segunda-feira, setembro 06, 2010

TÔ CARENTE


Por Letícia Vidica

- Ih, Diana, que cara é essa? – perguntava Lili ao me ver vestida de moleton, meia, chinelo e deitada no meu sofá numa noite quente de sábado.

- Tô carente! – eu confessava.

Eu estava passando por mais uma daquelas fases de carência afetiva incuráveis. Daquelas bem bravas que nem um brigadeiro de panela e o filme Titanic estavam curando.

- Ninguém me ama, ninguém me quer.

- Mas achei que você ainda estava com aquele gatinho...

- Que nada! Sumiu. Como todos os outros. Já olhei na minha agenda do celular e vi que estou super desatualizada, nenhum número novo para chamar de meu...

- Amiga, alto astral. Pode tomar um banho, colocar um roupinha e vamos para balada. Não existe lugar melhor para curar essa carência.

Para a Lili era na balada que tudo se resolvia. Ela costuma dizer que a noite é a cura de todos os males. E, naquela noite, ela acreditava que seria a cura do meu mal. E eu também.

Em menos de duas horas, estávamos na fila da balada mais badalada da cidade vestidas para matar.

- Diana, dá para mudar essa cara de bosta? Como você quer arrumar alguém com essa cara de velório?

- Ai, Lili, eu não tô legal. Acho que eu vou embora.

- Nada disso! – dizia Lili me puxando pelo braço – olha só quantos gatinhos! Relaxa e confia em mim.

Resolvi confiar. Entramos e logo nos encostamos no bar para beber algo. Lili foi logo pedindo a sua tradicional vodka e eu ainda olhava indecisa o que eu pediria.

- Um duplo para mim e um daqueles coquetéis especiais para gatinha aqui. – dizia o homem ao meu lado. – Se importa?

- É claro que ela não se importa – respondia Lili por mim.

- Prazer, Luis Gustavo. E qual o nome dessa princesa?

- Ela se chama Diana. – mais uma vez ela respondia para mim. Eu estava tão desanimada e desatenta que mal conseguia ver o gato que começava a me paquerar.

Ele estendeu a mão e eu continuei estática até a Lili me dar um beliscão e eu sair daquela transe.

- Ops, desculpe, é que eu não estou muito bem hoje.

- E posso saber por que uma gata linda dessas está triste?

Minha vontade era de responder que era porque ninguém me queria, que eu seria eternamente uma encalhada e que eu estava carente. Mas acho que de nada adiantaria me abrir para ele.

- Uns probleminhas, mas nada demais. Não quero estragar a sua noite.

- Estragar? Te conhecer só melhorou a minha noite.

Diante da minha carência exacerbada, resolvi ficar com o cara a noite toda e escutando aqueles xavecos baratos de balada. Eu estava precisando de uma massagem no ego né? Ficamos, demos uns beijinhos e amassos. Ele até sugeriu que eu fosse para o apartamento dele, mas não era o que eu queria.

- Como assim? Um Deus de ébano te oferece uma noite de amor e você recusa? – perguntava Lili abismada com a minha negativa enquanto voltávamos para casa.

- Vai devagar com o andor, Lili! Não é porque eu dei uns beijinhos no cara que sou obrigada a dar para ele!!!

- Depois reclama que está carente...

- E estou mesmo. E não vai ser na noite que eu vou me curar. Poxa, Lili. Estou cansada de sair, pegar um monte de caras, ouvir xavecos furados e não dar em nada. É tudo muito vazio. Me sinto uma boneca inflável! Não é isso que eu quero. Quero mais. – desabafei.

E eu realmente estava querendo mais. A noitada só tinha piorado a minha carência. Eu queria ter alguém para me envolver, alguém para dividir e somar comigo e não apenas um macho para me tirar do cio. Aquela balada só me fez perceber o quanto estava difícil encontrar um cara legal. E será que eu encontraria?

Passei o domingo bem down, assistindo filmes românticos melosos e a relembrar os bons momentos que vivi com o Pierre. Nesses momentos de carência, a gente quase sempre acaba lembrando de relacionamentos passados e a saudade começa a bater. E
sempre faço uma bobagem quando isso acontece. Foi o que eu fiz. Liguei pro Pierre.

- Oi, Diana, tudo bem? Quanto tempo!

- Pois é...liguei só para...só para...saber se você está bem. – mentira! Eu tinha ligado para implorar para ele voltar para mim ou para, pelo menos, me tirar daquela depressão afetiva profunda.

- Eu estou ótimo. E você? Fazendo o que de bom?

Adiantaria se eu dissesse que estava desesperada, carente e chororô?

- Ah, estou em casa de bobeira. Tá afim de bater um papo?

Combinamos de nos encontrar em uma hora e fomos ao bar do Pedrão beber umas cervejas. Eu apostava que aquele encontro me tiraria da carência profunda.

- Bom te ver, Di. Quais são as novidades?

- Novidades? – o que eu diria? – trabalhando bastante, saindo...

- Aposto que tá namorando também.

- Eu? Namorando? Que isso! Tô sem cabeça para isso agora. – mais uma daquelas mentiras femininas que sempre colam. Eu estava louca para namorar e ele podia ser o meu namorado né? – E você?

- Eu estou conhecendo uma pessoa aí...

Como assim? O Pierre estava com outra?

- Poxa, que legal. Espero que seja uma mulher bacana. Você merece!

Aquela revelação tinha me afundado ainda mais na minha carência. Percebi que o Pierre só me queria como amiga e que eu não mais fazia parte dos planos dele. Além disso, percebi a besteira que eu tinha feito ao sair com ele. O Pierre tinha conhecido uma garota e parecia bem empolgado com ela.

- Bê, eu não sei mais o que eu faço...até o Pierre já se arranjou. Já fui para balada, saí com o ex...estou quase me matando e essa carência não passa.

- Diana, você tem que ter paciência.

- Até quando, amiga? Será que eu nunca vou encontrar alguém que me mereça?
Adoraria que a Betina tivesse me respondido, mas era mais uma daquelas perguntas que só Deus saberia me dizer, mas até agora ele não disse. Enquanto isso, eu aguardo um sinal. Será que vai demorar demais?

PAPO DE CALCINHA: Qual é a sua receita para os momentos de carência?

quinta-feira, agosto 19, 2010

OU ELA OU EU


Por Letícia Vidica

Nunca faça essa pergunta a um homem comprometido. Ainda mais se você estiver com ele, mas não for o compromisso dele. Apesar de saber disso, ter lido milhões de livros de auto-ajuda feminina, eu me esqueci de tudo naquele momento e foi o que perguntei ao Alan naquela noite fria de quinta-feira no sofá do meu apartamento.

- Ou ela ou eu. Não agüento mais essa situação. Você tem que decidir.

Antes que eu diga o que ele me respondeu, vou explicar a vocês quem é o Alan.

Por mais que eu saiba o fim da história, eu insisto em cometer algumas burrices mais de uma vez e uma delas é se me envolver com homens comprometidos. É problema na certa, mas parece que eles exalam um cheiro mais gostoso sabe?

O Alan trabalha comigo. Ele é do departamento financeiro. Eu nunca tinha achado a menor graça nele. Para mim, era apenas mais um homem comprometido da minha empresa. Compromisso que o brilho da sua aliança não deixava que eu esquecesse.

Num desses happy hours lá da agência, depois de muito beber, comer frango a passarinho e falar mal do chefe, lembrei que estava tarde e que meu carro estava na mecânica. Educadamente, aceitei uma carona do Alan. Não vi nenhum problema nisso já que ele morava a duas quadras da minha casa.

- Nossa, a hora passou e eu nem vi. Duas da manhã já. Sua namorada não reclama não? – eu perguntava enquanto ele me levava para casa.

- Ela não liga muito não. Acho que já se acostumou.

- Aposto que ela já deve ter te ligado mil vezes...

- Ela não é de pegar muito no pé não. Sou um bom homem. – ele disse com sorriso irônico e lançando um olhar 43 para mim.

Fiquei um pouco nervosa e preferi encerrar o assunto, mas ele insistiu.

- Você não acha que eu sou um bom moço?

- Ah, não sei. Eu mal te conheço, Alan. – desbaratinei.

- Não conhece porque não quer. – mais uma vez, ele me olhou ao estilo 43.

Por sorte ou azar, o carro parou na frente do prédio.

- Obrigada pela carona.

- Vai descer assim? Não mereço nada pelo sacrifício?

- Alan, vai para casa que teu problema é cachaça. Sua mulher deve estar te esperando... para de bobagem!

- Quem disse que é bobagem? Eu não sou homem de brincadeira.

Ele me puxou pelo braço e me roubou um beijo. A minha primeira vontade era de ter virado um tapa na cara dele, mas logo mudei de idéia ao sentir melhor o sabor daquele beijo e provar da pegada que ele tinha. Quem diria hein, Alan?


***

- Você não aprende não, Diana? Outro cara comprometido? –preciso dizer que a Betina estava me recriminando?

- Bê, foi ele quem me beijou. Eu ia fazer o quê?

- Eu só espero que você pare por aí porque a senhorita bem sabe o fim da história né?

- Pois é.Vamos sair hoje.

- O QUÊ???? – berrou Betina indignada com a minha aceitação.

Depois daquele beijo, não conseguia mais olhar para o Alan na empresa. E quando eu olhava, era um olhar diferente. Parecia que da noite pro dia ele tinha ficado mais interessante.

Eu tentava evitá-lo ao máximo para que ninguém percebesse, mas ele me procurava insistentemente. Me mandava milhões de emails pedindo para sair comigo, pedindo meu telefone, ficava me paquerando na hora do almoço...gente, eu sou de carne e osso né? Uma hora eu ia ter que ceder. E cedi.

E lá estava eu bebendo uma cerveja num bar qualquer com o Alan, o homem compromisso. Mas era apenas uma saída de amigos ou, pelo menos, era o que tinha que ter sido.

- Eu não sei o que eu estou fazendo aqui com você, Alan! – eu disse tentando dar uma de durona. – Quero deixar bem claro que eu só saí com você por que... por que...

- Porque você está tão afim de mim quanto eu de você. – dizia o Alan se gabando do seu poder sedutor – Pára de bancar a durona, Diana. Vamos curtir o momento.

- Não é uma questão de ser durona. E o que eu faço com essa aliança no seu dedo? Você namora!!!

Descobri que ele não só namorava há quatro anos, como tinha planos de se casar com ela. Eu não podia amarrar o meu burro ali, mas, infelizmente, eu amarrei.

Aquela foi apenas a primeira de muitas outras saídas que tivemos. De um rolo casual, eu me transformei literalmente na outra. Ele passava mais tempo no meu apartamento do que na casa da namorada. Isso fazia até com que eu pensasse que ela era amante e eu a namorada. Mas sempre caía na real quando falávamos sobre nossa relação.

- Você vai me enrolar até quando hein, Alan? – perguntava enquanto acariciava seus sedosos cabelos deitados no meu colo.

- Como assim enrolar? Eu não estou aqui todinho para você, minha flor?– disse me roubando um beijo que sempre me derretia.

- Você sempre diz isso, Alan. Eu falo sério. Estou cansada de ouvir suas promessas de que vai largar sua namorada, de que o relacionamento não está legal, mas você nunca cumpre...

- Eu não te prometi que vou terminar? Confia em mim, gata.

O pior é que eu sempre confiava e assim ele ia me enrolando. Já eram quase seis meses de enrolação. E a cada dia eu estava mais e mais apaixonada por ele. A única coisa que me crucificava era o fato dele não ser só meu. Era pensar que ele beijava a boca dela, que ele dizia que a amava, que ele estava com ela quando não estava comigo...

- Aposto que o Alan está na casa daquela piranha – eu dizia andando de um lado ao outro da minha sala aguardando ansiosa por uma ligação dele – Ele disse que ia aparecer!

- Diana, calma. Você está careca de saber como é. Se você se sujeitou a ser a outra então agüenta... – falava Betina tentando me trazer à realidade.

- Ai, Be, estou cansada de tudo isso. Estou cansada das promessas do Alan. Já faz seis meses que estamos juntos e até agora ele só fala e nunca termina com ela.

- Diana, pára de ser adolescente. Parece até que você não sabe que um homem dificilmente vai trocar um relacionamento de anos por uma aventura de seis meses.

- Mas ele prometeu, Be!

- E você vai acreditar?

