quarta-feira, maio 26, 2010

NO DIVÃ


Por Letícia Vidica

- Nossa, Diana, tenho te achado tão cabisbaixa e quieta esses dias. Aconteceu algo? – perguntava Cristina, uma das minhas colegas de trabalho enquanto olhávamos a vitrine de algumas lojas na hora do almoço

- Ah, sei lá, Cris. Ando meio desanimada sabe? Estou achando a minha vida meio sem sentido, não sinto mais prazer em fazer quase nada...tô de bode! – eu respondia com total desânimo enquanto olhava um sapato verde na vitrine da loja

- Ah, eu bem sei o que é isso. Já me senti assim como você, mas graças a Jane, a minha vida mudou.

Jane? Quem seria essa tal de Jane? Faltou pouco para eu gritar “Pelo amor de Deus, me apresenta a Jane!”, mas Cristina foi mais rápida na explicação...

- A Jane é a minha terapeuta. Ela é ótima. Estou com ela há um ano e meio e não vivo mais sem ela. Acho que você deveria ir lá, marcar uma hora. Aposto que ela vai te ajudar. Quer que eu te dê o telefone?

Aquela foi uma das perguntas que ficaram me martelando até o final do dia. Terapeuta? Será que o meu caso era tão grave a ponto de uma terapia? Não que eu tenha preconceitos ou talvez eu tenha, mas sempre achei que um desabafo no bar do Pedrão, uma choradinha no ombro da Betina ou uma boa noite de sexo resolveria os meus problemas. Porém, naquele momento tudo isso só piorava o meu estado de espírito.

- Acho que vou começar a fazer terapia. O que vocês acham? – eu questionava à Lili e Betina durante mais um de nossos encontrinho no apê da Betina.

- A maior perda de tempo do mundo – respondia prontamente a dona da pensão – eu já gastei muita grana com isso e não resolveu nada. Só dinheiro jogado fora e horas falando de mim para alguém que mais parecia uma parede

- Ah, eu acho ótimo. Não escuta ela não, Di. Todo mundo precisa de terapia na vida. Eu já fiz, me ajudou muito e estou louca para retomar, pena que já recebi alta.

- Então o seu terapeuta te deu alta porque não agüentava mais te ouvir falar do Otávio e das burrices que você faz né? – retrucava Betina

- Não sei, gente. Ando meio triste, cheia de questionamentos, sem rumo...a minha colega lá da agência me indicou a terapeuta dela e meus dedos estão coçando para eu ligar.

- Você é quem sabe, Diana. Só acho que não vai adiantar...

- Só porque você não quis se ajudar na terapia, dona Maria Betina, não significa que a Diana não vai ser ajudada ok?

Antes que as duas se atracassem no sofá, resolvi mudar o rumo da conversa, mas não o rumo dos meus pensamentos. Passei a semana inteira relutando comigo mesma se eu ligaria ou não para a terapeuta. Sempre fui daquelas de achar que terapia era coisa de louco ou de gente rica que não tem o que fazer ou com o que gastar dinheiro, mas talvez tivesse chegado o momento no qual todas as minhas teorias preconceituosas iam por água abaixo.

Durante aquela semana, tentei de tudo para levantar o meu astral. Comprei roupas novas, fui ao cinema, tentei responder sozinha a todos os meus questionamentos até apelei indo na casa da minha irmã choramingar as pitangas com ela. E me surpreendi ao descobrir que até a quadrada da minha irmã - casada há séculos e obediente àquele marido grosso e gordo - já tinha feito terapia uma vez na vida (e a danada não me contou nada?!)

Resolvi tomar coragem e marquei uma sessão com a tal da Santa Jane. No trajeto até o consultório, fui rezando para que ela fosse uma santa mesmo e me desse uma solução para os meus problemas. Também não contei a ninguém que estava indo lá, nem mesmo para as meninas, afim de evitar qualquer pré conceito e se eu não gostasse seria apenas um segredo íntimo entre a tal da Jane e eu.

Chegando ao consultório, me deparei com uma sala bem aconchegante com um sofá branco e tão fofo que dava vontade de se jogar e dormir na hora. Uma mulher morena, alta e de óculos me atendeu. Era a tal da Jane. Sorridente, me fez entrar, sentar e ficar o mais à vontade possível. Será que alguém é capaz de ficar à vontade com uma pessoa que nunca viu na vida prestes a saber os seus segredos mais íntimos? Mas confesso que eu me esforcei...

- Fico feliz que tenha vindo me procurar, Diana. Espero que eu possa lhe ser útil. Quero que saiba que eu não estou aqui para julgá-la, então não tenha medo de me dizer o que lhe aflige – a voz dela era doce e mansa que me fez lembrar a minha primeira professora do primário e o seu sorriso era brando que conseguiu ir me acalmando.

- Bem, doutora, ou melhor, Jane... eu resolvi apelar para a sua ajuda porque me sinto muito confusa ultimamente...sem ânimo para fazer as coisas e sem saber quem sou eu...me sinto como alguém que está nadando para chegar na praia e nunca chega...minha vida amorosa está uma bosta...só encontro homens que não querem saber de compromisso ou que só entram na minha vida para magoar meu coração...o meu trabalho não me dá mais prazer...trabalho dia e noite como um burro de carga e não vejo recompensa...

Desatei a falar das coisas que me afligiam e nem vi o tempo passar. Era como se eu e a Jane fôssemos velhas amigas. Confessei a ela coisas que nunca tinha dito a ninguém e aos poucos fui me sentindo mais aliviada e retirando um peso no ombro que parecia pairar sobre mim...

- Diana, a culpa das coisas da nossa vida darem certo ou errado é nossa mesmo. A gente é quem conduz a nossa vida. Você é quem sabe a resposta para tudo que quer saber. Basta saber se ouvir e você vai encontrar.

Mas como assim? Eu passo cinqüenta minutos falando sobre mim, querendo uma resposta para essa mulher me dizer que eu tenho a resposta?! Quero o meu dinheiro de volta.
Saí de lá batendo as tamancas, mesmo sob a recomendação de voltar na semana seguinte.

- E aí, Di, fiquei sabendo que foi lá na Jane...gostou? – gritava Cristina no meio da recepção da agência quase esbanjando o meu segredo mais obscuro

- Ah, eu gostei sim – respondi com o maior esforço de falsidade que pude

- Já vi que não gostou. Mas não desanima, não. Ela é ótima. É uma questão de costume.

Seria apenas uma questão de costume? Passei a semana seguinte inteira me questionando se eu voltaria à terapia ou não. Achava até que estava me sentindo melhor, mais aliviada. Não precisava mais de terapia. Pronto, eu não vou.

Eu não iria até ter um pesadelo numa noite dessas. Sonhei que estava dentro de uma piscina me afogando e que várias pessoas me olhavam ao redor e riam de mim sem me ajudar. Acordei assustada e suada no meio da noite e despenquei a chorar.

Incrivelmente, chorei por quase uma hora. Não era um choro de TPM (eu tinha acabado de menstruar) e muito menos de tristeza. Foi um choro chorado de uma forma que eu nunca chorei.

No dia seguinte, aquele sonho me perseguiu. E, antes que eu ficasse louca, dei meia volta no quarteirão e toquei o carro para o consultório da Jane. Eu estava resolvida a dar mais uma chance a ela, mas apenas uma!

- Diana, que bom de te ver de novo – disse a terapeuta me dando um abraço maternal

Sentei e desatei a falar. Disse a ela sobre o meu pesadelo e a minha reação depois dele. Ela tentou me ajudar a interpretá-lo e disse que aquilo era um sinal de algo na minha vida que não ia bem e que as pessoas do sonho não me ajudaram porque apenas eu é quem poderia me autoajudar a sair daquele sufoco. Uma loucura dessas, mas que até fez sentido.

Comecei a falar mais sobre a minha vida desde a decisão de sair da casa dos meus pais para poder ter mais liberdade até o fato de estar sempre tentando encontrar o meu príncipe encantado e cair do cavalo. Enquanto eu revivia alguns momentos da minha vida, desatei a chorar de novo. Jane me cedeu uma caixa de lenços e eu chorei como uma criança que perde a chupeta.

O mais engraçado de tudo é que não tive vergonha de chorar na frente da Jane e, apesar dela mais me ouvir do que falar, comecei a perceber algo muito importante – acho até que isso é a chave da terapia – comecei a me ouvir.

- Diana, você é um passarinho que nasceu para voar. Você tem essa necessidade de ser livre. Sair da casa dos seus pais não foi apenas uma decisão cômoda, mas foi uma forma de dizer a eles que você é livre e de respirar melhor. Essa sua busca incessante pelo príncipe não é à toa. Acho até que você já possa ter encontrado bons pretendentes a príncipes, mas resolveu relutar a eles do que talvez ter que podar a sua liberdade.

Tudo ainda parecia um pouco confuso quando saí do consultório, mas as frases ditas pela Jane não saíram da minha cabeça durante o resto dos dias.

Sem me dar conta, percebi que eu precisava daquela terapia e que eu não estava ficando mais ou menos louca com aquilo. Eu apenas estava sendo apresentada a uma pessoa tão próxima de mim,mas que eu desconhecia: eu mesma. Toda vez que eu ia nas sessões, saía de lá com questionamentos que me faziam refletir ou tinha o prazer de encontrar respostas que estavam diante dos meus olhos mas que eu não conseguia ver.

E assim se passoaram os dois anos de terapia que tive com a Jane. Sem perceber, eu tinha resolvido todos os impasses da minha vida. Podia muito bem me virar sem ela agora e acabara de receber a tal da ‘alta’.

- Tentei te ligar ontem à noite, mas deu caixa postal, o que houve? – perguntava Betina

- Fui na Jane.

- Jane?! Quem é essa? – perguntava minha amiga sem me dar conta de que eu tinha mantido esse segredo das sessões

- Ah era a minha terapeuta.

- Terapeuta? Você estava fazendo terapia e nem nos disse nada?

- Dois longos e ótimos anos. Dizer para quê? Para você me sacrificar na cruz? Quem não te conhece que te compre, dona Betina. E se quer saber? Foi a melhor coisa que fiz da minha vida.

- Bem que eu percebi você um pouco mudada mesmo...mas e aí deu resultado? Ela é boa? – perguntava Betina com ar de curiosidade

- Quer saber para quê? Você não acredita nessas coisas...

- Ah, Di, sabe como é né...vou confessar...acho que agora eu é que estou precisando de terapia. – confessava ela com vergonha de assumir tal coisa

- Ai, Betina...então anota o telefone da Santa Jane.

Não só indiquei a Jane para a Betina como para todos que se aproximavam de mim e falavam de terapia. Mesmo sem precisar continuar as sessões, a minha mão ainda coça com vontade de querer voltar. Acho que sempre vou precisar da Jane hahahahaha

PAPO DE CALCINHA - VOCÊ JÁ FEZ TERAPIA?

sexta-feira, maio 21, 2010

ME DEIXE SÓ



Por Letícia Vidica

Trim, trim...

- Oi, Diiiiii – pela empolgação nem precisava adivinhar que era a Lili no telefone – te dou meia hora para se trocar que eu estou passando aí. Tem baladinha nova no pedaço. Vamos comer uma feijuca e curtir um padodinho hoje, que tal?

- Ah, valeu, Li. Mas eu não vou sair de casa hoje não. Vou ficar de pipoca e DVD. Aluguei uns filmes, comprei uns beliscos...tô sem clima de sair hoje.

- Como assim, Diana?! Vai ficar enfurnada nesse apartamento nesse sábado de sol? Eu não creio. O que houve? Tá de deprê? Não vai me dizer que bateu a depressão por causa do Pierre hein?

- Não é nada disso, Li. Eu só não quero sair. Tô afim de ficar quietinha no meu canto pode ser

Um pouco inconformada com a minha negativa, Lili desligou o telefone. Mas eu tinha direito de querer ficar quieta no meu canto. Eu tenho o direito de ficar só. O problema é que as pessoas nem sempre entendem isso. Por que será que querer ficar um pouquinho mais com você mesma incomoda tanto?
Sou uma pessoa que adora sair, ver gente, estar no meio do agito...mas tem hora que eu preciso recarregar as energias e eu gosto de ficar sozinha. Foi por essas e outras que optei por ter o meu próprio canto.

