quarta-feira, outubro 23, 2013

JOVEM VELHA JOVEM



Por Letícia Vidica


- Ai, ai, ai... que dor! Me ajuda aqui, Pedro! – eu gritava ao colocar o pé no chão e sentir meu joelho travar.

- O que aconteceu? – perguntava Pedro assustado e tentando me ajudar.

O que tinha acontecido é que eu estava com desgaste na patela do meu joelho. Isso mesmo. Esse foi o diagnóstico que o médico me deu na maior naturalidade. Disse que era normal, mas que eu teria que me cuidar. E eu que achei que as engrenagens só começavam a travar muito mais tarde. Sinais da idade.

- Mas e aí, o que você vai ter que fazer? – perguntava Pedro, enquanto saíamos do médico.

- Tenho milhares de sessões de fisioterapia para fazer, estou proibida de fazer uma série de exercícios, vou ter que começar a hidroginástica e emagrecer. É, Pedro, já não sou mais uma garotinha. Estou ficando velha. – eu lamentava.

- Não exagera, Diana. Você só tem 30 anos!

Aquele diagnóstico só confirmou o que eu já vinha sentindo: eu estava virando uma jovem senhora. As três décadas começavam a pesar nas minhas costas ...
... e pesou mais ainda quando cheguei na minha primeira aula de hidroginástica.

Meninas, o que acham de deixarmos essa baladinha para outro dia? Eu tive um dia de cão, - Abriram a porta do asilo ou é impressão minha? – eu perguntara para Lili que tinha resolvido me acompanhar – Eu estou me sentindo ridícula com esse maiô e essa touquinha.

- Diana, relaxa! E vamos cair na água.

- Oi, meninas, primeiro dia na aula? – era uma senhorinha muito simpática, baixinha, com as colunas curvadas que sorria para gente embaixo daquele maiô e daquela touca.

- Sim, estamos começando hoje. E a senhora? – Lili emendou o assunto.

- Eu já faço hidroginástica há oito anos. Faz muito bem para o meu bico de papagaio. É maravilhoso, vocês vão ver. Mas o que duas moças tão jovens fazem por aqui?

Engraçado que há alguns dias eu também tinha me feito a mesma pergunta. Mas agora eu já não me sentia tão jovem assim. Lili engrenou um bate papo com a velhinha simpática e seguimos para a aula.

Alguém pode me explicar quem foi que disse que fazer exercícios na água é fácil? O mais difícil para mim foi entender como todas aquelas jovens senhoras se exercitavam naquelas acrobacias, vencendo a água, cantando e rindo o tempo inteiro?

- Eu estou morta, Lili! – eu confessava para minha amiga ao sair ofegante da aula.

- Eu amei a aula, Diana. Foi super divertido!!!

- E aí, gostaram da aula, meninas? – era a senhora simpática que perguntava – Nos vemos na sexta hein?
Será que eu ia aguentar fazer tudo isso sem ao menos uma folguinha de uma semana?

****

- Nada de bocejar hein, dona Diana. – era Lili que brigava comigo ao ver minhas olheiras no pé e minha boca que não parava de abrir.

- estou exausta... – eu tentava argumentar em vão com minhas amigas no bar do Pedrão.

- De jeito nenhum. Hoje a gente tem alvará. É a noite das garotas e nós vamos dançar sim! Joga esse sono pra lá, hein, Diana? Tá ficando velha é?

Por incrível que pareça, apesar da noite linda de sexta-feira, tudo que eu mais queria naquele momento era ir para casa, tomar um banho quente, me enfiar embaixo da coberta e assistir a um filminho meloso. Em outros tempos, um esquenta no bar do Pedrão e uma baladinha com as meninas seria o convite perfeito, mas naquela noite nada disso me excitava. Porém, trato é trato. E não adiantava eu brigar com a Lili. E lá fomos nós para a tal baladinha.

- Nossa, tá cheio aqui né? – eu olhava ao ver a fila quilométrica na porta da balada – Ainda bem que a gente vai ter uma mesinha lá dentro ne?

- Então, Di, não tem mesa. É só pista mesmo. Hoje vamos nos acabar na pista.

- Eu não acredito! A gente vai ficar em pé a noite toda?! Esses saltos já estão me matando.

- Ihhhhh, dá para parar de reclamar um pouquinho? Quem tem quase quarenta anos aqui sou eu viu? – era Betina, cheia de energia.

Depois de quase uma hora em pé na fila, entramos na balada. Acho que nem uma lata de sardinha era tão apertada. Todas aquelas pessoas felizes, aquele som alto, um empurrando o outro... o meu desejo era jogar uma bomba ali e eu só visualizava a minha cama.

- Vamos beber, meninas? Tequila?

- Vamos, vamos... – eu dizia desesperada para sair do meio daquela lata de sardinha. – Três tequilas, por favor? - eu pedia ao barman.

- Por favor, eu faço questão de pagar a bebida para você.

Olhei para o lado e me assustei com o garoto que se oferecia para pagar a minha bebida.

- Não, eu agradeço, querido. Eu pago a minha bebida! – respondi para o fedelho.

- Nossa, adoro mulheres autênticas. – ele dizia e se aproximava também.

- Meu amor, agradeço a sua delicadeza, mas eu tenho namorado e já sei onde esse papinho vai acabar. Melhor investir numa garotinha da sua idade. Passar bem.

Peguei a minha tequila e fui falar com as meninas.

- Tá arrasando é, nega? – perguntava Lili.

- Arrasando? Aquele menino ainda cheirava leite. Enquanto ele jogava Playstation, eu já lia Capricho. Gente, eu tô me sentindo uma velha nesse lugar. Por um acaso é alguma matinê noturna? Só tem muleque aqui.

- Não exagera, Diana... tira essa história de que está ficando velha da cabeça. Ah, eu já volto. Acabei de ver um amigo. – Lili saiu pra pista.

- Não sei como ela não cansa, Betina. Eu já estou exausta.

- Entende agora como eu me sinto? – ria Betina.

- Acho que essa vida de balada já deu pra mim, sabia? Nada mudou. As músicas são as mesmas, as pessoas são as mesmas, os xavecos são os mesmos... ai, que saudades da minha cama, que saudades do meu Pedro... sem contar que eu não estou mais aguentando esse salto. Tá me matando!!! Vamos embora?

- Amiga, eu adoraria fugir daqui com você, mas a Lili iria ficar muito chateada. Aguenta firme!

- Que horas são? Falta muito para acabar?

- Ainda são meia-noite e meia.

- Só?! Estamos lascadas.

Eu e Betina brindamos com nossos copos de tequila e caímos na gargalhada. Como quem está na chuva é para se molhar, resolvi cair na pista mesmo com sono e com pé doendo. Até que a noite passou rápido.

****

- Diana, eu te convidei para um almoço e não para um jantar. Que cara é essa? – era minha querida mãe ralhando comigo ao me ver chegar um pouquinho atrasada para o sagrado almoço de domingo.

- Foi para balada e ficou assim, sogrinha. – Pedro me entregava para ela.

- Diana, já te falei que você não tem mais idade para essas coisas. A idade pesa, maninha. – era meu irmão que me irritava.

- Seu irmão tá certo, filha. Não acha que já está na hora de parar com a noitada? – incrivelmente esse era meu pai que concordava.

- Eu amo todos vocês viu? Mas podem parar com esse complor. Sei que não sou mais uma mocinha, meus joelhos doem e dizem isso todos os dias para mim e a ressaca que eu estou sentindo só confirma isso, mas vamos para o almoço? – finalizei o assunto.

...

- Tia Dirce ligou. Vai ser vó. A Paloma está grávida. – comemorava minha mãe enquanto lávavamos a louça do almoço.
- Nossa, mas ela casou não faz nem um ano e já engravidou? – me assustei.

- Certa ela. Esperar mais para quê? Ela já tem quase 30 anos, não é mais uma mocinha e o corpo pede viu? Acho bom você se apressar, filha. – mais uma vez, minha mãe vinha com aquele papo de ser avó.

- Eu sei, mãe. Não precisa repetir. Até os 35 anos está de bom tamanho.

- Você quer ser mãe ou ser avó? Melhor se apressar, Diana. Esperar tanto tempo assim para quê?

- Mãe, não é tão fácil assim. Encontrar o pai primeiro é um bom começo né?

- Acho que aquele que está na sala já está de bom tamanho ne? – apontava para o Pedro e saía da cozinha para levar café para os meninos.

- Ai, Marisa, você acha que eu estou velha demais para engravidar? Eu nunca pensei nessa história de ser mãe, de casar, mas depois que eu fiz 30 anos isso tem me martelado todos os dias...eu tenho que confessar.

- Calma, irmã. Tudo tem seu tempo. Não caía nas pilhações da mamãe e não faça como eu. Aproveita a sua vida. Ter filhos é muito bom, mas é preciso muita estrutura.

- Mas eu só tenho cinco anos para tudo isso! E se não acontecer?

- Diana, eu não estou te reconhecendo. Para! O que tiver de ser será...come um pedaço de pudim... você ainda é uma jovem...

- Me sinto uma velha jovem ou uma jovem velha...fudeu...acho que estou em crise!

Mordi o pudim e caímos na gargalhada para não chorar. Essa sensação de mulher balzaquiana estava acabando comigo.

PAPO DE CALCINHA: JÁ SE SENTIU UMA JOVEM VELHA OU VELHA JOVEM?







sexta-feira, outubro 04, 2013

ENCONTRO DO ACASO


POR LETÍCIA VIDICA

- Diana? – assustei-me ao reconhecer aquela voz que me chamava (ou melhor, gritava meu nome) na porta do restaurante japonês.

Eu não teria ficado tão tremula e sem graça se não fosse o Pierre. Tudo que eu menos queria naquela noite estrelada e calorosa de sexta-feira era encontrar o meu ex-namorado. E tudo que eu menos queria naquela noite que teria que ser maravilhosa ao lado do
Pedro era encontrar o meu ex-namorado, que eu não via há um tempão, ao lado da sua digníssima esposa.
Sei que a nossa história é complicada e que muuuita coisa já aconteceu e sei que eu amo o Pedro, mas (re)encontrar ex-namorado é sempre um encontro um tanto quanto estranho, ainda mais quando se tem terceiras partes envolvidas.

- Oi, Pierre! Oi, Olivia! – respondi ainda sem graça e acho que minha voz não conseguiu disfarçar tão bem. – Que coincidência a gente se encontrar aqui não é mesmo? – emendei ao final de dois beijinhos cordiais no rosto da Olívia.

- Ah, nem tanto, Di. Afinal, a gente adora comida japonesa, ne? – respondeu ele, resgatando uma certa intimidade desnecessária.

- Senhores, temos uma mesa disponível para quatro. Aceitam? – perguntava o gentil do garçom olhando para os casais, pensando (obviamente) que éramos melhores amigos. Eu quase quis socar a cara dele, mas o coitado não tinha culpa nenhuma do rolo que era a minha história amorosa com o Pierre.

- Por mim, tudo bem. Se não se importarem de jantar com a gente.

Rapidamente, a fúria que eu sentira pelo garçom foi transmitida para o Pedro. Como assim ‘eu não me importo?!’, mas eu me importo sim. Essa é a nossa noite. A última coisa que eu quero é ter o Pierre sentado na minha mesa. Respirei fundo, sorri cordialmente para o Pedro com aquele olhar de ‘conversaremos sobre isso mais tarde’ e entramos no restaurante. O ronco do meu estômago também não estava nem um pouco afim de esperar mais.

- E como foi de viagem, Pedro? Voltou para ficar? – perguntava Pierre num tom suspeito de investigação.

- Digamos que sim. – respondia Pedro calmamente com o interrogatório – Na verdade, vim a negócios profissionais e pessoais...- dizia ele olhando para mim e emendando um abraço, como quem marca território.

- Entendo, entendo...sei bem como são esses negócios. – respondia Pedro, como quem quisesse dizer que já tinha trabalhado muito nos meus negócios.

- E como vai a bebê, Olívia? – desconversei e tentei ser simpática com a Olívia. – Deve estar enorme não é mesmo?

- Tá uma pestinha, Diana, mas é uma fofa. Deixamos ela com a babá. Só assim para ter um momento mais romântico com meu amoreco ne? – dizia ela, abraçando o Pierre.

Aquela cena patética de marcação de território foi interrompida pelo mesmo garçom que ofereceu a mesa, trazendo as nossas comidas. Dessa vez, confesso que quase beijei o homem na boca. Ele tinha me salvado de uma.

Comemos falando de coisas banais e tentando quebrar aquele gelo estranho que estava no ar. Num desses momentos de silêncio, resolvi ir ao banheiro para respirar um pouco. Mentira! Escapei para mandar uma mensagem no celular da Lili e da Betina para contar o apuro que eu estava passando, mas antes de finalizar o torpedo fui pega pela Olivia.

- Acho que bebi saquê demais. – ela dizia, enquanto retocava a maquiagem no espelho.

- Nossa, nem fala.

- Fico feliz que tenha voltado com o Pedro. Vocês formam um belo casal.

Me espantei com a declaração, mas sorri cordialmente.

- Ele é uma ótima pessoa mesmo. A gente está tentando.

- Bom ver um casal que se dá bem ne? – dizia ela num tom de quem estava prestes a desabafar.

- Você e o Pierre também parecem se dar muito bem. – emendei.

