quarta-feira, setembro 26, 2012

QUERIDINHA DA MAMÃE



POR LETÍCIA VIDICA

- Diana, você não vai acreditar em quem vai casar!!! – dizia minha mãe enquanto tirávamos a louça do tradicional almoço de domingo – A filha da Silvinha, aquela minha prima de Minas Gerais. Aquela que vinha aqui em casa e não abria a boca?! Vai casar! – pasmou minha mãe enquanto guardava as vasilhas.

- Poxa, que legal para ela, mãe.- comentei sem ânimo algum. Eu logo saquei que, em poucos segundos, começaria a sondagem.

- Legal?! É preocupante, minha filha. Tá todo mundo se ajeitando nessa vida. E você?! O que está acontecendo? Eu ainda quero te ver entrar na igreja vestida de noiva nessa vida.

- Vamos mudar de assunto, mãe! – eu não estava no clima para discutir a minha vida amorosa.

- Eu estou ficando preocupada de verdade. Até o Pierre já se arranjou de novo. O Pedro, pelo jeito, logo logo se arruma com uma gringa e você, Diana? Você tem que parar de ficar enfurnada naquele buteco toda sexta-feira e ir à caça. A idade tá passando, filha!!!

- Mãe, por favor, dá para parar de pegar no meu pé? – disse já puta da vida.

- Eu só estou falando a verdade. Esse seu jeito de mulher independente demais é o que
assusta... aposto!

- Mãe! – era Marisa que também já tinha percebido que minha mãe tinha passado um pouco dos limites.

- Chega! Eu estou cansada dos seus julgamentos, mãe. Por que você pega tanto no meu pé? Nada que eu faço tá bom!!! Eu ralo de segunda a segunda, saí de casa, conquistei minha liberdade, sou uma ótima profissional, mas nada tá bom?! A Marisa engravidou e casou com o primeiro otário que apareceu, vive um casamento infeliz, mas tá sempre tudo bem para ela. O meu irmão é um encostado, não consegue comprar uma chupeta para filha dele, mas a senhora continua alisando ele... e eu? Só levo tapa? Para mim, já deu. Cansei de ser a ovelha negra da família. – joguei o guardanapo no chão e ameacei sair da cozinha.

- Suzete, o que você fez? – era meu pai que entrara assustado na cozinha ao ouvir os meus berros.

Saí batendo as tamancas. Peguei minha bolsa na sala e fui para o carro. Antes que eu arrancasse, meu pai apareceu gritando para que eu ficasse.

- Diana, releve. Você não conhece sua mãe? Tente entender.

- Pai, eu te amo! Mas eu cansei de entender minha mãe e todo mundo... e eu? Quem me entende?

Fui para casa muito puta e em lágrimas. Eu odiava quando isso acontecia. E, de um tempo para cá, eu e minha mãe estávamos assim. Duas palavras e cinquenta socos. Eu sempre fui a queridinha do meu pai e sei que a Marisa e, principalmente, o meu irmão eram os xodós da minha mãe. Parecia até que ela gostava de me alfinetar por prazer.
Por um tempo (talvez na adolescência), eu gostava do fato de enfrenta-la, mas agora está perdendo a graça.

******

- Ixi, o que houve? Para transferir o Pedrão para o apê é porque alguma coisa tá feia. – dizia Betina que chegava no meu apartamento.

- Desculpem, meninas, mas eu não estava no clima de Pedrão hoje. – eu disse deitada no sofá.

- O que aconteceu, Di? – perguntava Lili.

- Minha mãe. Para variar, a nossa relação tá cada vez mais insustentável. A gente discutiu domingo passado mais uma vez. Eu estou cansada dela me pressionando. Acredita que teve a pachorra de dizer que até o Pierre desencalhou e eu continuo encalhada?!

- Diana, tenta pegar leve. É o jeito dela. Vai ver ela não faz por mal... – dizia Betina.

- Não faz por mal, mas faz toda hora. Parece que nada que eu faço está bom. A pamonha da Marisa engravidou do primeiro cara que transou aos 19 anos e tudo ficou lindo. O marido dela é um bunda mole que a trai, mas tudo está bem. O meu irmão não faz nada da vida e nem se preocupa em saber se fará algo nessa vida, mas minha mãe continua achando que tá tudo bem. E eu? Faço tudo certo e continuo a errada.

- Amiga, é difícil opinar. Mas acho bom se entender com a sua mãe logo. Aproveita enquanto você ainda pode. A minha morreu e eu deixei muitos mal entendidos. – desabafava Betina.

- Pode até ser, mas hoje eu estou muito puta ainda para dar o braço a torcer.

- Ah eu bem entendo. Falando em mãe, a minha vai fazer uma festa de aniversário amanhã. Ela não me procura o ano inteiro, mas quer que eu apareça na festa. Já não basta ter anunciado a festa na Caras? – bufava Lili – Vocês vão comigo né?

- Acho que uma festinha high society pode melhorar o meu astral. – brinquei.
Seguimos a noite tomando vinho, comendo pizza e a falar sobre nossos desentendimentos maternos.

*****

No dia seguinte, apesar do meu baixo astral, subi no salto quinze e fui para a festinha da mãe da Lili. Mais conhecida como Dona Leiloca Bittencourt, figurinha carimbada das colunas sociais. A Lili não gostava muito de comentar sobre o assunto, mas era impossível não ler. Ao pisar na festa, percebi que era coisa fina. Digna da presença de Amaury Junior. Acho até que ouvi a musiquinha...
Dona Leiloca estava completando 60 anos, mas com um pele de botox que a deixava uns 20 anos mais jovem.

- Filha linda do meu coração! Que bom te ver. – dizia ela beijando Lili, ao mesmo tempo que sorria e fazia poses para os fotógrafos, elegantemente equilibrando uma taça de proseco na mão. – Meninas, continuam lindíssimas hein? Que bom que vieram. Fiquem à vontade... cadê o emergente do seu namoradinho, Lili?

Dona Leiloca não fazia muito gosto pelo Tavinho. Achava que ele era um aproveitador e que ia roubar a herança da família. Tavinho sacando todo o amor que a sogra tinha por ele, saiu pela culatra e pulou fora da festinha.

- Gente, eu preciso respirar. Minha mãe me sufoca com essa falsidade. – dizia Lili brecando o garçom para emendar o segundo espumante.

- Sua mãe é uma fofa, Lili. Bonita, rica... sem contar que a festinha tá bombando hein?

- Quer trocar, Diana? Daria tudo para ter uma mãe normal como a sua... – reclamava Lili sobre a exuberância de Dona Leiloca.

- Falando em exuberância, quem é aquele garotão bonitão ali, hein? Apresenta o priminho para titia, Lili. – era Betina quem espichava o olho num morenaço que não passava dos 25 anos.

- Pode tirar o cavalinho da chuva, bonitona. Aquele ali é o meu novo padrasto. Mais uma das crias da minha mãe. Ridículo não?

Betina pediu desculpas pela gafe, mas não conseguiu desgrudar o olho do jovem. Ele era realmente um Deus grego. Mais tarde, descobrimos que ele era um top model de peso nas passarelas de Paris.

- Minha Barbie!!! Que bom te ver. Dá um beijo no papai. – dizia um sedutor senhor grisalho queimado de bronzeamento artificial que era o pai da Lili.

- Não seja ridículo, pai. Vai assustar minhas amigas. – ela dizia abraçando o pai.

- Meninas, esse é o meu tesouro! Falando em tesouro... pitchuca, vem cá! Quero que conheça a nova namorado do papai, ou melhor, futura esposa.

Assim como a mãe da Lili gostava de pegar garotinhos para criar, o pai dela também alimentava as garotinhas. Pela pose, logo vimos que os dois devem ter arrumado os companheiros no mesmo desfile em Paris.

- Tudo bem que a Lili tem seu quê de realeza, mas ela nem parece dessa família!!! – desabafava Betina enquanto fumávamos no jardim.

- Chega a ser hilário! Mas como ela mesmo diz: é muita pose né? Chega até dar saudade dos arranca rabos que tenho com a minha mãe. São mais verdadeiros!

Enquanto ríamos daquela declaração, Lili chegou de olhos marejados e maquiagem borrada.

- Vamos embora, meninas! Essa festinha já deu para mim. Já fiz o meu papel de boa filha. – dizia ela parecendo nervosa.

- O que houve? – perguntei.

- Flagrei meu pai e minha mãe brigando mais uma vez por dinheiro lá em cima. Fui me intrometer e ouvi o que eu não queria da minha mãe. Daí, ela disse que eu estava estragando a festa dela. Pois bem. Se eu estrago, eu vou embora. Cansei de ser enfeite.

O dinheiro era a maldição da família Bittencourt. Os pais de Lili sempre passaram a vida toda brigando mais pelo dinheiro do que dando atenção para a filha. Não era à toa que Lili se sentia mais feliz com suas duas amigas pé rapadas.

*****

Era domingo e, como eu ainda estava chateada com a minha mãe, resolvi fazer a minha própria macarronada. Bem na hora que a água começou a ferver, a campainha tocou. Me assustei quando vi minha mãe parada na porta do meu apartamento.

- Oi, Diana! Posso entrar? – dizia ela com um tom de quem vinha para hastear a bandeira branca da paz. – Cheirinho bom. Tá cozinhando?

- É. Resolvi me virar.

Enquanto eu terminava o almoço, minha mãe ficou me rondando na cozinha querendo dizer algo, mas não conseguia. Sondou sobre a minha semana e outros assuntos banais para me amolecer.

Só depois da macarronada que ela quis saborear comigo, ela finalmente entrou no assunto.

- Que orgulho, filha. Sua comida estava maravilhosa.

- Acho que sei me virar sozinha. – alfinetei.

- Minha filha, me desculpe. Eu sei que errei domingo passado. Fui dura demais com você.

- O problema não é só domingo passado, mãe. Eu só queria saber o que eu fiz ou o que eu não fiz para a senhora me cobrar tanto?! Chego até a pensar se eu não sou adotada.

- Não diga uma bobagem dessas. – batia ela três vezes na mesa. – Você é sangue do meu sangue. E é a mais parecida comigo, se quer saber. Acho que é isso. Somos muito iguais e, por isso, batemos de frente. Mas saiba que eu admiro a sua garra, a sua independência... eu sei que você é a mais forte de todos e, por isso, acho que exagero na cobrança. Mas é para o seu bem, minha filha. Eu só quero o seu bem. Você me perdoa?

- Você é a minha mãe, né? Vir até a minha casa já é um bom começo. Promete que vai pegar leve comigo?

Minha mãe levantou-se, deu-me um beijo na testa e um forte abraço. Selamos nosso acordo de paz, ou pelo menos, demos uma trégua. O bom de tudo foi que ganhei uma tarde de filha única com direito a ganhar bolinho de chuva no fim da tarde. Sei que ainda vamos nos atritar novamente, mas adorei aquelas horinhas de queridinha da mamãe.

PAPO DE CALCINHA: E, VOCÊ É OU NÃO A QUERIDINHA DA MAMÃE?

segunda-feira, setembro 10, 2012

COINCIDÊNCIAS DO AMOR


POR LETÍCIA VIDICA


- Nossa, o casalzinho demorou hein? A gente estava quase indo embora. – dizia Betina para Lili e Luis Otávio que chegavam ao bar do Pedrão com um pequeno atraso de três horas.

- Desculpem, meninas. Estávamos resolvendo um problema de família. – dizia Lili toda esbaforida.

- Nossa, quem morreu? – perguntei já preparada para a tragédia familiar.

- Não é nada disso, gente. A Lili tá exagerando, para variar. – dizia Tavinho enquanto enchia o copo de cerveja – Minha mãe resolveu dar um dos pitis dela lá em casa. Só porque o Dudu, o meu irmão, tá saindo com uma mulher mais velha.

- Quinze anos mais velha, só para reforçar – dizia Lili – O menino tem 25 anos e a espertinha, 40!!! – bufava a defensora dos jovens oprimidos.

- Opa! Cuidado com essa história de mais velha, gente. Não esqueçam que eu sou uma jovem senhora de 40 anos ... – recriminava Betina.

- E que adora sair com garotinhos né? – completei – Um pouco exagerado mesmo. A Betina bem podia ser sua cunhada Lili. – zombei.

- Mas a Betina é diferente!!! Ela não faz o tipo de que quer bancar garotinhos. Agora a tal do Dudu tá dando casa, comida e quase roupa lavada. – Lili realmente tinha comprado a briga da sogra.

- E o que você tem a ver com isso?! Os dois são adultos não são?! Ninguém é criança nessa relação. Sua sogrinha não tem nada que se meter. – era Betina, a rainha dos baixinhos que defendia seus menores abandonados.