Aquela era a resposta que eu não tinha com muita certeza. Eu não acreditava nas promessas do Alan sobre sua separação, mas eu me enganava fingindo acreditar só para não perdê-lo. Isso me condenava. O tormento era tanto que eu acabei resolvendo dar um xeque mate.


Numa quinta-feira quando o Alan foi para a minha casa depois do trabalho...

- O que houve, gata...está tão fria...vem aqui para um chamego.

- Hoje não tem chamego, Alan. Hoje tem DR. Ou ela ou eu. Não agüento mais essa situação. Você tem que decidir.

- Como assim? – perguntou com cara de assustado.

- Como assim, digo eu. Faz seis meses que estamos juntos e é sempre a mesma história. Vai terminar, terminar e nada. Vai me enrolar até quando? Chega! Ou ela ou eu.

- Diana, eu não posso tomar uma decisão assim. Eu já te disse que eu vou acabar.

- Disse e não fez. Então, por favor, até você se decidir não me procure mais.

E foi assim que o Alan saiu por aquela porta e saiu da minha vida. Eu confesso que tinha esperanças de que ele retornasse, de que ele terminasse o relacionamento com a namorada, mas não foi o que aconteceu. Ele não era homem suficiente para arriscar. Sofri muito, mas resolvi seguir em frente.

Depois do nosso fim, a nossa relação ficou um pouco abalada. Quase nem nos olhávamos no trabalho. Acho que a gente se evitava não por ódio, mas por medo da chama se acender novamente.

Até que um dia, cheguei na agência e o pessoal estava fazendo uma comemoração.

- Nossa o que houve? Ganhamos um novo cliente? – perguntei sem saber de nada.

- Não, Di. O Alan vai ser papai! – dizia a secretária.

Fiquei tonta, engoli o choro e tentei disfarçar o máximo que pude. Estendi minhas mãos para as dele e dei os parabéns. Ali encerrava a nossa história. Se eu tinha alguma esperança em que ele mudasse de idéia e optasse por mim, ela tinha morrido ali mesmo.

- Desculpe não ter te falado nada... sei que é chato você saber assim de repente – dizia Alan cabisbaixo no fumódromo da agência.

- Você não tem que se desculpar. Você fez uma escolha.

- Foi você quem escolheu Diana. Eu não queria terminar com você.

- E também não queria terminar com ela. Assuma que você nunca teria coragem de jogar tudo pro alto e ficar comigo né? É muito mais fácil ir levando no banho maria.

- Eu estava confuso.

- Todo homem quando não sabe o que quer fala que está confuso. Mas eu estava bem decidida. Se você não me quer, tem quem queira. Seja feliz com a sua namorada e com o seu filho ok?

- Diana, Diana... volta aqui!

Dei as costas para não ter que ouvir o mesmo repertório e para não cair na mesma ladainha. Eu ainda estava bem envolvida com ele, mas não dava mais para fazê-lo optar. Aquela gravidez era a opção maior. Prometi a mim mesma que não mais me envolveria com homens comprometidos ou, pelo menos, não ousaria mais perguntar “Ou ela ou eu”.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ DEU UM XEQUE-MATE EM ALGUM HOMEM COMPROMETIDO E SE DEU MAL? SE VOCÊ FOI A ESCOLHIDA, CONTE A FÓRMULA DE SUCESSO PARA GENTE.

terça-feira, agosto 10, 2010

GAROTO CHICLETE


Por Letícia Vidica

- Oi, coração! Bom dia! Te liguei só para saber se minha bonequinha dormiu bem.

É, isso mesmo que você está pensando. A "coração" e a "bonequinha" do outro lado da linha era eu.

- Oi, Gustavo, tudo bem? Eu estou ótima sim. Nas últimas duas horas que você me deixou sozinha, nada aconteceu. Pode ficar bem tranqüilo.

Fazia menos de duas horas que o Gustavo tinha deixado o meu apartamento. A cama mal esfriara e ele já estava me ligando para dizer que estava morrendo de saudades. Nem me assustei porque isso fazia parte de um ritual que eu estava tentando me acostumar.

Eu conheci o Gustavo numa festa de aniversário de uma amiga de trabalho. Conversamos um pouco, dividimos algumas latas de cerveja e tragadas de cigarro, ele me ofereceu uma carona, eu aceitei, trocamos telefones, saímos uma vez, ficamos e ele não larga mais do meu pé.

Não que ele seja um cara desinteressante, mas o problema é que o Gustavo é do tipo meloso. O típico Garoto Chiclete. Um grude na minha vida. Me liga de manhã para dizer "bom dia", de tarde "para dizer boa tarde" e de noite "para dizer boa noite". Se não bastasse isso, ainda aparece de surpresa quase todos os dias lá em casa e tem uma preocupação excessiva comigo. Sem contar que fica me chamando de nomes no diminutivo de forma babaca e idiota. É coraçãozinho para cá, lindinha para lá e assim vai.

- E porque você não dá um pé na bunda dele, Diana?

- Ai, Be, eu não sei. Ainda tenho esperança de que ele vai mudar. Ele é um cara legal, beija bem, faz amor gostoso, o que me irrita é essa pegação no meu pé.

- Falando no chicletinho, olha ele vindo aí...

Ao olhar para trás, me deparei com Gustavo entrando pela porta principal do bar do Pedrão. Eu confesso que tinha odiado a surpresa. Eu havia dito para ele que eu ia sair com as meninas.

- Oi, gatinha. Gostou da surpresa? - dizia Gustavo me dando um beijo na mão, outro na minha testa e sentando já agarrado ao meu lado - Desculpa atrapalhar, Betina, mas eu não consigo ficar mais de um minuto longe do meu coraçãozinho.

- Que isso, fica à vontade! - dizia Betina tomando um gole de chope para conter o riso.

Ficamos por cerca de uma hora jogando conversa fora, mas eu já estava me sentindo sufocada com aquele cuidado todo, aquelas babações para cima de mim e resolvi fingir que estava cansada e que queria ir para casa.

- Ah, docinho, tá cansadinha tá? Eu te levo para casa - dizia Gustavo alisando a mão em meu rosto e praticamente me pegando no colo.

Tentei convencê-lo de que a Betina poderia me levar para casa, que eu não queria tirá-lo do caminho, mas não adiantou. Ele insistiu em me levar para casa.

Chegando à porta do meu prédio, dei um beijo nele e fui saindo do carro, mas ele me puxou pelo braço e me beijou novamente.

- Não consigo ficar um minuto sem beijar essa boquinha linda, sabia?

Mal ele sabia que estava odiando aquela beijação toda.

- Não vai me deixar subir, gatinha? Adoraria fazer uma massagenzinha nos seus pezinhos.

- Me desculpe, Gu, estou morrendo de dor de cabeça.

- Ai, meu neném tá dodói tá? – dizia me apertando a bochecha da maneira que eu mais odiava – mas tudo bem! Vou deixar meu coraçãozinho nanar e amanhã cedinho estou aqui.

- Gu, não precisa vir cedo não. Eu vou ao shopping amanhã. Preciso fazer umas comprinhas. – eu disse com a esperança de que ele desistisse.

Inútil tentativa a minha. No dia seguinte, praticamente antes do sol raiar, Gustavo já estava de prontidão na minha casa.

- Não acredito que o Gustavo vai fazer compras com a gente! – questionava Lili enquanto eu pegava a minha bolsa.

- Eu tentei de tudo, amiga. Mas ele não se tocou. O negócio é encarar agora.

E lá fomos nós três fazer compras no shopping. Eu nunca imaginei o quão era horrível ir às compras acompanhada e pior ainda era ir acompanhada de alguém que te tratava como um poodle e opinava em tudo que você queria comprar. Se não bastasse escolher até o seu absorvente.

- Adorei essa calcinha, amore. Acho que você devia comprar. – dizia Gustavo enquanto escolhia calcinhas e soutiens para mim.

Na tentativa de tentar acabar logo com aquele martírio, reduzi as minhas habituais quatro horas de compras no shopping a uma hora e meia.

- Gu, se você quiser, pode ir para casa agora. Amei a sua companhia, mas eu e a Lili temos hora marcada no salão do Beto.

- Faço questão de acompanhar as damas, amorzinho.

- Não precisa se incomodar, Gustavo – dizia Lili com olhos suplicantes para mim como quem pede socorro.

E não adiantou de nada suplicar. Ele nos levou até o salão de cabeleireiro e ficou sentadinho esperando a gente fazer unhas, depilação, escova, hidratação. Detalhe: tirando o Beto, que é meio homem, ele era o único naquele ambiente.

- Meninas, quem é aquele bonitão ali? – perguntava o meu cabeleireiro enquanto fazia uma chapinha no meu cabelo.

- Ih, Beto, pode tirar o olho que aquele ali é o novo peguete da Diana – respondia ironicamente Lili enquanto esperava secar as unhas.

- Chiclete, você quer dizer né, Lili?

- Ih, pelo jeito, a coisa tá feia hein? Achei o máximo o bonitão ficar te esperando. Que romântico!

- Não vejo nada de romântico nisso, Beto. Desde que a gente começou a sair, eu não consigo mais respirar. Não tenho um minuto de paz. Se eu espirro, ele diz saúde! – desabafava.

Passamos o restante do dia a falar sobre a melação do Gustavo e mesmo com a demora rotineira de um salão de belezas, o Gu não arredou o pé.

- Nossa, como o meu coração está uma gata! – elogiava o resultado da espera.

- Te fiz esperar demais né? Você deve estar cansado. Não quer ir para casa tomar um banho?

- Na sua ou na minha?

Mais uma tentativa em vão na esperança de eliminar o Gustavo do meu dia. Ele não só tomou banho na minha casa, como preparou um jantarzinho para nós dois, fez massagens nos meus pés e me fez ninar. Tudo perfeito se eu não estivesse de saco cheio de tanta perfeição.

- Eu não agüento mais, Betina! – desabafava no telefone com a minha amiga num valioso minuto de paz.

- Dá um pé na bunda dele.

- Se fosse tão fácil, eu já teria dado. O Gustavo não me deixa pensar, não me deixa respirar...agora mesmo...aproveitei que ele foi na padaria e liguei para você.

- Acho que isso já passou dos limites né? Ele já é bem crescidinho para entender que a coraçãozinho dele não tá mais afim.

- E você ainda consegue ironizar?

Minha amiga estava certa. Eu ia ter que driblar todo aquele mel e dizer com minha amargura de que não dava mais. Foi o que tentei durante todo aquele dia, mas os carinhos e as lambeções do Gustavo não me deixavam falar. No fim do dia, quando finalmente ele resolveu ir para casa dele, eu disse.

- Não precisa mais voltar, Gu. – pronto, falei.

- Como assim, coraçãozinho? – perguntava com olhos tristonhos.

- Pelo amor de Deus, não me chama de coraçãozinho. Eu não sou o seu coraçãozinho.

- O problema é esse? Tudo bem, gatinha, eu não te chamo mais assim.

- O problema não É só esse! Você me sufoca, Gustavo. Eu adoro ser mimada sim, mas toda hora tá difícil. Você não me deixa respirar. Desde que você entrou na minha vida, eu não sei o que é ter um minuto de privacidade.

- Me desculpa, co...digo, Diana. Eu só queria te fazer feliz.

- Eu agradeço, mas eu jamais serei feliz assim.

Gustavo me olhou com olhos de cão tristonho – confesso que fiquei com dó dele e me senti uma bruxa – mas era necessário. Se eu não fosse dura, jamais ele iria entender.

E ele realmente demorou a entender. Resolveu mandar flores, bombons e ursos de pelúcia para reconciliar. Mais uma prova de que se eu perdoasse, a melação continuaria. Resolvi ignorar os presentes e as ligações insistentes. E resolvi também que não quero mais saber de chiclete na minha vida. Se for Bubballoo então, estou saindo fora.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ SE RELACIONOU COM ALGUM HOMEM GRUDENTO? COMO FEZ PARA QUE ELE SAÍSSE DO SEU PÉ?

domingo, agosto 01, 2010

PACTO DE BUBALOO


Por Letícia Vidica


Depois da minha família, as minhas amigas são a coisa mais importante da minha vida. Eu nunca fui de ter muitas amigas, mas as poucas amizades que conquistei sempre foram muito profundas.

Amigo para mim tem que ser alguém que me dê lealdade, que ofereça o ombro para chorar, que puxe a orelha nos momentos que eu estiver errada, que ria comigo, chore comigo, lute comigo e que eu possa sempre contar. Graças a Deus, encontrei isso nas minhas amigonas do peito Lili e Betina.