- É, a gente tá tentando. Acabamos de sair de uma crise séria e estou dando mais uma chance. Inclusive, esse jantar é uma das coisas que eu impus pra ele.

Tá virando moda ou o que? Primeiro, a mulher vem desabafar comigo na despedida de solteiro, depois no casamento e agora?!

- Todo mundo merece uma chance, não é mesmo? Vamos voltar? – despistei. Eu não estava afim de bancar a terapeuta da Olívia novamente.

Quando voltamos para a mesa, o Pierre e o Pedro pareciam melhores amigos. Estavam às gargalhadas. Eu e Olivia olhamos sem muito entender, mas nos inserimos no assunto e a noite, incrivelmente, fluiu bem. Sem aquela atmosfera estranha do inicio.

***

- Que tanto você e o Pierre riam lá na mesa? – perguntei ao Pedro enquanto a gente voltava para casa.

- Ele é um palhaço, mas é gente boa. – respondia Pedro.

- Quem te viu, quem te vê ne? Você e o Pierre tão amiguinhos... – desdenhei.

- E o que é que tem? Isso te incomoda? – perguntou Pedro naquele tom de quem iria me interrogar e que ia reverter o jogo.

- Não. Nenhum um pouco. Prefiro assim. – menti. É claro que aquilo me incomodava! Mas, às vezes, é necessário omitir algumas coisas para evitar confusões.

***

Não sei por qual motivo, aquela noite não saía da minha mente. Aquele encontro e as declarações da Olívia me corroíam a cabeça. Ainda bem que eu ia me encontrar com as meninas para desabafar.

- E eu que achei que o Pierre já tinha mudado de planeta... – dizia Betina com desdém ao me ouvir contar do encontro.

- E a piriguete da Olívia? – perguntava Lili

- A Olivia se comportou bem. Até desabafou comigo no banheiro. Veio dizendo que estavam em crise, elogiando a minha relação com o Pedro...

- Ih, nega, cuidado hein! Ela já te tirou o Pierre e pode muito bem tirar o Pedro!

- Credo, Betina! Vira essa boca pra lá! Não é pra tanto, mas é melhor ficar esperta. – dizia Lili

- Será? Sabe que isso nem me passou pela cabeça? E vocês não sabem da última. O Pedro e o Pierre ficaram conversando como melhores amigos. E o Pedro até me disse que o Pierre é gente boa e achou ruim quando eu me assustei com isso, mas eu disfarcei e fingi que estava tudo bem. Mas é ob-vio que eu odiei essa amizade ne?

- Acho bom manter distância. Esse casal é perigo. E você não pode dar mais motivos para o Pedro desconfiar de você ou querer ficar resgatando história do tempo da arca ne?

A Betina estava certa. A melhor coisa era não dar corda para aquela história. Fácil se o Pierre não tivesse ido me procurar. E foi o que aconteceu na segunda-feira, quando eu saía do meu trabalho. Fui surpreendida pelo Pierre na porta do meu prédio.

- O que você tá fazendo aqui? – perguntei assustada, olhando para o lado com medo de ser flagrada.

- Eu queria te ver. – respondeu ele com a maior naturalidade do mundo.

- Ué, a gente já se viu na sexta. Esqueceu? Eu tenho que ir embora.

- Calma! Eu sei. Mas na sexta foi diferente. Eu estava com a Olivia, você com o Pedro e a gente nem conversou direito. – dizia
ele se aproximando de mim.

- A gente conversou tudo que tinha que conversar, Pierre. Não inventa, por favor. Não me arrume mais problemas. Eu preciso ir, de verdade. – ameacei sair.

- Um café! Só um café? Como amigos? – implorava ele com aqueles olhinhos de gato siamês.
Não sei como e por qual motivo, mas aceitei o tal café. Era um só e mais nada! Eu prometi isso para mim.

- Você continua linda ne? Não muda nunca!

- Obrigada! – respondi sem graça.

- Adorei te encontrar lá na sexta. Mesmo com o Pedro. Vocês estão juntos?

- O que te importa hein? – respondi grosseiramente.

- Calma, bravinha. To perguntando numa boa. Vim em missão de paz mesmo. Relaxa!

- Tá, ok! A gente tá junto sim. Você já aprontou tantas que eu estou vacinada de você, seu Pierre.

Caímos na gargalhada e, ao final dos risos, ficamos nos olhando. Sabe aquele silêncio nostálgico? Antes que a nostalgia reinasse, o meu celular tocou. Era o Pedro. Olhei para o visor e para o Pierre.

- Pode atender. Não vai deixar ele esperando. Só não dizer que tá comigo.

Até engasguei para atender, depois daquela declaração do Pierre. Quem te viu quem tevê? Despistei o Pedro falando que eu estava num happy hour com as meninas do trabalho e que a gente se encontraria depois. Fiquei muito mal em mentir para ele, ainda mais por causa do Pierre, mas não tive escolha.

- Não posso demorar, Pierre. Eu não quero envolver o Pedro nisso novamente.

- Fica tranquila. Eu te prometi um café. Você ainda não terminou o seu, não é mesmo?

- E como vai a vida de casado? A filhota...

- A minha princesinha é demais. Apesar da forma que ela veio ao mundo, foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Mas a vida de casado não está tão legal assim... a Olívia é uma ótima mãe, mas acho que não rola mais entre a gente, entende?

- Mas vocês pareciam tão felizes lá no restaurante... – disfarcei fingindo que já não sabia do rolo todo.

- A gente tá tentando, sabe? Mas, no fundo, eu acho que nunca mais vou encontrar alguém como...

- Pronto! Terminei. Eu realmente preciso ir, Pierre. – interrompi ele, antes que completasse a frase. Eu não estava afim de ouvir a mesma conversa. Eu já sabia o final da história.

- Espero de verdade que vocês se entendam e formem uma família muito feliz, viu? – abracei o Pierre como uma grande amiga e dei um beijo na bochecha dele.

- Você sabe que é muito especial para mim, né? – respondeu ele segurando meus braços e olhando no fundo dos meus olhos.

- Não mais do que a sua princesinha. Te cuida.

Virei as costas e me controlei para não olhar para trás. Encontrar o Pierre sempre mexia comigo. E aquele encontro, mais uma vez, mexeu comigo. De uma forma estranha e diferente, mas mexeu. Pensar que um dia eu jurei amor eterno para ele, acreditei que seríamos felizes e agora era eu quem desejava que ele fosse feliz, mesmo depois de tudo que ele me aprontara. É, meninas, a vida é mesmo muuuito engraçada.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ SE TEVE ALGUM ENCONTRO COM EX ASSIM? CONTA PRA GENTE!

segunda-feira, agosto 12, 2013

O DIA SEGUINTE


POR LETÍCIA VIDICA

- Bom diiiiaaaaaaa, dorminhoca!!!

Aquela voz soou como um doce sino para os meus ouvidos, mas confesso que acordei atordoada, descabelada(acho até que com bafinho), mas me senti a mulher mais poderosa do mundo ao ver o sorrisão do Pedro com uma bandeja de café da manhã nas mãos.

- Nossa, que horas são? Eu dormi tanto assim? Nem vi você levantar...- disparei a falar.

- Calma, meu anjo. - disse ele me dando um selinho - ... te dei um sonífero gostoso para evitar que você fugisse mais uma vez de mim.

- Golpe baixo hein? Do jeito que eu estou feliz e faminta, eu só fugiria depois do café da manhã. Não se preocupe. Hmmm... que delícia!! Não é que essa temporada em Londres te fez bem? - disse ao saborear o lanchinho gostoso que ele preparara pra mim.

- Acho bom comer bastante. Ainda temos muita energia para gastar... - insinuou Pedro roubando um pedaço do meu lanche.

Seguimos saboreando o nosso café da manhã. Em um silêncio apaixonante e excitante. Em meio a olhares, trocávamos beijinhos, risinhos e carinhos. Mas,de repente, no meio daquele momento mágico, a imagem da Globeleza na noite passada invadiu meu pensamento.

- O que foi, Dona Diana? Conheço muito bem esse olhar e essa cara de interrogação hein? - perguntou Pedro naquele tom de psicólogo e de quem me conhecia mais do que a mim mesma.

- Não fica bravo comigo...mas eu estava pensando naquela cena de ontem à noite.... a Kamilla aqui daquele jeito...

- Você ainda está pensando nisso? Esquece dela...não vamos deixar que ela estrague esse clima tão bom. - disse ele me abraçando.

- Ai, Pê, eu confesso que não engoli muito bem toda essa história. Não te falei nada. Não quis estragar a nossa noite, mas eu preciso saber da verdade. Seja sincero comigo. Joga a real...

- Diana... - disse ele olhando profundamente nos meus olhos - eu...não... tenho ...nada ...com a Kamila. Eu já te contei tudo, mas se quiser eu repito. Ela foi pra Londres com a desculpa de que ia estudar e quando vi ela já estava de mala e cuia em casa. A gente ficou sim, mas eu nunca dei esperanças pra ela. Ela sempre soube que eu amo você.

- Tem certeza disso?

- Quer que eu prove?

Pedro jogou a bandeja no chão,me empurrou contra o colchão e foi possuído pelo espírito William. Transamos mais uma vez.

****

Fomos interrompidos pelo toque do interfone. A gente até que queria ignorar, afinal não queríamos ser incomodados pelo mundo. Mas a insistência era tanta que Pedro correu para atender.

- Betina e Lili estão subindo aí! Vou colocar uma bermuda.

- O que elas querem?

Foi o que perguntei ao Pedro e para as meninas cheias de sorrisos, sacolas com carne e cerveja nas mãos.

- Nem vou perguntar se você viu o passarinho verde. Já que você não atende esse seu celular, a gente resolveu te procurar de mala e cuia. – dizia Betina entrando no apartamento.

- Oi, meninas. Mas eu nem ouvi o meu telefone tocar... – desconversei.

- Diana, eu também não ouviria. – respondeu Lili.

- Desculpe a invasão, mano. Mas eu não consegui lutar contra essas duas. – dizia Tavinho ao cumprimentar o Pedro.

- Relaxa, gente. Entrem. Fiquem à vontade! Já estava mais do que na hora da gente comer alguma coisa...

- Realmente, isso dá uma fome... – brincou Betina.

Enquanto os meninos tinham saído para ir ao supermercado comprar mais bebidas e quitutes, aproveitávamos para conversar, ou melhor, elas aproveitavam para me interrogar.

- E aí, safadinha, tá com cara de que deu mais do que chuchu na cerca ne? – brincava Lili – Como foi a noite?

- Ai, gente, se melhorar estraga. Não tem como não ser maravilhoso com o Pedro ne? Mas teve um detalhe bem chato. A Globeleza apareceu aqui ontem, arrumou o maior barraco quando me viu aqui e insinuou que o Pedro fica procurando ela quando eu não estou...

- Jura? Tô Barbie na caixa, mas e aí?

- Ai, Bê, ele colocou ela para correr, disse que sempre foi sincero com ela dizendo que gostava de mim e me jurou de pés juntos que eles não tem nada mais e que ele nunca negou a ela que gosta de mim.

- Sei não hein? Melhor ficar esperta – desconfiava Lili.

- Para de colocar minhocas na cabeça da Diana! – incrivelmente era Betina quem ralhava com a Lili defendendo o santo Pedro mais uma vez.

- É, eu estou tentando não pirar com isso. Não quero estragar tudo mais uma vez, mas ainda não tirei a pulguinha detrás da orelha.

- Podem parar de fofocar que o assunto chegou – gritava Pedro abrindo a porta do apartamento.

- Ai, meu Deus! Acha mesmo que a gente só tem um assunto na vida? – brincava Betina.

- A queimação na minha orelha não me engana jamais.

****

Passamos uma tarde maravilhosa, comendo churrasco na varanda, provando as mais deliciosas caipirinhas da Betina e rindo muito com as histórias do Tavinho e da Lili. Esses momentos ao lado deles era sempre bom e, melhor ainda, com o Pedro ali.

- E aí, Pedrão, veio para ficar? – perguntava Tavinho.

- É o que eu mais quero sabe? Estou batalhando por isso, mas tenho que voltar para Londres daqui um mês.

Olhei espantada para o Pedro com essa informação nova. Ele não tinha me falado nada sobre esse retorno. Sob recriminação dos olhares de Betina, prevendo que eu ia começar a questionar isso e poderia estragar tudo, eu me calei. Mas passei o resto do dia com aquele caroço na garganta. E tive que perguntar quando todos foram embora.

- Você não me disse que teria que voltar para Londres de novo... – perguntei enquanto lava a as louças.

- Eu sabia que você tinha ficado encucada com isso. Eu não me desliguei totalmente da empresa. Vim pro Brasil pra tentar abrir uma filial, ainda não consegui. Mas vai dar tudo certo. Relaxa! – dizia ele me abraçando.

- E se não der? Como a gente fica?

- Nada vai mudar. A gente fica do jeito que está. Juntos. – disse ele me apertando e beijando o meu pescoço.

- Você lá e eu aqui? Você sabe muito bem que isso não dá certo.

- Diana, que tal se a gente vivesse uma coisa de cada vez hein? Por exemplo, agora eu estou afim de viver uma outra coisa. Larga
essa louça aí. Vem pra aqui.