- Assino embaixo, Betina – dizia Tavinho brindando com Betina. Cena atípica, mas que às vezes acontecia.

- Nossa, parece até que é você que tá saindo com o Dudu!!!

- Não se preocupe, Lili. Já basta ser sua amiga, cunhada é um pouco demais. Se querem saber, estou amamentando sim, mas não é o Dudu. – revelava Betina.

Enquanto eu me divertia assistindo as duas trocando farpas, meu celular tocou. Era o Daniel, o meu novo peguete. Nos conhecemos, literalmente, no elevador. Ele trabalhava no mesmo prédio que o meu e entre um andar e outro surgiu um affair. Três happy hours depois, estávamos juntos.

- Hmmm que sorrisinho é esse, hein, dona Diana? – perguntou Betina ao ver meu rosto assim que desliguei o celular

- Tá de bofe novo? – perguntou Lili

Contei para as meninas quem era o meu novo casinho. Não era nada sério demais. Apenas uma voz masculina para chamar de minha e suprir as horas difíceis.

- ... ele tá lá na casa da best friend dele, a Livinha. É Deus no céu e essa amiga na terra sabe? Ela acabou de ter um bebê. Ele tá enchendo o saco para eu conhecer a tal garota... mas eu não quero sabe? É quase a mesma coisa que conhecer a sogra... – desabafei.

- Lá vem você com suas encucações. Que mal tem em conhecer a amiga dele? Seja simpática, Diana. Não complica. – dizia Lili.

Passamos o resto da noite bebendo, comendo, rindo e discutindo sobre a nova namorada do Dudu e se eu deveria ir ou não na casa da best friend do Daniel.

***

- Oi, gata, tudo bem? – dizia Daniel enquanto eu entrava no carro dele.

- Nossa, por que você não quis subir?

- Não queria me atrasar. A Livinha tá esperando a gente... – dizia ele ameaçando um beijo.

- Como assim? A gente vai sair com ela? – recuei puta - Daniel, você não me fala
nada? Eu não disse que era cedo demais...

- Calma, Diana. Não se preocupe. Ela insistiu demais para te conhecer. Eu não tinha mais desculpas para dar. Não fica brava vai? – dizia ele me dando um selinho para desmanchar o meu bico. – Vocês vão se dar bem... tenho certeza!

Resolvi levantar a bandeira da paz. Afinal de contas, as meninas estavam certas. Eu tinha que deixar as minhas encucações para lá e perder esse medo bobo de me envolver seriamente com alguém de novo. Porém, no fundo do meu ser, algo me dizia que eu ia ser surpreendida.

- Livinha, aqui está. A mulher da minha vida. – era Daniel enchendo a minha bola.

- Não exagera, Daniel – eu disse ainda cabisbaixa na porta do apartamento da amiga dele.

Levantei o rosto para ameaçar um sorriso tímido e parecer simpática, mas quase tive um treco quando vi que a Livinha era a Olívia. Isso mesmo. A esposa do Pierre. A Olívia que roubou o meu namorado, engravidou dele, casou com ele era a melhor amiga do Daniel, o meu atual peguete. Eu jamais podia imaginar que Livinha era o diminutivo de Olívia, carinhosamente.

Que infeliz coincidência e que mundo ovo do caramba!!! Percebi que ela também quase teve um treco quando viu que a mulher da vida do melhor amigo dele era a ex do marido dela. E agora? Esperei a hora do golpe fatal. Era a deixa para ela contar tudo ao Daniel, mas fui surpreendida novamente.

- Oi, Diana, muito prazer! Entre, fique à vontade. - disse Olívia como quem tinha me visto pela primeira vez.

Entrei ainda de pernas bambas. A Olívia tinha sido super discreta. Eu não sabia por qual motivo. Mas e o Pierre? Como reagiria?

- Cadê o maridão, Livinha? – perguntou Daniel enquanto sentávamos no sofá.

- Ah, ele tá no banho. Agora é assim. Um cuida da Luisa e o outro se cuida. Vocês querem beber algo?

Enquanto Olívia foi à cozinha buscar bebida, eu tentava me recompor, mas eu não estava nada bem. Quem imaginou um dia que isso aconteceria? Parecia cena de novela. Eu novamente metida na vida do Pierre. Só pode ser carma. Não é possível!!! E o que será que o Daniel sabia da ex do Pierre? Aposto que ele sabia da despedida de solteiro, do casamento... ai meu Deus! Como eu ia contar para ele?

- Daniel, meu chapa! Como vai? – era Pierre que entrava na sala.

- Aqui está minha garota. Eu não falei que eu ia trazê-la aqui? Sou ou não sou um cara de sorte?

Pierre emudeceu quando me viu, engasgou e não sabia o que dizer.

- Tá tudo bem, Pierre? – perguntou Daniel estranhando a reação.

- Tá, tá tudo ótimo. Prazer, Di-Di-Diana! Realmente, você é um cara de sorte. – dizia Pierre olhando profundamente nos meus olhos.

Percebi que todos ali estavam dispostos a encenar. Tive que entrar na onda. Foi uma situação horrível. Nos entretemos com assuntos banais sobre a vida de casado dos dois. Tive que fingir que tudo era novidade. Foi horrível entrar naquela intimidade. Tive até que segurar a bebê. Era linda, mas não foi nada confortável. Olívia saiu pela culatra, quando me chamou na cozinha para ajuda-la com o jantar.

- Diana, nem sei o que dizer... – ela dizia encostada à pia.

- Só quero que saiba que essa foi uma infeliz coincidência. Jamais passou pela minha cabeça que a Livinha fosse você... que loucura!!! Eu estou péssima! – eu dizia andando feito barata tonta na cozinha minúscula.

- Calma! Eu sei que você não faz esse tipo, mas... o Daniel é um irmão para mim. Eu não sei o que fazer... – Livinha, ou melhor, Olívia também parecia desesperada.

- A gente tem que contar a verdade para ele. Não é justo. Ele tá lá todo bobo, conversando com o Pierre e nem imagina que... eu vou lá. – ameacei ir até a sala, mas fui contida pela Olívia.

- Não. Agora não. Acho que você tem que contar sim, mas não agora.

- Mas e se o Pierre falar algo?

Fomos interrompidas por Daniel que chegara na cozinha. Desbaratinamos o assunto, ajudei Olívia a colocar a mesa e jantamos.

- Nossa, amor, não comeu nada! – dizia Daniel.

- Estou sem fome. Eu não sabia que viria aqui e acabei comendo antes de sair de casa.

- Eu fiz surpresa. Queria saber se vocês aprovariam ela ou não... – dizia Daniel rindo.

Mal ele sabia que o Pierre não só já tinha aprovado como provado.

Depois do jantar, enquanto Olívia e Daniel conversavam na sala, desbaratinei e fui para a varanda.

- Diana e Daniel, quem diria!!! – era Pierre que chegava sorrateiramente.

- Fica longe de mim, Pierre. – afastei para não cometer um crime.

- Calma! Que mundo pequeno, hein? Tanto homem na face da terra e você tinha que ficar
justo com o melhor amigo da Olívia?!

- Tá insinuando o quê, Pierre? Você tá achando que eu armei tudo isso só para ficar perto de você? – respondi emputecida.

- Não seria má idéia. Eu ia adorar. – dizia ele se aproximando um pouco demais.

- Menos, muito menos. Se quer saber, eu estou super desconfortável com tudo isso. O Daniel é um cara super bacana e eu me sinto uma bandida em não contar a verdade para ele.

- Sabe, o Daniel realmente é um cara de sorte. Tô com inveja dele.

- Pierre, você está ouvindo o que eu estou falando?

Saí da varanda batendo as tamancas. Inventei uma dor de cabeça repentina e fomos embora. Pierre e Olívia ainda encenaram muito bem para que eu voltasse mais vezes.

- E aí, o que achou da Livinha? Pelo visto, vocês se deram muito bem... parecia até que já se conheciam.

- Eu?! - assustei. Será que ele estava blefando? Era a deixa para eu contar toda a verdade, mas eu não tive coragem.

***

- Como assim a Olívia é a melhor amiga do Daniel? Eu queria ser uma mosquinha para
ver essa cena. – dizia Betina.

- Seria cômico se não fosse trágico. Agora eu não sei o que fazer... – eu dizia desesperada em busca de uma solução.

- Conta a verdade logo, poxa. – dizia Lili.

- Como eu vou virar para o Daniel e dizer ‘olha, eu já namorei o marido da sua melhor amiga. A gente transou na despedida de solteiro deles, eu invadi a festa de casamento dele e semana passada, inclusive, o Pierre foi lá em casa querendo ser meu amante, mas tá tudo bem. Não esquenta viu?’ ENLOUQUECEU?

- Di, você não precisa ser tão trágica assim também. Diz só que você teve um rolinho com o Pierre e pronto. Não valorize tanto essa relação. Poupe o pobre coitado dos detalhes sórdidos. Ele não precisa saber. – aconselhava Betina.

- Como? Ele é unha e carne da Olívia. Aposto que ele sabe dos detalhes sórdidos.

- Daí você nega tudo até a morte – dizia Lili rindo – Nossa, o Tavinho tá demorando.
A gente marcou de conhecer a pedófila da minha cunhada hoje.

- É, o Fábio tá demorando mesmo. A gente marcou aqui hoje. – confessava Betina.

- Finalmente, vamos conhecer o novo bezerro, hein, Betina. – eu dizia.

Continuamos a filosofar sobre como eu contaria a verdade para o Daniel, mas fomos interrompidas pela chegada do Tavinho e seu irmão.

- Nossa, como você demorou. E aí, vamos? – perguntava Lili.

- Não, gata, a minha cunhadinha ficou de nos encontrar aqui. – dizia Tavinho dando um abraço em Lili.

- No Pedrão, Dudu? – Lili perguntou encucada.

- É, Lili. A gata adora o lugar. – dizia Dudu. – Vai ver vocês até conhecem ela.

- Fábio, meu pequeno, que demora! – dizia Betina que voltava do banheiro e, coincidentemente, foi logo lascando um beijo no Dudu. Ele era o novo peguete dela.
Ficamos boquiabertos.

- Como assim? Betina ? Você tá saindo com o meu irmão? – questionava Tavinho assustado. Parecia até que aquele papo de cabeça aberta tinha sumido de repente.

- Peraí, Fábio, você é o irmão dele? – espantou-se Betina - Você é o Dudu? E eu sou a pedófila, velha, aproveitadora de 40 anos?

- Que papo é esse, gente? – Dudu não estava entendendo nada.

- Tô bege! – eu dizia

- Bê, somos cunhadas então? – era Lili quem falava ainda um pouco sem graça com a situação.

- Não adianta alisar agora não, viu? Eu não me esqueci o que você disse sobre a minha pessoa viu? – ironizava Betina.

Caímos todos na gargalhada. Mais uma coincidência do amor. Dudu era Fábio Eduardo, novo peguete da Betina, irmão de Luis Otávio, cunhado da Lili que era amiga da Betina e agora eram cunhadas. Eta mundo ovo do cão!

Enquanto eles já tinham colocado todos os pingos nos is, eu ainda me preparava para acentuar toda a minha história.

- Você anda meio estranha ultimamente, Diana. Desde aquele dia na casa da Livinha. Quer me dizer algo? – era Daniel quem me enchia de perguntas enquanto assistíamos a um filme na casa dele.

- Eu quero te dizer sim. – eu estava tomando coragem.

- Aconteceu alguma coisa que não te agradou? A Olívia fez algo?

- Não. Ela não fez nada. Mas eu fiz. Não sei nem como te dizer isso, mas ... mas... eu não acho justo te enganar. Você é um cara tão bacana...e ... e...

- Pelo amor de Deus, fala logo, Diana!

- Eu já conhecia a Olívia e o Pierre. – pronto, falei.

- Como assim?!

- É, foi uma infeliz coincidência. Eu jamais podia imaginar, mas é que ... é que... eu e o Pierre já fomos namorados.

Daniel ficou mudo e eu fiquei agoniada com todo aquele silêncio. Aguardava o momento que ele ia me enxotar da casa dele.

- Fala alguma coisa, Daniel.

- Então você é a Diana, ex do Pierre? Como eu não desconfiei? – dizia ele coçando os
cabelos.

- Pode me xingar, brigar, fazer o que quiser... eu juro que não sabia. Foi uma infeliz coincidência.
Daniel começou a rir. Teve um ataque de risos de cinco minutos ininterruptos. Eu fiquei com cara de boba não achando a menor graça naquela história.