*************

Eu estava em mais um daqueles finais de semana da preguiça. Quase meio-dia e eu ainda estava de pijamas e de pantufas. Cama desarrumada e sem hora para arrumar. Cabelo despenteado. Nem ao menos me lembrava se tinha escovado os dentes.
Sentada no sofá, comecei a planejar o meu dia. Primeiro, iria me arriscar na cozinha fazendo um bolo de cenouras que peguei a receita num programa de culinária outro dia. Depois, ia me jogar na cama e ler mais uns dois capítulos daquele livro que eu comecei há uns dois meses. Então, vou me jogar debaixo das cobertas e assistir àquela comédia romântica (que eu já sei o final) – um dos dez filmes que eu aluguei para assistir no final de semana -, tirar um cochilo, ouvir uma música – ai que saudades daquela coletânea do Djavan...

Enquanto eu divagava em meus pensamentos por mais de uma hora esparramada no sofá, minha campainha tocou. “Ai, não. Visita não. Vou pedir pro porteiro dizer que nesse final de semana eu morri”. Abri a porta e nem sei por que fiquei surpresa ao ver Betina e Lili.

- Eu tinha que vir até aqui para comprovar se isso era verdade!!! Não to acreditando que você está mesmo de pijamas num sol desses?! – recriminava Betina

- E posso saber qual é o problema de ficar de pijama num sábado desses dentro da minha própria casa?

- Eu disse que não ia adiantar vir até aqui, Betina.

- E não adiantou mesmo, Lili. Nem vem que não tem que esse final de semana eu não arredo o pé de casa.

- Tá ficando louca, Diana?! Pode ir tomando um banho, colocando uma roupitcha que a gente vai piriguetar.

- Betina, eu não vou sair! – tive que ser dura para ela entender que eu não estava afim

- O que houve, Diana? Vai me dizer que tá com depressão melancólica? Só pode ser por causa do Pierre!

- Gente, não tem nada a ver com o Pierre. Como vocês são chatas hein? Eu só quero ficar sozinha no meu canto. Não estou afim de sair. Divirtam-se

Minhas amigas ainda ficaram mais uma hora tentando me convencer a sair de casa, mas eu estava decidida a ficar sozinha no meu canto. Eu tinha esse direito e a minha vontade ia ser cumprida. Depois de tanta insistência e sob várias recrimações contra a minha pessoa, elas foram embora

Resolvi então ir para a cozinha para começar a minha arte culinária. Enquanto isso, liguei o som no volume mais alto que pude e fiquei cozinhando e cantando juntinho com o Djavan

**************

Trim, trim, trim...
“Ai, não! Quem é agora? Se for as meninas, eu vou ter que engrossar...”

- Diana?

- Oi, mãe! – pior que as meninas me enchendo era ligação da minha mãe. Eu ia ter que escutar.

- Não sei para quê vocês compram essa baboseira de celular. Ninguém atende. Estou te ligando desde cedo e nada de você atender essa porqueira

- Tudo bem, mãezinha? O que manda?

- Estamos aqui na chácara da sua tia. Vem para cá. Os seus primos estão todos aqui.
- Ai, mãe, manda um beijão em todos, mas eu não vou sair de casa.

- Como não? Você adora vir para chácara. E está o maior sol!!!

“Caramba, São Pedro. Podia ter chovido esse final de semana NE? Talvez assim as pessoas entenderiam mais a minha vontade de ficar só”

- Eu sei, mãe. Mas eu não estou afim de sair de casa

- Aposto que tem homem no meio. Quem foi que te magoou dessa vez? Se foi o Pierre, eu mato ele.

- Calma, mãe. Não tem homem no meio e muito menos é culpa do Pierre. Eu só quero curtir o meu apê um pouco. Tenho mil coisas para fazer aqui

- Tem certeza que não aconteceu nada? Você tinha que vir. Mas nunca tem tempo para sua família mesmo né?

A minha mãe já não engolia muito bem o fato de eu ter ido morar sozinha. E muito menos entendia quando eu queria ficar sozinha. Sempre jogava sujo para me amolecer, mas hoje ninguém vai me fazer mudar de idéia.

***********

Resolvi voltar à cozinha e para o meu bolo de cenoura que já tinha assado enquanto eu conversava com a minha mãe no telefone. Falando nele resolvi desligar para que ninguém me achasse. Peguei um pedaço de bolo quente (eu adoro bolo quente), me joguei embaixo das cobertas e liguei o DVD.

Finalmente, consegui passar as duas horas do filme em paz e silêncio absoluto. Achava que o meu momento solidão estava começando ali. Depois do filme, adormeci, mas a campainha me acordou.

- Pierre?!

- Oi, Di.

- Tá fazendo o que aqui?

- Resolvi passar aqui para te ver, buscar um abrigo.

“Tudo que eu menos precisava era do Pierre quase às dez da noite na minha casa”

- Como assim buscar um abrigo?!

- Sabe como é né...bateu a saudade – dizia Pierre já me abraçando e com segundas e terceiras intenções

- Sinto muito, Pierre. Mas hoje não dá não. Volta outro dia...

- Vai sair?

- Não. Vou ficar aqui, mas to afim de ficar sozinha.

- Ixi...já vi tudo...tá menstruada...só pode ser TPM.

- Caramba!!! Será que eu não tenho o direito de querer ficar só? Todo mundo hoje deu para pegar no meu pé?

- Tá bom, tá bom...não precisa ser grossa. To indo embora. Falei que era TPM!!

Bati a porta na cara dele e fiquei bufando pela casa. Daí me dei conta que o dia estava acabando e eu não tinha conseguido ficar em paz comigo mesma. Uma coisa tão simples. Quem seria o próximo a me infortunar? Não atendo mais ninguém. Morri para o mundo.

Sentei na varanda com o meu livro e comecei a me deliciar na leitura e varei a madrugada lendo. Por incrível que pareça, consegui terminá-lo e só me dei conta de que o tempo tinha passado quando vi o sol raiar. E, graças a Deus, ninguém mais tinha me procurado.

Resolvi ir para cama para dormir. Eu não tinha pregado o olho a noite toda e precisava descansar. Quando eu me ajeitava para deitar, a campainha tocou. EU NÃO VOU ATENDER! EU NÃO VOU ATENDER!

A insistência foi tanta que resolvi atender. Era o meu síndico me lembrando que hoje tinha reunião do condomínio e que começaria dentro de quinze minutos. Tentei me esquivar, mas ele me lembrou de que eu já tinha faltado em três reuniões. Vesti um agasalho velho e fui pra tal reunião do condomínio.

Mal consigo me lembrar qual foi a pauta da assembléia porque os meus olhos não conseguiam parar abertos. Depois de minutos intermináveis,a reunião acabou e eu percebi – avisada pelo ronco do meu estômago – que eu estava sem comer nada desde o início da noite passada. Apenas tinha me alimentado de leitura.

Contra os meus princípios, fui até a padaria comprar pão. E, no retorno, na volta do meu prédio me deparei com a Betina.

- Resolveu sair de casa caramujo? Nossa que cara é essa? A noite foi boa hein? Sabia que você tinha outro compromisso e não quis me contar.

- Betina, pára de ser boba. Passei a noite em claro lendo um livro. E foi a coisa mais maravilhosa que consegui fazer nos meus poucos momentos de solidão.

- Mas vai abrir uma exceção hoje ou ainda tá de greve?

Eu adoraria ficar só também no resto do meu dia, mas vi que não ia dar certo. Resolvi levantar bandeira branca e voltar ao mundo. Subi para tomar um banho e depois fui almoçar com a Betina.

Cheguei a conclusão que da próxima vez que eu quiser ficar só, eu vou ter que ir para Marte ou me acampar no meio da floresta. Tudo porque é simplesmente impossível ficar só.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ TAMBÉM GOSTA DE FICAR SÓ NO SEU CANTO? TEM MUITA DIFICULDADE EM CONSEGUIR UM MOMENTO DE PAZ?

sábado, maio 01, 2010

EVA VENENOSA


Por Letícia Vidica

- Meninas, queria que vocês conhecessem esta noite uma pessoa muito especial para mim - dizia Betina com brilho nos olhos

E quem mais poderia ser especial para ela a não ser eu e a Lili? Ah claro, obviamente, antes viria sua família, mas o pouco que nós sabíamos da família da dona Maria Betina bastava para saber que eles não eram tão especiais assim para ela.

- Num creio que você desencalhou! - palpitava erroneamente Lili
- Lá vem você colocando homem na conversa. Quem disse que especial combina com a figura masculina?! - respondia Betina já perdendo o rebolado
- Fala logo, Betina
- A Juju. Ou melhor, Juliana. A Juju era minha vizinha na infância, éramos melhores amigas de colégio, trocamos confidências até a adolescência até que a família dela se mudou de cidade e a gente perdeu o contato.
- E o que essa Juju que sumiu e reapareceu tem de tão especial? - perguntei com uma pontinha de ciúme daquela nova melhor amiga da Betina
- Gente, sabem o que é isso? Eu reencontrei minha primeira melhor amiga. E nem venham com ciuminho besta que coração de mãe Betina é bem grande. Sendo assim, hoje, oito horas da noite, jantarzinho especial lá em casa ok?

Nem tivemos como negar o convite. Apenas nos olhamos e concordamos em comparecer no jantar especial. Confesso que estava morrendo de curiosidade para conhecer a tal Juju.

*******************

Na hora marcada e pontualíssimas, eu e a Lili estávamos na casa da Betina que, pela primeira vez, estava de barriga no fogão.

- O que uma melhor amiga não faz né, Di? Olha lá a Betina no fogão. Isso merecia registro pro Youtube - ironizava Lili

- Parem de me encher o saco e me ajudem aqui que eu estou toda enrolada. A Juju já deve estar chegando...

... e chegou. Naquele instante, a campainha tocou e nos deparamos com uma loira de farmácia, com peitos turbinados de silicone, olhos verdes (que até hoje aposto que são lente de contatos). Uma cópia pirata da Paris Hilton. Eu podia imaginar tudo. Menos que a Betina, tão séria e cheia de pudores éticos, tinha como melhor amiga uma perua como a prima distante da Paris Hilton. Me segurei para não rir.

- Baby - disse a Juju gritando - desculpe a demora. Não estou mais acostumada com esse trânsito caótico de São Paulo.

- Que isso. Entre, Ju - disse Betina entre beijinhos - ah queria te apresentar as meninas. Essa é a Diana e essa é a Lili.

- Prazer - dissemos orquestradamente eu e Lili.

Juju se juntou a nós no sofá e começou a tagarelar sobre a vida dela enquanto Betina terminava o jantar. Por mais que ela tentasse ser simpática, algo naquele rosto de Angélica me dizia estar errado.

A noite até que fluiu bem. O rango da Betina foi comestível e a Juju tagarelou a noite toda sobre sua vida. Disse que estava morando em Londres e que estava apenas de passagem no Brasil. Disse que estava hospedada num flat, mas Betina rapidamente ofereceu que ela ficasse no seu apê. Acho que queriam trocar figurinhas do passado de novo. E a boa moça, claro, aceitou. Segundo Juju, ela era secretária de um banqueiro londrino e estava noiva de um bon vivant.

- Ai, Lili, não sei não, mas eu não gostei dessa amiguinha da Betina - eu dizia enquanto voltava para casa de carona com a Lili

- Tá com ciúmes é, Diana?

- Não é ciúmes. Sei lá, meu santo não bateu com o dela e eu não gosto de sentir iso. Isso tem cheiro de Eva Venenosa.

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Depois do jantar especial, Betina resolveu fazer um happy hour especial e levou a Juju para o bar do Pedrão nos nossos encontros de sexta-feira.

- Nossa, estou tão feliz. Agora posso dizer que somos o Quarteto Fantástico! - dizia Betina cheia de alegria e levantando o copo de chop para um brinde
Aquele cena não seria tão ridícula se não fosse a Betina.

- Ai, gente, estou adorando ficar aqui. O Brasil me faz muita falta sabia?
- Então você não vai mais voltar para Londres? - eu perguntei
- Infelizmente, eu vou...mas adoraria ficar... - disse a Paris com cara de anjo
- E aposto que ficaria de mala e cuia na casa da Betina.
- E qual o problema, Lili? - questionava Betina
- Nenhum. A casa é sua mesmo né?

O clima ficou meio pesado depois disso, mas eu tentei desbaratinar e começamos a jogar conversa pro ar. Para minha surpresa, Pierre apareceu no bar e se juntou a nós. Durante toda a noite, eu percebi Juju jogando olhares e insinuações para ele. Me fingi de morta, mas comecei a sacar que de anjo ela não tinha nada.

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Um mês depois do happy hour, nunca mais eu tinha visto a Betina. Toda vez que a gente ligava ela nunca estava em casa ou, segundo Juju, sua secretária, ela nunca podia falar com a gente.