Pedro me pegou no colo e saiu me beijando, arrastando-me até o quarto. Mais uma vez, me deixou sem resposta. Mas acho que ele está certo. Um dia de cada vez.

terça-feira, junho 25, 2013

RECONCILIAÇÃO


POR LETÍCIA VIDICA

- Pode cortar, repicar, pintar... faça o que você quiser. Hoje eu tenho que sair daqui montada! – eu dizia me jogando na cadeira do salão do Beto e decidida a me produzir para laçar eternamente o coração do Pedro.

- Nossa, Lady Di! Qual é o babado? Vai casar é?

- Vou laçar o noivo isso sim! O Pedro voltou!

- Pá-ra tudo! Tô bege! Tô Barbie na caixa! O príncipe William voltou?! – comemorava o meu cabeleireiro batendo palminhas como uma foca e me dando um abraço apertado e fugaz.

- Nossa, qual é o motivo da comemoração posso saber? – essa era Betina que chegava com seu tradicional chicotinho e balde d’água no meio da nossa conversa.

- Acabei de saber da novidade, bicha! O lorde inglês voltou. E é claro que eu vou dar um tudo de mim para deixar a nossa lady Di um es-pe-tá-cu-lo!

- Já contou pro Beto sobre a cagada que você fez? O Pedro já te perdou?

- Betina será que dá para parar de jogar sal no meu angu, pelo menos, uma vez na vida? O que importa é que eu estou decidida a reconquistar o Pedro e vai ser hoje.

- Qual foi a parte que eu perdi? – perguntava Pedro sem nada entender.

Antes que eu pudesse me explicar, Betina fez questão de contar tim-tim por tim-tim para ele que suspirava, gritava, comemorava, me batia a cada ponto final e entre uma escova e outra.

- Pronto! O príncipe William só não vai ficar com você se for muito louco. Você está diva, meu amor. Até eu, se não fosse diva também, viraria macho e ficaria com você. – disse rindo.

- Muito obrigada, Beto. Agora eu tenho que sair correndo porque ainda tenho que comprar um vestido fatal para combinar com essa obra de arte.

- Te cuida hein? E vê se não vai aprontar de novo hein? Você tá lindona mesmo, amiga.

- Obrigada, meus amores. Agora eu fui. Te ligo depois, Bê.

****

O meu coração já tinha saído pela minha boca e o meu estômago andava ao lado dos meus pés quando cheguei ao prédio do Pedro. Era agora ou nunca. Era tudo ou nada. Como o porteiro já me conhecia, confirmou que ele estava no apartamento e me deixou subir sem ser anunciada.

A cada andar dentro do elevador, eu suava mais e mais frio. Ainda bem que a maquiagem resistiu. Pronto, cheguei! Agora é só tocar a campainha e me jogar nos braços dele. Mas e se ele me jogar da sacada para baixo? Ele jamais faria isso. É uma loucura. É melhor eu ir embora. Não, não! Enfrente. Toquei a campainha.

- Diana?! – disse Pedro assustado ao me ver, mas também aproveitou para dar uma conferidinha no meu look.

- Posso entrar? – perguntei com a voz mais doce que eu podia. – Desculpa vir assim, de repente...

- Você demorou demais...

Repentinamente, me vi encostada na porta do apartamento dele, espremida por aquele corpo maravilhoso, sufocada por aquela boca deliciosa que me beijava cheia de desejo e por aquela mão de seda que se entrelaçava no meu cabelo (acabando com a minha escova, mas tudo bem. O que são três horas dentro de um salão?!).

- Nossa! Isso significa que eu estou perdoada? – respondi recuperando a respiração e me recompondo.

- Acho que eu não fui muito claro né?

Eu não sei o que estava acontecendo com o Pedro. Parecia até que o William tinha baixado nele. Ele me jogou no sofá dele e me atacou novamente.

- Quando você vai parar de brincar comigo desse jeito hein? – perguntava ele

- Eu não brinco com você. Eu sei que eu sou meio impulsiva, atrapalhada, confusa...mas a última coisa que eu quero é brincar com você. Eu quero é ficar com você. – pronto, confessei.

- E o seu peguete? Já se livrou dele? – perguntava ele.

- Problema resolvido. Pode ficar tranquilo quanto a isso. Mas, falando de coisa boa, acho que eu te devo um jantar como pedido de desculpas ne? O que acha de irmos comer algo?

- Ótima ideia. Me dá cinco minutinhos que eu vou só tomar um banho e a gente já vai. Quer vir comigo? – perguntou ele me abraçando e dando beijinhos na minha nuca.

- Apesar de você ter destruído o meu visual – ri – aceito o banho depois do jantar. Tenho certeza de que precisarei dele.

Fiquei no sofá esperando o Pedro e respirando aliviada por ter ficado tudo bem entre a gente. De repente, a campainha tocou. Será que ele estava esperando por alguém? Achei que eu era a única a subir sem ser anunciada. Pedro gritou do banheiro para que eu abrisse a porta.

- Eu sabia! Tinha certeza que o casal 20 estava no ninho de amor! – para a minha surpresa era Kamila.

- O que você está fazendo aqui, Kamila? – era Pedro quem aparecia na sala secando o cabelo e também surpreso e irritado com a presença dela.

- Já que você não me procurou, eu resolvi te procurar.

- E posso saber por que eu deveria te procurar? – respondeu Pedro.

- Você não contou para ela? – insinuou.

- Existe algo que eu deva saber? – perguntei irritada com aquela cena e cruzando os braços.

- Não, meu amor. Tudo que você tinha que saber você já sabe. Que eu amo você e que eu não quero nada com a Kamila. Vamos parar com essa ceninha desnecessária.

- Desnecessária? Se você não quer nada comigo, eu deveria saber não acha? Mas não! É sempre assim. Essa daí aparece e eu fico pra escanteio.

- Pelo que eu saiba, Kamila, eu era a namorada do Pedro antes de você se jogar nos braços dele em Londres.

- Eu me jogar? Tem certeza que EU me joguei nos seus braços, Pedro? Qual foi a parte da historia que você não contou para Diana?

Olhei para Pedro esperando uma resposta.

- Eu não tenho nada a esconder, Kamila. Fui muito sincero com você e com a Diana. Agora, por favor, sem cenas. A gente está de saída e não temos mais nada pra conversar. Mantenha o mínimo de decência para que a gente possa ser, pelo menos, amigos.

- Tudo bem. Se eu estou atrapalhando, eu vou embora. Eu não tinha nada que ter me metido nessa historia mesmo. E, olha, desculpa mas eu não quero a sua amizade apenas. Boa noite!

Kamila virou as costas e saiu batendo as tamancas.

- O que foi isso?! – perguntei meio sem entender.

- É sempre assim. Ela gosta de uma plateia. Mas foi bom que você assistiu. Assim não vai achar que eu estou exagerando. Vamos
jantar? – perguntou ele enquanto me abraçava.

- Você ainda tem fome? – perguntei ainda confusa com toda aquela cena rodriguiana.

- Sempre tenho. – respondeu ele me dando uma abraço pela cintura e mordidinhas na orelha.

- Desse jeito, eu acho que vou direto para a sobremesa... – insinuei.

- Não seja por isso.

Pedro me pegou no colo. Acho até que soltei um grito pela reação inesperada. Que se danem os vizinhos! Fui jogada na cama dele e nos curtimos como a uma pessoa que acaba de sair de um regime e pode, depois de anos, saborear um delicioso sorvete de chocolate. E, o melhor, sem culpa. Que se danem as calorias. Hoje eu quero me acabar.



PAPO DE CALCINHA: QUAL FOI A SUA MELHOR RECONCILIAÇÃO?





domingo, junho 16, 2013

ACERTANDO AS CONTAS


POR LETÍCIA VIDICA


- Diana, você enlouqueceu? Como assim você fugiu da casa do Pedro sem esperar uma mísera explicação?
Nem preciso dizer que essa era minha segunda mãe, Betina, emputecida depois de saber que eu tinha ido embora da casa do Pedro ao ver a mensagem da Globeleza no celular.

- Não sei o que me deu, Betina. Mas não precisa exagerar!! Você queria que eu agisse como depois de ver aquele torpedo suspeito daquela piriguete?

- Você tinha que ter agido como uma mulher adulta e não como uma criança! Porque você sempre estraga tudo hein? Custava esperar uns minutinhos e esclarecer tudo com o Pedro...

- E ouvir mais uma vez que ele não sabe o que quer comigo?! – bufei.

- Você está tirando suas próprias conclusões sozinha... você acha mesmo que o Pedro te convidaria para o churrasco dele e escolheria levar você para o apartamento dele se ele tivesse algo com a Kamilla?! Não seria muita burrice não?!

- Me estranha muito você ficar defendendo ele...

- Não vamos mudar de assunto, Diana. O assunto em questão aqui é você... você bem sabe que o Pedro é o único cara que me faz ir
contra os meus princípios... você é uma idiota, Diana... – zangou-se e acendeu um cigarro.

Naquele momento, o meu celular começou a tocar. Olhei no visor e vi que era o Pedro, mas rejeitei a chamada.

- Aposto que era o Pedro. Vai ficar fugindo dele até quando? – perguntou Betina, parecendo um pouco mais calma.

- Eu não vou fugir. Mas se eu falar com ele agora posso estragar tudo mais ainda. Eu não sei o que me deu, Bê. Tive medo de
encarar a verdade, de descobrir que aquela noite foi um passatempo e só... eu fiquei insegura... – desatei a chorar.
Betina apagou o cigarro e me abraçou. Ela brigava comigo, mas também me consolava. Não sei se chorava mais de raiva de mim ou da Globeleza.

***

- Acho que você me deve uma explicação não?! – era Pedro, parado na porta do meu apartamento.
Olhei para ele, um tanto quanto sem graça e pedi que ele entrasse. Antes mesmo que ele sentasse no sofá, já foi descarregando sua fúria em mim.

- O que deu em você, Diana?! Por que você foi embora do meu apartamento sem me dar explicação? Te liguei o dia todo e você não me atendeu. Acho que eu mereço uma explicação ne? Afinal o que eu te fiz? A nossa noite foi tão perfeita...

- Seja sincero comigo, Pedro. Eu preciso saber da verdade. Você ainda tá saindo com a Kamilla? – perguntei olhando nos olhos dele.

- O que a Kamilla tem a ver com isso? – perguntou ele assustado.

- Fala a verdade. Não muda de assunto. Eu vi as ligações perdidas dela no seu celular e o torpedo que ela mandou para você. Eu não queria atender o seu telefone, mas eu achei que era o meu...

- Foi por isso que você foi embora? – desdenhou ele, rindo e se jogando no meu sofá.

- Isso é tudo. O que ela ainda tem para conversar com você?! – cruzei os braços.

- Diana, me escuta. – disse ele se levantando, pegando nos meus braços e olhando nos meus olhos. – Eu não tenho mais nada com
ela. Acredita em mim.

- E porque ela te ligou? Por que vocês ainda precisavam conversar? Me fala, me diz. – me afastei dele e fiquei andando feito barata tonta na minha sala.

- Eu não vou mentir para você. A Kamilla gosta de mim sim, mas não é dela que eu gosto. Não foi por ela que eu voltei e estou tentando ficar aqui. Quando eu cheguei, a gente saiu para conversar e ela insistiu que a gente tentasse mais uma vez, mas eu não quis... nós somos ótimos amigos, mas péssimos amantes. Você me entende?!

Abaixei a cabeça feliz por ouvir tudo aquilo e um pouco envergonhada da minha atitude infantil na noite passada. Enquanto eu ensaiava para pedir desculpas a ele e pular no pescoço dele, o meu celular começou a tocar. Olhei no visor e vi que era o William. Tudo que eu não precisava naquele momento de reconciliação. Rejeitei a chamada, mas de nada adiantou. O telefone tocava insistentemente.

- Pode atender. Não se incomode comigo. – dizia Pedro.

- A pessoa pode esperar. – eu disse tentando despistar a ligação.

Em vão, o meu celular tornou a tocar e, em seguida, apitou um aviso de torpedo.

- Atende isso logo vai que é urgente ... – disse Pedro pegando o meu celular, olhando no visor e fazendo a pior cara que ele podia fazer naquele momento.

- ‘Estou morrendo de saudades. Quero te ver. Posso subir?’ Acho que quem tem coisas a resolver aqui é você, Diana. O seu peguete está lá embaixo. Eu vou embora.

- Não fica!! Eu não vou deixar ele subir.

- Diana, não seja ridícula. Você está aqui me cobrando, temendo que eu tenha algo com a Kamilla, mas é VOCÊ que ainda não deixou as coisas bem claras para o seu amigo. Não é justo com ele e nem comigo. Se você não quer mais nada com ele, aproveita esse momento e seja sincera com o cara. Não é justo você cozinhar a ele e a mim...

- Pedro, calma...eu posso explicar. Eu não quero nada com ele...

- Quando você tiver certeza disso, você me procura ok? Boa noite. – disse ele cabisbaixo e batendo a porta do meu apartamento.

Que idiota que eu sou!!! Por que eu sempre estrago tudo?! Em meio aos meus pensamentos, o interfone tocou. Era o porteiro avisando que o William estava lá embaixo. Como a merda já estava feita, deixei ele subir.

***

- O que aquele seu amigo especial estava fazendo aqui?! – disse ele me cobrando antes mesmo de entrar.