- Qual é a graça? – fiquei com cara de palhaça.

- Vocês me enganaram direitinho hein. Eu não estou bravo com você. Agora isso confirma ainda mais que eu sou um cara de sorte. A Livinha sempre falou muito bem dessa garota que é você... – confessava Daniel.

Pasmem, mas eu tinha sido recomendada inconscientemente pela Olívia. E, para a minha felicidade, Daniel não sabia de tantos detalhes sórdidos e não era eu quem iria contar. Já bastava ter revelado a minha identidade.

O nosso lance durou mais um tempo... tempo suficiente para eu suportar a intimidade como casal vinte. Depois nos afastamos naturalmente, não por conta disso, mas agradeci. Eu não ia suportar por muito tempo essa coincidência do amor.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ PASSOU POR ALGUMA COINCIDÊNCIA PARECIDA?

segunda-feira, setembro 03, 2012

ESPÍRITO MATERNO


POR LETÍCIA VIDICA

- Diana, será que as crianças podem dormir na sua casa na sexta-feira que vem? - perguntava minha irmã, Marisa, enquanto aguardávamos o almoço de domingo na casa dos nossos pais.

- Claro! Sem problemas... vou adorar ficar com esses pestinhas - eu dizia, enquanto os meus três sobrinhos pulavam em cima de mim no sofá.

- Não vou te atrapalhar mesmo? É que o Arnaldo tem um jantar com fornecedores e me chamou para ir. Faz tanto tempo que a gente não faz nada né?

- Fica tranquila, mana. Cuidarei direitinho desses pequerruchos ...

- Meninas, o almoço está mesa. - era minha mãe quem chamava - Nossa, meu Deus, que bagunça é essa? - perguntava ao me ver sufocada pelos meus sobrinhos no sofá.

- Eles vão dormir na casa da Diana na sexta. - explicava Marisa.

- Ué, mas por que não deixa eles aqui com a gente? - questionava minha mãe não parecendo muito feliz pela opção.

- Ah, mãe... eu não quero ficar incomodando a senhora e o papai toda hora...

- Marisa, desde quando ficar com os meus netos é incomodo? Não tem problema nenhum... mas a Diana não vai sair? Ela não para em casa.

- Não, mãe, eu vou cuidar dos seus netos direitinho... - eu respondia já prevendo o que viria.

- Mas lá nem tem lugar direito para eles ficarem... e comida? Você tem comida decente na sua geladeira, Diana, ou só porcaria? Cuidar de crianças não é fácil hein - minha mãe disparou a dar um trilhão de recomendações sobre como ser mãe.

- Mãezinha, querida - eu disse calmamente para não entrar em conflito - Eu vou cuidar muito bem dos seus netinhos. Ao contrário do que a senhora pensa, eu não sou uma desmiolada. Já tenho idade e responsabilidade suficiente para ser mãe, mas se as crianças quiserem ficar aqui, tudo bem. Vocês querem? - provoquei.

Como criança é sincera, os três deram um sonoro não e pularam novamente no meu colo. Minha mãe saiu batendo as tamancas e eu fiquei a tarde toda puta da vida pela falta de confiança da minha mãe. Incrível como não importa o que eu faça, ela sempre me cutuca para dizer que sou irresponsável. Agora era questão de honra provar para minha mãe e para mim mesma que eu estava pronta para essa maternidade temporária.

****

- Diana, você não acha que tem bobagem demais nesse carrinho? - questionava Betina que tinha ido me acompanhar no supermercado nas compras para a visita dos meus sobrinhos.

- Ai, Betina, relaxa! Criança adora doces, chocolate, pipoca que eu sei... e eu quero que meus sobrinhos se divirtam. Vagem e brócolis eles comem na casa deles né? O que acha dessa batatinha frita? - perguntava.

- Ainda bem que é só uma noite... se não, coitados, estavam lascados. Era obesidade e diabetes na certa.

Antes que eu respondesse à altura para a vigilante do peso infantil, meu celular tocou. Demorei uns cinco minutos para encontrá-lo na minha bolsa. Era o Pierre que gritava do outro lado da linha.

- Diana, Dianaaaa... nasceu, nasceu!!!!

- Pierre, fala baixo por favor... quem nasceu? - eu perguntava ainda não entendendo o motivo da euforia.

- Diana, a minha filha nasceu. A Luiza chegou ao mundo... agora sim eu sou pai...

Pasmei. Eu sabia que depois de nove meses, a criança nasceria. Mas, inconscientemente, achei que a gravidez fosse eterna.

- Parabéns!! - eu disse, mas sem esconder a surpresa.

- Vem para cá!

- TÁ FICANDO LOUCO??? Pierre, não confunde as bolas. Eu estou no supermercado. Depois, a gente se fala.


- O que foi? - perguntava Betina ao me ver fora de órbita no meio do supermercado.

- A filha do Pierre nasceu.

- E por que ele te ligou?! O que você tem a ver com isso? O Pierre já tá passando dos limites hein?

- Pois é. - respondi ainda estática

- Tá com essa cara por que?

- Sei lá, Betina. O Pierre agora é oficialmente pai. E eu aqui no supermercado comprando doces para os meus sobrinhos. Literalmente, para titia. De repente, me deu uma vontade de ser mãe. - suspirei.

- Tá ficando doida também?!

O pior é que eu não estava, acho que esse mundo infantil que me inseri, me despertou isso. O lance era se eu estava preparada. E o teste ia começar no dia seguinte. Será que eu ia resistir?

****

Ding, dong. A campainha anunciava que meus sobrinhos chegavam. Abri a porta e os três entraram como uma boiada dentro de casa. O terrível do Gustavo, de 10 anos, foi logo se jogando no sofá; Ana Luísa, de 8 anos, queria saber o que tinha para comer e o Lucas, de 2 anos, já procurava algum objeto para destruir.

- Crianças, obedeçam a tia Diana hein? - recomendava Marisa.

- Fica tranquila, mana. A gente vai se dar bem. - era o que eu desejava.


- Quem tá com fomeeee? - eu anunciei para ver se baixava o pique da criançada.

- Tia, tem hamburguer? - perguntava Ana Luisa.

- É, a tia fez pizza e tem batata frita... e sorvete depois. Pode ser? - e eu achando que tinha acertado no cardápio.

- Tia, posso jogar videogame? - perguntava Gustavo já mexendo na minha tevê.

- Faz assim, Lulu vem me ajudar aqui na cozinha, Gu pode jogar sim... depois do jantar, eu aluguei um filminho para gente ver... Harry Potter!!! Uhuuu

- Ah, eu gosto mais do Crepúsculo - dizia Luisa.

Como eu não ia conseguir agradar gregos e troianos, deixei Gustavo e Lucas na sala e fui acabar o lanche com a Luisa. Enquanto eu e minha sobrinha nos divertíamos na cozinha, também fui sabatinada por ela.

- Ai, tia, é bem mais legal ficar aqui. - confessava ela. - Você mora sozinha?

- Eu moro sim.

- Mas e aquele moço... a senhora não tem namorado?

- Não , eu não tenho, Lu.

- Mas por que?

- Por que não.

Por que as crianças adoram fazer perguntas difíceis? Posso pedir ajuda aos universitários?

- Quando eu crescer, eu vou ter um namorado.

Eu desejo que seja fácil assim para você, Luisa. Mas eu não podia explicar para uma menina, de 8 anos, o quanto era longo o caminho para isso. Antes que ela continuasse a entrevista, fomos interrompidas pelo Lucas que abriu o berreiro na sala. Quando cheguei na sala quase tive um treco, ao ver o Lucas caído de barriga pra baixo e com a mão na cabeça. Pior ainda quando vi um pouco de sangue na mão dele. Pronto. agora vou assinar o meu atestado de óbito de maternidade. Fiquei aliviada quando vi que tinha sido apenas um corte pequeno.

- O que você fez, Gustavo? - berrei

- Ele queria o meu controle, tia. - respondeu marrento e cruzandio os braços

- Ele é pequeno. Vocês tem que aprender a dividir... se não , vou ter que desligar o game hein?

- Tia, que cheiro é esse? - perguntava Luiza

Esqueci completamente que tinha deixado a batata frita no fogo. Saí correndo para cozinha e cheguei a tempo de salvar algumas. Nem fazia três horas que eu virara mãe postiça e já estava enlouquecendo. Batatas salvas, pizza na mesa e pestinhas, um pouco mais domados, conseguimos jantar num minuto de paz. Um minuto mesmo.

- Credo, Lucas, que fedor!!! - era Gustavo que fazia careta e, mais uma vez, irritava o irmão que tinha feito o número dois nas calças.

Troquei o meu delicioso pedaço de pizza de quatro queijos para trocar as fraldas do Lucas. Se não fosse a Luiza me ajudar, eu não saberia. Demorou para criarem uma forma mais fácil de fazer isso! Depois da saga da fralda, perdi até a fome. Coloquei o DVD, começamos a nos lambuzar com sorvete e pude curtir um momento curto de paz. Eu estava tão cansada que comecei a cochilar no sofá. O Lucas também aproveitou e dormiu no meu colo. Fui acordada por uma briga entre Ana Luisa e Gustavo. Para irritar a irmã, ele ficava xingando o bruxinho do filme. Olha que criança mais educada!!!

- Vocês estão brigando de novo?! - acordei assustada - Olha, eu vou tirar o DVD hein.

- Ele fica me irritando, tia.

- Mentira, tia! - retrucava Gustavo.

Ingenuidade minha achar que o filme ia acalmar a rapaziada. Eram quase meia-noite e nada do sono bater na criançada. Não só o filme acabou como o Lucas acordou e começaram uma guerra de almofadas. E eu era o alvo. Ignorei totalmente a regra de silêncio do meu prédio, me preparei para a multa do condomínio e começamos a brincar de esconde-esconde e guerra de travesseiros, correndo pelo meu apartamento. Só lá pelas três da madrugada é que a galerinha pegou no sono. Dormimos todos amontoados na minha cama.

****

- Tia, eu estou com fome!!! - era Gustavo que me sacudia.

- Dorme, filho. Ainda tá cedo. - eu dizia virando para o outro lado

- Mas eu tô com fome... e o Lucas fez xixi na cama. - me alertava.

Acordei meio bêbada e, quando olhei no relógio, nem eram dez horas da manhã. Esse povinho não tem sono não? Lá fui eu, sem saber ainda muito bem que dia era, dar banho no Lucas e preparar o café da moçadinha. Nem dez da manhã e eu de barriga no fogão fritando ovo. Que vida!! Eu não aguento.

- Tia, vamos andar de bike no parque? - sugeria Gustavo. - Vamos vai?

- Eu preciso falar com a mãe de vocês. - eu dizia ainda digerindo o fato de ter mais um dia intenso daqueles.

- Eu ligo para ela, tia. - era Luisa quem pegara o meu celular e começara a ligar para Marisa.

- Me dá esse telefone aqui. Sua mãe nem deve ter acordado... - Alô? Marisa? - tarde demais, a ligação já estava feita - Nada, nada... fica tranquila... é que as crianças querem ir no parque. Ah, não tem problemas? - minha irmã concordou com a idéia e aposto que aproveitou para tirar a barriga da miséria com o maridão.

Três crianças e uma mãe inexperiente no parque não ia dar em boa coisa, resolvi levar a Lili a tiracolo. O problema é que ela era mais irresponsável que as crianças. Passamos o dia todo andando de bike, fazendo piquenique no parque. Foi uma experiência boa mas, no final do dia, eu estava sem pique.

- Nossa, Diana, tá morrendo? O que acha de irmos comer uma pizza com as crianças? - sugeria Lili.

- Lili, nem inventa. Eu tô só o pó. A estadia na casa da tia Diana já acabou. Eles tem pai e mãe. Tá na hora de devolver.

- Ai, credo! Cadê todo o seu espírito materno?! - ria

- Sumiu e já percebi que ainda não estou preparada para encontrá-lo. Falando nisso, vamos embora? Luisa, cadê o Gustavo?

- Não sei, tia. Ele estava aqui.

Era tudo que eu precisava. Perder o meu sobrinho em pleno parque. Saí feito uma louca atrás dele. Andamos por mais de uma hora e nada. Eu começava a ficar preocupada. Já me preparava para ser trucidada pela minha família. Acho que minha mãe estava certa: eu ainda não estou preparada para ser mãe.

- Diana, achei o perdido. - era Lili quem vinha com Gustavo a tiracolo. Ele estava todo sujo de lama.

- Onde você estava, menino? Não faz isso com a sua tia. Que roupa suja é essa? - eu enchia o garoto de perguntas.

