quem anuncia que uma tempestade está por vir. Entrei na sala e dei de cara com um japonês barrigudo com cara de comercial de televisão coreana. Opa! Espera um pouquinho aí. Eu vou ter que abrir as minhas pernas e deixar esse japonês com cara de quem não come ninguém desde a Santa Ceia me explorar com esse aparelho que mais lembra um vibrador?! Pelo amor de Deus, onde é a porta de saída?

- Dona Diana, só tirar toda a parte de baixo. O aventalzinho está pendurado no banheiro. - dizia a enfermeira feliz com voz de quem diz 'Calma! Ele é inofensivo'.

Acho que demorei uns dez minutos ou até mais ou muito mais para sair daquele quadrilátero minúsculo que eles ousam chamar de banheiro. A DR com a minha consciência estava frenética. 'Calma, Diana. É só um exame. Saia desse banheiro, deite na maca e deixa acontecer naturalmente. Não se sinta tão privilegiada. A sua perseguida não será a primeira e nem a última que esse japonês vai examinar', dizia o lado mais sensato da minha consciência. 'Tá louca?! Você não viu o olhar de tarado maníaco sexual que ele lançou sobre você quando entrou na sala?! Vai ter coragem de ficar sozinha nessa sala escura com esse homem desconhecido enquanto ele introduz um aparelho, quase vibrador, dentro de você?! O Pedro não ia gostar nada disso'.

- Tudo bem, dona Diana? - era a enfermeira mega simpática que interrompia meus pensamentos.

Respirei fundo, saí da sala e encarei a triste realidade.

- Bom dia, dona Diana. É apenas um exame de rotina? Pode se deitar e fique à vontade. Serei breve. Qualquer incômodo, me avise. - era o japonês com uma voz que nada lembrava um maníaco sexual. Naquele momento, fiquei com raiva de mim mesma por julgá-lo tanto assim.

Ok, ok. Fiquei contando carneirinhos, pensando no meu dia, no meu almoço, no Pedro... enquanto eu me submetia àquele exame nada agradável.

- Prontinho, dona Diana. Tá tudo bem. Seus exames acabaram ne?

Saí até meio tonta depois de toda aquela exploração e desbravamento no meu corpo. Era como se as coisas estivessem fora do lugar sabe?

****

Pior ou melhor de tudo isso é esperar mais uma eternidade pelos resultados. Recebê-los, abri-los, tentar bancar da Dr. House e ler os diagnósticos. Eu nunca entendo, mas a minha curiosidade fala mais alto.

O melhor do melhor ainda é esperar mais uma outra eternidade para conseguir um espaço na agenda da sua ginecologista só para marcar um retorno. Chegar ao consultório, vê-la abrir os exames com cara de mistério ou de quem vai dar o diagnóstica de alguma doença sexualmente transmissível incurável ou vai te dizer que está grávida de quintuplos. Minutos angustiantes e intermináveis.

- Você está ótima! Seus exames foram perfeitos. Está tudo bem. - diz ela sorrindo.

Como assim?! Quer dizer então que eu me submeto a praticamente uma autópsia das minhas partes mais íntimas, abro as minhas pernas para as pessoas mais estranhas do mundo, acordo cedo e aguardo quase dois meses para sentar no consultório e, em três minutos, receber o diagnóstico que está tudo bem?! Eu sempre soube que estava tudo bem! Não precisaria passar por tudo isso, não é mesmo doutora?

- Ufa! Que bom! Obrigada! - é a única coisa que consigo dizer.

- Mas não se esqueça. Daqui uns seis meses, a gente repete tudo de novo.

Um trilha de filme de terror toca na minha mente, olho para a médica com cara de boneco assassino e sorrio. O que eu posso fazer? Daqui seis meses, tem mais!


PAPO DE CALCINHA: Você também se sente desconfortável com esses exames? Tem alguma história curiosa para nos contar?

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

PASSARINHO NA GAIOLA



Por Letícia Vidica

- Dona Diana, o seu Pedro está lá em cima. Ele insistiu pra subir e eu dei a chave reserva, tudo bem?

- O Pedro?! Nossa, que estranho... mas a gente não marcou nada hoje...tudo bem. Obrigada, seu José.