- Olha aqui, William. O Pedro não é apenas um amigo mais que especial. Ele é o cara da minha vida, entendeu?!

- Que lindo! E quando você pretendia me contar isso?! Ou pretendia me fazer de idiota até eu descobrir?

- Não me venha com ceninhas, William. Você me deixou muito claro que não queria assumir compromisso com ninguém, suas atitudes
sempre demonstraram que o nosso lance era pele...não estou entendendo o drama agora.

- O drama é que esse cara chegou do nada, se enfiou no meio da gente e você não me disse nada?!

- Quero deixar uma coisa muito clara aqui. Quem se enfiou no meio da minha historia e do Pedro foi você. Olha, eu estou cansada de fazer merda. A verdade é que eu e o Pedro somos grandes amigos e ex-namorados.

- Entendi. Bem que o Tavinho me alertou que era melhor eu tirar o meu cavalinho da chuva. Se é assim que você quer, Diana. Eu
bato em retirada.

- Olha, Will, o nosso lance foi legal e tals, mas eu quero mais entende? E eu não posso enganar o meu coração. Eu preciso lutar por ele antes que seja tarde. Você me entende?!

- Diana, eu sou homem. Tenho orgulho próprio. Claro que eu estou puto, mas não quero empatar a sua vida. Só posso te dar o que eu já te ofereci... a escolha é sua!
William me abraçou, tentou um beijo mas desviei o rosto.

- Amigos?! – estendi as mãos.

- Coloridos?! – ironizou William.

- Amigos sem cor, é melhor. – apertei as mãos dele e sorri.

William me abraçou e foi embora. Senti uma parte do meu coração aliviar, mas ele ainda estava muito pesado. Era hora de correr atrás do prejuízo e me acertar com o Pedro.

terça-feira, junho 04, 2013

AQUELA NOITE



POR LETÍCIA VIDICA


- Não repara na bagunça!! – dizia Pedro abrindo a porta do apartamento dele e gentilmente fazendo com que eu entrasse primeiro.

- Bagunça?! Que bagunça? – naquela hora fiquei aliviada por ele ter escolhido o apartamento dele e não o meu. O cara fica meses em Londres e consegue manter uma casa mais limpa que a minha?!

- Tenho que agradecer a Dona Neide. Ela realmente tá fazendo o serviço direitinho...

- Olha, desse jeito eu vou achar que você tá dizendo que está na Inglaterra e se escondendo por aqui hein?

- Não conta para ninguém, mas tem um túnel secreto no meu quarto que sai diretamente em frente ao palácio da rainha Elizabeth – ele soltou aquela risada gostosa e maravilhosa que me derrete toda.

Ao fim da risada, um silêncio. Ficamos nos olhando. Poucos metros de distância. Pedro interrompeu o silêncio sem graça...

- Quer beber alguma coisa? Deixa eu ver... é bem... temos uma deliciosa garrafa de água gelada... agradeça a Dona Neide – disse rindo – mas se quiser eu posso pedir algo para gente... que tal uma pizza? Ou uma comida japonesa? Topa?

- Pedro, não se preocupe. Esqueceu que a gente acaba de voltar de um churrasco? A última coisa que eu estou sentindo neste momento é fome... – pensei alto demais.

Ele me olhou assustado. Acho que também se surpreendeu com meu pensamento. E deu uma risadinha de lado. Derreti.

- Tem certeza? Eu estou bem faminto... – agora era ele quem pensava alto demais. – Se importa se eu tomar um banho rápido? Eu estou cheirando carvão... fica a vontade...volto num minuto – disse ele me dando uma abraço apertado pela cintura e um beijo demorado na bochecha.

Caí no sofá anestesiada. O que ia acontecer? Bem, o que ia acontecer eu sabia... mas como?! Tanto tempo esperando para ficar assim só eu e ele e agora eu não sabia o que fazer. Será que eu vou até o banheiro e me jogo junto com ele embaixo do chuveiro e começamos um sexo selvagem lá mesmo? Será que ele está esperando que eu faça isso? O banho tá demoradinho ne? Será um sinal? Não, não... é loucura. O Pedro não é desses. Mas e se ele quiser ser surpreendido?

- Desculpe, demorei demais? Tinha carvão demais para tirar do corpo ... – era Pedro quem interrompia meus devaneios ao aparecer na sala apenas enrolado em uma toalha na cintura e com o corpo ainda respingado do banho.

Boquiaberta, respirei e tentei me recompor. Por que eu não tinha invadido o banheiro?!

Ao contrário do que eu pensei, ele sentou no sofá ao meu lado daquele jeito mesmo. Colocou os braços sobre os meus ombros e jogou minha cabeça no seu peito. Em silêncio, ele começou a acariciar os meus cabelos e a cheirá-los também.

- Que saudades! – ele disse suspirando.

- Eu também! – concordei ainda embriagada com todo aquele cafuné maravilhoso.

- Saudades desse cheiro, desse cabelo – dizia ele cheirando os meus cabelos – desse rostinho lindo, desse sorriso – seus dedos acariciavam meu rosto – desses lábios...

Emendamos um beijo doce e que foi aquecendo com todo o nosso desejo. Não sei como e onde, mas rapidamente estávamos enroscados no sofá da sala dele, rolando no chão frio da sala dele e sendo carregada nos braços dele para o quarto.

***

- Diz que você vai voltar... – confessei deitada nos braços do Pedro.

- Você acha que eu vim brincar no Brasil? Tudo o que eu mais quero é voltar. E eu vim para que isso aconteça o quanto antes. Mas
e se eu voltar?

- Como assim?! Vai ser a coisa mais maravilhosa desse mundo...

- Tem certeza? Eu não quero atrapalhar a sua vida... interrompendo as suas histórias... eu percebi o clima com aquele cara lá no bar... ele é seu peguete ne?

- Pedro ninguém se compara a você. E eu e o William já não tem mais nada a ver... foi um momento passageiro...

- Um passatempo então? Que bonito!!! – disse ele fechando a cara.

- Você ficou bravo por isso? – me assustei.

Pedro me abraçou fortemente e começou a me fazer cócegas. As cócegas evoluíram para os arrepios e quando nos vimos estávamos mais uma vez entrelaçados.

***

Abri os olhos incomodada com uma fresta de luz que entrava no quarto. Percebi que o dia tinha amanhecido e infelizmente aquela noite maravilhosa estava acabando, mas não tinha sido um sonho. Era realidade. Virei para o lado e percebi que estava sozinha na cama. Levantei, procurei pelo Pedro no banheiro mas ele não estava. Na porta do quarto, encontrei um bilhete caído no chão.
‘Antes que eu te mate de fome, fui buscar umas comidinhas para gente. Volto logo.’ Que fofo!

Fiquei largada na cama dele enrolada nos lençóis, parecendo uma criança, cheirando a cama para guardar comigo ainda mais o cheiro dele e relembrando cada detalhe daquela noite. De repente, um celular começou a tocar. Olhei para o lado e não era o meu. Como o barulho estava insistente, comecei a procurar pelo quarto e encontrei algo vibrando dentro da bermuda do Pedro.

Não sou do tipo que fuça nas coisas dos outros, mas vai que era ele querendo me dar um recado? Peguei o celular e no visor estavam várias ligações perdidas da Kamilla e, na sequência, um torpedo chegara. ‘Lindo, precisamos conversar. Me liga mais tarde. Beijos’

Gelei e emputeci. Como assim? O que eles ainda tinham para conversar? Me liga? Esperaí... onde eu me enfio nessa história? Eram tantas coisas na minha cabeça que a única coisa que consegui fazer foi me arrumar e ir embora do apartamento antes que ele chegasse. Sem deixar nenhum recado...

PAPO DE CALCINHA: E O QUE VOCÊ ACHOU DESSA NOITE?

terça-feira, maio 21, 2013

O RETORNO - PARTE II

POR LETÍCIA VIDICA


- E aí, Diana, vamos ou não vamos? – gritava Betina da minha varanda enquanto acendia mais um cigarro.

- Gente, eu não sei se é uma boa ideia ir a esse churrasco. – eu tentava voltar atrás enquanto retocava a maquiagem no espelho da sala.

- E entregar o bonitão assim de bandeja? Não esquece que a Globeleza vai estar lá hein? – era Lili quem me chamava para briga.

- Eis o meu problema, meninas. Eu não sei se quero comprar essa briga sabe? Talvez seja melhor eu dizer que eu estou com dor de cabeças...daí eu marco algo mais intimista ... só eu e o Pedro...

Antes que eu concluísse o meu raciocínio de desistência, o meu celular vibrou. Era uma mensagem do Pedro. Você não vem? Estou te esperando. Bjs. O apelo foi mais forte e eu não pude resistir. Batom retocado e cabelo arrumado partimos rumo ao churrasco de boas-vindas do Pedro na casa do David.

Fui o caminho toda muda e calada, sem conseguir prestar atenção no que as meninas falavam. Eu estava com o pensamento distante, a barriga revirando com uma invasão de borboletas e as mãos frias e suadas só de imaginar o que me esperava. E se eu descobrisse que o Pedro estava ainda com a Globeleza? E se for para anunciar o noivado deles? E se...?

- Acorda para vida, gatona. Chegamos. Respira fundo, cabeça erguida e simbora pro ataque! – esse era o comando da Betina que empurrava para fora do carro.

Tocamos a campainha e o barulho das vozes indicava que a festa estava bombadinha. Aqueles foram os três minutos mais infernais da minha vida.

- Uauu!!! Tem certeza que vieram na festa certa? A gente merece tudo isso? – era David que abrira o portão e já soltava o seu xaveco de feirante – Pedrãooooo... três preciosidades te procuram. Entrem meninas fiquem à vontade.

Ób-vio que essa entrada triunfal chamou a atenção da galera que ficou olhando para gente. Alguns curiosos e outros com olhares fuzilantes como o da Kamilla que pude perceber à distância.

- Que bom que vocês vieram!!! Achei que tivessem desistido – esse era Pedro, cordial como sempre.

- Eu?! Liliana Bittencour desistir de uma festinha? Jamais!

- Comida, bebida e música de graça estamos sempre dentro – brincava Betina.

- Venham, entrem meninas! – Pedro puxava minha mão e me arrastava salão adentro – Nem preciso te apresentar o pessoal ne? Você já está mais que enturmada. – hello, O QUE FOI ISSO? – Vou buscar uma bebida para vocês.

Demos um oi geral para galera e nos instalamos em uma mesinha. Antes que eu pudesse me ambientar com aquela situação toda, a fofa da Juliana (namorada do David) se aproximou da gente.

- Diana, minha linda!!! Que bom te ver aqui... – ela dizia me dando um abraço daqueles de quem não se encontra há trinta anos.

Apresentei as meninas, enquanto ela foi se sentando na nossa mesa.

- Você está bem? Nunca mais nos encontramos. Você sumiu ne?

Opa, qual foi o capítulo da história que a Juliana perdeu?

- Lindoooonaaaa... que bom te ver! – essa era a Telma que se aproximara da mesa e me dava um beijão na bochecha. – Prazer,
meninas, Telma. Desculpem a ousadia, mas é que eu adoro essa menina. Desde a primeira vez que te conheci... eu falo pro Pedro que você é o melhor que ele podia ter arranjado.

Sorri sem graça, ainda mais porque ele se aproximava.

- Não falei que você nem precisava de apresentações? O que essas moças estão enchendo a sua cabeça aí? – perguntava ele enquanto segurava nos meus ombros. Que mãos!

- Falávamos de você... – alfinetou Betina.

- Eis o problema... pro bem ou pro mal?

- Sempre para o bem. – respondi e pensei alto.

Todos ficaram em silêncio por alguns minutos e o Pedro apertou os meus ombros com mais força como quem agradece pela resposta.
Porém, nosso sagrado silêncio e clima de romance no ar foi quebrado pelo requebrado da Globeleza.

- Ixiiii que burburinho é esse aqui? Diana?! Você ?! Nossa, eu não tinha te reconhecido – dizia ela me dando beijinhos falsos na bochecha e, aposto, esfregando o pandeirão no Pedro. - Olha, eu não quero cortar o clima, mas os meninos estão chamando o anfitrião da festa lá no fundo. Estão querendo começar o samba.

Samba?! Essa humilhação de novo não? Nessa guerra de samba no pé, eu já entro perdendo. Pedro pediu licença e tirou suas maravilhosas mãos dos meus ombros e entrou na casa. Kamiila seguiu atrás.

- Bem aproveitando a deixa, mas e aí, Diana...e você e o Pedro? Voltaram ou ainda estão no chove e não molha? – era Telma que fazia a pergunta difícil de responder.

- Nem sei o que dizer...somo amigos, eu acho. – respondi sem graça.

- Aposto que você voltam... já falei para o Pedro parar de enrolação... – revelava Telma. Opa, o que eles andaram conversando
sobre a gente?

- Olha, eu ainda vou comer esse bolo viu? – era Juliana quem reforçava a tese.

- Eu assino embaixo viu? – Lili completava.

- Se essa minha amiga não fosse tão mole, o casamento saía hoje... – ironizava Betina.

- Não seja por isso, vamos lá agora chamar o noivo...