Gustavo disse que tinha ido jogar futebol na quadra com uns garotos. Jurou de pés juntos que tinha me avisado e que eu não ouvi. Para ele, estava tudo normal. Para mim, era hora de entregar o bastão.

- E aí, Diana, deram muito trabalho? - era Marisa quem perguntava ao ir buscar os filhos.

- Muito, muito não ... só um pouquinho.

- Aposto que vocês enlouqueceram sua tia né? Muito obrigada viu?

- Tia, quando a gente pode ir na sua casa de novo? - era Gustavo e Luisa que me agarravam e suplicavam.

Como eu ia dizer que não? Eu jamais vou fechar a porta para os meus sobrinhos, mas entramos num acordo. Assim que eles entrarem na faculdade, podem voltar de novo. Até lá, preciso digerir esse papo de maternidade.

PAPO DE CALCINHA: COMO ANDA O SEU ESPÍRITO MATERNO?

quarta-feira, agosto 29, 2012

HOMEM COMPROMISSO




POR LETÍCIA VIDICA

Prestes a entrar numa ducha quente, fui interrompida pela campainha. ‘Ué, será que o interfone quebrou? Quem será essa hora? O seu Zé não disse nada?!. Fiquei surpresa em ver o Pierre parado na porta do meu apartamento segurando uma pizza e uma garrafa de vinho.

- Posso saber o que você está fazendo aqui?! - eu esbravejei surpresa.

- Nossa, é assim que você recebe os amigos?! Já foi melhor hein? Posso entrar? Eu trouxe a sua pizza favorita, um vinhozinho e até uns chocolates. – sorria ele tentando me enfeitiçar.

Jogo muito baixo para quem tinha acabado de chegar do trabalho e ia preparar um miojo. Mas eu ainda não estava entendendo toda aquela gentileza. Deixei ele entrar e foi logo se apossando do sofá.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntei de braços cruzados ao vê-lo sentando como em um trono no MEU sofá.

- Nada. Só quis vir te visitar. – respondeu ele naturalmente.

- E a Olívia? – perguntei antes que ela resolvesse fazer plantão na porta do meu prédio.

- Essa semana ela está na casa da mãe dela. A cesária está marcada para semana que vem. – respondeu ele calmamente. Nem parecia que ele era o pai da criança.

- Pierre,você não toma jeito. A sua mulher prestes a parir e você aqui em casa?!
Olha, se a bolsa estourar eu é que não vou na maternidade...já não basta ter estado na despedida de solteiro e no casamento?! – bufei.

- Relaxa, Diana. Vamos comer? A pizza vai esfriar. – como eu odiava aquela calma dissimulada dele!!!

****

- Eu não acredito que o Pierre teve a pachorra de aparecer na sua casa!!! – esbravejava Betina, enquanto ouvia aquela história absurda que eu contava em um dos nossos sagrados happy hours.

- Ai, gente, dá um desconto. Ele levou pizza e vinho. Merece uns pontinhos... – era Lili que tentava amenizar a história.

- Acorda, Lili!!! Ele queria era comer outra coisa se você quer saber... – eu dizia.

- Mas e a Olívia? Essa mulher é muito da estranha se quer saber... como assim ela está quase parindo e o marido dela vai levar pizza para ex namorada? E o que você fez, Diana?

***

Eu estava morrendo de fome e não pude deixar de resistir às guloseimas que o Pierre tinha levado para a minha casa. Eu bem sabia onde aquilo ia terminar, mas a minha fome falou mais alto. Depois de saciada, fomos tomar um ar na varanda e eu preparava o meu espírito para resistir a toda e qualquer tentação.

- E você e o Pedro? É verdade que vocês se separaram?

- Pierre, acho que eu não te devo mais satisfações, não é mesmo? – eu não queria tocar naquele assunto.

- Claro, claro... eu estou perguntando como amigo. Não quero te magoar.. só isso! – desbaratinava ele.

- Eu não estou mais com o Pedro, se quer saber. Ele voltou para Londres. Cansei de homem confuso, viu? – joguei uma indireta para ver se ele se tocava e levava o burro embora da minha casa.

- Achei que de burro já bastava eu. Apesar de não gostar desse cara, achei que ele era capaz de te fazer feliz... é um babaca mesmo. –

Só pode ser brincadeira! O Pierre tá atolado até o pescoço e ainda acha que pode me aconselhar?

- Tá ficando tarde, Pierre. Amanhã, eu acordo cedo... acho que a Olívia tá precisando de você . – quem sabe assim ele iria embora. Eu não estava nada confortável com aquela situação.

- Deixa eu ficar aqui essa noite – suplicou ele como um gatinho no cio, mas eu respirei fundo para não ser enfeitiçada por aquela voz de seda.

- Nem pensar, Pierre. As coisas mudaram agora. Você é um homem casado se não se lembra. – hello!

- Sou casado mas não estou morto. Eu não vou mentir que sinto sua falta... deixa eu ficar vai. – dizia ele tentando tocar nos meus cabelos.

- Para, Pierre. Já faço muito em te abrir a porta, tentar ser sua amiga... não confunde as coisas. Eu não vou ser sua amante... – ERA SÓ O QUE FALTAVA!

- Não seria uma má idéia... o que tem, Diana? Ia ser bem legal te visitar de vez em quando...

Eu não estava acreditando no que eu ouvia. Era isso mesmo?!

***

- O QUÊ?! – berrou Betina chamando a atenção dos outros frequentadores do bar. – O Pierre passou dos limites né?

- Eu também desacreditei quando ele me fez essa proposta... virar amante de ex-namorado já é um pouco demais né? – dei um gole no chope.

- Mas você aceitou?!

- Claro que não, Lili. Mas a culpa é minha, eu sei...

- Culpa do quê? O cachorro aqui é ele, Diana. – bufava Betina.

- Mas eu deveria ter dado um basta desde o começo, Bê. Mas não. Lá fui eu ser amiga, abrir a porta, dar o colo e o corpo e agora ele acha que é assim. Fácil!!! – suspirei fundo.

***

- Pierre, por favor, vai embora! Eu não quero ser grossa com você, mas eu serei se preciso hein? – eu me dirigia à porta batendo as tamancas e fula para não dar um tapa na cara dele ou um beijo naquela boca.

- Desculpa, Diana. Eu não quero te desrespeitar. Você entendeu errado. Eu sei que sou casado, mas você também sabe que eu gosto de você e que eu fui forçado a fazer isso.
Eu achei que não teria mal nenhum... – ele tentava se explicar.

- Achou mas se enganou. O casamento, para mim, é algo para se respeitar, Pierre. Não sei de onde tirou essa idéia de jirico que eu seria sua amante. Nem morta!!! Agora, por favor, vai embora. – abri a porta e nem olhei para vê-lo ir embora.

***

- Isso mesmo, amiga. Colocou ele no lugar dele. – brindava Betina.

- Acho que pegou pesado, Diana. Pensa bem – filosofava Lili – ele era seu namorado, daí a Olívia se meteu na história, tirou ele de você... não seria pecado tirar ele
dela também! –

- Cala a boca, Liliana. Não coloca minhocas na cabeça da Diana. – minha advogada do diabo parecia mais nervosa do que eu. Essa era Betina.

- Não é uma questão de disputa, Lili. Acontece que eu sei muito bem a confusão que o Pierre é. Não vale a pena colocar a mão nessa fogueira. Além do mais, ultimamente... eu acho que ando com um carimbo de amante na testa... se não bastasse o Pierre... eu
encontrei o Juca.

***

Eu voltava do supermercado para casa a pé. A noite estava linda e eu resolvi praticar uns exercícios. De repente, ouvi uma voz que me chamava e quando olhei para trás vi o Juca.

- Oi, gata, perdida por aqui? – ele se aproximava me dando beijinhos na bochecha. Ou melhor, quase na boca, mas desviei.

- Eu moro naquele prédio ali e você?

Vi que ele se engasgou na resposta. Deu uma desculpa qualquer e logo me convidou para
um chope. Como eu estava cheia de sacolas de supermercado, convidei-o a subir no meu apartamento.

- Que casa linda hein! Igual a dona – emendava um xaveco.

- Pronto. Podemos ir.

- Tem certeza que quer sair? – dizia ele me dando um abraço por trás. – Você podia cozinhar algo para gente... e depois...

- E depois você vai para a casa da sua esposa?

O Juca quase desmaiou com o meu golpe fatal. Até me empurrou para longe dele.

- Esposa?! Tá ficando louca, gata? Que papo estranho é esse?

- Não precisa mentir,Juca. Eu fiquei sabendo que aquela festinha era sua despedida de solteiro. Ia me enrolar até quando?

- Eu ia te contar, gata. Mas não tem nada a ver... isso é algum impedimento para mim?

Meu Deus, virei a rainha dos casados e não estou sabendo?

***

- Que cara de pau! Ainda pergunta se tem impedimento? – questionava Betina. – E você disse o quê?

- Eu aceitei tomar o chope, mas não fiquei com ele.

- Fica atiçando, Diana. – dizia Lili.

- Eu não fiz nada demais. Só tomei um chope. Mas deixei bem claro que aquela era a nossa despedida. – eu ri – Coloquei ele no lugar dele.

- Mas e o Juca já casou?

- Ai, Betina, bem entrei nesses pormenores. Já basta ter entrado na história do Pierre né?

Continuamos jogando conversa para o ar. Na hora de ir embora, enquanto aguardava o carro chegar do valet, fui abordada por um homem.

- Desculpa ser chato, mas eu não pude deixar de reparar em você a noite inteira. – dizia ele – Prazer, Eduardo.

Quando ele me deu a mão, não pude deixar de reparar na aliança que ofuscava os meus olhos. Mais um não!!!!! O que está acontecendo? Casamento virou troféu, por um acaso? Ou algum chamariz para conseguir mulher? Antes que ele se engraçasse mais comigo, meu carro chegou e eu agradeci a todos os deuses. Sozinha sim, amante nunca. Me poupe né?

PAPO DE CALCINHA: E, VOCÊ, JÁ ATRAIU MUITOS HOMENS CASADOS? O QUE ACHA DE SE ENVOLVER COM UM DELES?

quarta-feira, agosto 08, 2012

FESTA NO APÊ


POR LETÍCIA VIDICA


- ... eu estou ótima, meninas. Não podia estar melhor. Cansei de sofrer. Não vou negar que eu ainda penso no Pedro. Vai ser normal, por um tempo. Mas preciso deixar a minha vida mais colorida sabe? Tá muito sem graça. Estou precisando de novas emoções. – eu desabafava para minhas escudeiras em nosso sagrado ritual de sexta-feira.

- Assim que se fala, minha amiga. Nessa vida, a gente tem que ter histórias para contar. Bora preencher as páginas desse livro aí. – era Lili que me animava.

Eu realmente estava mais animada e pronta para novas aventuras. Aproveitamos o
momento feliz para brindarmos com nossas canecas de chopes. Em meio ao nosso brinde, fomos surpreendidas por um bonitão que parecia bem íntimo da Lili.

- Liloca, quanto tempo!!! Continua uma gata hein? – dizia o bonitão beijando e dando um apertão na Lili.

- Oi, Breno, tudo bem? – dizia Lili, com sua familiar voz de sedução. Logo nos ligamos que ele se tratava de um affair antigo. – Já tá indo embora?

- É, estou esperando o Juca. Ele foi no banheiro. Falando nisso, a gente tá indo lá para o apê dele. Vai rolar uma festinha lá. Só para os amigos. E, claro, que vocês são minhas convidadas de honra, meninas.

Rimos sem graça com o convite de última hora, mas Lili parecia bem interessada em conferir a festinha. O tal do Juca voltou do banheiro. Era gatíssimo por sinal e fez questão de reforçar o convite. Disse que não aceitava desculpas e passou todos os seus contatos para gente.

- Você não disse que estava precisando de novas emoções, amiga? Olha só como Deus é bom. Simbora para festinha do Juca?

- Meninas, vocês podem ir. Eu tô legal. Já passei da idade das festinhas. – era Betina que tentava pular fora.

- Ai, Lili, mas a gente nem conhece esses caras direito. Vai saber se essa festinha não é só um prato cheio para atacar a gente? – mesmo excitada com a aventura, fiquei com a pulga atrás da orelha.

- Podem parar de graça. Betina, nem pense em não ir com a gente, tá legal? Você tem muita juventude para gastar que eu sei. E, Diana, relaxa! O Breno é um velho amigo.
Eu conheço ele muito bem. Não tem perigo algum. E aí, bora?

Como negar baladinhas era uma afronta para a Lili, mergulhamos rumos a tal festinha. Como eu estava na pista para novos negócios, deixei o medo de lado e corri para o abraço.