- Tem visto a Betina?
- Desapareceu, Lili. Acho que está ocupada demais para nós com a amiguinha de infância dela.
- Que tal aparecer lá de surpresa? Quem sabe assim ela nos atende né.

Resolvemos nos desbancar até a casa da Betina e lá estava ela...

- Meninas, que surpresa!!! Porque vocês sumiram?
- Como assim, NÓS sumimos?! - perguntava Lili já ficando puta da vida -
a gente te ligou o mês inteiro, mas parece que você estava muito ocupada para as velhas amizades.

- Eu nunca soube que vocês me ligaram
.
- Acho que a sua amiguinha Juju não quis avisar...

- Ai, gente, vai ver ela esqueceu...

- É bem o que ela quer mesmo né? Fazer com que você se esqueça da gente - dizia Lili

- Não estou entendendo as suas ironias, Liliana - questionava Betina

- Ah não? Eu te explico. Você quer bancar a toda cheia de moral, mas não vê o qual podre e venenosa que essa sua amiguinha é. Ela não passa de uma aproveitadora e encostada que não sairá da sua casa tão cedo e além do mais daqui a pouco nem as amigas você vai ter mais.

- Quem você pensa que é, hein, Lili? Só porque eu tenho outras amigas? Só porque eu não fico só derramando as minhas ladainhas idiotas em cima de uma única pessoa?

Antes que a baixaria descesse ainda mais o nivel, Lili pegou a bolsa e resolveu se retirar com a promessa de que a amizade tinha acabado.

- Acho que você pegou pesado, Betina.

- Pesado? Quem ela pensa que é para vir na minha casa e me dizendo essas maluquices?

- Desculpe, minha amiga, mas a única louca aqui é você. Você está tão cega com essa amizade que não vê que está criando um Eva venenosa dentro da sua casa. Você é macaca velha, Betina. As pessoas mudam. A Juju pode já não ser a mesma boa e inocente adolescente que você conheceu. Pensa nisso.

Peguei minhas coisas e resolvi deixar Betina refletindo sozinha. Na saída do prédio, tive o desprazer de encontrar Juju voltando de sua corrida matinal.

- Oi, Diana, você por aqui?

- Sim e porque do susto?! Já que você resolveu não repassar os nossos recados para a Betina viemos até aqui.

- Eu?!

- Olha, Juju, vamos combinar uma coisa? Comigo não ok? A Betina pode até cair no seu joguinho de boa moça, mas eu estou vacinada contra isso. Conheço muito bem o seu tipinho e olha só acho bom você manter distância do Pierre também ok? Tenha um ótimo dia, QUERIDA.

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Depois do choque de realidade, minha amiga Betina simplesmente desapareceu. Confesso que fiquei super chateada pelo sumiço acreditando até que ela tinha feito sua escolha de amizade. Errada, mas uma escolha.

Numa dessas sextas-feiras típicas, eu e a Lili resolvemos manter a tradição e fomos tomar nosso chopinho com frango a passarinho no Pedrão.

- Ainda não creio que a Betina sumiu.
- Nem me fala daquela falsa.
- Calma, Lili. Ela está cega. Eu tenho fé que ela vai se tocar e eu também dei o meu recado para a Juju naquele dia. Nos encontramos na saída do prédio.

Enquanto eu contava para a Lili o que eu tinha dito, a Betina adentrou no bar. Sozinha. Se aproximou da nossa mesa e perguntou se podia se sentar.

- Agora está sozinha e quer se aproximar.
- Pode me escurraçar, Lili. Eu mereço. Meninas, eu espero que vocês ainda possam me perdoar. Eu fui uma cega.

Diante todo aquele arrependimento de Maria Madalena, fiquei curiosa em saber o que tinha ocorrido. E a minha tese se confirmou.

Betina contou que descobriu que a Juju não passava de uma estelionatária falida. Ela tinha voltado ao Brasil fugida porque tinha aplicado um golpe em Londres e não queria uma amizade e sim um abrigo. Por isso, ela preferia nos afastar para evitar que alguém descobrisse a verdade. Lendo uma agência internacional de notícias, Betina descobriu que ela era procurada e a escurraçou de casa.

- Pois é...isso prova que nem sempre você tem a voz da razão, né Betina? - dizia Lili
- Vou lhe dar mais ouvidos, Lili. Me perdoa?

E com um brinde de choppe selamos nossa reconciliação.

PAPO DE CALCINHA: Você já teve uma Eva Venenosa em sua vida?

quarta-feira, abril 14, 2010

HOMEM TENTAÇÃO


Por Letícia Vidica

Quase todos os dias, eu jurava para mim mesma que evitaria aquele olhar. Que desviaria o caminho “Talvez entrar pela copa seria uma boa idéia. Assim eu não sentiria o seu perfume e muito menos aquela voz de cordeiro me dizendo bom dia”. Porém, eu não sou muito boa em fazer promessas e as descumpria todos os dias ao chegar no trabalho.

A missa era sempre a mesma. Eu chegava, estacionava o meu carro e dava uma fiscalizada para ver se o dele também já estava lá – confesso que ficava bem triste quando não via o possante preto estacionado – daí eu pegava o elevador, subia para o 15º andar e, quando estava me dirigindo à minha sala, inevitavelmente eu tinha que passar frente à dele. Eu tentava controlar os meus olhos, mas eu era abduzida por aquele perfume maravilhoso e pela aquela voz me dizendo “Bom dia, Diana”. Me arrepiava na hora, gaguejava, as pernas ficavam bambas e a minha imaginação ia longe...

- Eu não sei mais o que eu faço, Betina.
- É simples. Cai de boca no cara.
- Nossa como você é prática! – eu retrucava tentando fazer minha amiga entender o quanto era difícil resistir aquele Deus.
- Hello! Posso saber de quem vocês estão falando, por favor? Agora vocês vivem aí de segredinho e eu não sei mais dos babados – dizia Lili morta de ciúmes, mas tenho que admitir que nem todos os segredos eu gostava de dividir com ela. Preferia a sinceridade ríspida da Betina.
- Desculpe Lili, é que tudo aconteceu de repente...

...realmente todo esse feitiço aconteceu de repente na minha vida. O homem tentação ao qual me refiro é o meu colega de trabalho, Paulo. Ele é gerente de marketing da agência onde eu trabalho. Um homem lindo, poliglota, bem formado, bom salário e um charme irresistível. Tudo bem se não fossem os empecilhos: além de estar no auge dos seus 45 anos e fogoso em seus cabelos grisalhos, ele era casado e muito bem casado. Daqueles que tem a foto da família em cima da mesa do escritório. E, o pior, com uma linda mulher. Eu não queria me envolver nessa história maluca outra vez porque eu conheço bem o final desse filme. E não para por aí. Eu e o Pierre estávamos começando a nos entender novamente. Não era um namoro oficial de novo, mas engatávamos uma doce reconciliação.

- E você está esperando o que para dar um mole para ele?
- Muita calma nessa hora, Lili. Nem todo mundo é como você. O cara é casado, a gente trabalha na mesma empresa e ... e... eu estou tentando me acertar com o Pierre de novo.
- Olha se eu fosse você eu não perdia tempo. Tirar uma lasquinha que mal tem? – alfinetava Lili
- Além do mais você já está caidinha nele.


É duro admitir. Mas eu estava com pé e mãos arriados para ele. Eu não sei porquê mas o Paulo exercia um tipo de feitiço sobre mim e eu não conseguia resistir. Minhas pernas bambeavam toda vez que eu o via. Seu perfume me embriagava e eu nunca tive tanto prazer de ir para o trabalho todos os dias. Ele era como um prêmio de consolação que eu queria conquistar. Até sonhos com ele eu andava tendo. Dos mais inocentes aos mais cabeludos. Acho que eu estava pirando.

Numa sexta-feira qualquer, eu resolvi ficar até mais tarde no trabalho para dar conta de uma campanha que eu tinha que entregar na segunda-feira. A galera do escritório tinha ido para o sagrado happy hour e eu preferi aproveitar a solidão do escritório para me concentrar. Mas, de repente uma voz me desconcentrou...

- Ainda por aqui? – disse a voz enfeitiçadora do Paulo depois de me deixar toda arrepiada e de dar um pulo de susto na cadeira.
- Nossa, que susto! – eu disse toda sem graça – pois é...tenho que terminar essa campanha.
- Posso te ajudar em algo? – perguntou ele se aproximando de mim. Fiquei morrendo de medo que ele percebesse que os pêlos dos meus braços estavam arrepiados.
- Que isso, muito obrigada. Não se preocupe. Sua esposa deve estar lhe esperando para o jantar à uma hora dessas – como eu queria ser aquela esposa.
- Ela não está em casa. Eles viajaram para a casa dos pais dela. Eu resolvi voltar ao escritório porque deixei a chave do carro em cima da minha mesa...hmmm...deixe-me ver isto – disse Paulo puxando uma cadeira e sentando-se a um centímetro de distância de mim. Acho que ele podia ouvir como o meu coração pulava no compasso da bateria.

Paulo resolveu me dar umas dicas com a campanha e a hora passou que nem vimos. E eu nem me importei com o tempo porque estar ao lado do Paulo era um sonho – bem tentador – mas um sonho. Infelizmente, acordei do sonho quando o meu celular tocou e vi que era o Pierre. Eu havia esquecido completamente que a gente tinha combinado de se ver hoje. O Paulo me fazia esquecer até o meu nome. Depois de ouvir a voz irritada do Píerre do outro lado da linha pelo meu esquecimento, justifiquei dizendo que tinha que trabalhar até mais tarde e que seria melhor nos vermos amanhã.

- Seu namorado? – perguntou Paulo
- É...não é bem um namorado ...um amigo, digamos assim.
- Desculpe tomar o seu tempo...
- Que isso, eu que agradeço pelas dicas, mas acho que já está na hora de irmos né?
- Posso lhe fazer um convite? – disse Paulo olhando profundamente nos meus olhos. É claro que ele podia fazer o convite que fosse que eu diria sim.
- Que tal um drinque para relaxarmos? Posso te deixar em casa se você quiser depois.

Topei na hora. Deixei meu carro no estacionamento da empresa e fomos a um bar no carro dele. O Paulo me levou a um bar com música ao vivo super aconchegante. Eu não conseguia acreditar que estávamos ali juntinhos naquela noite.

Bebemos algumas doses de vinho e jogamos conversa fora. Primeiro falamos de trabalho e depois de alguns copinhos de álcool filosofávamos sobre a vida. Paulo me contou que era casado há 10 anos e que se casou porque sua mulher engravidou, mas que eles eram muito apaixonados, porém passavam por uma crise conjugal no momento. Ele não sabia mais se ela o fazia feliz e nem se ele a fazia feliz. É óbvio que eu adorei saber que eu tinha chance. Só não gostei quando ele começou a perguntar sobre o meu relacionamento com o cara do celular, o Pierre. Foi difícil explicar, e como toda boa mulher que sou, disse a verdade. Contei que tínhamos namorado por um tempo, nos separado e que agora tentávamos reconciliar.

Lá pelas três da madruga resolvemos ir embora. Ao chegar no estacionamento, Paulo com seu cavalheirismo abriu a porta do carro para mim. Entrei e seguimos conversando...

- Nossa, Diana, você não sabe o quanto eu precisava relaxar. Foi uma glória ter esquecido as chaves no escritório.

- Eu é quem tenho que agradecer. Graças as suas dicas minha campanha está finalizada.

- Só valeu pelas dicas? – confesso que engasguei com aquela pergunta. O que eu responderia? Apenas sorri encabulada e cabisbaixa.

Um silêncio tomou conta do ar. Mas Paulo quebrou...

- Espero que o Pietro, ops, Pierre saiba te dar valor dessa vez. Um homem que perde uma mulher como você só pode ser um imbecil.

Confesso que eu não esperava aquela sinceridade, mas começava a perceber que talvez o feitiço fosse recíproco.

- Sabe que você é uma mulher muito bonita, atraente, inteligente...adoro mulheres assim...tenho que confessar que é um martírio te ver todos os dias com esse perfume irresistivel – disse ele fungando o meu pescoço – fico sempre atento para te ver passar e lhe dar bom dia.