Subi ainda um pouco intrigada com a declaração do porteiro. O que o Pedro estava fazendo lá em cima? Claro que eu adorei a surpresa, mas a gente não tinha marcado nada para hoje. E por que ele não me ligou?! Será que algo grave tinha acontecido?

- Oi, meu amor. Tudo bem? Aconteceu alguma coisa? - perguntei ao terminar de dar um selinho nele que retribuiu com o pior beijo que ele podia me dar e com cara de nenhum amigo.

- Onde você estava? - perguntou na lata com aquela cara de bunda ainda.

- Ué, Pedro! Onde eu poderia estar? Hoje é sexta. Óbvio que eu estava no bar do Pedrão com as meninas. Mas por que a pergunta? - respondi ainda um pouco sem entender o rumo daquela conversa.

- E você acha isso normal?

- E porque não deveria ser? Você sabe que toda sexta eu estou no bar com as meninas e até onde eu saiba, a gente não tinha combinado nada hoje. - dessa vez, fui eu quem cruzou os braços.

- Opa...esqueci que o seu namorado tem que marcar hora agora. Desculpe por não consultar sua agenda. Se estou valendo menos do que o bar do Pedrão...

- Espera'í. Onde você pretende chegar com essa conversa? Se você queria me ver, sabia onde me encontrar ou poderia ter marcado algo comigo ou me ligado...

- Eu tentei, mas parece que você não estava afim de me atender.

- O celular estava na minha bolsa e eu não vi as suas ligações... - respondi caçando o celular na bolsa e comprovando as milhares de ligações dele. - Mas eu não estou aqui?! Ainda não entendi onde você quer chegar com isso... A mulher aqui sou eu viu?!

- Será Diana?! As vezes, acho que você esquece que não é mais uma mulher solteira, mas insiste em querer ter alguém mas não quer prender-se... Talvez você ainda não tenha conseguido arrumar um espaço para ter alguém no meio da sua vida.

O QUE???? Foi o que berrei internamente. Que papo é esse?! Como assim eu não tenho tempo para ele? Todo esse estresse porque eu fui tomar um chope no bar do Pedrão??!!! Espera um pouco aí, Pedro. Mas ele não esperou. Foi pra casa de cara fechada.

- Satisfação, Diana. É isso que ele quer. - era Betina quem me consolava.

- Gente, mas o Pedro nem parecia o mesmo. Me cobrando só porque eu fui no bar com vocês?!! Se eu ainda tivesse mentido pra ele.... Ele sabe que isso é sagrado para mim.

- Não se surpreenda. O Pedro é homem!! Todos são assim. O problema é justamente esse. Ele tá puto porque você não abriu mão da sua rotina de solteira pra ficar com ele.

- E o que tem de errado nisso, Be??

Antes que ela respondesse, o meu celular tocou. Era o Pedro.

- Oi, Pe, tudo bem? Onde eu estou? To na casa da Betina. Desculpe..eu saí correndo do trabalho e esqueci de te ligar... Tudo bem. Podemos nos ver amanhã?

- To me sentindo um passarinho na gaiola sabia? Acredita que ele questionou até o que eu estou fazendo aqui?!

- Calma, Diana. Você tem que fazer o Pedro entender que, por muito tempo, sempre foi você com você. Solteira, sem dar satisfação a ninguém e agora não vai ser da noite para o dia que tudo vai mudar.

- É isso, Be!!! Eu adoro o Pedro, mas não faz nem seis meses que estamos juntos de novo. Ele é o mesmo mas a situação é nova. Eu assumo que ainda não me acostumei com toda essa ideia de ter alguém o tempo todo querendo saber o que eu fiz, onde eu vou, com que estou, por que liguei, por que não liguei...

- Seja sincera com ele e com você. Fale isso pra ele.

Foi o que fiz. No dia seguinte, sem aviso prévio, me desbanquei pra casa do Pedro. Acho até que ele sabia que eu viria. Estava preparando uma massa deliciosa.

- Hmmmm...que cheiro bom!!! Esperando alguma visita especial?

- Você!!! - dizia ele me agarrando entre a geladeira e o fogão com um fogo que nada lembrava a

tempestade de neve da nossa última conversa.