***

- Tem certeza que o prédio é esse, Lili? – perguntava Betina, já irritada, depois de darmos cinco voltas no quarteirão. – Se não for esse, estou dando meia volta e indo embora hein?

- Calma, Betina, é esse mesmo! Acabei de mandar uma mensagem pro Breno. Ele tá descendo.

- Gente, se a coisa esquentar lá em cima, a gente sai correndo hein? – eu alertava as meninas. Afinal de contas, vai que a gente era o prato principal da festinha.

***
Entramos no tal apê e mal conseguíamos respirar. A festinha estava bombada. Saía gente pelo ladrão e não havia espaço que já não tivesse sido preenchido. O Breno veio nos receber (já parecendo um pouco animado), agarrou a Lili e se embrenhou no meio da festa. Betina resolveu ir pegar um drinque e logo vi que se enturmou com a turma da caipirinha. Ela adorava bancar o barman nas festinhas. E eu fui tomar um ar na varanda junto com a galera do fumódromo e do narguilé.

- Isso eu não admito. Sozinha na varanda não vale né? – era o gato do Juca que me flagrava no momento solidão. – Não tá curtindo a festa?

- Que nada! Tá tudo ótimo. Eu estou esperando as meninas. – respondi sem graça e tentando não olhar para aquele bíceps nu (como ele era gatooo!!!) – Falando nisso, você viu a Lili por aí?

- Ih, relaxa, gatinha. – dizia ele colocando o braço musculoso em volta do meu pescoço. – A Lili está em boa companhia. – sorriu ele maliciosamente – Fica tranquila que eu não vou te deixar sozinha. Aceita minha companhia? – sugeria ele me dando o braço.

Quem vai negar o convite de um gato desses? Ele me puxou para a sala e logo me enturmou com a galera. Que presente hein? Entre uma caipirinha e outra, ele aproveitava para me abraçar (como ele adorava me abraçar) e repetir que eu era linda.

- Amiga, o gato tá na sua hein? – dizia Betina.

- Eu estou até estranhando. Eu não estava mais acostumada com tanto elogio assim.
Nossa, mas cadê a Lili? Já faz mais de uma hora que a gente chegou e ela sumiu! Tô ficando preocupada...

- Parece até que não conhece sua amiga, Diana. Aposto que está melhor que a gente.

- Gataaaa... vem dançar comigo vem. – Juca me puxava pelo braço e me levou para o meio da pista para dançar um funk no meio das garotas piriguetes da festa.

Deixei o álcool da cachola dançar por mim. Quando vi, eu estava rebolando até o chão e o Juca me admirava com carinha de safado sentado no sofá. Essa noite promete! Acho que vou ter liberar geral hein?

Depois de bancar a Valeska quase popozuda, dei uma fugidinha para a varanda, onde estavam Betina e seus fumantes. Minha amiga parecia bem enturmada por lá, praticamente, atracada em um menino que parecia cheirar leite e devia passar o dia todo compondo novos pancadões.

- E aí, Diana quebra barraco! Arrasou na sala hein? Para quem disse que não sabia mais dançar...

- Tem coisas que a gente nunca esquece, não é mesmo? – emendei.

- ‘Peraí, eu te conheço... eu vou lembrar... espera aí – dizia uma garota ruiva, enquanto emendava seu segundo cigarro fazendo força para lembrar de mim – Já sei!
Você é a garota do pneu... isso mesmo, a garota do pneu.

Eu não estava entendendo bulhufas, mas independente de onde ela me conhecia, o que eu menos queria era encontrar alguém que me conhecesse.

- Do casamento da Olívia e do Pierre. Isso mesmo. Como eu pude esquecer! Tudo bom? Prazer, eu sou a Paulinha. – dizia ela me puxando e me dando um beijo, enquanto eu permanecia estática prestes a ter um surto. – Eu sou prima da Olívia, praticamente irmã...

Pronto, fudeu. A minha máscara ia cair.

- ... e você... é a Diana não é mesmo? A ex do Pierre? Gente, essa garota é irada... não é que ela...

Antes que a bocuda da Paulinha terminasse a história, fomos interrompidas pelo Juca que chegava.

- Ahá, encontrei a minha Lady Di – dizia ela passando o braço sobre o meu pescoço e me dando um apertão – Não some não, gata. Tá tudo bem por aqui? Estão tratando a minha deusa bem? – dizia ela me dando um beijinho na bochecha e emendando um apertão.

- Jucaaaa – gritava a Paulinha – Você não vai acreditar. Eu conheço a Lady Di. A gente se encontrou no casamento da Olivinha...acredita?

- Olivinha, grande Olívia – suspirava Juca como se já conhecesse Olívia de outros carnavais – Mas como assim? Quer dizer que você não é exclusividade só minha, gata?

Paulinha ameaçou começar a recontar a história do pneu furado no dia do casamento do Pierre, mas antes que a galera – que já estava aflita pelo fim da história – soubesse que eu tinha ido espionar o casamento do meu ex, fomos interrompidas pelo Luis Otávio que chegara na festa. Eu quase surtei quando vi ele e o Juca se cumprimentando como velhos conhecidos.

- Diana? Betina? Ué, conhecem o Juca? A Lili tá aqui também? – ele perguntava assustado.

- A Lili? A Lili? – eu engasguei.

- Ela tá por aí... – completou Betina quase enfiando um maço de cigarros inteiro na boca.

Parecendo perceber o embaraço, Juca levou Tavinho para um drinque.

- Ferrou! Cadê a Lili? – eu perguntava.

- Não sei, Diana. Mas agora a casa caiu para ela.

Calmamente e arrumando os cabelos, Lili apareceu na varanda na maior cara lavada.

- Liliana Bittencourt, teu santo é forte! Onde você se meteu mulher?

- Calma, gente! Eu estava ótima... só estava relembrando alguns assuntos com o
Breno... e vocês estão curtindo a festa?

- A festa está ótima, mas pode azedar para você. Você não sabe quem acabou de chegar! Luis Otávio.

Lili ficou pálida e sem palavras. Parecia até que ia ter um treco.

- Oi, Lili! Tudo bem com você? – dizia Luis Otávio na varanda.

- Oi, Tavinho, que coincidência! Você conhece o Juca? – perguntou ela.

- Para você ver, gata. O mundo é um ovo. O Jucão aqui é um grande amigo do futebol. – dizia Tavinho abraçando Lili numa atitude suspeita de quem ia dar o bote.

Nessa hora, Breno apareceu na varanda com dois copos de caipirinha.

- Lili, tá aqui a sua bebida ...

Breno também pareceu se assustar com a cena e ficou parado com as bebidas nas mãos.

- Oi, Breno, TUDO BEM? – enfatizou Luis Otávio – Então, VOCÊ E A LILI já se conheciam? – alfinetou.

Um silêncio mortal pairou no ar. Eu esperei a hora em que os dois iam se atracar e alguém voaria da varanda. Juca percebendo a situação convidou todo mundo para ir à sala ouvir um de seus amigos tocar violão. O clima de luau no apê pareceu esfriar os ânimos.

Enquanto todos se distraíam com o violão na sala, Juca me puxou pelas mãos e saímos de lá sem ninguém notar.

- O que foi, Juca? ´- perguntei ainda um pouco ingênua ao entrar naquele quarto.

- Minha princesa merece um lugar mais reservado. – dizia ele trancando o quarto – Aqui é o meu castelo, gata. E eu quero você... – dizia ele me agarrando e me pressionando contra a porta.

- Calma, vai com calma – respondi, tentando me desvencilhar daqueles braços fortes e daqueles músculos todos. Confesso que me assustei um pouco com a reação. Depois de passar tanto tempo transando só com o Pedro, eu me sentia como uma virgem novamente.

- Relaxa, Lady Di! – dizia ele beijando o meu pescoço e tentando me beijar.

- Mas e todo mundo? As meninas vão sentir minha falta...

- E dai? Tá todo mundo bem distraído lá na sala e outra, aqui no meu castelo, mando eu...fica tranquila... agora relaxa e vem aqui.

Fui vencida pelo meu tesão, por aqueles músculos, pelo xaveco barato, pela aventura e pela minha enorme vontade de me disvirginar do Pedro. Caí na cama e nos braços do Juca.

***

Quando saímos do quarto, havia apenas meia dúzia de pessoas na sala. Saí arrumando o cabelo e ainda tentando disfarçar o que tinha acontecido. Não me dei conta, mas ficamos mais de uma hora trancados naquele quarto. Já eram quase cinco da manhã.

- Acho que é hora de criança ir para casa, não é mesmo? – era Betina quem fazia o chamado tentando se desvencilhar dos braços do MC Moleque dela.

- Que isso, gente. Tá cedo... vamos beber mais uma? – sugeria Juca cheio de ânimo.

- Acho melhor a gente ir mesmo – Lili concordava como quem quisesse se livrar do Tavinho. Ele não parecia com cara de bons amigos.

Depois de convencermos todos que era hora e de mais uma saideira de caipirinha, conseguimos escapar do apê. Mas eu ainda tive que prometer ao Juca que eu voltaria qualquer dia desses para uma visitinha íntima. Como se ele fosse lembrar quem sou eu no dia seguinte... abafa!

- Gente, que noite maluca! Mas a festinha foi sensacional... – eu dizia enquanto dirigia para casa. – Lili e o Tavinho? O que você disse para ele?

- Ai, gente, o Luis Otávio não está com essa moral toda para me cobrar fidelidade, vamos combinar né? Eu omiti algumas verdades, não contei que eu transei com o Breno, mas disse que a gente ficou sim. Afinal, o fofoqueiro do Juca já tinha contado para
ele.

- Adorei que você meteu um galho na cabeça do Tavinho. – ria Betina – Cornooo...

- E, você, hein bem? E aquele garotinho cheirando leite? E aí rolou? – eu perguntava.

- Ai, meninas, o menino estava com os hormônios à flor da pele. Me levou pro banheiro e tentou fazer o serviço, mas ele era péssimo... eu quase tive que ensinar?! – ria Betina. – Assim não dá, hein? Na próxima festinha, se ele estiver, eu estou fora!!!

- Gente, eu preciso contar um bafão para vocês... – confessava Lili – O Breno me contou que essa festinha foi a despedida de solteiro do Juca, acreditam?

Eu quase bati o carro. Freei com tanta força que faltou pouco para não entrar no poste.

- O QUÊ???? O Juca vai casar? O que é isso agora? Eu virei presente de despedida de solteiro? Que filho da mãe. E ele não me disse nada... mas ele não estava de aliança, estava?

- Pelo que o Breno me contou, a namorada dele mora no interior. Ele se casa daqui duas semanas... Diana, pensa pelo lado positivo, você foi praticamente a noiva...

Rimos para não chorar. Apesar de ficar pasmada com o fato do Juca ser noivo, resolvi dar um desconto já que ele tinha me proporcionado fortes emoções. E isso era tudo que eu precisava. Fomos para casa ansiosas pela próxima festinha no apê.

PAPO DE CALCINHA: E VOCÊ JÁ CURTIU UMA FESTINHA NO APÊ?

terça-feira, julho 31, 2012

SESSÃO DESAPEGO


POR LETÍCIA VIDICA

- É hora de desapegar, Diana! – dizia Jane, a minha terapeuta, com sua calma infernal e sua voz professoral.

Foi para isso que eu usei o limite do meu cheque especial e retornei ao divã (mesmo depois de uma falsa alta dada por ela – acho que ela não aguentava mais me ouvir -)?! Para ouvir que é hora de desapegar?! Legal, mas fiquei com cara da panza esperando a tal receita para o desapego. Mas a olhadinha para o relógio era um sinal de que a minha sessão tinha terminado depois de passar uma hora (que mais pareceu um minuto) desabafando sobre o último fora que levei do Pedro e sobre como retomar a vida amorosa novamente. Resultado foi esse singelo conselho da minha terapeuta.

Como ela não me passou a receita e nem alongou nossa conversa freudiana e jungiana, saí do consultório com cara de marmota. Desapegar, desapegar, desapegar... foi o que a Jane mais repetiu naquela sessão. Só esqueceu de dizer como fazer isso. Só um chocolatinho quente no frio daquela noite para me fazer relaxar.

Banho tomado, chocolatinho bebido, rango devorado e sono perdido. Quase meia-noite e eu não conseguia pregar o olho e, além do mais, eu estava elétrica. Seria capaz de correr uma maratona. Algo me incomodava, mas eu não sabia o quê. Nada na tevê para assistir, nenhum vizinho para espionar da varanda e vontade zero de sair. Me joguei na cama.