Só podia ser um sonho. Ele tinha o mesmo desejo que eu. Eu era a mulher tentação dele. Naquele momento, ele parou o carro em uma rua escura. Eu não fazia idéia de onde eu estava. Começou a alisar o meu cabelo e a me encher de elogios. Tentei esquivar. Naquele momento, fiquei muito dividida. Eu estava prestes a realizar o meu sonho, mas até que ponto essa tentação valia? Ele era casado. Seria mais um rolo na minha vida. E eu? E o Pierre? Eram tantas dúvidas que eu apenas fiz uma coisa: me deixei levar. Transamos ali mesmo no banco traseiro do carro. Foi incrível...


- Que tudo!!! Diana você não vale nada, mas eu gosto de você !!! – vibrava Betina que logicamente deu plantão logo cedo em casa para saber do babado
- Ai, Betina, estou arrependida. Consciência pesada.
- Arrependida?! Eu não te entendo. Até ontem estava aí toda melindrosa louca para ser possuída pelo Paulo e agora dói a consciência?!
- Mas e o Pierre? Não é justo. Justo agora que a gente está se acertando?! Ele está fazendo um super esforço para gente se acertar.
- E vocês vão se acertar.
- Como assim? Como eu vou olhar para cara dele hoje sabendo que ontem eu estava dando pro meu gerente de marketing?!
- Diana, vira a página. Rolou e acabou. O Paulo foi só um homem tentação. Tipo aquele brigadeiro que você quer comer, come, se satisfaz e pronto!
- Homem tentação?! Você e suas definições hahahahaha Tudo bem. Vou tentar esquecer, só espero não cair em tentação de novo.
- É sempre bom repetir a dose né?

Confesso que foi difícil resistir às investidas do Paulo, mas resolvi ouvir minha consciência e tentar ficar com o certo do que com o duvidoso. Colocamos uma pedra naquele episódio. Ele se acertou com a esposa e eu estou aqui tentando me acertar com alguém.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ CAIU OU RESISTIU A UMA TENTAÇÃO?

quinta-feira, janeiro 28, 2010

QUEM DÁ O PRIMEIRO PASSO?


Por Letícia Vidica

- Ai, Lili, você já está me dando nos nervos. O que aconteceu? Ficou aí a noite toda olhando para esse celular – brigava Betina já sem impaciência por conta do ‘siricutico’ da Lili olhando o visor do celular a noite toda à espera de uma ligação

- Ih, Betina, parece até que não conhece a dona Liliana – eu dizia já adivinhando do que deveria se tratar – quem foi que não te ligou?

- Ai, gente, desculpa...é que eu estou com a cabeça na lua hoje. O Mateus... sabe aquele carinha novo que eu conheci na academia? Então, trocamos telefones há uma semana e até agora ele não me ligou...- explicava Lili com cara de quem estava prestes a cair do cavalo.

- E você tá esperando o quê para ligar para ele? – Betina perguntou num tom de desafio natural ao terminar de dar um último gole no chope.

- Mas, Bê, foi ele quem pediu o meu telefone...ele é quem tem que me ligar...pelo menos, ele me disse que ligaria... – respondia Lili ainda um pouco surpresa com a naturalidade da pergunta de Betina.

- Depois vocês reclamam que não tem ninguém...ficam aí sofrendo pelos cantos, tendo úlceras porque o telefone não toca...parem de bobagem...que coisa mais antiga...qual é o problema de você ligar para um cara se você está afim? Quem disse que isso é proibido?

Como já era de costume, a pergunta da Betina desenterrou várias minhocas na minha cabeça e tenho certeza absoluta que na da Lili também. Essa era mais uma daquelas perguntas criadas por algum guru dos relacionamentos, mas que até hoje ninguém sabia responder Quem dá o primeiro passo?

Nós, mulheres, fomos criadas e condicionadas a sermos passivas. A esperar por tudo. Esperar pela primeira boneca, esperar pela primeira menstruação, esperar pelo primeiro beijo, pelo primeiro namorado, pela primeira transa, pelo primeiro chifre, pelo primeiro fora, pelo príncipe encantado ... Enfim, a gente passa a vida toda esperando. Que ódio tenho de Eva! Se o problema fosse só esperar, tudo bem. Mas a gente espera e sofre também. Tudo ao mesmo tempo.

Criamos úlcera por passar pela angústia de esperar o telefone tocar e porque apenas não discamos os oito números e ouvimos a voz dele do outro lado da linha? Só para dizer oi, eu senti saudades, quer sair comigo? Não! Preferimos quase nos suicidar de tanta ansiedade aguardando que o telefone toque e ainda temos que fingir que a gente nem estava quase enlouquecendo e que ficamos de plantão 365 dias do ano ao lado do telefone esperando ele ligar.

Poxa, isso tá certo? Não seria mais simples agir por vontade própria. Pá e pum? É isso que eu me pergunto até hoje, mas ninguém conseguiu responder... mas que me faz lembrar alguns dos impasses que eu já cai por conta dessa dúvida.


Numa dessas sextas-feiras sagradas de encontros casuais com as meninas no bar do Pedrão, estávamos jogando papo pro ar, falando mal dos homens, dos chefes, reclamando da vida, regadas de muita cerveja e aperitivos, percebi que alguém me notava. No início, achei que não era comigo porque há muito tempo eu não vinha sendo paquerada (estava naquela fase que nem peão de obra assoviava para mim) e ainda mais no bar do Pedrão e eu não tinha feito a unha, nem o cabelo, estava me achando péssima.

- Ih, Di, acho que acaba de ganhar um fã hein? – cutucava Betina
- Pois é, aquele moreninho não para de olhar para cá.
- Ai, gente, larga de besteira. Pode ser para vocês também.

Naquela hora, o garçom se aproximou com mais uma cerveja na mesa e mais alguns aperitivos. Detalhe: nenhuma de nós havia pedido nada a mais. Mas antes que eu perguntasse sobre o erro, ele foi logo dizendo que o rapaz da mesa 302 tinha mandado para gente. Quando olhei para o lado, o rapaz da mesa 302 era o cara que não parava de me olhar e soltou um sorriso encantador e um tchauzinho. Na hora, fiquei vermelha como um pimentão. As meninas, é claro, começaram a rir e ficaram tirando sarro da minha cara, mas bem que encheram a pança. Agradeci com um sorriso e continuei sentada, mas ele não parava de me olhar.

Quando estávamos saindo do bar para ir embora, ele se aproximou de mim...

- Prazer, Murilo. Espero que tenham gostado do aperitivo – disse ele com as bochechas já encostadas na minha e pude sentir o seu perfume maravilhoso e admirar de perto seus olhos cor de mel

- Ah, claro...muito, muito obrigada pela gentileza...nem precisava – eu disse totalmente sem graça e quando olhei para o lado as meninas já estavam na esquina fazendo sinal de que esperariam no carro e rindo da minha cara de boba.

- Nossa, vem sempre aqui? Desculpe a pergunta banal, mas é que eu sou cliente do Pedrão há uns 15 anos e nunca te vi aqui. – dizia ele

- Acho que foi azar então...quase toda sexta eu e minhas amigas nos reunimos aqui.

- Pois é, tomara que a sorte nos una mais né? Mas se ela não ajudar, a gente força. Se importaria se me desse o seu telefone?

É claro que eu não me importei. Além de lindo, ele era objetivo. O tipo de homem que eu procurava. Trocamos telefones. Ele me acompanhou até o carro, nos despedimos e ele prometeu me ligar na semana seguinte para nos encontrarmos no Pedrão. E nem preciso dizer que as meninas foram o caminho todo perguntando cada detalhe de nossa conversa ne?


Passei a semana inteira pensando no Murilo e aguardando a ligação dele. Mas a sexta-feira se aproximava e toda vez que o telefone tocava não era ele. Quando as pessoas ligavam, eu logo arranjava uma maneira de desligar logo porque achava que ele podia estar ligando e daria ocupado.

Foram mais uns daqueles dias arrastados e ansiosos. Toda noite, eu dormia na esperança de que ele me ligasse, me mandasse um torpedo e eu controlava a coceira dos meus dedos para ligar para ele.

‘ Trimmm. Corri para atender...

- Alô? – atendi ansiosa
- Oi, Diiii
- Oi,Betina – eu disse frustrada com a voz do outro lado da linha – achei que era o Murilo.
- O gatinho do bar do Pedrão?
- É. Ele disse que ia me ligar e até agora nada.
- E você? Não ligou para ele?
- Ah, eu não, né? Ele é quem tem que ligar primeiro.
- Já te falei que isso não tem nada a ver, mas se não quer me ouvir...vamos lá pro Pedrão?

Só aceitei o convite porque podia ser uma oportunidade de vê-lo de novo. Ele poderia ter perdido o número, ter sido assaltado e ficado sem celular e sem forma de me ligar. Eu entenderia. De quebra, levei o meu celular muito bem carregado e fiquei de olho nele, mas quase metade da noite havia passado e nem o Murilo apareceu e muito menos seu nome apareceu no visor do meu celular.

- Diana, desencana disso. Pára de sofrer! Pega esse telefone logo e liga para o cara. Você não está com vontade?

- Eu estou, mas ...

- Mas o que? Ainda com essa história da carochinha de que os homens é quem ligam primeiro? Depois reclamam que o mundo é machista demais...

A Betina estava certa, mas eu não tinha esse grau de coragem que ela tinha. Mal dormi naquela noite. Fiquei a noite inteira brigando comigo mesma. Uma parte de mim dizia que eu devia ligar, qual seria o problema? Para que ficar sofrendo se eu poderia resolver tudo do meu jeito? Mas a outra parte dizia para não fazer isso. Que se o cara não ligou era porque não estava afim ou porque não tinha que ser ou ele era casado ou era gay ou talvez fosse só uma criação minha.

Levantei antes do sol raiar, tomei um café, li o jornal e fiquei olhando para o relógio ate dar uma hora mais adequada para ligar para alguém. Encarei o celular umas 15 vezes, abri e fechei, briguei com a força dos meus dedos indo em direção ao teclado, mas resolvi agir com o coração e não com a cabeça.

Disquei. Um, duas, três chamadas e caixa postal. Devia ser um sinal. Não era para ser e muito menos para eu fazer isso. Porém, como sou teimosa, tentei mais duas vezes e, para minha sorte ou azar, ele atendeu.

Fiquei muda por uns instantes, enquanto ele falava Alô do outro lado da linha.

- Oi, Mu-Murilo...é a Diana, lá do bar do Pedrão, tudo bem? – eu completei a frase com muito esforço

- Oi, minha linda, tudo bem? Que bom ouvir sua voz. Pensei que estivesse esquecido de mim.

Eu ia dizendo o mesmo, mas inventei alguma desculpa.

- Liguei para saber como você estava e saber se desistiu de tomar aquela cerveja comigo lá no Pedrão?

- Eu?! Jamais. Estava esperando só você ligar. Que horas eu te pego?


O Murilo me pegou em casa, fomos para o bar do Pedrão, passamos uma noite agradável...

- Achei que você não ia ligar nunca – ele disse, cheguei até a pensar que ele tinha lido meus pensamentos

- Não, é que...

- Estava esperando eu ligar primeiro? Vocês mulheres não mudam jamais – ele disse dando uma gargalhada gostosa e apertando minha bocheca. Obviamente, me senti ridicula.

- Ah, sei lá, de repente você poderia achar que...

- Gata, eu não acharia nada. Eu adoro mulheres que tomam a atitude. Soam como decididas para mim. Isso me excita, sabe? Além do mais, são vocês quem nos dão o sinal. Se ligam, é porque realmente gostaram né?

Nem preciso dizer que aquilo foi um tapa na cara com luva de pelica né? Bom, foi assim. Mais fácil do que eu imaginava e naquela noite aprendi uma lição: faça o que você tem vontade, esqueça as regras. E, além disso, existem homens – ainda existem – que não ligam para essas regras e não vão te julgar só porque você ligou primeiro. Muito pelo contrário, eles também aguardam ansiosos pela sua ligação.


PAPO DE CALCINHA: Você já deu o primeiro passo?

sábado, janeiro 09, 2010

HOMEM SENTE CHEIRO DE HOMEM


Por Letícia Vidica

- Vocês não vão acreditar quem me ligou ontem?... Luis Otávio!!!
- E o que aquele canalha queria com você, Lili?
- Pois é...justo agora que eu estou me entendendo com o Cristian...ele reaparece na minha vida. Disse que queria saber como eu estava e que estava com saudades.
- E aposto que você marcou de encontrá-lo, né, Dona Liliana?
- Ah, gente, eu apenas disse que ele podia passar lá em casa quando quisesse..mas não tem mais nada a ver entre nós.
-Sei, sei...é o que eu sempre digo. Homem sente cheiro de homem. É incrível!!