Fomos freadas pelo David que viera buscar a gente para contemplarmos o samba. E, claro, que quando cheguei a Globeleza já estava dando o seu show no meio da roda. O Pedro batia no pandeiro e revezava olhar entre o couro do instrumento e os meus olhos.
Incrivelmente, a performance da Kamilla não consegui chamar a nossa atenção. Durante aquela uma hora de samba, percebi que a nossa conexão ainda existia e percebi ainda mais o quanto eu gostava dele e o quanto eu queria ele pra mim.

- Pedro, eu já vou indo. – eu me despedia dele enquanto o pessoal guardava os instrumentos.

- Mas já? Fica mais um pouco. Eu te levo para casa.

- Não precisa se preocupar, Pe. Curte a festa. Não quero te apressar.

- Que isso! Será um prazer.

- Se quiser ficar, Diana, eu estou indo para casa do Tavinho – dizia Lili.

- E eu vou me enfiar madrugada adentro numa pilha de processos. – completava Betina.

Diante do circo armado e a cama pronta, fiz o sacrifício de ficar. Pedro prometeu que só ia ajudar a organizar as coisas e já iríamos embora. Enquanto isso, fiquei na cozinha conversando com as meninas.

- Achei que já tivesse ido embora. – era Kamilla que entrara na cozinha. – Vi suas amigas se despedindo no portão.

- Eu ia, mas o Pedro pediu para eu esperar. Ele vai me levar para casa. – alfinetei

- Ah bom.

Percebi que ela engoliu a resposta a seco, mas vibrei por dentro.

****

- Adorei que você veio hoje sabia? – Pedro dizia enquanto entrávamos no carro.

- E por que eu não viria? – ele não precisa saber dos meus vários motivos.

- Verdade não tinha por quê. Bobagem da minha cabeça.

Ficamos em silêncio e nos olhando por um tempo.

- Posso te fazer um pedido? – perguntou ele.

- Claro! – será que eu ia realmente casar hoje?

- Estou com uma saudade do meu antigo apartamento topa ir comigo lá?

- Será um prazer!

- Tudo bem se eu só te devolver amanhã?

- Você me deve isso.

Pedro me olhou, sorriu, se aproximou, colocou os dedos entre os meus cabelos e me beijou. Quanta saudade daquele beijo. Re-selamos ali algo que eu achava que tinha me esquecido, mas que só estava esperando o momento certo para reacender. Partimos.

terça-feira, maio 14, 2013

O RETORNO

POR LETÍCIA VIDICA

- Olha só quem eu encontrei perdido aí na rua!!!

Nos assustamos com a gritaria do irmão que interrompeu o nosso almoço de domingo na casa dos meus pais. Quando levantei os olhos para ver o que poderia ser tão importante assim para aquele alvoroço (bem típico dele por sinal), meu coração parou. Fiquei gelada, depois meu corpo esquentou e meu coração voltou a bater descompassado. Era o Pedro. O perdido na rua era o Pedro que agora estava parado na minha frente e eu não sabia o que fazer.

- Meu Deus, mas que surpresa boa!! – dizia minha mãe dando um beijo na bochecha dele e um abraço apertado demonstrando todo o seu carinho italiano sufocador que ela tinha por ele.- Senta, meu filho, vou colocar mais um prato. – dizia minha mãe nem dando tempo para que ele negasse o convite. Afinal, negar comida em casa era um pecado.

- Tio Pedro!!! – eram os meus sobrinhos pestinhas que se jogavam em cima dele. Tio?! Ninguém avisou essas crianças que ele não é mais tio de ninguém?! Ou será?

Enquanto minha família sufocava o Pedro com perguntas e mais perguntas, entre um olhar e outro que ele me dava, percebi que talvez ser chamado de tio não era um pecado tão grande assim. Talvez ele voltasse a ser. Só sei que eu tive pouco tempo e coragem para dizer algo para ele.

***
- Desculpe a confusão lá de casa. Você conhece bem essa família. – eu dizia no portão enquanto nos despedíamos.

- Que isso, Diana! Você bem sabe que eu adoro a sua família. É quase a minha ne? – disse ele de sopetão, mas logo algo lhe chamou para a realidade – Mas e você? Parece que viu fantasma. Não está feliz em me ver?

- Eu?! Que isso... eu estou muito feliz que você está aqui. Nem parece verdade... – confessei

- Mas é. Estou aqui vivinho e de carne e osso. Olha só.

Pedro me abraçou fortemente e senti meu corpo todo arrepiar dos pés a cabeça. Sabe aquele abraço gostoso de urso que não dá vontade de soltar? Se eu tivesse um cronômetro, eu diria que passamos muitos minutos abraçadinhos, ouvindo nossas respirações e a batida dos nossos corações num beat acelerado.
- Chegou quando? Por que não avisou? – eu disse quando me soltei dele e pousei na Terra novamente.

- E onde fica a surpresa?

Realmente, eu tinha (quase) me esquecido que surpresa era um ponto forte dele. Fazia tanto tempo que eu não tinha uma boa surpresa. Pedro contou que aquela ideia de abrir uma filial no Brasil estava amadurecendo e que ele tinha vindo para cá acertar alguns detalhes. Se desse tudo certo, ele voltaria para o Brasil. Segundo ele, já não dava mais para ficar em Londres. Ele tinha muitas prioridades e pendências por aqui. Onde será que eu me encaixava. Nas prioridades ou nas pendências?

Nos despedimos porque ele ainda tinha que almoçar com a família e percorrer uma via crucis. Mas prometemos de nos ver na semana. Ele jurou de pé junto e dedo cruzado que me procuraria. E selou nossa despedida com mais um abraço de urso apertado e um olhar 43 que estremeceu toda a minha arquitetura.

***

Eu não preciso dizer que passei a semana toda esperando um contato dele ne? Não desgrudava do celular, ficava 24 horas online no Facebook, almoçava no escritório todos os dias para não deixar que o recado caísse na secretária eletrônica e ia para casa pontualmente para não correr o risco do porteiro interfonar e eu não estar lá. Mas já era sexta-feira e, mesmo com todos os meus cuidados, não tinha recebido nenhum sinal de Pedro. Bora jogar a toalha e desabafar com as amigas então. Sexta é sagrada.

- Vocês não vão acreditar em quem voltou? Ou melhor voltou não né... está por aqui. – eu fazia um suspense para as meninas no bar do Pedrão.

- Fala logo, criatura. Sem suspenses. – dizia Lili, a curiosa.

- O Pedro. Ele voltou! Apareceu na casa dos meus pais no meio do almoço de domingo.

Claro que as meninas ficaram passadas e animadas. Foram logo me enchendo de perguntas. O que ele tinha vindo fazer aqui, se a gente já tinha saído, por que eu não liguei para ele e blablabla.

- Calma, gente. Não posso meter os pés pelas mãos.

- Diana, calma?! Esse homem está a quilômetros de distância de você e quando ele volta dando uma esperança de que pode ficar aqui você quer calma?! Melhor cercar o peixe hein. Não esquece que a Globeleza tá solta na parada.

- E você acha que eu não pensei nisso, Betina? Quando ele não me deu nenhum sinal de vida na semana, a única coisa que eu pensava era nisso. Mas tenho que me conter. Eu preciso sentir o que o Pedro quer, se ele ainda me quer, o que eu sou para ele... pra variar, a nossa conversa no portão foi bem enigmática. Ele me tratou tanto quanto uma amiga querida de velhos carnavais ou tanto quanto uma futura amante. Não consegui decifrar.

- Nem precisa decifrar. A resposta vem aí. – dizia Lili.

Mais uma vez, meu coração parou quando olhei para trás e vi o Pedro, lindamente, se aproximar da nossa mesa.

- Ainda bem que nada mudou hein, meninas. Sabia que ia encontrar vocês aqui. Tudo bem?

- Daí que você se engana, meu bem. Tudo mudou. – brincava Betina.

- Senta aí, Pedro. Que ilustre presença. Vamos pedir mais uma para comemorar. – dizia Lili gritando para o garçom.

- Tentei te ligar, mas acho que acabou a bateria do seu celular. Daí, lembrei que hoje era sexta. Dia sagrado para o clube da
Luluzinha. – dizia ele.

- Nossa! É verdade... nem percebi que estava descarregado.- eu dizia ao conferir a tela apagada do celular. Idiota! Tanta precaução para ele te procurar justo no dia que o celular descarrega. Coisas da vida!

- Vai virar cidadão britânico quando? – perguntou Betina.

- Se depender de mim, nunca. Adoro aquela cidade, mas minha raiz é aqui. Não vejo a hora de voltar. – dizia Pedro olhando pra mim. Algum sinal?

- Nós também contamos com isso, não é Diana? – era Betina quem jogava a bola para mim.

- Cla-claro! Acho que já foi tempo demais, não acha? – o que foi isso? Uma cobrança? Que horror! – Mas está dando certo o seu
projeto no Brasil?

- Tudo caminha para isso. Se prepara porque você vai ter que me aturar novamente. – dizia ele passando a mão por cima do meu ombro e me dando um abraço apertado. Corei. E as meninas abafaram os risinhos.

- Mas e vocês, garotas? O que me contam de novo? Casaram, tiveram filhos...

- Estamos longe disso, viu! Pelo menos, no meu script, essas duas palavrinhas não constam. – dizia Betina.

- Aposto que a Lili casou com o Tavinho...

- Ainda não consegui amarrar o bofe...quase! Um passo de cada vez ne? Ixi... falando nele...olha ele aí... ele e o ... William.

Lili gelou quando viu que o Tavinho entrava no bar acompanhado do William. E eu queria me enfiar embaixo da mesa. Tudo que eu menos queria era que o William e o Pedro se encontrassem. Tudo bem que eu não tinha nada sério com o William e nem sabia o que eu era do Pedro, mas esse era um encontro astral que eu não desejava.

- Pedrão!!! Que bom te ver aqui!!! – era Tavinho quem abraçava ele – Quer dizer que voltou e foi logo se infiltrando no clube da Luluzinha? Tá com a moral alta hein?

- Ops, desculpe! Eu acabei me intrometendo na reunião delas. Ei, e aí, tudo bem? – Pedro dava a mão para cumprimentar William que cedeu a mão dele também, mas fez questão de medi-lo e olhar para mim. Atitude desnecessária ne?

Fiquei sentada entre Pedro e William querendo fugir daquele sanduíche nada agradável. Disfarçadamente, Pedro olhava para mim e para o William sentindo que tinha alguma atmosfera diferente no ar. William também me encarava como se eu fosse uma criminosa, mas ainda bem não tomou nenhum atitude do tipo ‘você é minha’. E minhas amigas me salvaram desviando o assunto para coisas banais do tipo futebol, novela, tempo, trânsito e piadinhas. Ainda bem que tenho amigos.

Apesar de não querer, as cervejas que eu tinha tomado falavam mais alto. Não tive escapatória e fui ao banheiro. Me tranquei numa cabine e fiquei lá pensativa. Até que uma voz me chamou...

- Diana, você está com diarreia, morreu aí ou o que? Faz horas que você está dentro desse banheiro. – era Betina.

- Diz que eu estou passando mal. Quando eles forem embora, você me chama. – eu dizia saindo da cabine.

- Para de ser ridícula!

- Ridicula eu?! Ridiculo é o William aparecer aqui pra estragar com a minha festa. O que o Pedro vai pensar? Ele já sacou que tem algo estranho no ar. Eu conheço ele.

- Deixa ele pensar, boba. Tira proveito da situação. Homem gosta de disputa. Aproveite desse desejo mútuo. Aposto que estão excitados para ver quem vai levar você.

- Gente, o que tá acontecendo? Você não voltam pra mesa nunca! – era Lili que chegava. – Diana, perdoe o Tavinho. Ele não tinha como adivinhar que o Pedro tinha voltado.

- Relaxa, Lili. O Tavinho não tem culpa de nada. Vamos voltar.

Retornamos para a mesa e os meninos nos olhavam assustados.

- Tá tudo bem, Diana? – perguntava Pedro carinhosamente.

- Está sim. Acho que bebi um pouco demais. Estava um pouco tonta. Resolvi respirar no banheiro. – menti.

- Quer que eu te leve pra casa? – oferecia William.

- Não se preocupem. Eu vou ficar bem.

Uau! Quanta gentileza! Betina estava certa. Os dois estão numa guerra camuflada acirrada. Mas o Pedro ganha disparado.

Continuamos jogando papo pro ar por mais algumas horas até percebermos, como de costume, que éramos os únicos clientes do bar. Hora de partir. Como o Pedro estava sem carro, me ofereci (claro) para leva-lo em casa. William tentou se enfiar na carona, mas menti pra ele dizendo eu ia passar na casa dos meus pais ainda.

Enquanto Pedro pagava o vallet (gentilmente), William se aproximou de mim e colocou os braços sobre os meus ombros. Gelei e fiquei de rabo de olho para ver se o Pedro ia ver aquela cena.

- Quem é esse cara? – perguntou do tipo de quem quer marcar território.

- Ele é um grande e queridíssimo amigo.

- Tem certeza que é apenas um amigo?

Fui salva pelo carro do Tavinho que chegara no vallet e não tive que responder àquela cobrança absurda. Até que eu saiba o nosso relacionamento fugaz tinha acabado. Pelo menos, eu pensei nisso. William me abraçou e tentou me dar um beijo, mas desviei o rosto disfarçadamente porque o Pedro retornava para perto de mim. William me olhou nos olhos e prometeu me ligar.

- Tudo bem ? – perguntou Pedro ao ver minha cara de espanto.