Percebi que tudo naquele quarto, naquele apartamento me incomodava. As cores, a disposição dos móveis, tudo mais do mesmo. Abri o meu guarda-roupa e as roupas quase caíram em mim. Estava uma zona. Resolvi começar a arrumar. Que mal tem em fazer um faxininha geral em plena madrugada? Apesar da minha vontade ser a de tacar fogo em tudo e chamar o Luciano Huck para um ‘lar doce lar’, apelei para a realidade e comecei a arrumar apenas o meu guarda-roupa afim de me livrar de algumas pecinhas e abrir um pouco mais de espaço.

No meio da bagunça, entre montes de roupas velhas jogadas no chão prontas para o descarte e no encontro de outras esquecidas num canto qualquer do meu guarda-roupa, encontrei uma caixinha vermelha. Era o meu baú de lembranças. Eu já nem lembrava mais que guardava aquilo.

Parei a arrumação e comecei a fuçar na caixinha. Me surpreendi com tantas memórias. Encontrei o meu primeiro (e último) diário. Reli algumas páginas e vi que ainda sou a mesma boba apaixonada que ainda sonha em encontrar um príncipe encantado. Me surpreendi com uma foto da turma do colegial em um churrasco de formatura num sitio.
Nossos sorrisos descompromissados refletiam a nossa responsabilidade zero e a gente ainda nos julgávamos estressados e sobrecarregados!!!

Em meio as papeladas, encontrei uma foto minha e do Pedro abraçados quando éramos adolescentes. Nessa hora, me bateu uma saudade imensa dele. A menina daquela foto jamais sonharia que um dia ia gostar tanto daquele magricela. Achei também uma cartinha de amor que ele me escreveu em um velho guardanapo depois da primeira noite que passamos juntos, uma foto nossa na pousada onde rolou o nosso primeiro beijo e mais fotos e mais cartas e mais fotos. Guardar ou queimar?!

Achei que não fazia mais sentido guardar tantas lembranças e coloquei no monte das coisas a desfazer. Guardei apenas a nossa foto de infância. Aquela eu queria conservar. Quem sabe, pelo menos, a nossa amizade verdadeira possa voltar um dia.
Terminei a faxina quando a manhã já anunciava. Juntei vários sacos de roupas velhas para doação e uma caixa com pertences do Pedro esquecidos em casa.

***

- Nossa, que cara é essa? – perguntava Betina ao me flagrar de olheiras nos pés ao meio-dia.

- Não preguei o olho essa noite. – eu dizia sem conseguir abrir os olhos e largada no sofá.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntou ela assustada.

- Baixou a cabocla faxina em mim e eu resolvi dar uma geral na casa, limpar meu guarda roupa, jogar fora umas roupas velhas e me desfazer de algumas lembranças...

- Nossa, que pique, amiga! Mas podia fazer a sessão desapego pela manhã? Tinha que ser de madrugada?

- Eu estava meio de bode ontem e resolvi dar uma mudada. Cansei da mesmice da minha vida, dos meus relacionamentos, acho que eu estou carregando muita tralha velha
comigo há muito tempo... é hora de abrir espaço né?

- Foi na Jane ontem né? – desvendava a charada.

- Como você sabe?

- Nem precisa perguntar. Foi ela quem pediu para você fazer isso?!

- Digamos que me estimulou. Veio com um papo que é hora de desapegar e tals, mas não me disse como. Arrumei o meu jeito.

- E vai jogar tudo isso fora?- apontava Betina para os sacos.

- Se quiser alguma coisa, pode pegar. Se não, vou levar para um brechó na segunda. Só deixa essa caixa aí que são as coisas do Pedro. Ainda não sei o que eu vou fazer.

- Ué, devolve para ele. Já que é para desapegar que seja totalmente né?

***

Eu ainda não sabia o que fazer com as coisas do Pedro. Se eu ligasse para ele e pedisse para buscar, ele poderia entender como uma falta de educação minha ou que eu estava arrumando motivos para ele me ver. Fiquei matutando o que fazer, porém a vida foi mais rápida do que eu. Pedro apareceu lá em casa sem convite.

- Posso entrar?! Nossa, vai se mudar? – dizia ele se desvencilhando dos sacos.

- Apenas uma faxininha necessária. Senta. Mas o que te traz aqui? – perguntei ainda surpresa com a visita.

- Eu vim me despedir. Estou voltando para Londres amanhã. Vou ficar mais um tempo por lá e eu não queria ir sem falar tchau para você. – ele parecia nervoso.

- Não precisava se incomodar. – mentira! Pelo menos, dessa vez, ele se preocupou em me avisar que ia partir. Coisa que não fez quando chegou.

- Desejo boa sorte a vocês. – eu cutuquei.

- Vocês?! – ele se assustou com a pergunta. Não sei por quê.

- Ué, a Camila não vai junto? – alfinetei.

- Não, não... a gente foi coisa passageira. – dizia ele cabisbaixo. Parecia envergonhado em me dizer aquilo.

Só Deus sabe o quanto eu vibrei com aquela resposta. Ele confessou que o lance deles não passou de fogo de palha e que ela não chega aos pés do que ele quer. Mas não me confessou o que ele queria. Ofereci um suco e, quando voltei da cozinha, flagrei ele fuçando na caixinha de lembranças que eu ia me desfazer.

- Nossa, você ainda tem essa foto? - ele admirava nossa foto de infância – Que tempo bom! – suspirava ele.

- Ah, aproveitando... essa caixinha é sua. São suas coisas. Separei para você levar.
– eu disse ríspida.

- Você quer mesmo que eu leve isso? – ele pareceu se assustar com a devolução.

- Eu quero. Fiz uma faxininha necessária lembra?

- Mas eu achei que...

- Achou o quê, Pedro? Que eu ia carregar essa tralha velha por toda a minha vida? – pronto, falei.

Pedro me olhou já entendendo o recado de que era hora de sair pela culatra, recolheu suas coisas com um ar de tristeza no coração, me deu um abraço, pegou a caixinha e saiu pela porta como um cãozinho sem dono.

Quando eu ameaçava fechar a porta, Pedro voltou. Ficou me olhando e eu senti que ele ameaçava um beijo. Porém, brequei sua ação.

- Eu volto, tá bom? – dizia ele com olhos marejados.

- Fique tranquilo. Você não me deve mais satisfação não é mesmo?

Fechei a porta rapidamente para não mudar de idéia. Já que era para desapegar, que fosse desapego total. Chega de manter a sujeira embaixo do tapete.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ FEZ UMA SESSÃO DESAPEGO? QUAL FOI O MOTIVO DO DESAPEGO?

PAPO DE CALCINHA NA BIENAL

ANOTEM NA AGENDA:

COMPROMISSO FIRMADO???



MENINAS, ESPERO TODAS VOCÊS VIU???

terça-feira, julho 17, 2012

NO ESCURINHO DO CINEMA


POR LETÍCIA VIDICA

- Oi, gata! Que tal um chopinho lá no Pedrão hoje? – era Lili que sugeria uma antecipação do nosso sagrado happy hour.

- Valeu, Lili, mas eu ainda tenho que terminar uns relatórios aqui e depois vou pegar um cineminha. – eu dizia ainda enfiada numa pilha de projetos.

- Cineminha?! Nossa, a fila anda mesmo hein. O Pedro nem esfriou e já tem outro na parada? Pode desembuchando. Quem é o bofe? – a típica curiosidade de Lili falava por ela.

- Fila? Que fila, Lili. E não tem bofe nenhum. Eu vou ao cinema sozinha mesmo. Qual o problema? – é, qual é o problema?!

- Fala logo, Diana. Se quiser, eu não conto nem para a Betina. Quem é ele? – insistia minha querida amiga ainda não convencida de que eu ia realmente ao cinema apenas com minha ilustre companhia. – Se não tem ninguém, o que tá pegando? Você tá bem? Tá precisando desabafar? Se quiser, a gente deixa a cervejinha para amanhã e a gente te acompanha no cinema.

- Lili, eu agradeço, mas eu estou ótima. Não me leve a mal. Eu não quero companhia. Eu quero pegar um cinema sozinha mesmo. Podem ir no bar sem mim. Se a sessão não acabar tarde, eu passo lá. – eu respondi querendo me livrar logo da ligação para não me atrasar para a sessão.

- Tem certeza? Olha, quando comprar o ingresso manda uma mensagem dizendo qual é a sala e qualquer coisa me dá um toque no celular hein? Ah e não vai assistir aquelas comédias românticas hein? Você pode sair de lá direto para o divã... – desatou ela a me dar várias orientações como se eu fosse uma adolescente virgem prestes a ter um encontro com um espinhudo da internet.

Depois de eu ter encarado muitos fantasmas comigo mesma antes de decidir ir ao cinema sozinha, ainda tive que convencer a Lili, a Betina(que não convencida pela história da Lili) que também me ligou e, até mesmo, a minha secretária. Gente, qual o problema em ir ao cinema sozinha?! Eu ainda não tinha essa resposta, mas era o que eu queria buscar. Afinal de contas, eu era uma virgem nesse lance de ir ao cinema sem ninguém.

Adiei perder essa virgindade porque, em alguns raros momentos, eu tinha uma companhia masculina para me acompanhar. Em outros momentos nem tão raros assim, eu tinha minhas fiéis escudeiras. E, na maioria dos momentos, eu recorria ao sofá da minha sala onde a minha própria companhia não é tão assustadora.

E assustadora foi a reação de algumas pessoas quando eu decidi que queria me aventurar indo só ao escurinho do cinema. Para alguns, a minha atitude era digna de uma internação no hospício ou assemelhava-se ao suicídio. “Você tá louca?! Vai fazer o que sozinha num cinema?! Não é mais fácil cortar os pulsos?” Já para outros, era uma atitude de total elevação espiritual. “Eu super apoio a sua atitude. Acho que somos autossuficientes e não há mal nenhum em sentar numa sala de cinema e assistir um filme oras.” Dividida, entre opiniões resolvi provar.

Confesso que, durante alguns momentos do dia, pensei em desistir da idéia ou chamar reforço, mas fui dura na queda e parti para o cinema alone.

Uma das coisas que eu temia era em ser o único ser da face da terra que tivesse tido a ilustre idéia de ir a um cinema em plena quinta-feira à noite. Ledo engano, primeiro porque numa cidade como São Paulo, o único lugar onde você fica sozinha é dentro do banheiro da sua casa (isso se você não resolver tomar um banho com alguém).
Assustei-me ao encontrar uma fila considerável na bilheteria. Tudo bem se o mais velho da fila não passasse dos dezesseis anos.

Esqueci completamente que estamos em julho e que pré-adolescentes estão em férias. E qual o melhor lugar do mundo para se divertir nas férias? O cinema!!! E se a sessão
for noturna, é quase uma transgressão.

Tentei me sentir natural em meio àqueles adolescentes cheios de espinhas na cara e não me incomodar com os beijos que os casais à minha frente, nas minhas costas e ao meu lado trocavam. Era mais um sinal de que eu podia ter ficado literalmente para titia solteirona, mas... resolvi não focar nisso naquele momento. Preferi me distrair com os assuntos teenager. Tinha esquecido o quanto era realmente estressante decidir entre fazer o meu niver numa balada ou um churras no sítio.

Naquele momento, bateu uma saudade imensa dos meus tempos de colégio, onde eu ia ao cinema com meus amigos, meus namoradinhos e não me preocupava se no dia seguinte eu tinha algum projeto para entregar, chefe para encarar e blablabla... nossa, parece até que faz um século que vivi isso e nem se passaram 20 anos!!!

Comecei a reparar para ver se tinham outros seres autossuficientes como eu na fila, reparei numa morena que parecia sozinha, mas logo percebi que um bonitão esperava ela do lado de fora da fila. ‘Tudo bem, Diana, aja naturalmente. Respira fundo”. Quando o bilheteiro me chamou e eu disse o nome do filme, prestei bem atenção para saber se a sala estava vazia. Eu ia ver uma comédia nacional e em meio a filmes de ação e outras apostas de hollywood, a possibilidade de eu ser a única na sala era grande. Contei as cadeiras rapidamente e vi que, pelo menos, outros trinta me acompanhariam na sessão.

Ufa!!! Estágio 1 superado. Como ainda faltava quase uma hora para o filme, resolvi comer alguma coisa. Meu estômago dava sinais de que a minha última refeição não tinha deixado mais nenhuma faísca dentro de mim. Enquanto eu esperava a comida, fui surpreendida pela Betina.

- Betina?!