E não é que a Betina estava certa? Homem realmente sente cheiro de homem. Eles nos dão um pé na bunda, a gente chora, engorda, gasta horrores na terapia e quando a gente começa a se recuperar e encontra um cara legal, eles retornam como se quisessem marcar território. Como quem diz "Olha, não esquece de mim não hein? Eu ainda estou aqui"

E foi justamente isso que começou a acontecer comigo. Depois da separação entre eu e o Pierre, demorei um tempinho para me recuperar. Afinal de contas não é todo dia que o príncipe encantado aparece e depois te dá um pé na bunda né? Porém, depois de uns quilinhos extras, algumas sessões extras de terapia e algumas lágrimas derramadas, eu estava começando a esquecê-lo nos ombros do Diego, o meu mais novo affair.

O Diego é o que minha terapeuta costuma chamar de "Síndrome de Herói", aquele cara que surge na sua vida quando você está na rua da amargura por conta do ex, que te consola e você se apaixona. Nosso lance estava super legal e ia muito bem. Eu já nem pensava mais no Pierre com a mesma intensidade. Até que um dia...
... estávamos eu e o Diego saindo de uma sessão do cinema quando topamos de frente com o Pierre.

- Diana? Quanto tempo...tudo bem? Você sumiu!!!

É incrível como todo ex tem que fazer essa pergunta clássica. Não sabia que depois da separação a gente tinha que continuar se falando todo dia!!!

- Ah é, pois é...eu ando meio corrida, meio ocupada... - eu disse querendo desbaratinar o assunto
- Ah...eu imagino - disse Pierre em tom irônico medindo Diego dos pés a cabeça
- Ops, me desculpe, Pierre esse é meu ... meu amigo Diego.

Os dois se cumprimentaram com olhares de faíscas. E antes que o fogo se ateasse, retornei ao assunto.

- Vamos né? A gente ainda tem compromissos hoje. A gente se vê, Pierre. Até mais.

*************************

Aquele encontro tinha sido um pouco estranho. Apesar de eu estar super feliz e envolvida com o Diego, a gente sempre fica estranha quando reencontra o ex. Porém, eu achei que aquele remember tinha parado ali. Engano meu...

'Trimmmm, Trimmmm'
- Alô? Diana?
- Quem fala?
- Nossa, nem lembra mais da minha voz.
- Oi, Pierre, tudo bem?
- Te atrapalhei?
- Que isso...eu estava de bobeira...como você está?
- Eu estou ótimo...é que eu estava aqui e me deu vontade de ouvir a sua voz...
Silêncio total
... adorei te ver aquele dia no cinema. Você me pareceu ótima.
- Ah, que bom - respondi sem graça
- Aquele cara é seu novo namorado?
- O Diego?! É um amigo...
- Amigo colorido talvez?
- Pierre, me desculpe, mas eu não gostaria de ficar falando da minha vida pessoal para você ok?
- Claro, claro...você tem toda razão...afinal de contas nós não temos mais nada né?

Aquela pergunta soou como quem diz. "Temos algo ainda sim e você ainda me deve satisfação!". Desviei do assunto , ficamos jogando conversa fora por mais alguns minutos e desligamos. Apesar de eu ter desviado do assunto, aquela ligação não desviava do meu pensamento.

**************************

- Vocês não vão acreditar. O Pierre ressurgiu das cinzas.
- Eu não falo? Homem sente cheiro de homem. Só porque você está bem com o Diego, ele resolveu marcar território - dizia Betina
- Nós nos encontramos na saída do cinema...e o pior é que eu estava com o Diego...que situação chata...
- Chata porque? Eu acho ótimo ele ver que você está bem e saindo com outra pessoa.
- Se isso adiantasse, Betina...ontem ele ligou lá em casa com um papo de que estava com saudades , querendo saber quem era o Diego ...uma conversinha furada sabe...
- Dá um chega para lá, amiga! Que isso agora? Bobeou, dançou ...ele teve a chance dele, não teve?

A Betina estava certa. Eu não podia me deixar abater com o retorno do Pierre. Eu tinha que seguir a minha vida em frente e agora o que me interessava era o Diego. E foi o que eu fiz por algumas semanas até o Pierre resolver aparecer lá em casa.

'Ding,dong'
Onze e meia da noite em plena terça-feira. Quem poderia ser? E o porteiro nem avisou? Será que era algum ladrão? A resposta foi não assim que eu olhei no olho mágico e vi o Pierre.

- Pierre?! Aconteceu alguma coisa? - eu perguntei assustada porque para ir à casa de alguém naquele horário só podia ser algo grave ou importante
- Calma, Di...não é nada demais não...é que eu estava na casa do Pablo, aquele meu amigo, lembra dele? Ele mora há duas quadras daqui e resolvi passar aqui para te dar um oi.
- Ufa! Não esqueça que eu sou cardíaca...entre! Aceita um café, um chá?
...
- O que te traz aqui então?
- Saudades

Fiquei muda e inconformada com aquela cena. Eu não acreditava no que estava ouvindo. E antes que eu pudesse responder, a minha campainha tocou novamente. Quem seria agora? Agora só podia ser um assalto de verdade, mas ao olhar pelo olho mágico levei um baita susto. Era o Diego. Meu Deus, o que eu ia fazer? A primeira reação foi abrir a porta...

- Diego?! Que surpresa...
- Acho que incomodei né? Vejo que você tem visitas - dizia Diego ao ver o Pierre sentado no sofá do meu apartamento.
- Não que isso...o Pierre já estava de saída não é? - eu disse olhando para o Pierre e implorando que ele fosse embora
- Eu? Mas eu mal acabei de chegar...que isso, senta aí, amigão...vamos conversar...- dizia Pierre com tom irônico
- Eu volto amanhã, Diana. Boa noite!

Eu nem tive tempo de pedir para que ele ficasse. Diego virou as costas e desceu as escadas. Naquele instante, um ódio mortal do Pierre esquentou minhas veias.

- Por favor, Pierre, vai embora!
- Mas porque? Só porque o seu amiguinho não quis ficar?
- Não seja irônico, pelo amor de Deus. Já é tarde, eu acordo cedo amanhã..chega de confusões por hoje.
- Tudo bem, gata. Te ligo depois.

****************************

- Eu não acredito que o Pierre fez isso?
- Pode acreditar, Betina. Ele me queimou geral. Eu não entendo o que ele quer sabe? Já não basta ter me dado um fora?
- Ah mas isso não pode ficar assim não, Diana!
- E o Diego?
- Sumiu, Lili...não me ligou mais daquele dia.
- E você não ligou para ele? Tá ficando louca? Assim você está dando motivos para ele pensar que você e o Pierre ainda tem algo.

Minhas amigas estavam certas. Fui correndo para a casa do Diego e dei de cara na porta. Mas eu não podia desistir. Esperei duas horas sentada na porta da casa dele até ele chegar.

- Diana? O que faz aqui?
- Eu preciso muito falar com você. Queria me desculpar por aquele dia lá em casa. Eu e o Pierre não temos mais nada ... eu fiquei com medo de que você pensasse algo errado sobre nós.
- Tudo bem, Diana. Eu só fui embora porque afinal de contas eu não sou o seu namorado e não posso cobrar nada de você. Você recebe quem quiser na sua casa. Eu só não queria ter sido um incômodo.
- Incômodo? Jamais!
- Se é assim então...que tal entrar e tomarmos um chocolate quente para aquecê-la do frio que eu te fiz passar me esperando?

**************

O meu problema com o Diego parecia estar resolvido, mas ainda faltava dar o basta final no Pierre e eu sabia que ele reapareceria. Dito e feito. Certo dia, ele apareceu novamente lá em casa.

- Pierre, que surpresa!!!
- Oi, Diana, tudo bem? Desculpe aparecer de novo é que eu me lembrei que esqueci um livro com você.
- Livro? Eu não me recordo de estar com nenhum livro. Mas entre...
- Ah eu espero que eu não tenha causado nenhum problema aquele dia com o seu amigo...nervoso o rapaz não?
- Ah, o Di! Que isso...ele nem ligou...desencana...ele sabe que entre eu e você não rola mais nada.
- É, pois é...não rola mais nada mesmo né? - respondeu Pierre como quem engolia a seco - Vocês parecem se dar bem né?
- A gente? Nossa, nos damos super bem. Ele é um cara super gente boa.
- Desejo que ele possa te fazer feliz como eu não te fiz né? Bem...acho que eu já vou...se encontrar o livro, me dá um toque.
- Ok.

O Pierre se foi e nunca mais voltou. Pelo menos, até o momento. Eu continuei bem com o Diego e não fiz a mínima questão de procurar o livro. rs.


Papo de Calcinha:
E aí, amiga, já passou por uma situação dessas?

quinta-feira, dezembro 31, 2009

DOU OU NÃO DOU


Por Letícia Vidica

Por mais modernas que nós mulheres tenhamos nos tornado e por mais sutiens que nós tenhamos queimado, há uma dúvida que vem desde os tempos das cavernas até o dos dias de hoje que nos ronda: dar ou não no primeiro encontro? Eu nunca ouvi que há uma regra de que não deva dar para o cara na primeira vez que vocês saem juntos, mas eu também nunca ouvi uma regra que diga que você tem que dar. Isso é muito subjuntivo e da cabeça de cada um...

- E aí, Lili, como foi o encontro ontem?
- Ai, o Cristian é um fofo..Acho que finalmente eu esqueci do Otávio...e gente o apartamento dele é o máximo!!!
- Eu sabia!! Você já foi pro apartamento do cara? E aposto que já deu para ele também.
- Ih, Betina. E o que que tem? - questionava Lili - Lá vem você com esse seu falso moralismo de que eu não devo dar pros caras na primeira vez. Isso não tem nada a ver.
- Ah, Bê...eu também acho...o que tem? Se os dois estiverem afim. - eu dizia
- Por isso que vocês vivem se lamentando depois...que o fulano não ligou mais, fugiu e ficam aí desesperada. Claro!! Vocês vão logo dando o doce na primeira!!! O que os coitados vão querer depois?

Para variar, a Betina jogava um balde de água fria em nós com suas duras declarações realistas. De certa forma, até que fazia sentido... ou não?
A Lili sempre foi uma romântica ao extremo. Cai em qualquer lábia e faz tudo pelo o amor. Até o próprio amor. Não faz jogo duro mesmo. Dá logo na primeira. Ela acha que é uma tática para segurar o príncipe encantado. Mas como sempre ela arruma sapo, ele come a perereca e sai zarpando no dia seguinte.

Já eu ainda estou em cima do muro. Nunca sei se dou ou não na primeira. Depende muito do pretendente. Prefiro analisar o cara, sentir o terreno e, acima de tudo, analisar as minhas pretensões com o tal homem e daí então eu decido se vou pro abate ou não.

Se eu estou há muito tempo na seca e pinta um peixão na rede que vá satisfazer os meus desejos, não faço doce não. É pimba na cachulinha logo na primeira. Produção fatal e amor foraz. Costumo usar essa tática também para aqueles carinhas que conheço na balada.

Mas, de vez em quando, pinta na minha rede aquele príncipe que eu tanto esperei e com esse, é claro, eu faço doce...

******

O Pedro foi um desses caras que eu fiz questão de fazer um docinho. Nós nos conhecemos em um bar. Naqueles típicos dias de depressão feminina quando a gente acha que o mundo está contra nós. Mas daí aparece um cara legal te enchendo de elogio e você até acredita que o cupido existe.

Começamos a sair. Primeiro, uma vez por semana, encontros casuais, cineminha, restaurante. Tudo na maior inocência. Mão dadas e beijinhos apenas. Porém, como todo relacionamento, as coisas começaram a esquentar. Passei a frequentar o apartamento dele para assistir a alguns DVDs com a desculpa de que ele queria algo mais reservado para nós. E daí começaram os amassos no sofá no meio do filme e os beijos mais acalorados até o dia que chega a hora final...

- Calma, Pedro. Vai com calma - eu dizia esbaforida e seminua no chão da sala da casa dele.
- O que foi? - perguntava o coitado com cara de assustado.
- Olha - eu dizia tentando me desvencilhar dos braços dele - o nosso lance tá muito legal, você é uma gracinha, mas acho melhor irmos com calma.
- Você não tá afim?
- Olha, eu tô super afim, mas acho que não é a hora. Me desculpe e espero que você me entenda...