Quem olha a primeira vista pode até achar que somos como água e óleo. Não se misturam e jamais daria certo. Porém, uma completa a outra. O que uma não tem, a outra oferece.

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A Betina é a mais realista do trio. Talvez por ser mais velha do que eu e a Lili, é aquela amiga meio mãe. Sempre tem uma palavra dura e uma bronca para nos dar, mas por incrível que pareça a gente sempre reflete depois.

No começo foi um pouco difícil me acostumar a esse jeito general dela, mas a Betina em muitos momentos é quem me coloca nos eixos e me traz à realidade.

Ela é dona do próprio nariz e do próprio negócio. Minha amiga é advogada e tem seu próprio escritório de advocacia. É super bem resolvida com a vida e consigo mesma. Ao contrário de mim e da Lili, homem não faz parte de seus planos. Cansada de sofrer por eles, Betina simplesmente resolveu (praticamente) abolí-los da sua vida. Com exceção àqueles momentos em que o corpo fala mais alto e o vibrador não resolve.

Conheci a Betina num happy hour da minha agência. Ela era advogada de um dos clientes de lá e acabou fazendo amizade com a galera e nos apresentando o bar do Pedrão. À primeira vista,nosso santo não bateu.

- Que cara é essa, Diana? - perguntava Paula, uma colega de trabalho, enquanto todos riam na mesa do bar.

- Tô meio para baixo mesmo.

- Aposto que tem homem no meio. Mulher quando fica assim. Ou levou um pé na bunda ou ... - palpitava a intrometida da Betina, já dando sinais de sua realidade ríspida.

Naquele momento, fiquei muito puta com ela. Quem ela pensava que era para ir me julgando daquela maneira?

- Agradeço o seu palpite, Belina. Ops, Betina, né? Esse é o seu nome né? Mas não tem nada a ver com homens ok? - disse com faísca nos olhos.

O clima ficou meio chato depois disso e eu resolvi ficar quieta o resto da noite para não pular no pescoço daquela intrometida. Fiquei com mais raiva ainda porque ela me parecia uma mulher segura de si, totalmenre ao contrário do meu poço de insegurança. Todos ouviam atentamente suas histórias, seus conselhos e ela sempre parecia ter uma resposta afiada na ponta da língua.

No fim do happy hour, me toquei que estava sem carona para ir para casa e, quando me dirigia para pegar um táxi, Betina apareceu buzinando.

- Quer uma carona?

Eu olhei com desconfiança e, antes que eu dissesse não, ela me interrompeu.

- Pode ficar tranquila, Diana. Não vou perguntar mais nada sobre a sua vida. Inclusive, como forma de desculpas, entra'í que eu te dou uma carona.

Daquele momento em diante, a Betina não só me deu uma carona, como me deu a honra de sua amizade. Descobri que por trás daquela armadura de ferro, existe uma grande mulher. Uma mulher segura que em muitos momentos eu almejo ser. E quando não sou é para ela que eu corro atrás de colo. E lá está minha amiga, mãe, irmã pronta para me dar um conselho, quase sempre acompanhado de uma bronquinha leve ou pesada, mas amigo é para essas coisas né?

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A Lili é a emoção da relação. É a mais insegura de todas. Não consegue viver sem um homem ao lado e é capaz de tudo e de dar tudo (literalmente) para ter um macho do lado. O problema da minha amiga é que ela sempre se envolve com os caras errados. Só beija os sapos. Quase nunca os príncipes. E está sempre acreditando que vai viver um lindo romance como nos filmes de Hollywood.

Ao contrário de mim e da Betina, dinheiro não é problema para ela. Lili, ou melhor, Liliana Bittencourt nasceu em berço de ouro. Filha de um grande empresário gaúcho, ela poderia ser considerada a nova Paris Hilton se não tivesse nos conhecido antes de cair nesse poço de futilidades. Mas, mesmo tendo grana, ela é uma das pessoas mais humildes e solidárias que eu já conheci.

Lili é a mais engraçada e divertida de todas nós. Quase sempre tem uma declaração descomprometida para dar e é quem me apoia quando o assunto é homem. Baladeira nata, é ela quem não deixa o nosso espírito jovial morrer.

Pode parecer engraçado, mas conhecemos a Lili num banheiro de balada chorando aos prantos lá pelas tantas da madrugada de um sábado qualquer.

- Minha nossa, o que aconteceu, mulher? - eu perguntei ao vê-la naquele estado.

- Quer uma água? - perguntou Betina

- Eu quero sair daqui. Me tira daqui, por favor.

Mesmo sem saber nada daquela mulher desesperada, atendemos ao pedido dela e a tiramos da balada. Resolvemos levá-la ao meu apartamento e depois de muito chorar, começou a nos contar o que tinha acontecido.

- Ai, me desculpem, por esse papelão. Vocês duas só podem ser anjos. Prazer, me chamo Liliana, mas podem me chamar de Lili.

- Prazer, Lili. Mas será que agora você pode nos contar o que aconteceu? - perguntava Betina já sem paciência para tanta choradeira.

- É que eu tinha marcado um encontro com o meu namorado e ele não apareceu. Daí, resolvi sair para espairecer e o encontrei com outra mulher lá na boate.

- Sabia que tinha homem no meio. Você tinha que agradecer por ter presenciado isso. Sinal de que esse cara não presta e não serve para você.

- Betina!

- O que é, Diana? Só estou sendo realista.

- Vocês estão certas. O Luís Otávio não me merece.

Daquele dia em diante, não só passamos a conhecer e conviver com a Lili, como também com o canalha do Luís Otávio que aprontaria muitas daquelas ao longo da nossa amizade.

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E assim se vão longos anos de amizade, os quais quero preservar por muitos e muitos anos. Fazemos promessas de sermos madrinhas de casamento uma das outras (com exceção da Betina que não pensa em casar), madrinhas dos filhos uma das outras (com exceção da Betina que não quer ter filhos), entrarmos juntas para o grupo da terceira idade (com exceção da Lili, que já disse que fará quantas plásticas for preciso para rejuvenescer e se recusar a assumir que está na terceira idade).

Quase nunca ficamos mais de dois dias sem nos falar. Sempre ligamos umas às outras e mantemos a tradição da cerveja com frango à passarinho no bar do Pedrão. E, mesmo quando alguma de nós começa a namorar, longo enturmamos o companheiro ao grupo e não admitimos que ele venha podar a nossa amizade.

Brigas? Às vezes acontecem algumas, mas sempre tem alguém de prontidão a pacificar. E, geralmente, esse alguém sou eu porque a Lili e a Betina frequentemente tem arranca-rabos.

- Eu não aguento mais a Lili, Diana! Bendita hora em que fomos ser solidárias e socorrer ela naquele banheiro da balada. - dizia Betina entrando bufando no meu apartamento.

- O que aconteceu dessa vez? - eu perguntava já careca e cansada das brigas infantis das duas.

- Acredita que ela me apareceu de novo lá em casa no meio da madrugada pedindo abrigo porque brigou com o Luís Otávio? Eu não aguento mais!

- E o que ele aprontou dessa vez?

- O que você acha? O mesmo de sempre, Diana. Traição e sacanagem. Daí, eu estava tão de saco cheio que falei umas poucas e boas para ela.

Eu logo podia imaginar o que a Betina tinha dito e como a fragilidade da Lili não tinha sido capaz de aguentar.

Enquanto eu tentava acalmar a Betina, minha campainha tocou. Era a Lili.

- Oi, Diana, posso entrar?

- Claro, Lili. Se a presença da Betina não for um problema para você?

- Ah ela está aí? Eu volto outra hora. Me recuso a ficar no mesmo ambiente dessa insensível.

- Tá me chamando de quê hein, dondoca? - gritou Betina lá do sofá, irritada com a provocação.

- Meninas, por favor, barraco no meu prédio não hein? - eu dizia - acho que vocês duas são bem crescidinhas para ficarem de mal né?

- Eu não estou de mal de ninguém. Se ela não aguenta ouvir verdades, não posso fazer nada.

- O seu problema, Betina, é que você não sabe dizer verdades. Você só sabe ofender. Sempre cheia de razão, se acha no direito de humilhar as pessoas.

- Eu não preciso te humilhar, Lili. Você mesma já faz isso ao rastejar pelo Luís Otávio.

Antes que as duas se atracassem no tapete da minha sala, resolvi levantar bandeira branca.

- Chega! Meninas, hello! Vocês tem noção de que estamos brigando por causa de um homem? Betina, você que nunca deu valor a eles, agora vai perder uma amizade por um que nem vale meio centavo? E você, Lili, me desculpe, mas está mais do que na hora de acordar e perceber o mal que esse canalha te faz né?

As duas ficaram cabisbaixas feito dois pintinhos abandonados. Depois, se olharam e a Lili, como sempre, era a primeira a dar o braço a torcer.

- Desculpa, Betina. É que eu sempre me cego quando o Luís Otávio apronta comigo, mas eu sei que você só quer o meu bem. Me dá um abraço?

- Tudo bem, Lili. Eu te desculpe. Me desculpe também. Se eu falo essas coisas é para o seu bem, é porque eu gosto de você.

- Pazes feitas? Selamos o pacto de bubballo novamente?

Pazes e pactos refeitos seguíamos sempre em frente a espera da próxima briga e curtindo os bons momentos que a nossa amizade sempre nos reservava.

PAPO DE CALCINHA: E você tem amigas (os) com quem contar? Conte como se conheceram e experiências que já viveram.

terça-feira, julho 20, 2010

PAIXONITE AGUDA


Por Letícia Vidica

Quem foi que disse que o vírus da dengue ou da gripe suína são os piores do mundo? Eu discordo em número, gênero e grau. O da paixonite aguda é pior ainda. E toda mulher em sã ou sem consciência será picada por ele um dia e vai sofrer desse mal. Eu, quase sempre, sofro dele.

Ele vem da noite por dia e quando eu menos percebo, lá estou eu apaixonada mais uma vez. E, na maioria das vezes, por alguém que não faz a mínima idéia de quem sou eu. E aquela era mais uma época de contágio.

- Gente, estou apaixonada! – eu revelava às minhas amigas enquanto dividíamos um balde de pipocas assistindo a um filme romântico.

- Por quem dessa vez, Diana? Porque semana passada você me disse a mesma coisa. – retrucava Betina sem prestar muita atenção a minha declaração nem um pouco inédita.

- É sério, Betina. Eu estou apaixonada de verdade!

Eu realmente achava que estava apaixonada. E a vítima da vez era um homem que eu apenas encontrava na hora do almoço no restaurante a quilo que eu comia. Detalhe: eu não fazia idéia do nome dele, onde ele trabalhava, o que ele fazia, mas só sei que meu coração acelerava toda vez que eu o via.

Bastava ele entrar pela porta do restaurante – sempre de terno -, mexer nos cabelos e se dirigir ao bufê que as minhas pernas já tremiam, meu coração acelerava e eu parecia uma adolescente boba da época do ginásio.

- Mas você ao mesmo sabe o nome dele, Diana? – perguntava Betina depois da minha revelação.

- Não, eu não sei, Bê. Mas eu vou descobrir. Ah e o quê importa?
Uma das coisas que dá mais graça a paixonite aguda é o mistério. Tanta emoção por algo misterioso. Acho que essa era a graça de se apaixonar por um desconhecido. O mistério.

Apesar disso, eu bem que tentava descobrir alguma coisa sobre a vida dele. Além de apaixonada, agia como uma detetive. Eu fazia o máximo de esforço para ir almoçar às 13 horas pontualmente e chegar no restaurante às 13h12. Hora que ele costumava chegar.

Como sempre andava de terno, eu logo imaginava que ele deveria ser um advogado. Outro dia, o vi com um livro do Código Civil nas mãos. Não tinha aliança. Logo deveria ser solteiro ou separado porque o grisalho dos seus cabelos indicava que ele já passava dos 35 anos de idade. Ele sempre ia almoçar com dois amigos. Acho que ele é uma pessoa que não confia muito nas pessoas. Discreto porque seus ternos alternavam entre o azul marinho e o preto. Quase nunca faltava ao nosso encontro às escondidas (inclusive escondido dele) na hora do almoço. Homem trabalhador e comprometido com o trabalho.

- Diana, não sei por que você perdeu tempo com a publicidade. Você daria uma ótima psicóloga. – dizia Betina abismada com a minha observação.

