terça-feira, julho 31, 2012

SESSÃO DESAPEGO


POR LETÍCIA VIDICA

- É hora de desapegar, Diana! – dizia Jane, a minha terapeuta, com sua calma infernal e sua voz professoral.

Foi para isso que eu usei o limite do meu cheque especial e retornei ao divã (mesmo depois de uma falsa alta dada por ela – acho que ela não aguentava mais me ouvir -)?! Para ouvir que é hora de desapegar?! Legal, mas fiquei com cara da panza esperando a tal receita para o desapego. Mas a olhadinha para o relógio era um sinal de que a minha sessão tinha terminado depois de passar uma hora (que mais pareceu um minuto) desabafando sobre o último fora que levei do Pedro e sobre como retomar a vida amorosa novamente. Resultado foi esse singelo conselho da minha terapeuta.

Como ela não me passou a receita e nem alongou nossa conversa freudiana e jungiana, saí do consultório com cara de marmota. Desapegar, desapegar, desapegar... foi o que a Jane mais repetiu naquela sessão. Só esqueceu de dizer como fazer isso. Só um chocolatinho quente no frio daquela noite para me fazer relaxar.

Banho tomado, chocolatinho bebido, rango devorado e sono perdido. Quase meia-noite e eu não conseguia pregar o olho e, além do mais, eu estava elétrica. Seria capaz de correr uma maratona. Algo me incomodava, mas eu não sabia o quê. Nada na tevê para assistir, nenhum vizinho para espionar da varanda e vontade zero de sair. Me joguei na cama.

Percebi que tudo naquele quarto, naquele apartamento me incomodava. As cores, a disposição dos móveis, tudo mais do mesmo. Abri o meu guarda-roupa e as roupas quase caíram em mim. Estava uma zona. Resolvi começar a arrumar. Que mal tem em fazer um faxininha geral em plena madrugada? Apesar da minha vontade ser a de tacar fogo em tudo e chamar o Luciano Huck para um ‘lar doce lar’, apelei para a realidade e comecei a arrumar apenas o meu guarda-roupa afim de me livrar de algumas pecinhas e abrir um pouco mais de espaço.

No meio da bagunça, entre montes de roupas velhas jogadas no chão prontas para o descarte e no encontro de outras esquecidas num canto qualquer do meu guarda-roupa, encontrei uma caixinha vermelha. Era o meu baú de lembranças. Eu já nem lembrava mais que guardava aquilo.

Parei a arrumação e comecei a fuçar na caixinha. Me surpreendi com tantas memórias. Encontrei o meu primeiro (e último) diário. Reli algumas páginas e vi que ainda sou a mesma boba apaixonada que ainda sonha em encontrar um príncipe encantado. Me surpreendi com uma foto da turma do colegial em um churrasco de formatura num sitio.
Nossos sorrisos descompromissados refletiam a nossa responsabilidade zero e a gente ainda nos julgávamos estressados e sobrecarregados!!!

Em meio as papeladas, encontrei uma foto minha e do Pedro abraçados quando éramos adolescentes. Nessa hora, me bateu uma saudade imensa dele. A menina daquela foto jamais sonharia que um dia ia gostar tanto daquele magricela. Achei também uma cartinha de amor que ele me escreveu em um velho guardanapo depois da primeira noite que passamos juntos, uma foto nossa na pousada onde rolou o nosso primeiro beijo e mais fotos e mais cartas e mais fotos. Guardar ou queimar?!

Achei que não fazia mais sentido guardar tantas lembranças e coloquei no monte das coisas a desfazer. Guardei apenas a nossa foto de infância. Aquela eu queria conservar. Quem sabe, pelo menos, a nossa amizade verdadeira possa voltar um dia.
Terminei a faxina quando a manhã já anunciava. Juntei vários sacos de roupas velhas para doação e uma caixa com pertences do Pedro esquecidos em casa.

***

- Nossa, que cara é essa? – perguntava Betina ao me flagrar de olheiras nos pés ao meio-dia.

- Não preguei o olho essa noite. – eu dizia sem conseguir abrir os olhos e largada no sofá.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntou ela assustada.

- Baixou a cabocla faxina em mim e eu resolvi dar uma geral na casa, limpar meu guarda roupa, jogar fora umas roupas velhas e me desfazer de algumas lembranças...

- Nossa, que pique, amiga! Mas podia fazer a sessão desapego pela manhã? Tinha que ser de madrugada?

- Eu estava meio de bode ontem e resolvi dar uma mudada. Cansei da mesmice da minha vida, dos meus relacionamentos, acho que eu estou carregando muita tralha velha
comigo há muito tempo... é hora de abrir espaço né?