.... - Como assim, Diana? Você deixou o cara de braguilha, literalmente aberta, e se mandou? - questionava Lili
- Certíssima. Finalmente você fez a coisa certa - aplaudia Betina
- Ai, gente, eu não quero que o nosso lance acabe de repente...tá tudo tão legal que eu acho que o sexo agora ia acabar com a magia.
- Pára de besteira, Diana. Isso não tem nada a ver. Aposto que o cara nem vai mais te procurar.
- Nem todos os caras são os sapos que você arruma, Lili. Só porque você dá para todo mundo não quer dizer que a Diana tenha que fazer o mesmo ne? - esbravejava o feminismo de Betina
- Calma, meninas. Não briguem por isso. O que importa é que eu acho que fiz a coisa certa e se ele não me procurar é porque não me merecia não é?
- Viu, Lili? Tem hora que a gente tem que valorizar o produto.

****

Confesso que na primeira semana da ausência do Pedro, a minha autoconfiança caiu geral e estava já assumindo o fora que eu tinha levado só porque não dei a periquita. Mas, milagres acontecem ...

'Trimmm'
- Alô? Pedro?
- Oi, Diana, tudo bem? Me desculpe te ligar só agora ... é que eu fiquei uma semana fora a trabalho e estava incomunicável.
- Não, tudo bem - mal ele sabia que eu já estava super feliz apenas com a sua ligação
- Queria saber se você não está afim de uma pizza lá em casa...o que acha?

Em menos de uma hora, eu estava na casa dele. O Pedro era um cara bem romântico e tudo já estava preparado. Velas na mesa, um bom vinho e ele de pizzaiolo. Enquanto, ele preparava as pizzas ficamos conversando.

- Di, eu queria te pedir desculpas.
- Desculpas? Pelo quê? O que você me fez, Pedro?
- Eu fiquei pensando e acho que fui realmente muito afoito com você. Espero que você não tenha ficado brava comigo.
- Que isso! De jeito nenhum... eu espero que você tenha me entendido.
- Claro. Acho mesmo que é melhor esperarmos o momento e quando você se sentir preparada.

Apesar de ter me sentido uma adolescente virgem boba com medo da primeira vez, fiquei mais e mais admirada por aquele homem. Passamos a noite toda comendo pizza, guloseimas e nos esbaldando no vinho. Como ficou tarde, acabei dormindo na casa dele, mas nada , nadica de nada rolou.

****

- Como assim o cara se desculpou por querer te comer? Ele não existe!
- Não é lindo, Betina?
- É inacreditável isso sim. Até eu que não acredito na integridade dos homens, confesso que tenho que me curvar para esse ser.
- Ai, como você exagera rs. Mas não vou conseguir ficar segurando por muito tempo e nem sei se quero...
- Tava bom demais para ser verdade.
- Betina! Faz três meses que a gente tá junto...está mais do que na hora de ver se vale a pena...e se não for tudo isso? Caio fora logo né?
- Você é quem sabe amiga...usando camisinha, você pode tudo e claro me liga no dia seguinte.

Mais alguns encontros, amassos, vinhos, jantares e o clima esquentando e como não podia deixar de ser tudo rolou bem natural.

Numa noite, o Pedro resolveu reunir alguns amigos na casa dele para comer uma pizza e conversar e, sem dizer oficialmente, fazer com que seus amigos conhecessem quem era a garota com quem ele estava saindo. Quando todo mundo já tinha ido embora, resolvi ficar para ajudá-lo a limpar a casa. Depois da faxina, suados, caímos no sofá e foi incrível. Apenas nos olhamos e o fogo surgiu. Beijos, amassos, roupa pra cá, roupa pra lá e tudo rolou. Ali mesmo no meio da sala. E foi incrível e no momento certo.

****

- Gentem...rolou!!!
- Até que enfim...e aí como foi? - perguntava Lili afoita
- Usou camisinha né?
- Usei, Dona Betina... Foi maravilhoso, intenso, incrível...não sei descrever...só sei que quero mais ... duas semanas e meia de amor sem parar hahahaha
- Ih...já vi que ficou apaixonada, né?
- Sabe como é, Betina, tem amor que quando bate fica...e acho que ficou.
- E o Cristian, Lili?
- Sumiu!
- Num falei? Já comeu o doce e para quê repetir né? - alfinetava Betina

Nem vou terminar nosso diálogo porque esse tipo de discussão não tem fim. O que importa é que com o Pedro fazer um doce foi a melhor saída, mas não sei se farei isso com todos...a não ser que muitos Pedros surjam na minha vida né?

PAPO DE CALCINHA: E você transa ou não no primeiro encontro?

domingo, dezembro 06, 2009

OU FODE OU SAI DE CIMA


Por Letícia Vidica

Uma das coisas que eu mais ODEIO no mundo é homem indeciso. Sabe aquele tipo que nem fode, mas também não sai de cima? Me dá gastura. Mas, como toda mulher que eu sou, já fiquei com uns tipinhos desse e o pior é que eu demorei para largar o osso. Ledo engano meu pensar que eu tinha conseguido fugir da peça...

- E aí, amiga, que cara é essa? - perguntava Betina ao ver os meus olhos vermelhos e inchados
- Aposto que passou a noite toda chorando por causa do Pierre.
- Pois é, Lili, por mais que eu odeie admitir ter chorado por um homem, mas eu chorei...
- Sabe eu não consigo entender..o Pierre parecia o homem perfeito... e do nada assim ficou confuso? - se indignava a princesa encatada da minha amiga Lili
- E desde quando existe homem perfeito, Liliana? - Betina respondia com choque de realidade
- Mas afinal de contas o que houve?

***************************

Vamos então rebobinar a história.
Tudo parecia ir muito bem entre eu e o Pierre. Namoro numa boa, sexo umas tres vezes por semana, éramos cumplices e eu já até começava a amadurecer a idéia de dividir para sempre o resto dos meus dias com ele. Porém, de uma hora para outra. Assim como num passe de mágica, o Pierre perdeu a magia.

O gato começou a se calar, se ausentar...os nossos encontros que era diários passaram a quase que quinzenais, sexo então?! o que era isso? não me ligava mais todos os dias...Nosso namoro de quente foi ficando morno, frio, gelado e congelou. E o que eu como boa mulher fiz? Quando me dei conta que eu estava quase que perdendo o gato dos meus sonhos, comecei a pressioná-lo. Comecei a cobrá-lo por sua ausência e ele como bom homem...entendeu tudo errado. Virei a chata da história.

- Alô? Pierre?
- Quem fala?
- Como assim quem tá falando? A distância é tanta que já nem lembra mais da minha voz né? É a Diana. Sua namorada, se é que ainda posso me denominar assim.
- Oi, Diana. Desculpe a ligação estava ruim.
- Foi a ligação ruim que também te fez esquecer o meu endereço? O meu telefone? Faz mais de uma semana que você não dá um sinal de vida.
- Desculpe é que eu ando com a cabeça cheia de problemas.
- E que tal se você os dividisse comigo? Sempre pensei que seríamos parceiros na alegria e na dor. Sumir não vai resolver os seus problemas.
- Ok, ok. Mas para que esse desespero todo? Foi só uma semana.
- Saiba que uma semana para mim é muita coisa...mas acho que eu não tenho mais importância na sua vida
-Ai, Diana, pára. Sem melodrama. Essa encheção de saco já tá ficando chata.

Pois é, amigas, era daí para pior. E foram duas semanas nessa onda de cobrança e agindo como se eu fosse a errada da história. Os homens são mesmo engraçados. Virei a errada por cobrar a presença e a atenção do meu namorado.

Certo dia, Pierre me ligou e me convidou para sair. Queria conversar. Traduzindo, aí vinha bomba. Porém, resolvi agir completamente diferente do que eu vinha agindo. Até porque pensei muito antes daquela conversa e conclui que se é para ficar nessa loucura insana de cobrar atenção melhor seria ficar comigo mesma. Resolvi mais ouvir do que falar.

- Olha, Diana, não me leve a mal. Eu gosto muito de você. Você é a mulher que eu sempre sonhei, mas não dá. Eu preciso de um tempo para mim. Não estou num bom momento. E eu não acho justo te fazer sofrer mais, empatar a sua vida só por minha causa. Talvez seja melhor a gente parar tudo por aqui. E se eu me acertar um dia e você ainda me quiser né?

- Tudo bem, Pierre. Talvez seja melhor assim mesmo. Acho mesmo que eu mereço mais atenção e mendingá-la é tudo que eu menos quero. Espero que você se encontre. Seja feliz. - levantei, dei um beijo no rosto dele e saí sem me despedir.

É claro que eu queria ter dito várias e várias para ele, mas do que adiantaria? Nada ia mudar. Um cara que quer terminar, mas diz que me ama é algo que eu não consigo entender. Preferi chorar por uma noite calada e seguir sorrindo o resto dos dias.

**************************************************

Voltando ao bar...

- Como assim ele tá confuso?Confuso com o quê, meu Deus!! Essa eu fiquei sem entender...
- Não força o cérebro, Lili. Vai sair fumaça e você não vai chegar a conclusão nenhuma.
- Mas e você, como está?
- Olha, gente, apesar de ter chorado, eu estou bem. Gosto muito do Pierre, eu achava que ele era um cara bacana, mas me decepcionei com a sua indecisão e fragilidade. E homens assim é o que eu não preciso. Já fiqueo tanto tempo sozinha o que custa mais um pouco?

Naquele momento, meu celular tocou. E eu atendi com cara de Gerson. Era o Pierre. Queria saber se eu estava bem e disse que tinha umas coisas para pegar na minha casa e se podia passar lá no dia seguinte.

E, no dia seguinte, Pierre apareceu para pegar os resquícios do nosso relacionamento. Convide-o para entrar e comer a minha nova gororoba. Ficamos conversando e ele simplesmente passou o dia todo em casa. Algo me dizia que ele não queria sair do meu lado. Era preciso, mas não era o que ele queria. Com muito custo ele foi embora, mas me fazendo prometer que eu não iria sumir, que eu ligaria para ele etc...Prometi, mas obviamente era algo que eu não cumpriria. Pelo menos, por um tempo.

O problema é que o Pierre cumpriu ao pé da letra. Quase toda semana, ele me ligava para saber como eu estava, para me perguntar alguma coisa, para inventar conversa, para buscar mais alguma coisa esquecida no meu apartamento. Cada hora era uma desculpa para ouvir a minha voz. Parecia um garoto inseguro que não sabe o que fazer.

********************

- Ai, gente, eu não aguento mais o Pierre!!
- Como assim? Vocês voltaram?
- Melhor seria viu? Nos não voltamos, Betina, mas ele simplesmente não me abandona. Não fode mais não sai de cima sabe? Fica me ligando todo dia toda hora com uma desculpa diferente.
- Típico de homem inseguro. Ele gosta de você, Di. Isso é fato.
- Ok. Mas eu estava aí cheia de amor para dar. Levei um pé na bunda e agora ele não quer desatolar? Assim não dá.
- Você vai ter que tomar uma atitude. Joga a real com ele, amiga. Não vai ter outra saída.

E foi o que eu fiz. Como já era previsto, Pierre inventou que tinha esquecido um par de meias verdes na minha casa e que ele iria precisar muito (como se não tivesse outros pares) e apareceu lá em casa. Era a minha deixa...

- E aí, Diana, como anda a vida?
- Então como eu te disse na semana passada, tá tudo bem. Sabe..eu preciso te dizer uma coisa...mas não me leve a mal...por favor, some da minha vida! Sem querer ser grossa, mas desde que a gente terminou você não me deixou respirar...nao que eu não queira manter uma amizade...mas não há ser humano que consiga se desligar tão rápido assim...eu preciso de um tempo para mim...e quando eu estiver preparada para assumir essa amizade...eu te procuro com certeza...
- Poxa, Diana...eu nem tinha percebido que estava sendo tão pentelho assim...mas é que eu tenho que confessar que eu não consigo ficar sem você...tenho necessidade de te ver, ouvir sua voz...mas prometo que vou desaparecer...

Ele me olhou fundo nos olhos e os seus brilharam com lágrimas a transbordar. Ele me deu um abraço apertado e saiu em silêncio.

Confesso que meu coração palpitou ao vê-lo partir, mas prefiro esperar se ele vai decidir de fode ou se sai de cima.

PAPO DE CALCINHA: Você gosta e/ou já se envolveu com homens confusos?

quinta-feira, outubro 22, 2009

RATA DE PROMOÇÃO


Por Letícia Vidica

'Não, eu não vou olhar'. 'Se segura, Diana. Você vai resistir...'. 'Ai, meu Deus, que tortura chinesa'. 'Ai, não deu'. Entrei, provei, comprei. A cena era sempre a mesma quando eu me deparava com uma loja de sapatos. Eu sou fanática por sapatos. E quando passo em frente a uma loja parece que um imã me suga e eu não consigo resistir. Pior do que ser megalomaníaca por sapatos, eu sou tarada por promoção. Sou uma rata de promoção. Mas que mulher não é?