- Eu não acreditei quando a Lili me contou. Você tá bem, lindona? Vai mesmo ao cinema sozinha? – dizia num tom que lembrava o da minha mãe, não sei por quê.

- Betina, eu estou ótima. Gente, eu só quero ir ao cinema sozinha e nada mais. Qual é o problema? – eu estava começando a me irritar com aquela vigilância tola.

- Problema nenhum. Eu, inclusive, já fiz isso muitas vezes e adoro. Agora você ... depois desse rolo todo do Pedro... está mesmo preparada para encarar isso?!

- Fica tranquila. O Pedro não tem nada a ver com essa minha decisão... mas você não vai sair com a Lili? – desbaratinei.

- Vou. É que eu tive que vir resolver uma coisa aqui no shopping e resolvi ver se estava tudo bem com você. Promete que liga para gente quando sair da sessão?

Nossa, da próxima vez, eu vou ao cinema em uma sessão em Marte. Assim vai ser mais difícil a supervisão. Falando em sessão, corri para a sala. Entrei correndo, mas o trailer nem tinha começado. Quando entrei, não tive coragem de encarar as pessoas. Ok que eu seja autossuficiente, mas ainda sentia o peso da recriminação nas costas. Todo mundo entra no cinema com a amiga, o namorado, a turma, a mãe, a sogra e assim vai e eu entrava sozinha.

Sentei no meu lugar e fiquei mexendo no celular para o tempo passar. Nessa hora,
senti falta de uma companhia para jogar papo pro ar assim como as pessoas ao meu redor faziam. Porém, essa solidão repentina durou apenas até o trailer e o filme começarem.

Confesso que, durante a sessão, eu dava umas olhadinhas para o lado para me certificar de que não havia ninguém ao meu lado. Vai que algum fantasminha camarada quisesse bater um papinho né? Apesar da sala ter, pelo menos, umas 50 pessoas, cada uma sentara em um canto e eu me sentia um pouco sozinha demais na minha fileira.

Entrei no clima do filme, engraçadíssimo, por sinal. Era uma comédia romântica feita por homens que tratava de assuntos de mulheres. Eu estava precisando de um pouco de besteirol para me animar e também não tava afim de colocar o tico e teco para pensar naquela noite. Sei que ri como uma doida, às vezes, até um pouco alto demais. Mas e daí? Estava todo mundo rindo mesmo... e, confesso, que em algumas cenas mais românticas deixei meus olhos marejar e foi inevitável não pensar no Pedro ou no Pierre ou no que eu queria para mim ou me imaginar sendo aquela atriz ouvindo tudo aquilo projetada na tela do cinema. Porém, o letreiro subiu e eu esqueci rapidamente de tudo.

O filme passou e eu nem senti tanto assim a solidão. Amei a experiência científica. Na hora de sair, nem liguei se a galera do fundão reparava que eu estava só e não saía comentando o filme com ninguém. Acho que essa é parte chata da solidão da telona. Terminar o filme e não ter com quem comentar ... mas, para isso, a gente recorre às amigas.

Decidi dar uma passadinha no bar do Pedrão. Porém, no meio do caminho enquanto eu pagava o ticket do estacionamento, fui surpreendida. Encontrei o Pierre e a Olívia na fila. Que beleza hein Deus? Tudo que eu mais queria era encontrar o meu ex e a sua esposa para confirmarem a minha solidão.

- Oi, Diana, tudo bem? – dizia Olívia com a sua insuportável simpatia. – Eu disse para o Pierre que era você e ele não quis acreditar...

- Oi, gente, tudo bem? – respondi sem graça – Achei que você já estivesse na maternidade... ainda tá passeando com esse barrigão? – desbaratinei.

- Ela é louca. Nunca vi ter desejo de ir ao cinema antes de parir. Mas e você tá sozinha? O Pedro tá com você? – perguntava Pierre.

Ferrou. O que eu ia dizer? Confessaria que estava sozinha , que era autossuficiente ou inventaria que o Pedro estava no banheiro? Fui salva pelo gongo, ou melhor, pelo caixa que me chamava para pagar o ticket. Paguei, me despedi do casal e ufa! Não respondi a pergunta. Saí do shopping rindo pela cena e feliz pela minha atitude. Fiz uma Diana feliz.

- Diana!!! Que bom que você veio!!! – brindava Lili ao me ver chegar no bar do Pedrão.

- Calma, gente. Eu to viva. Não fui tarada no cinema...infelizmente – eu ria e pedia um chope. – Amei a experiência. Farei mais vezes se querem saber...

- Olha, amiga, eu te admiro. Fiz isso uma vez e não deu certo. Acho que tenho algum problema não diagnosticado. Acredita que eu chorei com filme de ação? – confessava Lili. – Saí de lá para curar uma depressão e peguei outra. Tipo vírus.

- Ah, eu adoro ir ao cinema sozinha. É uma ótima terapia para me fazer relaxar dos processos. Eu apoio. Acho que todo mundo tinha que,pelo menos, uma vez na vida escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho e ir ao cinema sozinha.... – dizia Betina.

- Acho que agora vou arriscar plantar a árvore. – eu ria – A única coisa chata foi encontrar o casa 20 na fila do estacionamento... acredita que o Pierre e a Olívia me flagraram no shopping?

- E aí? E você? Bancou a autossuficiente?

- Fiquei gelada, Lili. Mas ainda bem que na hora que eu ia ser desmascarada o caixa do estacionamento me chamou. Ufa!!! Eu disse que estava preparada para a experiência científica, mas eu não contava com esses aliados me espionando ...

Continuamos a noite rindo e dividindo nossas experiências solitárias.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ FOI AO CINEMA SOZINHA (O)? CONTE COMO FOI A EXPERIÊNCIA.

sexta-feira, julho 06, 2012

VIRANDO O JOGO



POR LETÍCIA VIDICA

Parei de respirar e quase tive um treco quando vi o Pedro saindo da garagem da casa da mãe dele. Eu estava estacionando o meu carro frente a casa dos meus pais, quando o vi pelo espelho retrovisor. Pensei que era uma miragem. Afinal a saudade era tanta que eu não me assustaria se estivesse imaginando ele. Não, não era uma miragem. Era Pedro em carne e osso. Mas como assim ele voltou e não me disse nada? Antes que escapasse, larguei o carro de qualquer jeito e gritei o nome dele.

- Pedro?! – eu disse descendo do carro esbaforida.

- Diana?! – ele respondeu ainda um pouco sem graça. Parecia até que tinha visto um fantasma. Ou pior achei que ele não estava tão feliz em me ver quanto eu estava em vê-lo. – Quando você chegou? Por que não me disse nada?

Fiz tantas perguntas a ele enquanto eu o abraçava e era retribuída com um abraço frio. Algo estava errado. Eu conheço meu eleitorado.

- Eu cheguei há dois dias... eu ia te procurar.

- Há dois dias?! Como assim? Ia me procurar quando?

Eu não consigo entender o Pedro. Eu fico aqui louca para ele voltar e ele retorna sem me dar um sinal de fogo?! Antes que respondesse a todas as minhas perguntas, um carro se aproximou e, para minha surpresa, quem estava dentro dele era a Camila, a Globeleza. Pedro me abraçou, me deu um beijo na bochecha, disse que tinha um compromisso e que me procuraria para gente conversar melhor.

Fiquei com cara de tacho e coração partido ao vê-lo partir no carro com a Globeleza e me deixando perdida e só na rua. Como assim? O que eu fiz? O que está errado nessa história? Perdi o chão. Inventei uma enxaqueca e fui rapidamente embora da casa dos meus pais.

****

- Eu não estou ficando louca, Betina. Tem algo muito errado com o Pedro! Ele voltou e não me disse nada, me tratou com uma frieza absurda, aquela Camila foi busca-lo cheia de sorrisos... eu não estou com um bom pressentimento.

- Calma, Diana. Ele não disse que ia te procurar? Calma! Não esquece que vocês deram um tempo. Sei lá... vai ver ele quer pensar, ainda está respeitando o seu tempo.

- Não, Betina. Eu conheço o Pedro. Ele quer me dizer algo, mas não tem coragem. Ele está fugindo de mim. Eu não vou deixar isso acontecer...

- E o que você vai fazer?

Antes que a minha ansiedade me matasse, pisei em cima do orgulho, me agarrei na confiança e liguei para o Pedro convidando-o para jantar. Me arrumei toda poderosa e fui ao encontro dele. Resolvi levá-lo ao restaurante japonês que ele tanto gostava.

- Nossa, você está linda! – ele me disse quando chegamos ao restaurante.

- É para você – ataquei.

- Não mereço tanto – desbaratinou ele.

Passamos a primeira hora do jantar falando bobagens. Ele me contou sobre sua vida em Londres, seus novos amigos, mas a gente conversava com uma certa frieza mesmo em meio a tantas confidências. Era como se fosse apenas o Pedro amigo que estivesse ali. O
Pedro amante estava perdido em algum lugar... eu queria encontra-lo.

Num momento entre o final do jantar e a sobremesa, não suportei mais aquele joguinho e coloquei as cartas na mesa.

- O que aconteceu, Pedro? Por que você voltou, não me procurou e está me evitando a noite toda? – vomitei tudo nele.

Pedro abaixou os olhos, respirou fundo, tomando coragem para me dizer algo que, com certeza, me magoaria. Eu conheço aquele olhar.

- Eu estava sem coragem de te procurar. Eu preciso confessar que ... que... a melhor coisa seja seguirmos cada um o seu caminho.

Paralisei. Para, volta tudo... eu estou ficando louca?! Não ouvi isso (de novo).

- Diana, eu não quero te magoar, mas... eu não sou capaz de suportar a presença do Pierre entre nós.

- Pedro, evolui. Mesmo depois desse tempo todo você ainda não conseguiu esquecer do Pierre?! A essa hora deve estar quase trocando a fralda da filha dele, o Pierre está muito bem casado, se quer saber... e ele não fugiu do altar porque eu vi... – ops, falei demais.

- Você foi ao casamento dele?!

Bendita hora que eu resolvo falar demais. O Pedro me pegou no pulo do gato. Já que era para colocar as cartas na mesa, resolvi contar rapidamente a minha aventura – da despedida de solteiro à espionagem na igreja.

- E depois disso tudo você ainda acha que esqueceu dele, Diana? Olha, você sabe que eu te adoro, mas não dá mais para viver com esse fantasma no meio da gente.

- Pedro, peraí... eu não estou entendendo nada. Eu tava quieta no meu canto, você vem me declarando esse amor todo, me fazendo quase pirar... daí eu me dou conta de que você é o cara certo, de que eu gosto de você e agora vem com esse papinho para cima de mim? Não vira o jogo não! – me irritei.

- Diana, você foi forçada a me escolher. O Pierre sempre te dominou. Mais dia, menos dia ele vai correr atrás de você de novo e você vai ficar toda abalada. E eu? Como fico?

- Você fica comigo. Simples assim... a não ser que você já tenha com quem ficar... – já que era para virar a mesa, resolvi virar. – Tem outra na parada né?

Pedro abaixou os olhos novamente e suspirou, como sempre faz, antes de atirar uma
bomba atômica.

- Não fica brava. Aconteceu. Eu voltei a sair com a Camila.

- A Globeleza?! – eu sabia. Praticamente, surtei naquele momento. – Você podia ter sido mais sincero e poupado esse esforço todo e ido direto ao ponto. Então, a questão aqui não é o Pierre e sim a sua nova namoradinha...

- Eu não estou namorando ela. Aconteceu. Ela foi me visitar em Londres e...

- Nem precisa continuar a história. Vai me dizer que estava carente e já tinha visualizado que eu estava com o Pierre e aproveitou o abrigo dela?! Olha, Pedro, eu jamais imaginei isso. E sabe o que mais dói? É que, dessa vez, eu sei o que eu quero, mas mais uma vez ... tenho na minha frente um homem que não sabe o que quer.

- Diana... – dizia ele pegando nas minhas mãos – Eu adoro você. Sabe o quanto você é especial para mim... eu não queria te magoar...

- Tarde demais, Pedro. Garçom! – acenei pedindo a conta. Eu queria fugir dali.

- Eu te levo para casa. Afinal de contas, ainda somos amigos não é mesmo?

- Pedro! Agora quem quer um tempo sou eu..., inclusive, na nossa amizade.

- Mas...

- Mas nada! Pra mim, já deu! Aqui está a minha parte. Bom te ver. Vou pegar um taxi.

Sai feito um furacão do restaurante e, assim que dobrei a esquina, desabei em lágrimas.

***

- Mais uma vez, não! De novo, não. Eu não aguento mais tanta decepção – essa era eu chorando as pitangas no carro da Betina que tinha ido até lá me buscar.