- Ai, ele é tão lindo!! Ai, ai. Ontem à noite, sonhei com ele acredita? Mas eu não conseguia ouvir a voz dele.

- Acho que tá mais do que na hora de você dar uma investida nesse cara né? Chega de bancar a adolescente, Diana.

- Não. Eu não quero. Melhor assim. Prefiro que ele me note.

E quase sempre era difícil ele me notar. Por mais que eu o observava diariamente, ele parecia não me enxergar. Era como se eu fosse um fantasma. Aquilo ao mesmo tempo me doía o coração, mas também me aliviava. Eu gostava de ficar no anonimato.

Certo dia, eu estava no ponto de ônibus esperando a condução para ir embora do trabalho porque meu carro tinha quebrado, ele se aproximou de mim e ficou ali lado a lado esperando o ônibus.

Meu coração quase saiu pela boca. O que dizer? Será que ele se lembrava de mim lá do restaurante? Será que eu ainda estou cheirando perfume? Foram tantas perguntas que ele acabou subindo num ônibus rumo à zona oeste e eu perdi a oportunidade.

- Não creio que você ficou igual uma pamonha e não disse nada?!

- Bê, eu não consegui. Sei lá o que me deu. Até parece que você não sabe como são essas coisas?

- Graças a Deus, eu não sei mesmo.

Aquela paixonite aguda já durava mais de três meses. Estava achando até que eu ia para o livro dos recordes. E eu continuava na mesma. Sem saber nada sobre ele. Até aquele dia lá na agência...

- Pessoal, gostaria que todos conhecessem o nosso novo funcionário, Ronilson!

Parecia coisa de filme de Hollywood, o tal do Ronilson era ele. Ronilson? Como assim? Que nome mais feio para um cara tão gato. Demorei para me recompor e acreditar que ele seria o meu colega de trabalho. Ronilson tinha sido contratado para trabalhar na área jurídica da agência. Pelo menos, a profissão eu acertei. E o que eu faria agora?

- Vai esperar mais o quê para falar com ele? O cara agora está na sala ao lado. – Betina tentava me encorajar.

Eu bem que tentei, mas perdi o tesão. Depois que eu descobri que ele era o Ronilson e que ele passou a ficar ao meu lado todos os dias, a paixão esfriou, perdeu a graça.
- Como assim, perdeu o tesão? Até outro dia você não estava aí toda boba por ele? Não te entendo.

- Não sei, Betina, cansei. A paixão acabou. Sei lá, passou.

- E quem é a próxima vítima?

- Tem um carinha lindo que eu vejo todo dia lá no estacionamento...acho que estou apaixonada.

Nem preciso dizer que a Betina riu e se preparou para ouvir a mesma ladainha. Era sempre assim. Na mesma velocidade que as paixonites vinham, elas iam. Às vezes, é um pouco difícil lidar com isso, mas enquanto a vacina não chega, vou lidando.

PAPO DE CALCINHA: Você costuma se apaixonar com frequência e repentinamente? Acredita em paixonite?

sábado, junho 26, 2010

O QUE DIZEM OS ASTROS?



Por Letícia Vidica

- Tá decidido! Agora eu só vou me apaixonar por caras de Câncer com ascendente em Touro. Não vou mais perguntar se ele é gay ou se é casado. Vou perguntar se ele é de Câncer.

- Que papo maluco é esse, Lili? - eu perguntava sobre a declaração filosófica da minha amiga.

- Fui numa taróloga essa semana e ela me disse que o homem da minha vida é de Câncer.

- E você acreditou?

- É claro que eu acreditei. A mulher é muito boa, falou tudo sobre mim...disse até que o Luís Otávio não serve para mim.

- E você precisou ir até uma taróloga para confirmar que o Luis Otávio é um cafajeste? - retrucava Betina já impaciente com a nova maluquice da Lili - Eu que não perco tempo com essas coisas.

- Pois vocês deviam ir...aposto que as cartas iam te dizer o motivo da sua amargura, Betina.

E será que as cartas falariam? Foi o que fiquei me perguntando depois daquela conversa. Eu nunca fui muito ligada nesse lance de horóscopo, numerologia, tarô, búzios e tudo o mais que os astros poderiam dizer sobre mim. Sou mais do tipo que acredita desacreditando.

Apesar de não ligar muito para essas coisas, confesso (mas que isso fique bem entre nós) que sempre dou uma olhadinha na página do horóscopo do jornal. Mesmo que na maioria das vezes eu não consiga decifrar aquele bando de palavras difíceis que não fazem sentido, sempre fico matutando sobre o que ele quis me dizer.

Lembro-me que, quando era adolescente, adorava ler aqueles revistinhas de astrologia que diziam tudo o que aconteceria comigo a cada dia do mês, faziam combinações do amor, davam dicas sobre as cores do meu signo e etc...Eu, como era uma jovem boba, acreditava em tudo.

Depois do passar dos anos e de me relacionar com quase todos os homens do Zodíaco, desencanei um pouco. Acho que me desiludi ao ver que nenhum deles servia para mim. Talvez porque o signo dele ainda não tenha sido criado pelos astros.

******

Sou virginiana com ascendente em Sagitário (pelo menos foi o que disse aquele astrólogo famoso que eu ouço no rádio todos os dias antes de chegar ao trabalho). Perfeccionista, pé no chão, mas que se deixa levar para as nuvens e se enganar toda vez que encontra um novo amor.

Aquela conversa com a Lili tinha me deixado um pouco balançada. Há tempos que eu estava querendo me entender um pouco mais e tirar algumas dúvidas que talvez só as cartas me dariam as respostas. Mas será que valia a pena pagar por isso?

- Gente, fui numa cartomante MA-RA-VI-LHO-SA!!! - confessava Patrícia, minha colega de trabalho durante a hora do almoço - a mulher é porreta. Acertou tudo sem eu ao menos perguntar. Acredita que ela me disse que o pilantra do meu ex me traía?

- Nossa, é boa mesmo né?

- Se quiser eu te levo lá, Diana.

- Acho que no meu caso nem os astros resolvem... - eu disse com vergonha de assumir a minha curiosidade pelas cartas

- Bobagem. É sempre bom ter uma orientação. Se você quiser, eu te levo lá.

- Vou pensar, mas muito obrigada.

Foi o que eu fiz. Pensei e pensei e pensei. Será que ir a uma cartomante seria bom? Que mal teria passar por uma consulta? O máximo seria eu desacreditar de tudo que as cartas me diriam e fingir que nada daquilo era verdade, mas será que eu conseguiria?

Tenho que confessar que eu sempre tive medo do que o futuro possa me revelar. E se me dissessem que eu seria uma eterna encalhada? Ou pior! Que nenhum homem se apaixonaria por mim? Ou então que eu morreria amanhã?

- Quanta bobagem, Diana. Você está é perdendo tempo. As cartas apenas vão te orientar. - Lili tentava me convencer.

- Será, amiga?

- Você nunca saberá se não tirar a dúvida, mas você tem que acreditar.

- Esse é o problema. Não sei se acredito o suficiente.

- Que tal irmos tirar a prova dos nove?

- Como assim? Agora, Lili?

- Agorinha.

Na calada da noite, como alguém que estava prestes a cometer algo muito errado, saí com a Lili rumo a tal cartomante. Eu estava tão apreensiva que mal conseguia prestar atenção no que ela dizia porque, para variar, a Lili não calava a boca.

Chegamos no tal lugar. Ao contrário do que eu pensava, era uma casinha muito bonitinha, porém modesta. Uma mulher de cabelos ruivos e um sorriso receptivo nos esperava no portão.

- Liliana, que bom que você veio - dizia a tal mulher dando beijinhos amigáveis em Lili

- Desculpe vir a essa hora. É que o assunto é urgente.

- Sabe que por você eu abro qualquer exceção né?

Entramos na casa e Lili foi logo explicando que eu era o motivo da urgência e acho que fofocou algo nos ouvidos dela como quem diz que eu estava amedrontada e discrente. Enquanto Lili aguardava na sala, fomos até os fundos da casa e entrei num quartinho todo decorado com estrelas, pedras e um cheio de incenso perfumava o ar. Me sentei em uma mesinha onde estavam as cartas. Minhas mãos suavam de nervoso e acho que minha expressão não negava o que eu sentia.

- Quer uma água, Diana? - oferecia a cartomante percebendo o meu nervosismo

- Não, obrigada!

- Olha, vejo que você está nervosa, mas acalme-se. Quero que saiba que nem eu nem minhas cartas somos adivinhas do futuro e muito menos estou aqui para lhe falar sobre coisas ruins. Nós apenas vamos lhe apresentar caminhos e quem escolhe se vai seguir é você. Mas para que tudo dê certo, é imprescindível que você acredite. E, se não estiver certa disso, lhe devolvo o seu dinheiro agora e você pode ir embora.

O sermão sincero da cartomante começou a me acalmar e me senti mais preparada para seguir em frente. Por quase duas horas, ela jogou as cartas e também fez a minha numerologia. Foi tudo tão incrível!!! Não podia imaginar que o meu nome, a minha data de nascimento e as cartas poderiam falar tanto sobre mim.

Ela disse que eu era uma pessoa muito esforçada, gananciosa, mas que me doava demais aos outros e que muitas vezes esquecia de mim. E, como nem todo mundo se doa tanto, costumava me decepcionar com facilidade quando não era recompensada. As cartas me disseram que em breve mudanças positivas aconteceriam na minha carreira e que um homem estava em meu caminho, dependendo da forma que eu conduzisse o relacionamento, ele poderia ser a pessoa para me fazer feliz.

- Ai, Lili, quem será esse homem? - eu perguntava eufórica no caminho de volta para casa.

- Pelo visto, vi que você gostou e acreditou hein?

- Ai, amiga, não sei como te agradecer. Foi maravilhoso! Eu precisava de uma orientação sabe? Precisava entender porque algumas coisas são tão enroladas na minha vida. Pena que tudo não possa mudar do dia para noite.

- Pois é. Não mudam, mas agora você já sabe como agir e o que esperar né?

- Só espero que o príncipe encantado das cartas me mande um sinal quando aparecer...

E foi em gargalhadas que seguimos para casa. Mas volta e meia me lembro das coisas que o tarô me revelou e anseio para que elas aconteçam o mais rápido possível.

PAPO DE CALCINHA: Você acredita em nos astros? Já recorreu a alguma ajudinha deles?

terça-feira, junho 08, 2010

QUEM FICA COM O BUQUÊ?


Por Letícia Vidica

Pior do que ficar solteira,é perceber que todas as suas amigas, primas, vizinhas e todos os outros seres da sua idade estão se casando e você ficando para trás. O problema não é ser sozinha, eu até que gosto da minha liberdade e solidão, se não fosse o casamento das outras. A cada convite que recebo para o casamento de uma conhecida é como se os anos pesassem nas minhas costas e gritassem para mim “Encalhada!”.

Aquele era mais um sábado que poderia ter sido como qualquer outro se eu não tivesse ido checar a minha caixa de correspondências.

- Dona Diana, bom dia! Tem uma correspondência para a senhora. Deixaram aqui ontem à noite...acho que era uma tal de Roberta – dizia Seu Zé o meu porteiro ao me entregar o tal envelope.

Antes mesmo que eu pudesse dizer obrigada, quase caí dura para trás ao me deparar com o convite de casamento da minha prima Roberta. Como assim? Até a Roberta vai casar?

Subi às escadas até o meu apartamento lendo o convite umas vinte mil vezes para acreditar que a minha priminha ia casar. Não que eu estivesse com inveja. Não era isso, mas a Roberta sempre foi tão beata, nem bonita ela era, quase não saía de casa (as poucas vezes eu é quem era obrigada a sair com ela). Como ela tinha conseguido agarrar um peixe?

Foi o tempo de abrir a porta do meu apartamento e o meu telefone tocou. Atendi ainda atordoada com as informações.

- Diana? Oi, é a Roberta!

- O-oi...prima, tudo bem?

- Espero que não esteja te atrapalhando. Queria saber se você recebeu o meu convite de casamento.

- Convite?! Ah recebi sim. Poxa que legal...você vai casar! – eu tentei dizer com o maior esforço de felicidade que pude

- Nem acredito, prima! - nem eu acreditava

- Será que eu e o Jorge podemos passar na sua casa hoje à noite? A gente queria conversar com você.

- Cla-claro.

O que mais a prima Roberta queria me dizer? Ela quase já tinha me enfartado com aquele convite! Passei a tarde inteira processando a informação e relembrando da nossa infância.