- Pe, a gente precisa conversar.

- Eu sei. A gente tem que conversar mesmo.

- Olha, não me entenda mal. Mas aquela sua cobrança sobre a minha dia ao bar do Pedrão na semana passada me fez pensar. Eu te amo, Pedro, mas eu preciso de um tempo para me acostumar com a ideia de ter alguém na minha vida de novo. Tanta coisa aconteceu nesse meio tempo. Sempre foi só eu e eu. Sem cobranças, sem satisfação e,de repente, você reaparece...graças a Deus, mas eu ainda não estou acostumada com todas essas cobranças...

- Linda, eu que tenho que me desculpar com você. Eu não tenho o direito de te cobrar tanto assim. Chegar do nada e ir invadindo o seu espaço. Eu sei que você precisa dele e eu vou respeitar. Não quero que você se sinta um passarinho na gaiola.

- Você realmente não existe... - dei um super beijo naquele homem maravilhoso - Não saia da minha vida nunca!!!

Nós beijamos e fomos saborear a maravilhosa massa do Pedro.

Confesso que ainda não sai totalmente da gaiola. Talvez nem saia completamente, mas poder dar umas voltinhas, as vezes, livremente pelos céus faz toda a diferença e, por incrível que pareça, é o que me faz querer voltar pra gaiola.

PAPO DE CALCINHA: Você já se sentiu como um passarinho na gaiola? Já passou por uma situação como a da Diana, ter dificuldade para dar satisfação depois de tanto tempo sozinha?!

segunda-feira, janeiro 13, 2014

RÁ TIM BUM


POR LETÍCIA VIDICA

Desliguei o telefone ainda um pouco passada com aquela ligação. Apesar do meu esforço em tentar ignorar aquele fato e despistar o Pedro, tudo foi em vão.

- Que cara é essa? Quem era ao telefone? – perguntou ele que, até então, parecia tão concentrado com o jogo do Corinthians.

- Era a Olívia. – respondi fria e secamente. Eu queria encerrar o assunto, mas ele queria iniciar.

- A Olívia?! Do Pierre? E o que ela queria? – perguntou Pedro, parecendo também um pouco surpreso com a ligação.

- Você acha... ela ligou para convidar para o aniversário de um ano da filha deles. – desabafei, sentando ao lado do Pedro no sofá.

- Poxa, que legal! Quando vai ser? – respondeu todo animado como quem não tinha ainda identificado muito bem quem eram os anfitriões.

- Legal?! – pasmei – Vai ser sábado agora. Agradeci, mas claro que a gente não vai ne? Nada a ver!

- Por quê? Eu adoro festa infantil. Além do mais, acho muito chato recusar um convite.

Não. Eu não estava escutando aquela declaração!

- Pedro, nem vou te dizer o que é chato. Além do mais, a gente nem tem crianças para levar nessa festinha. – disse em tom de quem quer encerrar o assunto.

- Não seja por isso. A gente aluga os seus sobrinhos. – disse ele me abraçando e se jogando em cima de mim. – Eu não vejo problema nenhum em ir a esta festa. A não ser que você se incomode... – com ar típico de Pedro, ele jogava a bola para mim.

Claro que eu me incomodava com tudo aquilo. Eu não tinha mais nada a ver com aquela história e não queria, mais uma vez, ficar no meio daquele casal problema. Mas eu também não queria deixar o Pedro com pulga atrás da orelha, achando que eu ainda me incomodava com o Pierre. Apesar de ser a mais pura verdade. Fui vencida pelo cansaço.

***

- Como assim você vai à festinha de aniversário da filha do Pierre? – era Betina quem pasmava enquanto eu me trocava para ir a tal festinha.

- Pois é, amiga. Eu me fiz a mesma pergunta. O que eu vou fazer lá? Mas o Pedro insistiu e quer porque quer ir nesta festa. Tô achando tudo muito estranho. Até agora, ele está achando muito normal sabe?

- Olha, eu adoro o Pedro, mas ele me surpreende cada dia mais. – respondia Betina. – Mas por que você não disse para ele que não queria ir? Afinal de contas, esta história maluca é sua. E você tem todo o direito de não querer ir.