- Que desgraçado! Por essa, nem eu esperava!!! E agora?! Ele virou totalmente o jogo
contra você!!!

- É um covarde isso sim. Tem medo de arriscar. Mas ele sempre foi assim. Eu devia ter sido mais esperta. Idiota!!! Pior, me trocou pela Globeleza!! Aquela vaca deu o bote direitinho!!! Tenho que parabeniza-la.

- Calma, Diana. Logo mais, ele vai ver quem é ela e vai se dar conta do que ele perdeu.

- Betina, eu to cansada de ter que esperar os homens acordarem para se darem conta do meu valor. Eu sei o meu valor!!! Cansei de brincar disso, sabe?!

- Mas vai fazer o que agora?!

- Vou ter que aprender a desapegar né? Simbora, mais uma vez, a dar a volta por cima.
To ficando craque nisso...

- Vai ficar bem mesmo?!

- Vou tentar.

Desci do carro e entrei no prédio, mais uma vez, desconsolada. Eu sempre soube que o Pierre era meio confuso e imaturo. Não me surpreendeu tanto o tombo que levei dele, mas o Pedro tinha virado o meu porto seguro. Tinha acendido em mim algo bom e calmo. Achei que era amor. Será que é? Esse tombo eu não esperava... achei que essa cama era elástica, mas hoje vi que é mais uma cama de gato! Ai, meu Deus, vamos mudar a brincadeira?!

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ ACHA QUE OS HOMENS SEMPRE VIRAM O JOGO OU NÃO?

DICA: ADQUIRA JÁ! "MULHERES SOLTEIRAS NÃO SÃO DE MARTE", EDITORA UNIVERSO DOS LIVROS, AUTORA: LETÍCIA VIDICA. LEIA MAIS AVENTURAS DA DIANA NESSE LIVRO DIVERTIDO!!!

quarta-feira, junho 27, 2012

O CASAMENTO DO MEU EX



POR LETÍCIA VIDICA

Acordei, ou melhor, saí da cama porque eu não tinha conseguido pregar o olho a noite inteira. Eu fiz de tudo para esquecer que dia era aquele, mas era humanamente impossível esquecer que aquele era o dia do casamento do Pierre. Tudo parecia um sonho ou um pesadelo. Eu ainda não acreditava que ele ia realmente casar com a Olívia.

- Bom dia, gata! Como você está?

Pressentindo como eu estaria, as meninas baixaram lá em casa logo cedo e até trouxeram o café da manhã.

- Gente, eu não estou nada bem. Estou péssima. Tenho que confessar. – eu dizia me jogando de pijamas no sofá.

- Pois não devia. Não se esqueça que foi você mesma quem entregou ele de bandeja para
a Olívia. – era Betina, como sempre, me trazendo à realidade.

- Eu sei, Betina. Eu não tive escolha. Não tive saída. E vocês bem sabem que eu não quero ficar com ele ...

- Então, levanta essa cabeça, sai desse sofá e vamos dar uma volta. – dizia Lili.

- Lili, você não vai ao casamento? – eu perguntava retomando a consciência do nosso plano de vigiar o casamento do ex.

- Claro que eu não vou. O Tavinho vai sozinho mesmo. – respondeu com naturalidade.

- Tá ficando louca?! – sacudi Lili para ela relembrar nosso plano - Você vai sim e não se esqueça de nos atualizar minuto a minuto sobre cada detalhe da cerimônia e do casamento.

As meninas ainda tentaram me convencer a desistir dessa idéia, mas eu precisava de uma olheira amiga no território alheio.

***

- Diana, eu ainda acho que isso é loucura. – dizia Betina, tentando me fazer desistir da idéia de espionar a cerimônia atrás da moita – Já não basta a Lili na festa?

A contragosto, carreguei a Betina comigo até a porta da igreja. Detalhe: fomos à caráter e bolamos a péssima idéia de, no caso de sermos flagradas, dizermos que estávamos indo a uma festa de formatura. Eu sabia que era loucura, mas eu só ia acreditar que não era um sonho se visse com meus próprios olhos o Pierre entrando naquela igreja. Ficamos à espreita do outro lado da rua.

- Diana, isso é loucura. É piração! Vamos embora. Alguém pode nos ver...

- Eu não arredo o pé daqui... olha lá... é ele, é ele... achei que ele ia desistir na última hora sabia? – suspirei ao constatar com meus olhinhos o Pierre entrando na igreja ao lado da minha ex-sogrinha. Ele estava bem bonitão, aliás.

Com a ajuda de um binóculo, vimos a entrada do Pierre, dos padrinhos e da noiva... a Olívia, mesmo barriguda, estava muito bonita. Vimos tudo de camarote.

- Agora, podemos ir embora. Estou convencida de que o Pierre fez a escolha mais sensata. – eu dizia quando percebi que os convidados começavam a sair da igreja.

- Diana, vai te entender hein?

Quando voltamos para o carro, fomos surpreendidas por um imprevisto. O pneu do meu carro estava furado. E as únicas vivas almas que poderiam nos ajudar eram os convidados do casamento do Pierre. O posto mais próximo estava longe e a bonitona da Lili fez o favor de desligar o celular. E agora?! Antes que tentássemos uma saída pela culatra, fomos novamente surpreendidas pelos pais do Pierre que haviam parado o carro próximo ao nosso. Que infeliz coincidência!!! Imagina a minha cara de tacho?

- Diana?! Que bom te ver , minha linda. – abraçava-me a minha ex-sogrinha. – O que faz por aqui? Veio para o casamento? – perguntava como quem havia decifrado facilmente o meu plano totalmente falível.

- Casamento? Que casamento? ! – desbaratinei.

- Do Petico. Não teve jeito. Casou. Mas você bem sabe o que eu acho daquela golpista ... – declarava sua opinião sussurrando ao meu ouvido.

Enquanto eu tentava me desvencilhar daquela cilada, mais e mais convidados foram se aproximando do burburinho. Eu não sabia onde enfiar a minha cara. Era visível que eu estava ali espionando. Eu nem sabia o que dizer. E, quase enfartei, quando o Pierre se aproximou. Ele me olhou sem graça, mas deu um sorriso aliviador e de quem havia adorado a minha idéia.

- Filho, olha que surpresa boa!! Venha aqui ajudar as meninas com o pneu...

- Não, pelo amor de Deus – eu impedia – já liguei para o seguro (mentira!!). Você vai se sujar. Sua noiva está te esperando... – eu disse tentando impedir que o Pierre arrumasse o meu pneu e antes que a Olívia se desse conta da minha presença. Tudo bem que ela foi gentil, mas o casamento era dela né?

- Não é nada, Diana. Troco isso num segundo. Você já me ajudou tanto ... – dizia ele lançando aquele olhar malicioso de quem acabara de lembrar da noite da despedida de solteiro.

Depois de muito fuzuê, só consegui desvencilhar todo mundo quando a Lili apareceu e o Tavinho se dispôs a me ajudar. Porém, quando achei que o inferno tinha acabado, a minha ex-sogra lançou a brilhante idéia de me convidar para a festa. E ela só arredou o pé dali quando prometi que ia aparecer.

- Gente, que enrascada eu me meti!!! – eu dizia andando de um lado a outro da rua.

- Eu avisei! E agora? Vai aparecer com a cara lavada na festa? – criticava Betina enquanto acendia o quinto cigarro para não me dar uma surra pela loucura.

- Não sei o que fazer, Betina. E você viu o Pierre? Achando graça e concordando com essa idéia maluca da mãe dele? Ele é imaturo mesmo... – acho que, nessa hora, eu já transpirava de nervoso.

- O cara casa, você aprova, depois vem espionar e ele que é imaturo? – era Luis
Otávio que se intrometia. Tive que concordar com ele.

***

Pneu consertado, partimos para a festa. Não tive saída. Quando entrei no salão, percebi que todos ficaram boquiabertos com minha presença. E, surpreendemente, Olívia foi a primeira a me receber:

- Que bom te ver aqui! Isso prova mais uma vez que você realmente é uma mulher admirável. – ela dizia.

- Olívia, não foi a minha intenção! Eu ...

- Não precisa dizer nada... você é muito bem-vinda viu? Fique à vontade!!

Mais uma vez, pasmei com a atitude dela. Se fosse eu, acho que teria pedido para os seguranças me retirarem. Sentei em uma mesa e fiquei paralisada. Ainda não acreditava que, depois de ter sido a despedida de solteiro do Pierre, eu ainda estava na festa de casamento?!

- Gente, pede pro garçom uma bebida bem forte! E depois prometem que vão me internar?
Ainda não acredito que eu estou aqui.

Tomei alguns drinques para me acalmar, mas nada adiantava. Resolvi ir até o banheiro para respirar melhor. Enquanto eu respirava fundo encostada na pia, fui flagrada pela Dani, namorada do Digão.

- Diana?! Você está bem? Tá pálida!

- Eu estou bem sim. Foi apenas um mal estar. – menti

- Se eu não tivesse visto com meus olhos, não acreditaria que você está aqui... que idéia foi essa, mulher? Corajosa hein?

Eu não estava afim de confessar o meu plano para a Dani, então desbaratinei e corri para o jardim do salão para tomar um ar. Quando achei que estava em território seguro, como um passarinho, Pierre se aproximou de mim...

- Não sabe o quanto eu estou feliz por ter você aqui...

- Pierre?! Volta lá para dentro. A Olívia está te esperando...

- Eu só queria te agradecer mais uma vez. – dizia ele se aproximando um pouco demais de mim.

- Não tem que me agradecer por nada. – eu me afastava para não cometer mais uma loucura – Por sinal, a sua festa está linda e eu já vou embora.

- Fica? – dizia Pierre puxando minha mão.

- Ficar para quê? Eu já nem sei o que eu estou fazendo aqui ... não tem mais espaço para você na minha vida e nem na sua para mim. Acabou! Essa é a sua nova vida, Pierre. Seja feliz nela.

- Daria tudo para que fosse você vestida de branco lá no altar ao meu lado.

Golpe baixo!!

- Não diga isso. Você tem uma grande mulher ao seu lado ...

Pierre ousou se aproximar de mim mais uma vez, mas fomos flagrados pela Olívia. Achei que dessa vez ela me arrancaria da festa pelos cabelos, mas novamente agiu com elegância.

- Meu amor, é hora da valsa... da nossa dança! Vamos lá? – ela disse estendendo as mãos para ele.

Pierre se recompôs, deu o último gole no espumante, se despediu com os olhos e seguiu para a dança deles. Naquele momento, voltei à realidade e, mais uma vez, constatei que era a dança deles, não a nossa. E que eu não queria que a dança fosse nossa. Entende? Eu não queria ser a Olívia naquela noite. Naquele momento, me bateu uma saudade imensa do Pedro.

- Diana? Diana? DIANA???? – berravam Lili e Betina.

- Tá tudo bem? – perguntava Lili

- Eu estou ótima. Melhor não poderia estar. – eu confessava com sinceridade, mas minhas amigas me olhavam com espanto. Aposto que acharam que eu havia enlouquecido.

- É hora de partir, meninas. Acabou! Agora, acabou de vez.

Sem entender nada, as meninas concordaram com a idéia e, aproveitando a euforia dos convidados com a valsa dos noivos, saímos sem sermos notadas.

- E o Luis Otávio? – perguntei, já no carro.

- Aquele ali é um arroz de festa. Quis ficar, claro. Mas eu não podia te abandonar nessa hora tão difícil, amiga. – dizia Lili.

- Obrigada, amiga, mas eu estou bem. Como nunca estive. Agora acabou de vez mesmo. – eu dizia olhando os carros passarem pelo vidro e rindo aliviada.

- Diana, eu espero que essa sua loucura passe logo. Olha, essa vai ser mais uma daquelas noites malucas ao lado de vocês.- dizia Betina.

- Meninas, vocês podem achar bobeira o que eu vou dizer, mas talvez o Pierre tenha achado a mulher da vida dele. E não sou eu. Ver o Pierre ali naquela situação, casando só me fez afirmar ainda mais que a nossa história acabou e que eu gosto mesmo é do Pedro. A Olívia vai fazê-lo feliz, eu sei disso.

Betina e Lili ficaram me olhando com cara de quem não havia entendido nada, mas eu falava a verdade. Para mim, aquele casamento encerrava a nossa história. Pelo menos, por enquanto ...

PAPO DE CALCINHA: O QUE VOCÊ ACHOU DA LOUCURA DA DIANA? ACHA QUE AGORA ELA ESQUECE DO PIERRE DE VEZ? JÁ PASSOU POR ALGO PARECIDO?