Roberta é filha da irmã mais velha do meu pai. Quando criança éramos bem próximas, mas a adolescência foi chegando e eu me rebelei e a Roberta sempre no seu caramujo. Saíamos algumas vezes, trocávamos algumas confidências, mas ela – ao contrário de mim – sempre foi mais cheia de pudores. Na certa, a vida nos levou para caminhos diferentes e passamos a nos encontrar só em almoços de família, velórios e casamentos em comum. E eu não me recordava da última vez que tinha visto ela acompanhada até aquele momento...

- Prima! – disse Roberta me abraçando euforicamente assim que abri a porta – Que saudades!

Fiquei estática quando a vi. Eu mal podia reconhecê-la. Ela tinha emagrecido uns dez quilos, cortara os cabelos e estava mais jovial, mais bonita. O que o amor não faz com as pessoas né?

- Esse é o Jorge.

Só podia ser piada divina. O cara era um gato. Onde a Roberta escondeu esse tesouro por tanto tempo? Me recompus e pedi que os dois entrassem. Ofereci alguns petiscos e cerveja, mas o casal puritano não bebia. Ficamos só no suco de laranja mesmo.
Roberta me contou que tinha conhecido Jorge em uma viagem à Argentina, ficaram muito amigos e em menos de um ano tinham noivado. Ela tinha certeza absoluta de que ele era sua alma gêmea. Depois de mais de uma hora falando sobre a vida do casal, Roberta veio com a bomba.

- Di, na verdade, eu vim aqui para te fazer um convite. Eu e o Jorge queremos que você seja nossa madrinha. Você aceita?

O quê? Madrinha? Não tinha cargo pior para assumir que eu tinha ficado encalhada. Ser madrinha do casamento da minha prima e, além do mais, ao lado de um amigo solteirão qualquer do noivo. Uma velha tática de tentar me desencalhar. Mas como a vida nos prega peças, não tive como fugir. Aceitei o convite.

Roberta ficou radiante e prometeu me ligar para me passar todos os detalhes da cerimônia que aconteceria em dois meses.

- Gente, acho que não tem saída para mim. O meu fim é ficar para titia.

- Vixi, que conversa é essa, Diana? – perguntava Lili

- A minha prima Roberta vai casar. Até ela conseguiu alguém. Será que eu tenho algum problema?

- Para com essa conversa boba. Sua hora ainda não chegou. Só isso.

- Caramba, mas esse relógio tá sempre atrasado?! E o pior. Me chamou para ser madrinha. Que coisa mais deprimente. Ainda vou ter que ficar no altar ao lado de um cara solteirão que eu nem conheço e sendo chacota para toda a minha família perguntando o tempo inteiro se eu não vou casar. Além do mais tenho certeza que farão de tudo para o buquê cair nas minhas mãos.

- Tente ver por outro lado...

- Que lado, Lili?! Não consigo ver romantismo nisso. E amanhã é o chá de cozinha com as madrinhas. Você vem comigo né?

Sem muita dificuldade porque Lili adorava uma boquinha livre – ainda mais quando é em nome do amor – fomos ao tal chá de cozinha. Como não estávamos acostumadas com essas coisas, fomos as últimas a chegar. E adoraria ter sido a primeira a sair quando me deparei com aquela Liga das Senhoras Católicas.

- Olha só quem chegou! A próxima noiva...você não muda mesmo né, meu amor? Sempre atrasadinha – dizia tia Chica, a mãe de Roberta, me apertando a bochecha e me dando um abraço.

Antes que eu pudesse corrigi-la dizendo que eu não via nenhuma outra noiva, foi me arrastando pelo local para me apresentar às suas amigas e me levar até Roberta.
- Prima, achei que tinha desistido do convite!

Bem que eu queria, pensei.

- Deixa eu te apresentar uma pessoa. Aposto que você vai amar.

O pior estava por vir.

- Dona Célia, essa é a Diana, minha prima. Aquela que eu te falei... ah, Di, essa é a mãe do Rafa, aquele amigo solteiro do Jorge. Ele vai ser seu padrinho.

Pára o mundo que eu quero descer! Ser madrinha já estava sendo demais, agora me apresentar para a mãe do padrinho? Era o fim da picada!

A tal da dona Célia passou o tempo inteiro do meu lado, me fazendo mil perguntas a fim de testar se eu seria uma boa ‘nora’ para o seu filho. Também ficou exaltando todas as qualidades do tal Rafinha. Confesso que até fiquei curiosa. E a Lili, ao invés de me ajudar, ficou se empanturrando de lanchinhos, salgadinhos, coquetéis. Bela amiga!

Finalmente, o chá tinha acabado e nos demos conta que éramos as últimas.

- Estava tudo ótimo, Roberta – eu disse morrendo de vontade de sair correndo daquele ambiente

- Ai, Di, fico tão feliz que você tenha aceitado ser minha madrinha. Sinto tanto sua falta, das nossas conversas, dos velhos tempos...quem diria né? Você sempre tão pra frente, bonitona...nunca imaginei que iria me casar antes! Mas , relaxa, que sua hora vai chegar viu? Aposto que você e o Rafa vão se dar bem.

- Lili, pelo amor de Deus, me arruma uma desculpa para não ir a esse casamento – eu suplicava desesperadamente à minha amiga enquanto voltávamos para casa
- Amiga, até eu que sou a mais romântica das mulheres, só tenho uma coisa a dizer. Você está ferrada. Não tem como fugir.

- Você viu só o que elas fizeram comigo? Até a mãe do padrinho eu tive que aturar. Nem sei quantas vezes aquela velha chata me falou do tal Rafinha. E a Roberta precisava ter dito aquilo? ‘Nem imaginava que me casaria primeiro’. Aposto que ela amarrou o nome do Jorge na boca do sapo.

- Ai que viagem, Diana. Relaxa. Agora é só subir no altar e curtir a festa. E eu vou com você hein?

Tinha até me esquecido que eu recebi dois convites. Acho que na esperança de que eu fosse com o meu namorado. Mas só me restava carregar a Lili e agüentar ela choramingando na cerimônia.

Para minha sorte ou azar, o dia do casamento tinha chegado. Passei a tarde inteira no cabeleireiro junto com Roberta. Ela tinha fechado um pacote de dia da noiva e fez questão de levar as madrinhas. Ver a Bela, a Feia se transformando em noiva foi o pior castigo da minha vida.

Quando chegamos à igreja, Jorge logo me chamou para me apresentar o tal Rafinha. Se eu pudesse tinha saído correndo. O cara era a cópia do Bill Gates. Estava na cara que ele era virgem, morava com a mãe, jogava Playstation e devia ter uma coleção de Playboy embaixo da cama. Foi logo me comendo com os olhos e pegando no braço e só foi soltar quando o casório acabou.

Roberta estava linda. Enquanto ela caminhava pelo corredor central da igreja, um filme foi passando na minha cabeça. Quando será que chegaria a minha vez? Não prestei atenção em nada que o padre disse. Só me dei conta de que tinha terminado quando o Rafa Gates me puxou pelo braço e saímos da igreja.

A festa seria numa mansão. Digna de casamento de Lady Di. Foi uma festa pomposa. Passei a noite toda tentando fugir dos olhares do padrinho e dos comentários maldosos das minhas tias.

- Vocês não vão dançar meninas? – perguntava minha mãe

- Tô cansada, mãe

- Depois reclama que está sozinha. Olha só, a festa tá cheia de partidão e você aí sentada.

- Vai começar com a língua felina, mãe? – era sempre assim quando alguém casava – vamos tomar um ar, Lili

Enquanto fumávamos no jardim da festa...

- Diana, você tem que relaxar.

- Relaxar como? Desde que essa história de casamento começou todo mundo só sabe me relembrar o quanto eu estou sozinha.

- Faz parte do jogo, amiga. E se você ficar dando atenção vai ser pior. Falando em atenção lá vem o seu padrinho.

- Olá, senhoritas – dizia o filho do Bill Gates – será que poderia me conceder a honra da dança?

- Eu adoraria, Rafael, mas o meu salto tá acabando com o meu pé. Porque você não dança com a Lili?

Antes mesmo que ela me pensasse, empurrei-a para os braços dele e os dois se perderam na festa. Dançaram a noite inteira. Para Lili, bastou ser homem, cair na rede e gol.

Fiquei um tempo observando o ambiente, vendo quase todos os meus primos com suas esposas e esposos, correndo atrás de seus filhos e eu ali parada e sozinha. Será que é essa vida que eu quero para mim?

Antes que eu pudesse responder, uma das madrinhas me chamou para a hora do buquê. Eu tinha esquecido que ainda faltava mais esse castigo e que não tinha como relutar.

Mulheres histéricas aglomeraram-se atrás de Roberta, tentei me esconder o quanto pude, mas no 1,2,3 e o buquê tinha caído no meu pé. Tudo que eu menos queria. Dali até o final da festa, virei o centro das atenções. E todos só perguntavam onde estava o noivo. Eu é que gostaria de saber se ele existe e se mora nesse planeta.

Fui embora para casa assim que cortou o bolo. Lili quis ficar mais um pouco e disse que iria embora com o Rafael. Os dois tinham se entendido bem. Até a Lili tinha conseguido se arranjar. Não era bem um príncipe, mas era um homem.

Enquanto eu esperava o manobrista trazer o meu carro, uma voz me chamou..

- Diana?

Olhei e mal pude acreditar. Seria mesmo o Jonas?

- Sim, sou eu. Jonas?

O Jonas era um dos melhores amigos de um dos meus primos. Foi uma paixonite aguda que tive na adolescência. A gente ficava sempre que se via, mas depois nunca mais nos vimos. Os anos tinham passado, mas a beleza continuava a mesma.

- Já tá indo embora? – perguntava ele

- Pois é. Estou meio cansada. Sabe como é...acho que não tenho mais idade para madrugadas.

Ele riu. O seu sorriso continuava encantador.

- É uma pena. Adoraria conversar com você mais um pouco. Eu fiquei te olhando a festa toda, mas não estava te reconhecendo. Você tá tão bonita, ou melhor, mais bonita né? Anota meu telefone, me liga para gente marcar de se ver.

Aquilo só podia ser pegadinha do cupido né? Só sei que resolvi não duvidar e anotei o telefone. Será que o buquê estava fazendo efeito? Por via das dúvidas, eu é que não queria ficar com ele para sempre hahahhahaha

PAPO DE CALCINHA: E você ainda está com o buquê?

quarta-feira, maio 26, 2010

NO DIVÃ


Por Letícia Vidica

- Nossa, Diana, tenho te achado tão cabisbaixa e quieta esses dias. Aconteceu algo? – perguntava Cristina, uma das minhas colegas de trabalho enquanto olhávamos a vitrine de algumas lojas na hora do almoço

- Ah, sei lá, Cris. Ando meio desanimada sabe? Estou achando a minha vida meio sem sentido, não sinto mais prazer em fazer quase nada...tô de bode! – eu respondia com total desânimo enquanto olhava um sapato verde na vitrine da loja

- Ah, eu bem sei o que é isso. Já me senti assim como você, mas graças a Jane, a minha vida mudou.

Jane? Quem seria essa tal de Jane? Faltou pouco para eu gritar “Pelo amor de Deus, me apresenta a Jane!”, mas Cristina foi mais rápida na explicação...

- A Jane é a minha terapeuta. Ela é ótima. Estou com ela há um ano e meio e não vivo mais sem ela. Acho que você deveria ir lá, marcar uma hora. Aposto que ela vai te ajudar. Quer que eu te dê o telefone?

Aquela foi uma das perguntas que ficaram me martelando até o final do dia. Terapeuta? Será que o meu caso era tão grave a ponto de uma terapia? Não que eu tenha preconceitos ou talvez eu tenha, mas sempre achei que um desabafo no bar do Pedrão, uma choradinha no ombro da Betina ou uma boa noite de sexo resolveria os meus problemas. Porém, naquele momento tudo isso só piorava o meu estado de espírito.

- Acho que vou começar a fazer terapia. O que vocês acham? – eu questionava à Lili e Betina durante mais um de nossos encontrinho no apê da Betina.

- A maior perda de tempo do mundo – respondia prontamente a dona da pensão – eu já gastei muita grana com isso e não resolveu nada. Só dinheiro jogado fora e horas falando de mim para alguém que mais parecia uma parede

- Ah, eu acho ótimo. Não escuta ela não, Di. Todo mundo precisa de terapia na vida. Eu já fiz, me ajudou muito e estou louca para retomar, pena que já recebi alta.