Maldito o bisavô do Aurélio que inventou essas palavrinhas mágicas: PROMOÇÃO, LIQUIDAÇÃO, 50% DE DESCONTO. E pior ainda esse primo lorde inglês que deu uma gabaritada nas palavras as deixando ainda mais atraente. OFF. Essa palavrinha soa como música aos meus ouvidos.

E aquele era mais um daqueles dias que eu não tinha conseguido resistir aos sapatos. Vi um par lindo que eu tanto estava namorando e em promoção?! Eu tinha que entrar e comprar. Seria um crime se eu não tivesse feito isso. Entrei, comprei e pronto. E que importância faz se eu já tinha um igual, mas era de outra cor né?

*****************

- Que sapato lindo, Di - babava Lili nos meus pezinhos graciosos naquele sapato
- Comprei essa semana. Não resisti. Em promoção, gente?! Tive que comprar. Cartãozinho de crédito nele , 10 vezes sem juros...
- Depois reclama que fica toda endividada... - resmungava a sobrinha do Tio Patinhas, Betina Maria
- O que importa é ser feliz, Betina! Dessa vida é isso que a gente leva...depois a gente vê como paga...
- Eles são lindos mesmo, mas ... peraí, você não tem um vermelho desses?
- É, Lili, pois é...eu tenho um preto e um vermelho...mas eu não tinha o roxo né? Vai combinar direitinho com um brinco que eu tenho...
- Diana, qualquer dia você vai ter que sair de casa para os seus sapatos entrarem!!!
- Meninas, sábado vai rolar um bazar de multimarcas irado...só marcas internacionais...vamos né?
- Nem precisa insistir...eu tô dentro!
- Podem me incluir fora dessa. Ficar naquela loucura se estapeando por uma roupa?! Deus me livre.
- Depois reclama que só tem roupa velha. Você está intimada a ir conosco, Betina. Você tá precisando urgentemente renovar o seu guarda roupa. - intimava Lili porque ela até podia não entender os homens, mas de moda ela entendia.

*****************************

- Gata, vamos para praia amanhã tá? - intimava o meu querido namorado Pierre esparramado no meu sofá naquela noite quente de sexta-feira.
- Como assim?! E você me avisa agora? Eu não vou.
- E posso saber porque?
- Tenho um compromisso inadiável amanhã...
- E posso saber com quem?
- Amanhã vai rolar um mega bazar e eu vou com as meninas. Não posso perder.
- E deixar de ir para praia comigo você pode? Diana, comprar roupa para quê?
- Como para quê? Eu estou praticamente pelada...não tenho nada para vestir...além do mais eu nunca perco uma promoção.
- Depois fica chorando as pitangas para mim que não tem dinheiro para pagar o cartão, né?
- Vai ficar jogando na cara agora é? Pode deixar que eu me viro para pagar as minhas contas ok?
- Não precisa ficar brava...só acho que você anda gastando demais com roupa...nunca vi...porque mulher tem essa mania de comprar roupas sem parar?
- Talvez porque a gente não queira ser como vocês...sempre a mesma bermuda bege e a camiseta branca...e você não tinha que reclamar não...eu quero ficar bonita para você...
- Linda, até de trapo você fica bonita ok? E aí vamos à praia?
- Posso até ir...mas só depois que eu comprar um biquini lindo que eu já vi e está com 30% de desconto...

Não adiantava. Nem pelo Pierre eu perco uma promoção.

******************

Sábado. 30 graus. Seis horas da manhã. Eu, Lili e Betina já estávamos com o pé na estrada rumo às compras. Eu e a Lili seguíamos alegre a cantar a imaginar o que compraríamos no bazar. A Betina, com os seus óculos escuros, permaneceu bicuda e calada o tempo todo. Quando abria a boca era para reclamar do calor, da demora e da loucura que ela estava fazendo por nós.

Depois de duas horas de estrada chegamos ao Outlet. Foram mais 30 minutos para achar uma vaga no estacionamento e mais uma hora em pé na fila esperando a porta da esperança abrir. Mas vale tudo para comprar né?

- Gente, vamos embora. Olha isso...a gente não vai conseguri comprar nem uma calcinha.
- Larga mão de ser chata, Betina. Até parece que eu não vou embora justo agora. - dizia Lili
- Parem de brigar e vamos logo que a porta abriu.

O portão abriu e parece uma boiada em disparada. Loucura total. Tropecei no pé de alguém, quase perdi a bolsa e me perdi das meninas, mas conseguimos nos reencontrar e entramos na nossa loja preferida a Mary's. Acho que dei soco numas dez, pisei no pé de umas vinte, até briguei com uma loura empinada por causa de uma blusinha que eu peguei primeiro e a folgada ainda hesitou que a blusa não serviria em mim?

Depois de beliscões, empurrões, pisadas no pé, muito calor e três horas na disputa por boas roupas e baratas, consegui sair de lá cheia de sacolas e feliz da vida.

- Ué cadê suas sacolas, Betina?
- Vocês acharam mesmo que eu ia me estapear nesse lugar?
- E perder a oportunidade de comprar uma Mary's com 90% de desconto? Você é maluca mesmo, Bê...mas não se preocupe. A gente comprou umas roupitchas novas para você.

Entramos no carro e enfrentamos mais duas horas de viagem felizes da vida e satisfeitísimas pela economia ilusória que fizemos, mas valeu a pena. E uma promoção sempre valerá. Aguardo a próxima!

PAPO DE CALCINHA: E você, também é louca por uma promoção?

quarta-feira, outubro 14, 2009

DISCUTINDO A RELAÇÃO


Por Letícia Vidica

Crise...eu sempre ouvi falar que todo casal - seja namorado, casado, enrolado ou amante - um dia vai passar por uma crise. Seja hoje, amanhã ou depois, mas ela vai chegar. E a minha havia chegado. E num momento como esse nada melhor do que conversar e beber umas cervejas (na ordem que você quiser) com suas melhores amigas...

- Que cara é essa, Diana? - perguntava Betina percebendo que eu não estava nada bem
- Meu namoro está uma merda!! - eu disse ao dar o último gole na cerveja e bater o copo com força na mesa.
- Nossa, mas o que o Pierre fez?
- Esse é o problema, Lili...o Pierre não fez nada...não faz nada...
- Então eu não tô entendendo, Diana... você está querendo terminar o seu namoro, é isso?
- Ai, Bê...eu não sei...não é isso...eu gosto do Pierre, mas tá tudo muito na mesma, a mesmice de sempre sabe? O mesmo beijo, os mesmos filmes, as mesmas meias amarelas que ele usa deitado no sofá de casa, as mesmas posições...esse mesmo do mesmo tá me irritando...sem contar que eu não aguento mais ver ele enfurnado na minha casa.
- Quem não te conhece que te compre hein, Diana?! Nunca vi pessoa mais confusa.

Minhas amigas estavam certas. Eu estava confusa. Ou melhor, nós mulheres somos confusas. Queremos sempre aquilo que não nos dão e se nos dão não queremos mais. Se tenho o preto quero o branco, se tá gelado quero quente, se está inverno quero verão... Ai, meu Deus, bem que Eva poderia ter facilitado né?

Eu e o Pierre estávamos juntos há um ano e meio e parecia (pelo menos para mim) que a gente tinha caído na rotina. Tudo que eu sempre odiei (e temi!!!) num relacionamento era a rotina. Já vi muitos relacionamentos que morreram por causa dela. No começo, nosso namoro foi fogo, paixão, surpresas, novidades. Só que agora a gente parecia um casal que acaba de completar bodas de ouro e com sua vidinha programada. Nos víamos nos mesmos dias de sempre, nos falávamos na mesma hora cotidiana, ele sempre chegava na minha casa e fazia as mesmas coisas, até na cama a gente já não inventava mais (será que eu já tinha testado todas as posições do Kama Sutra?). O que eu sabia é que daquele jeito não dava mais para ficar.

*********

Domingo. Três horas da tarde. Como sempre, o Pierre estava deitado de meias amarelas no sofá da minha casa embaixo do meu edredon preferido de infância zapeando de canal. Como sempre, ele pediria que eu sentasse do ladinho dele, fizesse cafuné, o clima ia esquentar e a gente ia transar até o jogo do Corinthians começar. Foi dito e feito.

- Amore - pediu com voz de gatinho manhoso - senta aqui do meu ladinho e me faz um cafuné
- Não quero. Não tô afim - eu dizia debruçada na sacada do apartamento enquanto olhava o movimento na rua para ver se me animava um pouco
- Mas você sempre faz isso?! - questionava o gato manhoso com voz de criança mimada
- Por isso mesmo. A gente sempre faz isso.
- Não tô te entendendo, Diana...o que foi que eu fiz?
- Nada, Pierre, você nunca faz nada.
- Você está de TPM?
- Caramba, meu Deus...será que nós mulheres não temos o direito de ficarmos com a pá virada sem estar de TPM?!
- Claro que tem desde que eu entenda o porquê você está tão irritada assim.
- Será que você não percebe que estamos vivendo uma crise, Pierre?
- Crise?! Que crise? Eu não estou vendo crise nenhuma...isso deve ser coisa da sua cabeça, Diana.
- É sempre coisa da minha cabeça né?
- Quer saber de uma coisa? Eu vou embora e amanhã a gente conversa quando você estiver mais calma.
- Ahá...homens, homens...são todos iguais. Sempre saindo pela culatra para evitar discutir a relação né? Mas tudo bem...pode ir...vai, mas vai e só volte quando eu pedir.

Pierre me olhou com olhos de raiva e de quem também não estava entendendo o porquê tinha sido o alvo, pegou suas coisas e saiu batendo a porta sem dizer nada. Eu sei que eu estava colocando em jogo o meu namoro e que ele poderia nunca mais voltar, mas eu precisava nos testar. Uma coisa eu aprendi nos tombos que levei na vida: homens só agem sob pressão. Quem sabe assim o Pierre ia parar e repensar o nosso relacionamento? Ou então ia acordar e ver que a gente estava precisando de mais cor?

*****************

Duas semanas se passaram e o Pierre tinha sumido do mapa. Nenhum telefonema, nenhum email, nenhum scrap ou sinal de fumaça. Confesso que já estava achando tudo aquilo muito estranho. Será que ele tinha desistido de mim?

- Diana, pelo amor de Deus, para de comer chocolates!! - brigava Betina enquanto eu me empanturrava de uma caixa de bis deitada no sofá
- Os chocolates são a única coisa que curam minha carência.
- Carência? Me poupe, Diana...foi você quem escurraçou o Pierre da sua vida
- Eu não escurracei o Pierre!!!!...eu apenas pedi um tempo ...só isso!
- E se você pediu o tempo porque tá com essa cara de enterro?
- Porque eu tenho confessar que ele está fazendo falta.
- Liga para ele.
- Mas eu não queria que fosse assim. Ele tem que se tocar que a gente está em crise e que precisamos melhorar.
- Diana, você depois de trocentos relacionamentos ainda não aprendeu que os homens não tem sexto sentido e por isso nunca enxergam que estão numa crise se a gente não disser?

A Betina estava certa, apesar de relutar por uma semana eu tive que dar o primeiro passo e ligar para o Pierre. Combinamos de nos encontrar na sexta à noite na minha casa. Ele chegou pontualmente e com uma cara não muito boa.

- Pode falar, Diana - como eu odeio esse ar de superioridade que os homens tem o dom de assumir quando a gente vai ter uma DR - discussão de relacionamento
- Acho que a gente precisa conversar né? - eu disse com voz meiga e doce para amansar o clima
- Por isso mesmo eu estou aqui...pode falar...sou todo ouvidos - respondeu Pierre com o seu pior grau de arrogância, mas eu não podia cair no jogo dele.
- Acho que você não deve ter entendido nada do que eu fiz, mas era necessário. Eu gosto muito de você, mas a gente está passando por uma crise e isso não dá para negar. Será que você não vê? Nós não somos mais aquele casal cheio de vida , de energia, de tesão...lembra como a gente era? A gente se perdeu...descumprimos a promessa de que não cairíamos na rotina, mas a gente caiu...eu sei que a culpa não é só sua...é minha também...mas me irritou muito o fato de você achar que estava tudo bem.
- Olha, Diana, eu ainda não sou adivinha. Esse dom, infelizmente, Deus não me deu (ele nem precisava falar isso. Eu já sabia). Tudo bem que você ache que a gente já não é o mesmo, achei que isso era normal. Acontece com todos os casais. E teria sido bem melhor se ao invés de me expulsar da sua casa como uma blusa velha que você não quer mais usar...se a gente tivesse conversado. Como agora. Como dois adultos.
- Eu sei que eu posso até ter sido infantil, Pi...mas eu não sei o que me deu...na hora subiu aquela raiva, aquele desespero de sair da mesmice que foi a primeira reação que eu tive...mas essas três semanas longe de você me fizeram pensar e eu descobri que viver na mesmice é ficar sem você.
- Eu também pensei muito nesses dias e cheguei a conclusão, Diana, que eu preciso de um tempo.