- Sim, claro. Só com um pouco de frio.

- Não seja por isso. – Pedro tirou o casaco e jogou sobre as minhas costas. E também me abraçou para me aquecer. Tem como desapaixonar?

O carro chegou e ele acabou dirigindo para mim porque eu estava cansada e tinha bebido um pouco demais. Comovido pelo meu estado
– que era de extase ao vê-lo ali tão perto de mim – ele me levou direto para casa, dizendo que não ia me deixar dirigir naquele
estado e que depois pegaria um taxi.

- Bom... vou indo. – dizia ele na porta da garagem do meu prédio.

- Tem certeza que não quer subir? Faço um café e a gente conversa mais.

- Não precisa se incomodar. Você está cansada. Prometo que recompenso depois... falando nisso, podemos nos ver amanhã. Os meus
amigos vão fazer um churrasco de boas-vindas pra mim e gostaria muito que você fosse... se quiser, chama as meninas também.

- Claro. Vai ser um prazer! – cada minuto a mais que eu pudesse passar com ele era sagrado.

- Não quero incomodar. Se tiver outro compromisso, eu entendo. Não quero ficar queimando o seu filme.

- Jamais.

- Ah sei lá... eu vi que o seu amigo, sei lá...não ficou muito contente ao me ver. Afinal, eu não tenho direito de chegar e ir bagunçando sua vida né.

- Você organiza a minha vida ... – pensei alto – Não se preocupe. Eu não tenho compromisso e o William é um amigo.

- Queridíssimo como eu? – que indireta! – Bem, vou indo. Nos vemos amanhã então.

Pedro me abraçou fortemente. Acho até que cheirou os meus cabelos e depois foi embora. Fiquei paralisada vendo ele partir. Tenho certeza que um pedacinho de mim estava partindo com ele...

CONTINUA...

quarta-feira, abril 24, 2013

PRESENTE DE GREGO




POR LETÍCIA VIDICA


- Dona Diana, entrega para a senhora na recepção... – era minha secretária quem entrara na minha sala interrompendo uma divagação sobre um projeto qualquer que eu estava tendo naquele momento.

Entrega para mim? Ué, não estou esperando nada. Mas como a minha curiosidade fala mais alto, me despenquei para a recepção para ver a tal encomenda. No caminho, percebi que não só eu, mas como quase toda a agência já tinha se despencado para a recepção para murmurar e confabular sobre a tal entrega.

- Flores para mim? Mas quem mandou? – perguntei para o garoto magricela que segurava o lindo arranjo de rosas vermelhas. – Cadê o cartão? – indaguei ao vasculhar o arranjo e não encontrar um mísero bilhetinho.

Acho que o rapaz tinha assinado algum tipo de pacto mega ultra secreto que não me revelaria o nome do admirador nem com reza brava. Voltei para a minha sala com o arranjo nas mãos depois de vencer a barreira de curiosos que tentavam adivinhar quem seria o tal admirador ou que achavam que eu estava blefando. Pior é que não estava. Eu não fazia ideia de quem seria a criatura que tinha me mandado aquelas flores. Mas não posso mentir que não fiquei feliz. Afinal, que mulher não gosta de receber flores? Uma velha tática que funciona desde os tempos de Eva.

***

- Recebi flores hoje lá na agência... – eu contava para Lili e Betina em mais um de nossos happy hours de sexta-feira.

- Flores?! De quem?

- Eis a questão, Betina. Eu não faço ideia. O arranjo não tinha identificação. Vasculhei de cima a baixo e não encontrei uma pista sequer.

- Ai, que romântico!! Um admirador secreto!! Ou será um antigo admirador? Será que foi o Pierre?

- Tá maluca, Lili?! Aí que não teria nada de romântico ne? O cara casado e com filho. Demorou, mas parece que o Pierre finalmente se colocou no lugar dele.

- O Pierre eu também não acho, mas e se for o Pedro...

- Lá vem você, Betina, com essa história de novo. Duvido que o Pedro se daria ao trabalho.

- E se for o William?

- Piorou. Isso não faz o estilo dele, Lili. Além do mais, ele tomou um chá de sumiço.

Passamos mais algum tempo a divagar sobre quem seria o tal admirador. Dentre as suspeitas mais improváveis e os motivos mais absurdos e cabeludos que a nossa criatividade (quase) alcoólica conseguia imaginar fui surpreendida com um torpedo. “Espero que tenha gostado das flores. Bjs, Will”.

- Acabou o mistério. Foi o William. – respondi ainda um pouco passada. Ele era a última pessoa que eu imaginava que teria essa reação.

- Que romântico! – suspirava Lili – Hmmm...vai dar namoro hein? Quem sabe ele não inspira o Tavinho porque ultimamente eu não tenho ganhado nem bombom mofado.

- Isso tá cheirando cilada viu? O que ele aprontou para te dar flores? Se liga, hein, Diana. Isso tá me cheirando presente de grego. – era Betina quem me trazia à realidade ou me jogava um balde de água fria.

****

Ficamos mais um tempo no bar discutindo sobre os motivos para tal ato do William e segurando os meus dedos para não responder ao torpedo. As meninas acharam que era melhor eu manter um suspense.
Como o sono já queria me dar um abraço de urso, fechamos a conta e fui para casa. Na porta do meu prédio, fui surpreendida por um certo conhecido.

- Posso subir? – dizia William na janela do meu carro.

- Gostou das flores? – perguntava ele enquanto eu estacionava o carro na garagem.

- O que te deu? Flores para quê? – questionei ainda sob influência da opinião betiniana.

- Nossa! É assim que você retribui a uma surpresa? E tem motivos para dar flores a uma mulher bonita? – dizia ele se aproximando de mim e me espremendo contra o vidro do carro.

Não consegui resistir a essa cantadinha e me deixei influenciar pela opinião Liliana. Porque não viver um romance? Nem sei quanto tempo se passou. Só sei que nos amassamos, nos beijamos e transamos dentro do meu carro mesmo.
E a loucura continuou no meu apartamento madrugada adentro. Eu não conseguia resistir à todo aquele charme e sex appeal.

- Você é um louco mesmo! – eu dizia jogada na minha cama depois de mais uma transa.

- Confessa que você adora as minhas loucuras vai? – dizia ele me beijando.

As nossas semanas de amor duraram bem menos que nove e meia. Foram algumas semanas intensas. Pelo menos, umas três vezes na semana o William fazia plantão lá em casa e a gente fazia a festa.

****

- E aí já virou namoro? – perguntava Lili enquanto fazíamos a unha no salão de cabeleireiros num sábado ensolarado.

- Namoro que nada, Lili.

- E ele te mandou as flores para quê? Para nada?

- Temos que ir com calma ne? E eu não acho que ele queira isso. Outro dia, ele veio com uns papos que não quer se apegar, que é melhor assim e tals.

- Ih! Fica esperta. Te avisei. Ele só quis chamar a sua atenção e marcar território. – completava Betina.

- Mas vocês tem saído?

- Que nada, Lili. A gente só fica quando ele vai lá em casa. Tentei armar alguns compromissos nos finais de semana, mas ele nunca
pode. Acho que a última vez que saímos foi com vocês.

- Comodo demais para ele você não acha? Aparece na sua casa na semana, te come, encontra uma caminha quente, vai embora e no final de semana desaparece?!

****

Será que a Betina estava certa? Resolvi me afastar e observar a relação e as atitudes dele. Não senti nenhuma mudança significativa. William sumia, aparecia quando queria, aparecia de surpresa em casa durante a semana e ainda queria ser recebido com lingerie vermelha e velas!!! O problema é que eu tinha cansado dessa história.

- Oi, gataaaa... – era William que me ligara numa quinta-feira. – Estou pertinho da sua casa.

- Desculpe, Will, mas pode retornar e voltar para a sua casa.

- O que houve? – perguntou assustado.

- Eu não estou me sentindo bem hoje. Não vai rolar.

- Então deixa eu ir aí cuidar de você.

- Estou precisando de ar puro... tá afim de sair para jantar?

- Eu já comi, gata. Mas posso ir te fazer um carinho...aposto que você melhora. – insinuou.

- Carinho?! Obrigada. Preciso mais do que isso. A gente se fala outro dia. Beijos.

Desliguei o telefone e aposto que William ficou sem entender. Ainda deve estar procurando uma resposta, mas eu cansei de facilitar. A Betina estava certa. Aquelas flores tinham sido o maior presente de grego.

- Como anda o garanhão apaixonado? – perguntava Betina em um bate-papo na casa dela.

- Ihhh...em algum lugar que não ao meu lado. Você estava certa, amiga. Foi o maior presente de grego.

- Te falei. Ele queria chamar a sua atenção, mas usou o artifício errado. Se ele só queria te comer de vez em quando, não precisava ter mandado flores ne? Que coisa mais incoerente.

- Vai entender...só sei que canse de ser barranco dos outros. Olha, continuo adorando flores, mas se forem gregas...por favor, não me entregue.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ RECEBEU ALGUM PRESENTE DE GREGO?

sexta-feira, abril 12, 2013

ROTINA




POR LETÍCIA VIDICA

06h30. O despertador toca. Que musiquinha chata! Eu sempre prometo a mim mesma que vou trocar a música do despertador do celular, mas sempre esqueço e só relembro a minha promessa quando ele toca essa musiquinha chata. Ok. Eu já ouvi! Ainda tenho uma folguinha e o soneca vai me acordar. Viro para o outro lado da cama e esqueço da vida. Meu nome, que dia é hoje e que eu tenho que trabalhar.

07h00. Meu Deus! Estou atrasada. O despertador tocou? Eu juro que ativei o soneca. Quase sempre sou surpreendida por isso também. Levanto correndo, tropeçando nos meus passos e zonza de sono. Corro para o chuveiro. Tudo tem que ser milimetricamente calculado, mas todo dia é sempre igual.

Depois do banho, começa a saga da roupa. Eu tenho costume de pensar na noite anterior o que vou vestir no dia seguinte. O problema é que, quase sempre, no dia seguinte eu nunca acho alguma peça que eu escolhi. Ai, meu Deus, cadê aquela camisa? Eu jurava que eu vi essa bendita aqui no meu guarda-roupa. Desmonto o meu armário inteiro. Peça para lá, peça pra cá e nada de achar a tal da blusa. Até que algum anjo me faz lembrar que ela está para passar.

Caramba! Quase 8h. Cama desarrumada, guarda-roupa revirado (mais um sinal de que preciso parar esse final de semana para arrumá-lo). Sem escolha, visto uma roupa qualquer. Ai, não estou me sentindo bem, mas o relógio me olha feio e diz em alto e bom som que não temos tempo para sentir nada. Ops! Mas essa bolsa amarela não está combinando com a minha blusa. Rapidinho passo as tralhas, carteira, papel, guarda-chuva e tudo o mais de uma bolsa a outra.

Em direção à saída do meu apartamento, organizo uma coisa e outra pelo caminho. Pego um iogurte na geladeira para beber elevador abaixo. Falando em elevador, é um inferno espera-lo de manhã. Horário de pico no prédio. Congestionamento nos andares. Inquieta, aproveito para ir desembaraçando o meu cabelo e adiantar a maquiagem que, por conta do meu atraso, nunca consigo fazer com calma.

Minutos intermináveis depois, o elevador chega e sou surpreendida por quase todo o meu prédio que me olha espantado ao me ver passar o rímel. Disfarço e procuro um espaço naquela sardinha ambulante. Como não sou de muito papo pela manhã, esboço apenas um sorriso para não parecer antipática. Sempre bom manter a política da boa vizinhança, mas tem sempre um abençoado bem humorado que fala pelos cotovelos assassinando o silêncio tão precioso das manhãs.

****

Simbora enfrentar a parte mais saborosa do meu dia: o congestionamento. Ligo o rádio numa estação que toca notícias e nada mais deprimente do que ser bombardeada de informações sobre quantos morreram na noite passada, sobre mais uma promessa política (que jamais será cumprida), sobre mais um acidente e sobre mais um dia de quilômetros e quilômetros de congestionamento. Daí, começo a pescar uma estação e outra pelo rádio. Paro sempre naquela que costuma tocar nos consultórios de dentistas. Uma musiquinha mais leve para começar o dia. Quase sempre são sempre as mesmas músicas, mas cantarolo mesmo assim.

Anda. Para. Acelera. Para. Dá a seta! Tirou carta à distância? Tento ser calma no trânsito, mas a folga das pessoas me transforma. E é assim durante uma hora e meia de pura diversão no trânsito. Aproveito para dar uma olhadinha nas minhas redes sociais, consultar e responder os e-mails da empresa que já lotam minha caixa postal e atender sempre uma ligação de alguém da agência avisando sobre uma reunião surpresa. É de propósito. Por que as reuniões surpresa só acontecem quando eu estou atrasada?!

***

Ainda bem que posso me dar ao luxo de abandonar o meu carro com o manobrista. Se não o meu atraso seria maior. Desço correndo, cumprimento o seu João educadamente que sempre elogia as minhas roupas (mesmo no dia que me sinto a pior das mulheres). Pareço política cumprimentando Deus e o mundo até chegar ao elevador e tentando achar o meu crachá na bolsa (que sempre se perde no triângulo das bermudas que existe dentro delas).