- Então o seu terapeuta te deu alta porque não agüentava mais te ouvir falar do Otávio e das burrices que você faz né? – retrucava Betina

- Não sei, gente. Ando meio triste, cheia de questionamentos, sem rumo...a minha colega lá da agência me indicou a terapeuta dela e meus dedos estão coçando para eu ligar.

- Você é quem sabe, Diana. Só acho que não vai adiantar...

- Só porque você não quis se ajudar na terapia, dona Maria Betina, não significa que a Diana não vai ser ajudada ok?

Antes que as duas se atracassem no sofá, resolvi mudar o rumo da conversa, mas não o rumo dos meus pensamentos. Passei a semana inteira relutando comigo mesma se eu ligaria ou não para a terapeuta. Sempre fui daquelas de achar que terapia era coisa de louco ou de gente rica que não tem o que fazer ou com o que gastar dinheiro, mas talvez tivesse chegado o momento no qual todas as minhas teorias preconceituosas iam por água abaixo.

Durante aquela semana, tentei de tudo para levantar o meu astral. Comprei roupas novas, fui ao cinema, tentei responder sozinha a todos os meus questionamentos até apelei indo na casa da minha irmã choramingar as pitangas com ela. E me surpreendi ao descobrir que até a quadrada da minha irmã - casada há séculos e obediente àquele marido grosso e gordo - já tinha feito terapia uma vez na vida (e a danada não me contou nada?!)

Resolvi tomar coragem e marquei uma sessão com a tal da Santa Jane. No trajeto até o consultório, fui rezando para que ela fosse uma santa mesmo e me desse uma solução para os meus problemas. Também não contei a ninguém que estava indo lá, nem mesmo para as meninas, afim de evitar qualquer pré conceito e se eu não gostasse seria apenas um segredo íntimo entre a tal da Jane e eu.

Chegando ao consultório, me deparei com uma sala bem aconchegante com um sofá branco e tão fofo que dava vontade de se jogar e dormir na hora. Uma mulher morena, alta e de óculos me atendeu. Era a tal da Jane. Sorridente, me fez entrar, sentar e ficar o mais à vontade possível. Será que alguém é capaz de ficar à vontade com uma pessoa que nunca viu na vida prestes a saber os seus segredos mais íntimos? Mas confesso que eu me esforcei...

- Fico feliz que tenha vindo me procurar, Diana. Espero que eu possa lhe ser útil. Quero que saiba que eu não estou aqui para julgá-la, então não tenha medo de me dizer o que lhe aflige – a voz dela era doce e mansa que me fez lembrar a minha primeira professora do primário e o seu sorriso era brando que conseguiu ir me acalmando.

- Bem, doutora, ou melhor, Jane... eu resolvi apelar para a sua ajuda porque me sinto muito confusa ultimamente...sem ânimo para fazer as coisas e sem saber quem sou eu...me sinto como alguém que está nadando para chegar na praia e nunca chega...minha vida amorosa está uma bosta...só encontro homens que não querem saber de compromisso ou que só entram na minha vida para magoar meu coração...o meu trabalho não me dá mais prazer...trabalho dia e noite como um burro de carga e não vejo recompensa...

Desatei a falar das coisas que me afligiam e nem vi o tempo passar. Era como se eu e a Jane fôssemos velhas amigas. Confessei a ela coisas que nunca tinha dito a ninguém e aos poucos fui me sentindo mais aliviada e retirando um peso no ombro que parecia pairar sobre mim...

- Diana, a culpa das coisas da nossa vida darem certo ou errado é nossa mesmo. A gente é quem conduz a nossa vida. Você é quem sabe a resposta para tudo que quer saber. Basta saber se ouvir e você vai encontrar.

Mas como assim? Eu passo cinqüenta minutos falando sobre mim, querendo uma resposta para essa mulher me dizer que eu tenho a resposta?! Quero o meu dinheiro de volta.
Saí de lá batendo as tamancas, mesmo sob a recomendação de voltar na semana seguinte.

- E aí, Di, fiquei sabendo que foi lá na Jane...gostou? – gritava Cristina no meio da recepção da agência quase esbanjando o meu segredo mais obscuro

- Ah, eu gostei sim – respondi com o maior esforço de falsidade que pude

- Já vi que não gostou. Mas não desanima, não. Ela é ótima. É uma questão de costume.

Seria apenas uma questão de costume? Passei a semana seguinte inteira me questionando se eu voltaria à terapia ou não. Achava até que estava me sentindo melhor, mais aliviada. Não precisava mais de terapia. Pronto, eu não vou.

Eu não iria até ter um pesadelo numa noite dessas. Sonhei que estava dentro de uma piscina me afogando e que várias pessoas me olhavam ao redor e riam de mim sem me ajudar. Acordei assustada e suada no meio da noite e despenquei a chorar.

Incrivelmente, chorei por quase uma hora. Não era um choro de TPM (eu tinha acabado de menstruar) e muito menos de tristeza. Foi um choro chorado de uma forma que eu nunca chorei.

No dia seguinte, aquele sonho me perseguiu. E, antes que eu ficasse louca, dei meia volta no quarteirão e toquei o carro para o consultório da Jane. Eu estava resolvida a dar mais uma chance a ela, mas apenas uma!

- Diana, que bom de te ver de novo – disse a terapeuta me dando um abraço maternal

Sentei e desatei a falar. Disse a ela sobre o meu pesadelo e a minha reação depois dele. Ela tentou me ajudar a interpretá-lo e disse que aquilo era um sinal de algo na minha vida que não ia bem e que as pessoas do sonho não me ajudaram porque apenas eu é quem poderia me autoajudar a sair daquele sufoco. Uma loucura dessas, mas que até fez sentido.

Comecei a falar mais sobre a minha vida desde a decisão de sair da casa dos meus pais para poder ter mais liberdade até o fato de estar sempre tentando encontrar o meu príncipe encantado e cair do cavalo. Enquanto eu revivia alguns momentos da minha vida, desatei a chorar de novo. Jane me cedeu uma caixa de lenços e eu chorei como uma criança que perde a chupeta.

O mais engraçado de tudo é que não tive vergonha de chorar na frente da Jane e, apesar dela mais me ouvir do que falar, comecei a perceber algo muito importante – acho até que isso é a chave da terapia – comecei a me ouvir.

- Diana, você é um passarinho que nasceu para voar. Você tem essa necessidade de ser livre. Sair da casa dos seus pais não foi apenas uma decisão cômoda, mas foi uma forma de dizer a eles que você é livre e de respirar melhor. Essa sua busca incessante pelo príncipe não é à toa. Acho até que você já possa ter encontrado bons pretendentes a príncipes, mas resolveu relutar a eles do que talvez ter que podar a sua liberdade.

Tudo ainda parecia um pouco confuso quando saí do consultório, mas as frases ditas pela Jane não saíram da minha cabeça durante o resto dos dias.

Sem me dar conta, percebi que eu precisava daquela terapia e que eu não estava ficando mais ou menos louca com aquilo. Eu apenas estava sendo apresentada a uma pessoa tão próxima de mim,mas que eu desconhecia: eu mesma. Toda vez que eu ia nas sessões, saía de lá com questionamentos que me faziam refletir ou tinha o prazer de encontrar respostas que estavam diante dos meus olhos mas que eu não conseguia ver.

E assim se passoaram os dois anos de terapia que tive com a Jane. Sem perceber, eu tinha resolvido todos os impasses da minha vida. Podia muito bem me virar sem ela agora e acabara de receber a tal da ‘alta’.

- Tentei te ligar ontem à noite, mas deu caixa postal, o que houve? – perguntava Betina

- Fui na Jane.

- Jane?! Quem é essa? – perguntava minha amiga sem me dar conta de que eu tinha mantido esse segredo das sessões

- Ah era a minha terapeuta.

- Terapeuta? Você estava fazendo terapia e nem nos disse nada?

- Dois longos e ótimos anos. Dizer para quê? Para você me sacrificar na cruz? Quem não te conhece que te compre, dona Betina. E se quer saber? Foi a melhor coisa que fiz da minha vida.

- Bem que eu percebi você um pouco mudada mesmo...mas e aí deu resultado? Ela é boa? – perguntava Betina com ar de curiosidade

- Quer saber para quê? Você não acredita nessas coisas...

- Ah, Di, sabe como é né...vou confessar...acho que agora eu é que estou precisando de terapia. – confessava ela com vergonha de assumir tal coisa

- Ai, Betina...então anota o telefone da Santa Jane.

Não só indiquei a Jane para a Betina como para todos que se aproximavam de mim e falavam de terapia. Mesmo sem precisar continuar as sessões, a minha mão ainda coça com vontade de querer voltar. Acho que sempre vou precisar da Jane hahahahaha

PAPO DE CALCINHA - VOCÊ JÁ FEZ TERAPIA?

sexta-feira, maio 21, 2010

ME DEIXE SÓ



Por Letícia Vidica

Trim, trim...

- Oi, Diiiiii – pela empolgação nem precisava adivinhar que era a Lili no telefone – te dou meia hora para se trocar que eu estou passando aí. Tem baladinha nova no pedaço. Vamos comer uma feijuca e curtir um padodinho hoje, que tal?

- Ah, valeu, Li. Mas eu não vou sair de casa hoje não. Vou ficar de pipoca e DVD. Aluguei uns filmes, comprei uns beliscos...tô sem clima de sair hoje.

- Como assim, Diana?! Vai ficar enfurnada nesse apartamento nesse sábado de sol? Eu não creio. O que houve? Tá de deprê? Não vai me dizer que bateu a depressão por causa do Pierre hein?

- Não é nada disso, Li. Eu só não quero sair. Tô afim de ficar quietinha no meu canto pode ser

Um pouco inconformada com a minha negativa, Lili desligou o telefone. Mas eu tinha direito de querer ficar quieta no meu canto. Eu tenho o direito de ficar só. O problema é que as pessoas nem sempre entendem isso. Por que será que querer ficar um pouquinho mais com você mesma incomoda tanto?
Sou uma pessoa que adora sair, ver gente, estar no meio do agito...mas tem hora que eu preciso recarregar as energias e eu gosto de ficar sozinha. Foi por essas e outras que optei por ter o meu próprio canto.

*************

Eu estava em mais um daqueles finais de semana da preguiça. Quase meio-dia e eu ainda estava de pijamas e de pantufas. Cama desarrumada e sem hora para arrumar. Cabelo despenteado. Nem ao menos me lembrava se tinha escovado os dentes.
Sentada no sofá, comecei a planejar o meu dia. Primeiro, iria me arriscar na cozinha fazendo um bolo de cenouras que peguei a receita num programa de culinária outro dia. Depois, ia me jogar na cama e ler mais uns dois capítulos daquele livro que eu comecei há uns dois meses. Então, vou me jogar debaixo das cobertas e assistir àquela comédia romântica (que eu já sei o final) – um dos dez filmes que eu aluguei para assistir no final de semana -, tirar um cochilo, ouvir uma música – ai que saudades daquela coletânea do Djavan...

Enquanto eu divagava em meus pensamentos por mais de uma hora esparramada no sofá, minha campainha tocou. “Ai, não. Visita não. Vou pedir pro porteiro dizer que nesse final de semana eu morri”. Abri a porta e nem sei por que fiquei surpresa ao ver Betina e Lili.

- Eu tinha que vir até aqui para comprovar se isso era verdade!!! Não to acreditando que você está mesmo de pijamas num sol desses?! – recriminava Betina

- E posso saber qual é o problema de ficar de pijama num sábado desses dentro da minha própria casa?

- Eu disse que não ia adiantar vir até aqui, Betina.

- E não adiantou mesmo, Lili. Nem vem que não tem que esse final de semana eu não arredo o pé de casa.

- Tá ficando louca, Diana?! Pode ir tomando um banho, colocando uma roupitcha que a gente vai piriguetar.

- Betina, eu não vou sair! – tive que ser dura para ela entender que eu não estava afim

- O que houve, Diana? Vai me dizer que tá com depressão melancólica? Só pode ser por causa do Pierre!