- E deixar ele pensando que eu ainda me incomodo com o Pierre? Jamé! Agora deixa eu correr para o banho que já já o Pedro vai chegar aí com os meus sobrinhos.

- Vai te entender, Diana!

****
Chegamos a tal festinha com meus três sobrinhos a tiracolo. Assim que entramos no salão, os pestinhas já correram para piscina de bolinhas, atropelando os convidados e garçons. Eu fiquei estática olhando tudo aquilo. Aqueles balões, a música infantil, aquela família que poderia ter sido a minha e a Olívia com sua simpatia (irritante) se aproximando de nós.

- Que bom que vocês vieram! – disse ela dando beijinhos doces no meu rosto – Fiquem à vontade.

- Cadê o Pierre? – perguntou Pedro como quem pergunta do amigo de infância.

- Foi resolver um negócio sobre o chope e já volta. Mas fiquem à vontade. – dizia ela.

Tentei ser o mais discreta possível, mas antes que chegássemos a nossa mesa, fui parada pela mãe do Pierre.

- Diana, minha flor! Que bom te ver! – dizia minha ex-sogra, nada espalhafatosa. – Olha, Lourdes, ela não continua uma belezura?
– dizia ela sobre mim para a tia do Pierre.

- Oi, tudo bem? – respondi sem graça – Este é o Pedro, meu amig-namorado. – engasguei.

- Olha, se o Pierre não fosse meu filho, eu diria que você fez uma bela troca. – ria ela.

Pedro olhou para mim e caiu na gargalhada também. A única que não achava graça de todo aquele circo era eu. Acho que Pedro percebeu a saia justa e disse que ia ver se as crianças estavam bem. Enquanto isso, minha ex-sogrinha do coração me acompanhou até a mesa. E tudo o que eu queria era apenas respirar sozinha no banheiro.

- Como você está? Que saudades de você! Você sabe que minha neta é uma graça, mas eu sou sua fã. Ai, como eu adoraria que você tivesse ficado com o Pierre. Incrível, como esse menino era muito melhor com você. A Olívia é educada e tal, mas eu não consigo gostar dela como eu gosto de você. Ah, o seu namorado é um espetáculo. O que ele faz? E blablablablabla – a mulher desatou a falar. Eu apenas concordava com a cabeça ou grungunhava algum som.

Graças a Deus, alguém a chamou para tirar fotos e pude finalmente respirar.

- Tá tudo bem? – perguntou Pedro que flagrava com cara de desesperada.

- Tá sim. Só estou com sede.

- Só isso mesmo? – perguntava ele em tom de Sherlock Holmes.

- Só. E as crianças? Onde estão?

- Se afogando na piscina de bolinhas. – ria Pedro. – Mas ainda estou te achando estranha...

- Nada. A mãe do Pierre que continua a mesma matraca. Ela fala tanto que fico até tonta.

- Aposto que ela tentou te convencer a voltar com o filhinho dela? – ironizava Pedro.

- Nem que ela me pagasse a mega sena acumulada! Estou muito bem com um tal de Pedro viu?

- Tem certeza disso? – perguntava ele olhando profundamente nos meus olhos.

- Só não te agarro agora porque estamos numa festa de família. – sussurrei no ouvido dele.

- Não seja por isso.

Pedro me lascou um beijão de surpresa que fiquei até tonta.

***

- Se a festa não fosse da minha filha, eu diria que a melhor coisa da festa é a sua presença.

Me assustei com a declaração do Pierre que me flagrava na área externa do salão.

- Oi, Pierre, tudo bem? Pa-rabéns. A festa está linda. Fiquei surpresa com o convite.

- Antes que você brigue comigo, a ideia foi da Olivia. Ela fez questão de que vocês viessem. Eu não sei por que, mas você também
enfeitiçou a minha esposa. – ria Pierre.

- Isso não tem graça, Pierre. Muito legal o convite, mas acho bom parar por aqui.

- Parar o que? Não foi você mesma quem disse que somos apenas bons amigos? O Pedro se incomoda com isso?

- Não. O Pedro faz parte do clube da Olívia. Tá achando tudo lindo. Mas eu não estou. Não tem nada a ver eu ficar invadindo a vida de vocês, a festa de vocês...