O mesmo congestionamento do elevador meu prédio, também enfrento no meu trabalho. Mas aqui não são minutos intermináveis. São anos. E subir de escada é inviável: eu trabalho no 30º andar. Ufa, chegou! Bem na hora que meu celular toca e posso ver que é alguém da agência me ligando. Ignoro a ligação e rezo para que subir 30 andares seja rápido. Sempre alguém repara a minha pressa e é sempre algum parente do meu vizinho abençoado que desata a conversar. Será que não dá para perceber que eu estou atrasada demais para conversa?!

***

Entro na agência desesperada, mandando bom dias coletivos. Jogo minha bolsa na minha sala e minha secretária já me acompanha relatando todas as ligações, missões e me alertando sobre o bom humor do chefe. Dou uma paradinha e uma respiradinha inspiradora na porta da sala de reuniões e entro com o meu melhor sorriso de comercial de creme dental. Cumprimento a todos, finjo ignorar a cara de diarreia do meu chefe e sua olhadinha sutil para o relógio (como quem me cobra pelo atraso). Coloco a culpa no trânsito e ganho a maioria que também desata a reclamar como o trânsito dessa cidade está cada dia mais caótico.

Depois de estabelecida tento me concentrar. É mais uma daquelas reuniões que começam no café da manhã e só terminam no jantar. Discussões, estabelecimento de metas, cobranças, cobranças e mais cobranças. Conclusão: quase sempre nenhuma. Mas todo mundo finge que entendeu e sai com cara de paisagem.

Como a reunião me consome quase toda a manhã, a velha e boa saída para o almoço é um lanchinho rápido. Aproveito para comer na minha mesa mesmo enquanto respondo aos trilhões de e-mails que lotam a minha caixa postal. Entre um email e outro, uma ligação da minha mãe para contar mais um problema de casa (ou melhor, mais uma que meu irmão aprontou), outra ligação da Betina marcando algum happy hour para a semana, uma ligação da Lili choramingando pelo Tavinho e sempre finalizo com uma ligação do meu chefe chamando para mais uma reunião. Dessa vez, uma videoconferência. Haja, reunião. Que tanto as pessoas gostam de se reunir?

Mais uma tarde inteira afogada em uma reunião. Resultado: vou sair mais tarde do trabalho. Até porque acumulei várias coisas que a tal reunião não me deixou fazer e tenho que entregar o esboço de uma super campanha que acaba de ser criada nessa reunião.

***

21h30. Afogada e concentrada em trabalho sou interrompida pelo silêncio na agência. Meu Deus! Com toda a educação, a faxineira entra na minha sala e pergunta se não me incomodo se ela limpar por ali. Hora de ir para casa.

A única vantagem da volta é que vou fugir do congestionamento do elevador e das ruas. O trânsito é outro. E, no meio do caminho, meu estômago anuncia que a última refeição que fizemos foi o almoço. Hora de comer. Ops! Lembro que a geladeira está vazia. Bora parar no supermercado para fazer umas comprinhas rápidas.

... rapidez que dura quase uma hora e meia. Aproveitei e fiz logo a comprinha do mês e proporcionei um rombo na minha conta quando vejo o total na telinha do caixa.

23h30. Chego em casa acabada e mergulhada em sacolas. Preparo um lanchinho e me jogo no sofá, mas não posso me dar ao luxo de dormir porque tenho um projeto para terminar. Mergulho minha carinha e minha mente (nada) criativa a essa altura da noite na frente da telinha do meu notebook e entro madrugada afora.

02h30. Não sei mais o meu nome, quem eu sou e o que estou fazendo acordada àquela hora. Projeto finalizado. Me jogo no chuveiro para tirar a sujeira e o cansaço do dia. Sou levada pelo meu corpo inconsciente para a cama e apago. Amanhã, 06h30, começa tudo de novo e vai ser sempre assim.

PAPO DE CALCINHA: TODO DIA É SEMPRE TUDO IGUAL PARA VOCÊ? QUAL É A SUA ROTINA?

quarta-feira, março 20, 2013

A PRINCESA E O SAPO




POR LETÍCIA VIDICA

- Nossa, que cara inchada é essa? O que aconteceu?

Minhas amigas me flagravam com os olhos inchados e vermelhos.

- Quem fez isso com você? Aposto que foi o William.

- Não, Lili... – respondi com a voz ainda um pouco embargada - ... eu estava assistindo um filme.

- Meu Deus! Que filme é esse? Fala o nome aí para eu não assistir. – zombava Betina, enquanto colocava as bebidas em cima da mesa do meu apartamento.

O culpado pelo meu choro tinha sido a Fera. Mais especificamente, “A Bela e a Fera”. Pela quinquagésima vez, eu assistia ao desenho (o meu favorito) e, pela quinquagésima vez, eu chorava no final. Era sempre assim.

- Conta outra, Diana. Você estava chorando por causa de um desenhinho da Disney? – respondeu Betina enquanto me oferecia um copo de vinho.

- Que insensível, Bê! Não liga para ela não, Diana. Confesso que eu sempre choro quando assisto ao Rei Leão.

- Eu sei que eu pareço uma boba, mas esses filmes deviam ser proibidos para mulheres solteiras maiores de 30. Ou, melhor, tinham que ser proibidos para garotinhas. É tudo uma mentira! Esse lance de final feliz, de príncipe encantado... a realidade é bem outra viu? – eu desabafava.

- Tá explicado! Vai dizer agora que a culpa de estar assim é do pobre do Walt Disney?! – zombava Betina.

- Claro! Foi ele que colocou em nosso inconsciente essa história de sapo que vira príncipe, de príncipe que chega de cavalo branco, sobe nas nossas tranças, procura uma eternidade pela dona do sapatinho de cristal... e cadê a PORRA desse príncipe que a gente espera, espera e nunca aparece?! Claro! A gente passou a infância inteira enganada e achando que um dia iria morar num castelo.

- Não exagera, vai? Acho que você está bem crescidinha para não cair mais nessa de contos de fadas. – dizia Betina.

- Concordo com a Diana. A gente está bem crescidinha sim, mas não está preparada para cair do cavalo. Isso sim. Hoje em dia, minha filha, só tem sapo que não vira príncipe. – completava Lili.

- ... e príncipe que vira sapo! Tá um brejo só. – eu ria.

- Amadas, somos princesinhas do século 21. Livres, donas de si, independentes, autossuficientes... eu que não queria ser uma princesa da Disney. Que coisa mais chata! Imagina só ficar uma eternidade trancada numa torre, esperando um príncipe para me libertar?! Aposto que a Rapunzel de hoje, iria rodar a baiana, fazer logo um rapel, fugir da torre e ir azarar em Las Vegas. – ria Betina. – Prefiro a Cinderela...essa sim foi transgressora... deu o bote nas irmãs, fugiu para baladinha e ainda arrumou um príncipe. E deixou o bobo atrás dela um tempão. Tá aí. Gostei da Cindy.

A essa altura da nossa filosofia principesca, eu preciso dizer que já tínhamos entornado umas duas garrafas de vinho? Mas essas são as melhores horas para filosofar.

- Eu queria bem ser a Branca de Neve... – filosofava Lili.

- Jura?! Sua cara...rodeada de homens...sete, ainda por cima. – zombava Betina.

- Ai, eu acho que estou mais para Bela Adormecida, esperando o príncipe me acordar com um beijo. – eu disse me jogando no sofá e deixando o pensamento vagar.

- Hmmm...senti uma certa nostalgia no ar... e o William?

- Esse daí está longe de ser meu príncipe encantado. É um aprendiz de príncipe. Ou, melhor, um sapinho tentando uma coroa ... ah, sei lá, eu não sei qual é a dele. Ele liga, depois some, depois aparece... às vezes, me sinto um drive thru sabia? Vem, pega o lanche, come a sobremesa e vai embora em menos de 20 minutos.

- Drive thru?! – ria Lili – essa é muito boa!!! Amiga, você bem sabe que o William não quer nada da vida... ele só quer se divertir... não encana nele.

- Eu sei. O problema é que eu estou começando a cansar de me divertir. Eu conheço esse script direitinho. Um mar de rosas no começo e depois desilusão. Não sabe o que quer, não era bem isso, não está preparado para se envolver... e o pior de todos os crimes... não tem atitude. Ai que saudades do Pedro!!! Pedro, cadê você?! – acho que nessa hora eu gritei um pouco mais alto. Quem sabe ele não me ouvia na Inglaterra?

- E ele?

- Outro desaparecido, Betina. Depois do último telefonema, não nos falamos mais. Esse sim é o meu príncipe sabe?! Tem seus defeitos, eu sei. É confuso, cheio de dúvidas, mas por ele eu ficaria presa na torre por uma eternidade. – suspirei.

- Você não ficaria presa. Você já está, Diana. Ou acha que engana alguém? – era Betina quem me trazia a realidade.

- Pode até ser, mas enquanto ele não vem, eu tenho que aproveitar com os sapinhos mesmo né?

Não sei até que horas ficamos a divagar sobre princesas, príncipes e sapos encantados e desencantados, cavalos brancos, castelos e finais felizes para sempre. Afinal de contas, sonhar é sempre bom ne? Vai que vira realidade.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ ACREDITA EM PRÍNCIPE ENCANTADO? ACHA QUE, HOJE EM DIA, TEM MUITO MAIS SAPO DO QUE PRÍNCIPE? SE A SUA VIDA FOSSE UM CONTO DE FADAS, QUAL SERIA O SEU?

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

ESTILO MULHERZINHA



POR LETÍCIA VIDICA

- Aleluia! Até que enfim, vocês chegaram!!! Eu já estava faminta!!! – resmungava Lili ao ver eu e o William chegarmos na pizzaria. Aquela era mais uma noite de encontro de casais em mais um restaurante descolado de algum amigo V.I.P de Liliana Bittencourt.

- Desculpe, meninas! A culpa foi totalmente minha. Tive uma reunião de última hora no trabalho e me atrasei para pegar o William em casa. – eu dizia me desculpando enquanto ia puxando minha cadeira para sentar.

- Achei que o Will iria te pegar no trabalho. – questionava Betina.

- Eu insisti para isso, mas vocês conhecem a cabeça dura da amiga de vocês, né? – desabafava William.

- Eu já falei mil vezes que era meu caminho, qual o problema de pegar você? – respondi ríspida cansada daquela discussão repetitiva.

- Vamos logo pedir essa pizza? Meu estômago já está no pé. – ralhava Lili.

- Vai querer do quê, gatinha? – perguntava Tavinho para Lili.

- Ah, sei lá...pode escolher! A que você quiser, meu bem. – respondia Lili com voz mansa, nada parecida com o monstro faminto de alguns minutos atrás.

Dudu também perguntou para Betina qual pizza ela preferia. Para minha surpresa, ela também respondeu com a mesma voz mansa da Lili. Nada familiar para a Betina, ainda mais quando se trata de decidir alguma coisa. Eu, logo emendei, que eu queria uma portuguesa para dois e dois chopes gelados. Para quê tanta enrolação?

Enquanto esperávamos a pizza, fugimos para o banheiro para confraternizar. Na verdade, senti que eu ia levar algum tipo de sermão, mas até então ainda não sabia bem o por quê.

- Vocês estão doentes ou é algum tipo de complor? Que papelzinho é aquele de vocês duas na mesa? Me estranha muito te ver fazendo doce, Betina. – eu questionava enquanto retocava a maquiagem no espelho.

- Acho bom ficar bem na sua, Diana. Você que não se cuide não porque o seu mar não está para peixe... – cutucou Betina.

- Não estou entendo onde vocês querem chegar. – cruzei os braços com sinais de irritação.

- Hello, amiga! Que história é essa de VOCÊ ir buscar o William?!

- E qual é o problema nisso?! – perguntei sem entender.

- O mesmo problema de você ir pedindo a pizza de vocês, não esperar ele puxar a sua cadeira e outros mais... afinal quem é o homem dessa relação?

- Gente, é claro que ele é o homem. Que papo mais estranho!!! – bufei.

- Diana, você está tomando as rédeas de tudo isso. Você não percebe mas você age como o homem da relação. Deixe o Will sentir que
tem alguma utilidade na sua vida. Se você fizer tudo, qual a importância dele ao seu lado? – era a Betina que transformara aquele banheiro no meu mais novo divã.

- Faça o estilo mulherzinha, baby! É claro que eu sei que eu quero uma pizza bem suculenta de marguerita, mas prefiro bancar a indecisa e deixar o Tavinho decidir por mim.

- Não sei, gente. Acho que vocês estão exagerando!!! Não vejo problema nenhum em tomar algumas decisões. Onde fica aquele papo todo de mulher moderna?

- Depois não diga que avisamos hein?! Ou você muda agora ou pode ser tarde. Daí, não adianta cobrar o coitado. Faça o teste.

Voltamos para a mesa e os rapazes não estavam com cara de bons amigos. A pizza já tinha chegado e, gentilmente, eles nos esperavam para comer. Com exceção do Will que já devorara o terceiro pedaço da pizza portuguesa. Já seria uma consequência da minha tomada de decisões? Estranhei, mas preferi não encucar naquele momento.

Ao final do jantar, nos despedimos. As meninas cada uma seguiu no carro de seus respectivos e eu esperava a chegada do meu no vallet abraçada ao Will.

- Lindo, leva o carro para mim vai? – eu dizia com voz doce, começando a fazer o bendito teste.

- Não dá, gata. Leva você. Você quem trouxe! E outra eu bebi um pouco demais.