- Gente, não tem nada a ver com o Pierre. Como vocês são chatas hein? Eu só quero ficar sozinha no meu canto. Não estou afim de sair. Divirtam-se

Minhas amigas ainda ficaram mais uma hora tentando me convencer a sair de casa, mas eu estava decidida a ficar sozinha no meu canto. Eu tinha esse direito e a minha vontade ia ser cumprida. Depois de tanta insistência e sob várias recrimações contra a minha pessoa, elas foram embora

Resolvi então ir para a cozinha para começar a minha arte culinária. Enquanto isso, liguei o som no volume mais alto que pude e fiquei cozinhando e cantando juntinho com o Djavan

**************

Trim, trim, trim...
“Ai, não! Quem é agora? Se for as meninas, eu vou ter que engrossar...”

- Diana?

- Oi, mãe! – pior que as meninas me enchendo era ligação da minha mãe. Eu ia ter que escutar.

- Não sei para quê vocês compram essa baboseira de celular. Ninguém atende. Estou te ligando desde cedo e nada de você atender essa porqueira

- Tudo bem, mãezinha? O que manda?

- Estamos aqui na chácara da sua tia. Vem para cá. Os seus primos estão todos aqui.
- Ai, mãe, manda um beijão em todos, mas eu não vou sair de casa.

- Como não? Você adora vir para chácara. E está o maior sol!!!

“Caramba, São Pedro. Podia ter chovido esse final de semana NE? Talvez assim as pessoas entenderiam mais a minha vontade de ficar só”

- Eu sei, mãe. Mas eu não estou afim de sair de casa

- Aposto que tem homem no meio. Quem foi que te magoou dessa vez? Se foi o Pierre, eu mato ele.

- Calma, mãe. Não tem homem no meio e muito menos é culpa do Pierre. Eu só quero curtir o meu apê um pouco. Tenho mil coisas para fazer aqui

- Tem certeza que não aconteceu nada? Você tinha que vir. Mas nunca tem tempo para sua família mesmo né?

A minha mãe já não engolia muito bem o fato de eu ter ido morar sozinha. E muito menos entendia quando eu queria ficar sozinha. Sempre jogava sujo para me amolecer, mas hoje ninguém vai me fazer mudar de idéia.

***********

Resolvi voltar à cozinha e para o meu bolo de cenoura que já tinha assado enquanto eu conversava com a minha mãe no telefone. Falando nele resolvi desligar para que ninguém me achasse. Peguei um pedaço de bolo quente (eu adoro bolo quente), me joguei embaixo das cobertas e liguei o DVD.

Finalmente, consegui passar as duas horas do filme em paz e silêncio absoluto. Achava que o meu momento solidão estava começando ali. Depois do filme, adormeci, mas a campainha me acordou.

- Pierre?!

- Oi, Di.

- Tá fazendo o que aqui?

- Resolvi passar aqui para te ver, buscar um abrigo.

“Tudo que eu menos precisava era do Pierre quase às dez da noite na minha casa”

- Como assim buscar um abrigo?!

- Sabe como é né...bateu a saudade – dizia Pierre já me abraçando e com segundas e terceiras intenções

- Sinto muito, Pierre. Mas hoje não dá não. Volta outro dia...

- Vai sair?

- Não. Vou ficar aqui, mas to afim de ficar sozinha.

- Ixi...já vi tudo...tá menstruada...só pode ser TPM.

- Caramba!!! Será que eu não tenho o direito de querer ficar só? Todo mundo hoje deu para pegar no meu pé?

- Tá bom, tá bom...não precisa ser grossa. To indo embora. Falei que era TPM!!

Bati a porta na cara dele e fiquei bufando pela casa. Daí me dei conta que o dia estava acabando e eu não tinha conseguido ficar em paz comigo mesma. Uma coisa tão simples. Quem seria o próximo a me infortunar? Não atendo mais ninguém. Morri para o mundo.

Sentei na varanda com o meu livro e comecei a me deliciar na leitura e varei a madrugada lendo. Por incrível que pareça, consegui terminá-lo e só me dei conta de que o tempo tinha passado quando vi o sol raiar. E, graças a Deus, ninguém mais tinha me procurado.

Resolvi ir para cama para dormir. Eu não tinha pregado o olho a noite toda e precisava descansar. Quando eu me ajeitava para deitar, a campainha tocou. EU NÃO VOU ATENDER! EU NÃO VOU ATENDER!

A insistência foi tanta que resolvi atender. Era o meu síndico me lembrando que hoje tinha reunião do condomínio e que começaria dentro de quinze minutos. Tentei me esquivar, mas ele me lembrou de que eu já tinha faltado em três reuniões. Vesti um agasalho velho e fui pra tal reunião do condomínio.

Mal consigo me lembrar qual foi a pauta da assembléia porque os meus olhos não conseguiam parar abertos. Depois de minutos intermináveis,a reunião acabou e eu percebi – avisada pelo ronco do meu estômago – que eu estava sem comer nada desde o início da noite passada. Apenas tinha me alimentado de leitura.

Contra os meus princípios, fui até a padaria comprar pão. E, no retorno, na volta do meu prédio me deparei com a Betina.

- Resolveu sair de casa caramujo? Nossa que cara é essa? A noite foi boa hein? Sabia que você tinha outro compromisso e não quis me contar.

- Betina, pára de ser boba. Passei a noite em claro lendo um livro. E foi a coisa mais maravilhosa que consegui fazer nos meus poucos momentos de solidão.

- Mas vai abrir uma exceção hoje ou ainda tá de greve?

Eu adoraria ficar só também no resto do meu dia, mas vi que não ia dar certo. Resolvi levantar bandeira branca e voltar ao mundo. Subi para tomar um banho e depois fui almoçar com a Betina.

Cheguei a conclusão que da próxima vez que eu quiser ficar só, eu vou ter que ir para Marte ou me acampar no meio da floresta. Tudo porque é simplesmente impossível ficar só.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ TAMBÉM GOSTA DE FICAR SÓ NO SEU CANTO? TEM MUITA DIFICULDADE EM CONSEGUIR UM MOMENTO DE PAZ?

sábado, maio 01, 2010

EVA VENENOSA


Por Letícia Vidica

- Meninas, queria que vocês conhecessem esta noite uma pessoa muito especial para mim - dizia Betina com brilho nos olhos

E quem mais poderia ser especial para ela a não ser eu e a Lili? Ah claro, obviamente, antes viria sua família, mas o pouco que nós sabíamos da família da dona Maria Betina bastava para saber que eles não eram tão especiais assim para ela.

- Num creio que você desencalhou! - palpitava erroneamente Lili
- Lá vem você colocando homem na conversa. Quem disse que especial combina com a figura masculina?! - respondia Betina já perdendo o rebolado
- Fala logo, Betina
- A Juju. Ou melhor, Juliana. A Juju era minha vizinha na infância, éramos melhores amigas de colégio, trocamos confidências até a adolescência até que a família dela se mudou de cidade e a gente perdeu o contato.
- E o que essa Juju que sumiu e reapareceu tem de tão especial? - perguntei com uma pontinha de ciúme daquela nova melhor amiga da Betina
- Gente, sabem o que é isso? Eu reencontrei minha primeira melhor amiga. E nem venham com ciuminho besta que coração de mãe Betina é bem grande. Sendo assim, hoje, oito horas da noite, jantarzinho especial lá em casa ok?

Nem tivemos como negar o convite. Apenas nos olhamos e concordamos em comparecer no jantar especial. Confesso que estava morrendo de curiosidade para conhecer a tal Juju.

*******************

Na hora marcada e pontualíssimas, eu e a Lili estávamos na casa da Betina que, pela primeira vez, estava de barriga no fogão.

- O que uma melhor amiga não faz né, Di? Olha lá a Betina no fogão. Isso merecia registro pro Youtube - ironizava Lili

- Parem de me encher o saco e me ajudem aqui que eu estou toda enrolada. A Juju já deve estar chegando...

... e chegou. Naquele instante, a campainha tocou e nos deparamos com uma loira de farmácia, com peitos turbinados de silicone, olhos verdes (que até hoje aposto que são lente de contatos). Uma cópia pirata da Paris Hilton. Eu podia imaginar tudo. Menos que a Betina, tão séria e cheia de pudores éticos, tinha como melhor amiga uma perua como a prima distante da Paris Hilton. Me segurei para não rir.

- Baby - disse a Juju gritando - desculpe a demora. Não estou mais acostumada com esse trânsito caótico de São Paulo.

- Que isso. Entre, Ju - disse Betina entre beijinhos - ah queria te apresentar as meninas. Essa é a Diana e essa é a Lili.

- Prazer - dissemos orquestradamente eu e Lili.

Juju se juntou a nós no sofá e começou a tagarelar sobre a vida dela enquanto Betina terminava o jantar. Por mais que ela tentasse ser simpática, algo naquele rosto de Angélica me dizia estar errado.

A noite até que fluiu bem. O rango da Betina foi comestível e a Juju tagarelou a noite toda sobre sua vida. Disse que estava morando em Londres e que estava apenas de passagem no Brasil. Disse que estava hospedada num flat, mas Betina rapidamente ofereceu que ela ficasse no seu apê. Acho que queriam trocar figurinhas do passado de novo. E a boa moça, claro, aceitou. Segundo Juju, ela era secretária de um banqueiro londrino e estava noiva de um bon vivant.

- Ai, Lili, não sei não, mas eu não gostei dessa amiguinha da Betina - eu dizia enquanto voltava para casa de carona com a Lili

- Tá com ciúmes é, Diana?

- Não é ciúmes. Sei lá, meu santo não bateu com o dela e eu não gosto de sentir iso. Isso tem cheiro de Eva Venenosa.

******************************************

Depois do jantar especial, Betina resolveu fazer um happy hour especial e levou a Juju para o bar do Pedrão nos nossos encontros de sexta-feira.

- Nossa, estou tão feliz. Agora posso dizer que somos o Quarteto Fantástico! - dizia Betina cheia de alegria e levantando o copo de chop para um brinde
Aquele cena não seria tão ridícula se não fosse a Betina.

- Ai, gente, estou adorando ficar aqui. O Brasil me faz muita falta sabia?
- Então você não vai mais voltar para Londres? - eu perguntei
- Infelizmente, eu vou...mas adoraria ficar... - disse a Paris com cara de anjo
- E aposto que ficaria de mala e cuia na casa da Betina.
- E qual o problema, Lili? - questionava Betina
- Nenhum. A casa é sua mesmo né?

O clima ficou meio pesado depois disso, mas eu tentei desbaratinar e começamos a jogar conversa pro ar. Para minha surpresa, Pierre apareceu no bar e se juntou a nós. Durante toda a noite, eu percebi Juju jogando olhares e insinuações para ele. Me fingi de morta, mas comecei a sacar que de anjo ela não tinha nada.

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Um mês depois do happy hour, nunca mais eu tinha visto a Betina. Toda vez que a gente ligava ela nunca estava em casa ou, segundo Juju, sua secretária, ela nunca podia falar com a gente.

- Tem visto a Betina?
- Desapareceu, Lili. Acho que está ocupada demais para nós com a amiguinha de infância dela.
- Que tal aparecer lá de surpresa? Quem sabe assim ela nos atende né.

Resolvemos nos desbancar até a casa da Betina e lá estava ela...

- Meninas, que surpresa!!! Porque vocês sumiram?
- Como assim, NÓS sumimos?! - perguntava Lili já ficando puta da vida -
a gente te ligou o mês inteiro, mas parece que você estava muito ocupada para as velhas amizades.

- Eu nunca soube que vocês me ligaram
.
- Acho que a sua amiguinha Juju não quis avisar...

- Ai, gente, vai ver ela esqueceu...

- É bem o que ela quer mesmo né? Fazer com que você se esqueça da gente - dizia Lili

- Não estou entendendo as suas ironias, Liliana - questionava Betina

- Ah não? Eu te explico. Você quer bancar a toda cheia de moral, mas não vê o qual podre e venenosa que essa sua amiguinha é. Ela não passa de uma aproveitadora e encostada que não sairá da sua casa tão cedo e além do mais daqui a pouco nem as amigas você vai ter mais.

- Quem você pensa que é, hein, Lili? Só porque eu tenho outras amigas? Só porque eu não fico só derramando as minhas ladainhas idiotas em cima de uma única pessoa?

Antes que a baixaria descesse ainda mais o nivel, Lili pegou a bolsa e resolveu se retirar com a promessa de que a amizade tinha acabado.

- Acho que você pegou pesado, Betina.

- Pesado? Quem ela pensa que é para vir na minha casa e me dizendo essas maluquices?