- Diana, não pira. Não tem nada a ver. Tenho que admitir que o Pedro é um grande cara. Se fosse eu no lugar dele, não ia gostar nadinha disso.

- Viu só? Até mesmo você que é um desmiolado, tem mais lucidez do que ele nesta historia.

- Adoro quando você fica assim irritadinha. Fica ainda mais bonita. – dizia Pierre se aproximando de mim.

Antes que eu pudesse recrimina-lo pelo abuso do ato, Olívia entrou procurando por ele.

- Pierre, todo mundo está te procurando. Hora de cantar os parabéns!

Pelo tom da voz e o olhar fuzilante dela para ele, acho que naquele momento ela se arrependera totalmente de me convidar para a festinha.

Entrei no salão e encontrei o Pedro sentado na mesa com meus sobrinhos.

- Onde você estava? – perguntou ele secamente.

- Fui tomar um ar lá fora.

- Com o Pierre?

- Pedro, não é nada disso que você está pensando.

- E o que eu estou pensando?

- Crianças, hora do parabéns!

Peguei meus sobrinhos e levantei puta da mesa. Achei um abuso aquele interrogatório. Afinal de contas, quem quis ir naquela festinha foi ele. Agora, aguenta as consequências.

Comemos o bolo, as crianças se lambuzaram de brigadeiros, mas não trocamos palavras tão doces quanto os beijinhos. Depois daquela minha resposta, o Pedro ficou um pouco calado e logo quis ir embora da festa. Nos despedimos dos anfitriões. Olivia continuou com sua doçura irritante e o Pierre estava um pouco mais contido com ares de quem tinha tomado uma enrrabada.

****

- Nos vemos amanhã. – dizia Pedro me dando um selinho na porta do prédio.

- Ué, você não vai dormir aqui hoje? – estranhei a reação.

- Vou para casa. Preciso resolver umas coisas por lá. – disse ele em tom de quem queria finalizar o assunto.

- A gente não tinha combinado de dormir juntos hoje?! E que coisas você tem para resolver agora? – questionei com ar de quem só estava começando a conversa.

- A gente se vê amanhã, Diana. Eu prometo. – desbaratinava ele, já com ares de irritação.

Fiquei em silêncio e olhando para os olhos dele, com quem diz’ fala que eu te escuto’.

- Acho que a gente não devia ter ido a festa mesmo. – dizia ele – Achei que eu já era capaz de lidar com tudo isso mas, às vezes,
me bate uma nostalgia e fico possesso em ver o Pierre perto de você. Ver como ele te olha, como ele te deseja e como ele aguarda, como uma raposa sorrateira, qualquer deslize meu para dar o bote. E eu sei também que ele ainda mexe com você.

- Pedro, eu não estou te entendendo agora. Quem quis ir nessa festa de aniversário foi você. Eu tentei dizer que eu não queria, mas você insiste em agir como se tudo fosse normal. Não é. Agora, eu não te dou o direito de desconfiar de mim. Aquela hora, eu estava tomando um ar e o Pierre apareceu. Se quer saber, ele ficou rasgando seda pra você, admirando a sua atitude de ir a festa.

- Só um babaca como eu mesmo para fazer isso. – dizia ele.

- Para com isso, Pedro. Já foi. Vamos nos preservar mais das outras vezes ok? Eles tem a vida deles e nós temos a nossa. Não precisamos fazer parte da historia deles e nem eles da nossa.

- É, você tem razão. – dizia ele acariciando o meu rosto e dando aquele sorriso maroto. – Mas confessa que ele deu em cima de
você? Aposto que ele aproveitou a brecha e foi te xavecar.

- Nem mil xavecos do Pierre se comparam ao seu charme irresistível que neste momento está me hipnotizando para ser levada para minha cama em seus braços. Vai insistir ainda com essa história de resolver negócios em casa? – questionei com a cara mais sexy que eu pude fazer.

- Acho que os negócios podem esperar.

Ufa! Tudo terminou bem. Depois da noite delicada, tivemos uma festinha particular com direito a muito RÁ-TIM-BUM.

PAPO DE CALCINHA: Você teria ido a esta festa? Já passou por alguma saia justa dessas?