- Foi na Jane ontem né? – desvendava a charada.

- Como você sabe?

- Nem precisa perguntar. Foi ela quem pediu para você fazer isso?!

- Digamos que me estimulou. Veio com um papo que é hora de desapegar e tals, mas não me disse como. Arrumei o meu jeito.

- E vai jogar tudo isso fora?- apontava Betina para os sacos.

- Se quiser alguma coisa, pode pegar. Se não, vou levar para um brechó na segunda. Só deixa essa caixa aí que são as coisas do Pedro. Ainda não sei o que eu vou fazer.

- Ué, devolve para ele. Já que é para desapegar que seja totalmente né?

***

Eu ainda não sabia o que fazer com as coisas do Pedro. Se eu ligasse para ele e pedisse para buscar, ele poderia entender como uma falta de educação minha ou que eu estava arrumando motivos para ele me ver. Fiquei matutando o que fazer, porém a vida foi mais rápida do que eu. Pedro apareceu lá em casa sem convite.

- Posso entrar?! Nossa, vai se mudar? – dizia ele se desvencilhando dos sacos.

- Apenas uma faxininha necessária. Senta. Mas o que te traz aqui? – perguntei ainda surpresa com a visita.

- Eu vim me despedir. Estou voltando para Londres amanhã. Vou ficar mais um tempo por lá e eu não queria ir sem falar tchau para você. – ele parecia nervoso.

- Não precisava se incomodar. – mentira! Pelo menos, dessa vez, ele se preocupou em me avisar que ia partir. Coisa que não fez quando chegou.

- Desejo boa sorte a vocês. – eu cutuquei.

- Vocês?! – ele se assustou com a pergunta. Não sei por quê.

- Ué, a Camila não vai junto? – alfinetei.

- Não, não... a gente foi coisa passageira. – dizia ele cabisbaixo. Parecia envergonhado em me dizer aquilo.

Só Deus sabe o quanto eu vibrei com aquela resposta. Ele confessou que o lance deles não passou de fogo de palha e que ela não chega aos pés do que ele quer. Mas não me confessou o que ele queria. Ofereci um suco e, quando voltei da cozinha, flagrei ele fuçando na caixinha de lembranças que eu ia me desfazer.

- Nossa, você ainda tem essa foto? - ele admirava nossa foto de infância – Que tempo bom! – suspirava ele.

- Ah, aproveitando... essa caixinha é sua. São suas coisas. Separei para você levar.
– eu disse ríspida.

- Você quer mesmo que eu leve isso? – ele pareceu se assustar com a devolução.

- Eu quero. Fiz uma faxininha necessária lembra?

- Mas eu achei que...

- Achou o quê, Pedro? Que eu ia carregar essa tralha velha por toda a minha vida? – pronto, falei.

Pedro me olhou já entendendo o recado de que era hora de sair pela culatra, recolheu suas coisas com um ar de tristeza no coração, me deu um abraço, pegou a caixinha e saiu pela porta como um cãozinho sem dono.

Quando eu ameaçava fechar a porta, Pedro voltou. Ficou me olhando e eu senti que ele ameaçava um beijo. Porém, brequei sua ação.

- Eu volto, tá bom? – dizia ele com olhos marejados.

- Fique tranquilo. Você não me deve mais satisfação não é mesmo?

Fechei a porta rapidamente para não mudar de idéia. Já que era para desapegar, que fosse desapego total. Chega de manter a sujeira embaixo do tapete.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ FEZ UMA SESSÃO DESAPEGO? QUAL FOI O MOTIVO DO DESAPEGO?

5 comentários:

Anônimo disse...

Nossa coce foi mt corajosa, e teve muita atitude eu acho q eu cairia nos braços dele, adorei, espero o próximo post loooogo, fico angustiada quando voce demora escrever AMO SEU BLOG *-*

Mirella Gurgel disse...

HAHAHA ... É acho que se fosse eu ia rolar uma despedida !! Sou muito fraca nesse aspécto, mas achei ótimo o que a Diana fez... mostrou que não é assim bagunçado !! Adoreeeeeeeeeeei ...

Isa disse...

É, a Diana é forte! Eu sofri uma decepção e ñ foi tão fácil me desapegar como ela. sofrer até um certo tmp é normal, mas chega um momento q temos q tirar as reticências e por um ponto final na história ou ficar no flash back. Vamos lá, bola pra frente, tô louca pra ver as aventuras da Diana solteira. B-jus!

Anônimo disse...

Suas hostórias viciam... E sao mto iguais às da minha vida! ;)

Anônimo disse...

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