- Credo! Você bem podia ter pensado em mim e maneirado na bebida. Agora você me levaria para casa dirigindo ne? Eu estou tão cansadinha. – acho que fiz até biquinho.

- Eu insisti para te trazer e você não quis. Agora, não adianta chorar. E não faz doce porque não combina com você.

Nossa!! Que tapa na cara!!! Eu podia ter ido dormir sem essa, mas o que eu iria responder? Era a mais pura verdade. Perdi todo o tesão que eu tinha guardado para aquela noite, inventei uma enxaqueca, deixei ele em casa e segui para a minha bem pensativa. Será que as meninas estão certas? Estou sendo machona demais? Mas será que eu consigo bancar a mulherzinha? Não tinha outra escolha a não ser fazer o teste.

****

A primeira iniciativa que tive foi inventar um pneu furado no meio da semana e gritar socorro para o William vir me buscar. Resultado: ele recomendou que eu pedisse ajuda ao porteiro do prédio ou chamasse a seguradora. Além disso, ele não poderia vir me buscar porque estava sem carro. E custava dizer que ia pegar um taxi e me acompanhar até em casa porque era perigoso uma dama sozinha à noite? Que falta de cavalheirismo!

Na segunda tentativa, liguei para ele do bar do Pedrão pedindo para ele me buscar. Ele estava ocupado demais e pediu para eu voltar com uma das meninas.

Na terceira e última, saímos para jantar e ele não puxou a cadeira para mim, foi logo pedindo o nosso prato e achou que era frescura minha não saber o que queria comer.

- Eu desisto, meninas! Eu não nasci para bancar a mulherzinha. É muito difícil e o Will não está acostumado com esse tipo de mulher. – eu desabafava em mais um happy hour na mesa do Pedrão.

- A culpa é sua. Você acostumou ele com esse seu estilo de mulher-independente-resolve-tudo que agora ele não te leva mais a sério. – dizia Betina.

- Mas talvez eu realmente não seja esse tipo ou talvez eu não queira. É difícil demais para mim. Eu me rendo!!!

- Não desiste, amiga. Não é fácil para ninguém, mas tem hora que a gente tem que bancar a fragilizada para fazer os homens enxergarem que eles tem uma função na relação. Se não, é a gente que começa a conduzir tudo. Quando o Tavinho começa a folgar demais, eu me esqueço até como se abre uma lata de sardinha.

Rimos com a declaração da Lili. Minhas amigas estavam certas. No fundo do fundo do meu estilo mulher-independente-resolve-tudo, eu quero um homem com uma capa vermelha nas costas com superpoderes que apareça na hora que eu mais preciso e que cuide de mim. E que, acima de tudo, me faça sentir uma mulherzinha sim! Um homem com superpoderes que veja uma mocinha em mim e não a mulher maravilha que resolve tudo sempre.

O problema é que na falta desses super-heróis, eu tive que vestir a roupa da She-Ra e desfazer desse papel da noite para o dia é bem difícil. Ou não? Será que eu gosto de ser a She-Ra? Afinal de contas, ela se entende com o He-Man ne?

Olha, amigas, essa história não tem fim. Nem adianta eu terminar. Estou até hoje na luta entre ser mulherzinha e mulherzão. Ainda estou na opção entre ser uma e outra dependendo da situação e do super-heroi que tenho ao meu lado.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ ACHA QUE BANCAR A MULHERZINHA DÁ CERTO? GOSTA DE SER A MULHERZINHA? PARA VOCÊ, OS HOMENS GOSTAM DESSE ESTILO?

terça-feira, janeiro 22, 2013

A REGRA DO JOGO


POR LETÍCIA VIDICA


- E aí, Diana, algum sinal de vida do gato tarado? – perguntava Lili em mais um de nossos happy hours no bar do Pedrão.

- Podem me chamar de burra... burra, burra é isso que eu sou! – eu afogava as minhas mágoas num chope – Coloquei tudo a perder. O William tomou chá de sumiço isso sim.
Faz mais de uma semana que ele não me procura e não dá sinal de vida.

- Ainda bem que você sabe o que fez. – preciso dizer que era a Betina quem falava?!
– Mas isso faz parte da regra do jogo.

- Regra do jogo?! Lá vem você com suas teorias. – eu bufava. O que eu menos queria naquela noite era mais um dos sermões da Betina e ter que admitir que ela estava certa, mas foi em vão...

- Essa eu quero saber... que tal de regra é essa? – interessou-se Lili.

- Enquanto a Diana estava dando uma de durona, de difícil... o gatinho estava de quatro... é do tipo de cara que gosta de ser motivado pelo que é mais difícil, mas foi só você vir com esse papinho de carência, de que quer algo mais e pum! O gato subiu no telhado... perdeu a graça... é simples assim... essa é a regra do jogo. O negócio é ser durona.

Será que a Betina estava certa? Eu não tinha obedecido a essa tal regra do jogo? Bela amiga, hein? Por que não me ensinou isso antes? Mas, independente de regras, tudo que eu mais queria era ouvir a voz do William e, confesso, sentir aquele corpo sobre o meu também.

- Bom dia, seu Tomás! Alguém procurou por mim? – eu investigava ao chegar ao prédio da agência.

- Bom dia, dona Diana! Ninguém procurou a senhora não.

- Tem certeza? Nenhuma carta? Ninguém diferente perguntando por mim? – perguntei desapontada.

- Nadinha, dona. – respondia ele criterioso.

Subi o elevador até minha sala bem desapontada. Saudades do dia em que o William deu plantão na porta do meu prédio e eu ainda fiquei puta ... que idiota!!! Mas como a esperança é a última a morrer, entrei na agência na expectativa de encontrar um telefonema perdido.

- Bom dia! – disse para a minha secretária – Alguém me ligou?

Suei frio e meu coração descompassou, enquanto ela listava os nomes intermináveis de quem tinha me ligado, mas nenhum era o William.

- Algum William me ligou? – insisti.

- Não me recordo desse nome não.

- Tem certeza? Algum recado na secretária eletrônica?

- Não. Eu anotei todos. Mas se ele ligar...

- ... passe imediatamente para a minha sala. Pode me interromper. Eu autorizo.

Passei o dia todo trabalhando na expectativa de um telefonema, um torpedo, um whatsapp, uma mensagem inbox, um sinal de fogo ou fumaça. Porém, terminei o dia sem nenhum deles. Fui para casa bem decepcionada e querendo bater na minha própria cara. A teoria da Betina parecia se confirmar. Nada de William no hall ou na frente do prédio, nem na porta do estacionamento, nem na porta do meu prédio, nem na porta do meu apartamento e, muito menos, na minha cama.

****

Ligar ou não ligar, eis a questão! Era o pensamento que me consumia deitada em minha cama encarando o visor do meu celular. Ah, quer saber? Eu vou ligar... seja o que Deus quiser.

Tum, tum, tum... a sua mensagem será encaminhada para a caixa postal.

Droga! É um sinal divino. Não vou ligar. Ah, mas vai que estava fora de área?

Tum, tum, tum...


- Alô?

Estremeci quando ouvi a voz dele do outro lado da linha.

- Oi, Will-William, tudo bem? É a Diana.

- Oi, gata, tudo bem? – respondia ele como se nada tivesse acontecido. Parecia até que tinha acabado de sair da minha cama.

- Tudo...liguei para saber se está tudo bem com você.

- Tô bem sim. Posso te ligar daqui uns dez minutinhos? Só estou resolvendo uma pendência aqui e já nos falamos. Espera que eu vou ligar hein? Beijos.

Dez minutinhos? Sei. Até parece que vai ligar e até parece que eu vou esperar né? Pendência? Sei. Uma pendência loura de olhos azuis. Aff!

.... trinta minutinhos depois e nada. Eu já estava babando na minha cama. Ligo de novo?! Vai parecer que sou uma carente chatonilda necessitada. Um torpedo, acho que não pega mal né? O que eu escrevo?

“Oi, William, tdo bem? Se qzer, pode ligar. Ainda estou acordada. ((( NÃO! APAGO )))” Melhor ser mais informal. “Oi, gatinho, saudades. Qdo der, me procura ((( NÃO! APAGO)))” Muito meloso e carente. Melhor ser mais formal mesmo e objetiva. “William, precisamos conversar. Me liga! ((( NÃO! APAGO ))) Nem eu ligaria para mim. Por fim... “Tenha uma ótima noite, bjs, Di”. Enviado.

Tenho que confessar que ainda esperei mais duas horas, entre piscadas e sonecas, mas ele não retornou e nem respondeu ao torpedo. Saiu pela culatra. A Betina estava certa.

****

- Que ânimo, hein, amiga! – dizia Lili enquanto tentavam me convencer a ir comer pizza na casa do Tavinho. – Bora, levantar esse astral!

- Tá difícil. Podem ir, meninas. Eu não estou no clima. Vou ficar por aqui mesmo.

- Isso tá me cheirando William, hein? – dizia Betina. – Ligou para ele ne?

- Semana passada. Atendeu, disse que retornaria em dez minutos e estou esperando até hoje. Você, mais uma vez, estava certa amiga. Caí no conto da tal regrinha. – eu respondi desolada.

- Não dê ouvidos para tudo que essa terapeuta barata diz. Bora se trocar e dar umas paqueradas. Já tá na hora de trocar de amigo e hoje vai ter vários novos por lá. –
Lili me empurrava até o quarto para me trocar.

****

Não tive muita escapatória e, quando dei por mim, estava na casa do Tavinho. O apê estava bombando. Mais um pouco, caía gente da sacada. Realmente, tinham vários gatinhos novos, mas eu não estava afim de olhar para nenhum. Peguei minha caipirinha e sentei num canto do sofá. Três caipirinhas depois e ouvi uma voz familiar entrando na sala. Arrepiei quando vi que era o William.

Ao me ver, ele abriu um largo sorriso, abaixou o rosto e me deu um beijo... na bochecha!! Murchei! Cadê aquele tesão todo? Depois, virou as costas e se infiltrou no meio da homarada. A minha vontade era sair correndo dali, mas eu tinha que tirar aquela história a limpo. Tá na chuva é para se molhar.

- Esse homem é um pedaço de mal caminho né? – comentava uma morena sentada ao meu lado que, até então, eu não tinha notado.

- Quem?! – perguntei desbaratinando.

- Esse William. Eu acho ele o maior gato. Tem uma amiga minha que tem um trelelê com
ele e diz que ele é tudo de bom na cama.

- Deve ser mesmo... – respondi ainda meio passada – E a sua amiga... está aqui?

- Não, ela não pode vir. Mas pediu para eu ficar de olho no gatão. Tarefa difícil ne? Quer mais uma caipirinha, amiga? Eu vou buscar.

Era tudo que eu precisava ouvir àquela altura. Uma confissão sexual de uma amiga de uma peguete do William. Estava mais do que na hora de partir para o tudo ou nada. Percebi que ele bebia sozinho na varanda e me aproximei.

- Fugindo de mim? – ataquei com uma voz doce.

- Oi, gata! – respondeu ele colocando os braços sobre os meus ombros. – Eu? Jamais. Por que eu fugiria de você?

- Não me procurou mais. Disse que ia me ligar e nada... tá tudo bem?

- Está tudo ótimo. É que eu estou com umas pendências aí... – coçou a cabeça.

- Sua mãe adoeceu de novo?

William me olhou sem graça e logo baixou os olhos.

- Pode ser sincero, vai. Fala, eu estou preparada. Não quer mais ficar comigo, é isso? Enjoou de me comer? – era o álcool falando mais alto. – Tem outra na parada?

- Diana... – puxou meus braços e me olhou profundamente nos olhos – Não é nada disso. Você é espetacular. Eu jamais enjoaria de você. O problema sou eu. Eu não estou preparado para assumir o que você quer agora... agora não dá para mim... se quiser um lance informal, como a gente tava levando... tudo bem... mas eu não sou o cara para você, entende?

Ele estava sendo sincero de verdade? Agarrei ele e o beijei na varanda. O beijo já não era o mesmo.

- Já sei. É a regra do jogo. Eu me rendo. Tudo bem. Um lance informal? É isso que você quer?

- É o que dá para ser... topa?

- Acho que não vale a pena. Deixa quieto, gato. – virei as costas com cara de durona e fiz o teste da regra do jogo.

Cruzei a sala disfarçadamente, peguei minha bolsa e saí sem que as meninas percebessem. Chamei o elevador e, quando a porta já ia se fechar, ouvi uma voz. Era William que chegava desesperado.

- Retiro tudo que eu falei.

A porta do elevador se fechou e ele me deu um daqueles beijos de tirar o fôlego, me empurrou contra a parede e nos atracamos no elevador. Não é que essa tal de regra do jogo tinha funcionado mesmo?! Se eu tivesse entendido isso mais rápido, não tinha sofrido tanto. Do elevador seguimos para a casa dele e, daí, o final você já sabe.
Confesso que ele não é o meu ‘algo mais’, mas é o que tem para hoje. E, se com ele tem que ser assim, custa nada arriscar.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ CONCORDA COM ESSA REGRA DO JOGO? ACHA QUE ELA REALMENTE EXISTE? JÁ FEZ O TESTE? PARA OS HOMENS: É ASSIM MESMO QUE FUNCIONA? QUANTO MAIS DIFÍCIL MELHOR?