- Desculpe, minha amiga, mas a única louca aqui é você. Você está tão cega com essa amizade que não vê que está criando um Eva venenosa dentro da sua casa. Você é macaca velha, Betina. As pessoas mudam. A Juju pode já não ser a mesma boa e inocente adolescente que você conheceu. Pensa nisso.

Peguei minhas coisas e resolvi deixar Betina refletindo sozinha. Na saída do prédio, tive o desprazer de encontrar Juju voltando de sua corrida matinal.

- Oi, Diana, você por aqui?

- Sim e porque do susto?! Já que você resolveu não repassar os nossos recados para a Betina viemos até aqui.

- Eu?!

- Olha, Juju, vamos combinar uma coisa? Comigo não ok? A Betina pode até cair no seu joguinho de boa moça, mas eu estou vacinada contra isso. Conheço muito bem o seu tipinho e olha só acho bom você manter distância do Pierre também ok? Tenha um ótimo dia, QUERIDA.

******************************

Depois do choque de realidade, minha amiga Betina simplesmente desapareceu. Confesso que fiquei super chateada pelo sumiço acreditando até que ela tinha feito sua escolha de amizade. Errada, mas uma escolha.

Numa dessas sextas-feiras típicas, eu e a Lili resolvemos manter a tradição e fomos tomar nosso chopinho com frango a passarinho no Pedrão.

- Ainda não creio que a Betina sumiu.
- Nem me fala daquela falsa.
- Calma, Lili. Ela está cega. Eu tenho fé que ela vai se tocar e eu também dei o meu recado para a Juju naquele dia. Nos encontramos na saída do prédio.

Enquanto eu contava para a Lili o que eu tinha dito, a Betina adentrou no bar. Sozinha. Se aproximou da nossa mesa e perguntou se podia se sentar.

- Agora está sozinha e quer se aproximar.
- Pode me escurraçar, Lili. Eu mereço. Meninas, eu espero que vocês ainda possam me perdoar. Eu fui uma cega.

Diante todo aquele arrependimento de Maria Madalena, fiquei curiosa em saber o que tinha ocorrido. E a minha tese se confirmou.

Betina contou que descobriu que a Juju não passava de uma estelionatária falida. Ela tinha voltado ao Brasil fugida porque tinha aplicado um golpe em Londres e não queria uma amizade e sim um abrigo. Por isso, ela preferia nos afastar para evitar que alguém descobrisse a verdade. Lendo uma agência internacional de notícias, Betina descobriu que ela era procurada e a escurraçou de casa.

- Pois é...isso prova que nem sempre você tem a voz da razão, né Betina? - dizia Lili
- Vou lhe dar mais ouvidos, Lili. Me perdoa?

E com um brinde de choppe selamos nossa reconciliação.

PAPO DE CALCINHA: Você já teve uma Eva Venenosa em sua vida?

quarta-feira, abril 14, 2010

HOMEM TENTAÇÃO


Por Letícia Vidica

Quase todos os dias, eu jurava para mim mesma que evitaria aquele olhar. Que desviaria o caminho “Talvez entrar pela copa seria uma boa idéia. Assim eu não sentiria o seu perfume e muito menos aquela voz de cordeiro me dizendo bom dia”. Porém, eu não sou muito boa em fazer promessas e as descumpria todos os dias ao chegar no trabalho.

A missa era sempre a mesma. Eu chegava, estacionava o meu carro e dava uma fiscalizada para ver se o dele também já estava lá – confesso que ficava bem triste quando não via o possante preto estacionado – daí eu pegava o elevador, subia para o 15º andar e, quando estava me dirigindo à minha sala, inevitavelmente eu tinha que passar frente à dele. Eu tentava controlar os meus olhos, mas eu era abduzida por aquele perfume maravilhoso e pela aquela voz me dizendo “Bom dia, Diana”. Me arrepiava na hora, gaguejava, as pernas ficavam bambas e a minha imaginação ia longe...

- Eu não sei mais o que eu faço, Betina.
- É simples. Cai de boca no cara.
- Nossa como você é prática! – eu retrucava tentando fazer minha amiga entender o quanto era difícil resistir aquele Deus.
- Hello! Posso saber de quem vocês estão falando, por favor? Agora vocês vivem aí de segredinho e eu não sei mais dos babados – dizia Lili morta de ciúmes, mas tenho que admitir que nem todos os segredos eu gostava de dividir com ela. Preferia a sinceridade ríspida da Betina.
- Desculpe Lili, é que tudo aconteceu de repente...

...realmente todo esse feitiço aconteceu de repente na minha vida. O homem tentação ao qual me refiro é o meu colega de trabalho, Paulo. Ele é gerente de marketing da agência onde eu trabalho. Um homem lindo, poliglota, bem formado, bom salário e um charme irresistível. Tudo bem se não fossem os empecilhos: além de estar no auge dos seus 45 anos e fogoso em seus cabelos grisalhos, ele era casado e muito bem casado. Daqueles que tem a foto da família em cima da mesa do escritório. E, o pior, com uma linda mulher. Eu não queria me envolver nessa história maluca outra vez porque eu conheço bem o final desse filme. E não para por aí. Eu e o Pierre estávamos começando a nos entender novamente. Não era um namoro oficial de novo, mas engatávamos uma doce reconciliação.

- E você está esperando o que para dar um mole para ele?
- Muita calma nessa hora, Lili. Nem todo mundo é como você. O cara é casado, a gente trabalha na mesma empresa e ... e... eu estou tentando me acertar com o Pierre de novo.
- Olha se eu fosse você eu não perdia tempo. Tirar uma lasquinha que mal tem? – alfinetava Lili
- Além do mais você já está caidinha nele.


É duro admitir. Mas eu estava com pé e mãos arriados para ele. Eu não sei porquê mas o Paulo exercia um tipo de feitiço sobre mim e eu não conseguia resistir. Minhas pernas bambeavam toda vez que eu o via. Seu perfume me embriagava e eu nunca tive tanto prazer de ir para o trabalho todos os dias. Ele era como um prêmio de consolação que eu queria conquistar. Até sonhos com ele eu andava tendo. Dos mais inocentes aos mais cabeludos. Acho que eu estava pirando.

Numa sexta-feira qualquer, eu resolvi ficar até mais tarde no trabalho para dar conta de uma campanha que eu tinha que entregar na segunda-feira. A galera do escritório tinha ido para o sagrado happy hour e eu preferi aproveitar a solidão do escritório para me concentrar. Mas, de repente uma voz me desconcentrou...

- Ainda por aqui? – disse a voz enfeitiçadora do Paulo depois de me deixar toda arrepiada e de dar um pulo de susto na cadeira.
- Nossa, que susto! – eu disse toda sem graça – pois é...tenho que terminar essa campanha.
- Posso te ajudar em algo? – perguntou ele se aproximando de mim. Fiquei morrendo de medo que ele percebesse que os pêlos dos meus braços estavam arrepiados.
- Que isso, muito obrigada. Não se preocupe. Sua esposa deve estar lhe esperando para o jantar à uma hora dessas – como eu queria ser aquela esposa.
- Ela não está em casa. Eles viajaram para a casa dos pais dela. Eu resolvi voltar ao escritório porque deixei a chave do carro em cima da minha mesa...hmmm...deixe-me ver isto – disse Paulo puxando uma cadeira e sentando-se a um centímetro de distância de mim. Acho que ele podia ouvir como o meu coração pulava no compasso da bateria.

Paulo resolveu me dar umas dicas com a campanha e a hora passou que nem vimos. E eu nem me importei com o tempo porque estar ao lado do Paulo era um sonho – bem tentador – mas um sonho. Infelizmente, acordei do sonho quando o meu celular tocou e vi que era o Pierre. Eu havia esquecido completamente que a gente tinha combinado de se ver hoje. O Paulo me fazia esquecer até o meu nome. Depois de ouvir a voz irritada do Píerre do outro lado da linha pelo meu esquecimento, justifiquei dizendo que tinha que trabalhar até mais tarde e que seria melhor nos vermos amanhã.

- Seu namorado? – perguntou Paulo
- É...não é bem um namorado ...um amigo, digamos assim.
- Desculpe tomar o seu tempo...
- Que isso, eu que agradeço pelas dicas, mas acho que já está na hora de irmos né?
- Posso lhe fazer um convite? – disse Paulo olhando profundamente nos meus olhos. É claro que ele podia fazer o convite que fosse que eu diria sim.
- Que tal um drinque para relaxarmos? Posso te deixar em casa se você quiser depois.

Topei na hora. Deixei meu carro no estacionamento da empresa e fomos a um bar no carro dele. O Paulo me levou a um bar com música ao vivo super aconchegante. Eu não conseguia acreditar que estávamos ali juntinhos naquela noite.

Bebemos algumas doses de vinho e jogamos conversa fora. Primeiro falamos de trabalho e depois de alguns copinhos de álcool filosofávamos sobre a vida. Paulo me contou que era casado há 10 anos e que se casou porque sua mulher engravidou, mas que eles eram muito apaixonados, porém passavam por uma crise conjugal no momento. Ele não sabia mais se ela o fazia feliz e nem se ele a fazia feliz. É óbvio que eu adorei saber que eu tinha chance. Só não gostei quando ele começou a perguntar sobre o meu relacionamento com o cara do celular, o Pierre. Foi difícil explicar, e como toda boa mulher que sou, disse a verdade. Contei que tínhamos namorado por um tempo, nos separado e que agora tentávamos reconciliar.

Lá pelas três da madruga resolvemos ir embora. Ao chegar no estacionamento, Paulo com seu cavalheirismo abriu a porta do carro para mim. Entrei e seguimos conversando...

- Nossa, Diana, você não sabe o quanto eu precisava relaxar. Foi uma glória ter esquecido as chaves no escritório.

- Eu é quem tenho que agradecer. Graças as suas dicas minha campanha está finalizada.

- Só valeu pelas dicas? – confesso que engasguei com aquela pergunta. O que eu responderia? Apenas sorri encabulada e cabisbaixa.

Um silêncio tomou conta do ar. Mas Paulo quebrou...

- Espero que o Pietro, ops, Pierre saiba te dar valor dessa vez. Um homem que perde uma mulher como você só pode ser um imbecil.

Confesso que eu não esperava aquela sinceridade, mas começava a perceber que talvez o feitiço fosse recíproco.

- Sabe que você é uma mulher muito bonita, atraente, inteligente...adoro mulheres assim...tenho que confessar que é um martírio te ver todos os dias com esse perfume irresistivel – disse ele fungando o meu pescoço – fico sempre atento para te ver passar e lhe dar bom dia.

Só podia ser um sonho. Ele tinha o mesmo desejo que eu. Eu era a mulher tentação dele. Naquele momento, ele parou o carro em uma rua escura. Eu não fazia idéia de onde eu estava. Começou a alisar o meu cabelo e a me encher de elogios. Tentei esquivar. Naquele momento, fiquei muito dividida. Eu estava prestes a realizar o meu sonho, mas até que ponto essa tentação valia? Ele era casado. Seria mais um rolo na minha vida. E eu? E o Pierre? Eram tantas dúvidas que eu apenas fiz uma coisa: me deixei levar. Transamos ali mesmo no banco traseiro do carro. Foi incrível...


- Que tudo!!! Diana você não vale nada, mas eu gosto de você !!! – vibrava Betina que logicamente deu plantão logo cedo em casa para saber do babado
- Ai, Betina, estou arrependida. Consciência pesada.
- Arrependida?! Eu não te entendo. Até ontem estava aí toda melindrosa louca para ser possuída pelo Paulo e agora dói a consciência?!
- Mas e o Pierre? Não é justo. Justo agora que a gente está se acertando?! Ele está fazendo um super esforço para gente se acertar.
- E vocês vão se acertar.
- Como assim? Como eu vou olhar para cara dele hoje sabendo que ontem eu estava dando pro meu gerente de marketing?!
- Diana, vira a página. Rolou e acabou. O Paulo foi só um homem tentação. Tipo aquele brigadeiro que você quer comer, come, se satisfaz e pronto!
- Homem tentação?! Você e suas definições hahahahaha Tudo bem. Vou tentar esquecer, só espero não cair em tentação de novo.
- É sempre bom repetir a dose né?

Confesso que foi difícil resistir às investidas do Paulo, mas resolvi ouvir minha consciência e tentar ficar com o certo do que com o duvidoso. Colocamos uma pedra naquele episódio. Ele se acertou com a esposa e eu estou aqui tentando me acertar com alguém.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ CAIU OU RESISTIU A UMA TENTAÇÃO?