Como assim ele precisava de um tempo?! Ele tinha que me lascar um beijo, dizer que me ama, pegar as flores no carro e fazermos amor desesperadamente no chão da minha sala. Dizer que queria um tempo não fazia parte do script. Mas infelizmente a vida não é um filme.

- Tudo bem, eu entendo. Vou respeitar o seu tempo. E quando você chegar a uma conclusão espero que eu possa ser comunicada.

Nos abraçamos num tom de último abraço e ele saiu pela mesma porta que eu o expulsei. Riam. Podem rir...eu sei que estava provando do meu próprio veneno. Mas poxa, ele poderia ter facilitado né?

- Facilitar, Diana?! Me poupe...você cria uma crise entre vocês que nem existia...ela realmente aparece, você enxota o cara da sua vida e espera que ele te receba jogando rosas de helicópteros na varanda da sua casa?
- Você bem que podia ser menos realista né, Betina?
- Se eu fosse você corria atrás dele...esse negócio de tempo só vai fazer ele escapar e se afastar de você.
- E onde fica o meu orgulho, Lili? Eu disse a ele que respeitaria o tempo e preciso cumprir a promessa por mais duro que seja.

**********************************

E duro foi...o Pierre desapareceu da minha vida por um mês. Ficou incomunicável. Até a Dona Mary, minha sogra, me ligou algumas vezes para entender o que estava acontecendo, mas se nem eu estava entendendo como eu ia fazê-la entender, você me entende? Cheguei a pensar que meu namoro realmente tinha chegado ao fim e por culpa minha. Não, não era culpa minha. Era culpa nossa. Culpa do nosso orgulho, da rotina que nos enfiamos, do nosso cotidiano que nos matou e da nossa falta de coragem de dar o braço a torcer.

Foi num dia desses desesperançado da vida que o Pierre apareceu na minha casa. Estava com um semblante enigmático. Desses que só os homens conseguem fazer. Tentei disfarçar, mas meu coração acelerou. Era a hora da decisão final...

- Posso entrar? - perguntava Pierre num certo tom de formalidade
- Claro...fique à vontade...você nem precisa pedir. Quer um café, uma água? - é incrível como a gente fica sem saber o que falar, perde o tom , fica parecendo barata tonta na frente de uma pessoa que até ontem era tão íntima
- Não, não quero nada não.
- Então...
O silêncio prevaleceu. O Pierre esfregou as mãos suadas de nervoso e eu fiquei ali esperando que ele dissesse algo.
- Olha, Diana...eu pensei muito na gente esses dias...
- Ah que bom...e pensou o quê? - fala, fala logo
- Pensei e cheguei a conclusão de que você está certa.
Eu certa? Certa do quê meu Deus...
- A gente realmente se perdeu e não percebeu. Eu não tinha reparado que tudo estava na mesmice como você me disse...agradeço por me fazer enxergar isso...a mesmice cansa mesmo né?
- E como...
- Mas eu gosto dela.
Já vi tudo...
- Eu gosto de acordar todos os dias depois de ter sonhado com a mesma mulher, de ligar pela manhã e dar bom dia para a mesma mulher, de me acabar de prazer suado nos braços da mesma mulher, de beijar, abraçar e chorar nos braços da mesma mulher. Eu gosto da sua mesmice, Diana. Mas o que me preocupa é que eu acho que você já não gosta mais da minha mesmice.

Naquele momento, um punhal cravou meu peito e eu fiquei sem palavras, sem ar e sem saber o que dizer. O Pierre com toda a sua objetividade masculina tinha chegado a melhor conclusão de toda a minha vida. Eu não tinha parado para pensar nisso...

- Não fale besteira, Pierre...
- Não é besteira, Diana. Seja sincera. O nosso problema é que somos os mesmos e talvez a mesmice que te incomoda seja a mesmice de ter o mesmo homem por tanto tempo. Será que você está preparada para isso? Um ano e meio com o mesmo homem não é fácil.
- Desse jeito você está me ofendendo, Pierre.
- Não é isso que eu quero...só quero saber se você ainda gosta da minha mesmice...porque eu posso até mudar, te encher de rosas, fazermos sexo em locais inusitados...mas ainda serei o mesmo Pierre.

O Pierre conseguiu atingir o meu ponto fraco. O problema de toda nossa relação estava no fato de eu estar tanto tempo com o mesmo cara. Eu - que era uma pessoa tão inconstante na busca incessante pelo príncipe - e agora quando acho quero pular do cavalo?!

- Olha, Pierre...realmente não é fácil para mim ficar tanto tempo com uma única pessoa. Você sabe muito bem que por anos eu pulei de galho em galho...mas se eu pulei não era porque eu gosto disso ou não goste de mesmice...é porque simplesmente eu não tinha encontrado ninguém como você...e em toda a minha loucura de mulher acho que me assustei um pouco com o fato de que eu achei o meu ponto de parada e isso me assustou um pouco que eu comecei a exigir a inconstância dos meus relacionamentos nada duradouros...mas que adianta viver de sonho se ele é em vão né?

Nos olhamos, nos aproximamos e nos beijamos com o mesmo ardor da primeira vez. Naquele beijo que era tão o mesmo mas ao mesmo tempo tão diferente, eu percebi que eu amo a mesmice do Pierre.

Confesso que aquela crise reacendeu o nosso amor. Nos acostumamos com as nossas mesmices e continuamos felizes para sempre. Ou pelo menos até a próxima crise nos pegar?

PAPO DE CALCINHA: Qual foi a pior crise que você já passou? Como superou essa DR?

segunda-feira, outubro 05, 2009

CADA UM NO SEU QUADRADO


Por Letícia Vidica


Aquele era um dos meses que minha conta bancária estava sorrindo. Eu havia recebido uma bonificação bem gordinha, por sinal, por um trabalho que fiz na agência. Por isso, resolvi aplicar a grana na reforma do meu apartamento que há muitos anos estava com a mesma cara, o mesmo tapete, a mesma parede e mesmo do mesmo me irrita profundamente. Resolvi radicalizar e reformar. Só tinha um probleminha. Eu teria que sair para que a reforma entrasse e para onde eu iria?

- Ai, amiga, você pode ficar lá em casa se quiser...vou adorar ter uma companhia para conversar - oferecia gentilmente Lili a sua casa.

Apesar do convite ter sido feito de forma tão doce e sutil, eu tive que recusar. Eu não aguentaria passar um mês entre as brigas e vai e vem da Lili e o Otávio. Docemente eu recusei.

- Di, se quiser já sabe né? Meu apê é pequeno, mas parece coração de mãe. - oferecia Betina com aquele seu jeito despojado.

Mesmo sabendo que eu e a Betinha tinhamos muito em comum e que eu escaparia das brigas da Lili e do seu sapo príncipe, sei muito bem o gênio que a Betina tem e seria briga na certa. Somos amigas, mas cada uma no seu quadrado é melhor.

- Diana, que história é essa de que você vai reformar o seu apartamento e não me fala nada?

Nem preciso dizer que era minha mãe me ligando e me cobrando porque eu não avisei que ia reformar minha casa. Apesar de estar fora da casa dos meus pais há anos, minha mãe ainda acha que tem domínio sobre a minha vida e fica desapontadíssima se eu não aviso a ela sobre os meus passos.

- Agora não vai me dizer que não vir para cá né?

Seria uma ofensa dizer não para a minha mãe, mas preferi ofendê-la do que passar um mês em meio a guerra.

- Gata, fica lá em casa. Não tem problema...
- Ah, Pi, mas e a sua mãe?
- Tá tudo certo...já falei com ela. Ela topou e já está te esperando.

Resolvi fazer as malas e me mudar para casa do Pierre. Achei que ia ser uma boa idéia, afinal de contas seria um mês mais próxima do meu gatinho. Não tinha como ser uma cilada, tinha?

******************************************

Cheguei de mala e cuia na casa do Pierre. A mãe dele me recebeu super bem como era de praxe. Me instalei no quarto do Pierre e na primeira semana bem que eu estava gostando da experiência. Trocávamos confidências, a mãe dele me tratava com o se eu fosse a filha que ela nunca teve, era Diana para cá, Didi pra lá, mandava a Neide (a cozinheira) todos os dias fazer o cardápio à minha moda. Confesso que até me espantei com tanta hospitalidade...

- Diana, meu amor, desça logo para comer porque eu mandei a Neide preparar um salmãozinho que eu sei que você ama!!!
- Hmmm...que delícia...não precisa tanto...
- Desse jeito eu vou ficar com ciúmes, mãe - lamentava Pierre com ciúmes do tratamento da mãe comigo.

Porém, tudo que é bom dura pouco né e com o passar dos dias aquela cordialidade toda começou a me sufocar...

...certo dia cheguei em casa (ou melhor na casa do Pierre) cansada, estressada depois de um dia estafante de trabalho. Subi para tomar banho e quando entrei no quarto cadê a minha mala? Minhas coisas haviam sumido!!!!

- Neide, você viu as minhas coisas?
- Ah, a patroa pediu que eu arrumasse no armário... e eu coloquei umas roupas para lavar também. Ah e sabe aquela sua jaquetinha rosa que estava na cadeira? A Meg comeu!!

Detalhe: quase todas as minhas roupas estavam lavando. Será que eu sou tão suja assim? Se não bastasse minhas roupas terem virado alimento da cachorrinha e estarem todas na lavanderia, minha querida sogra simplesmente se deu o direito de fazer uma triagem nas minhas roupas e mandou algumas para reforma, outras foram para o bazar beneficente das donas de casa sem nada para fazer , ganhei outras novas, ou seja, invasão total de privacidade. Tentei engolir essa, desceu com gosto amargo, demorei para digerir mas não quis criar conflitos porque eu era apenas uma visita e briga com sogra é coisa que toda nora deve evitar.

****************************************************

- Ai, meninas, ainda bem que vocês puderam me ver. Eu precisava respirar.
- Nossa, Diana, o que foi?
- Ai, Lili, eu não aguento mais a mãe do Pierre. A veia simplesmente está me sufocando.
- Eu disse para você ficar lá em casa, mas você preferiu ficar na casa do gatinho!!!
- E eu ia adivinhar que ela era louca e sufocadora, Betina?!
- Mas o que aconteceu?
- Aconteceu que eu não tenho mais liberdade. Acreditam que ela reformou todo o meu guarda roupa? Jogou minhas roupas fora porque achou que estavam velhas e bregas. O que aquela perua entende de moda?! Deu aquele meu vestido de bolinhas retrô que eu amo para o bazar beneficente daquelas velhas sem ter o que fazer?!! Ai, meninas, vocês precisam ir no bazar recuperar o meu vestido!!! Sem contar que ela controla a hora que eu chego, que eu levanto, que eu saio, que eu como...fica ouvindo conversas minhas e do Pierre atrás da porta...eu não aguento mais...
- E o Pierre?
- Ah, o Pierre...ele é um palerma...não faz nada...só diz para eu ter calma que a mãe dele só quer me agradar...é mãe né? Ele nunca vai ficar contra ela.
- Então porque você não arranja uma desculpa e fica lá em casa?
- Ai, obrigada, Lili...mas eu não posso sair assim e só faltam duas semanas para reforma acabar... eu vou ter que aguentar esse inferno.

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Resolvi que não me abalaria com a falta de privacidade, mas estava cada dia mais difícil.
Era sábado. O Pierre tinha saído para jogar bola com alguns amigos e eu fiquei dormindo. Estava tão cansada que embalei no sono e nem vi que estava passando dos limites. Mas até aí eu não estava incomodando ninguém. De repente, fui acordada (ou enxotada) pela Neide com sua vassoura e minha sogra gritando atrás:

- Hora de acordar mocinha...está um lindo sol lá fora e você vai lá no bazar comigo.
- Bommm dia... - eu disse com a cara amassada - eu vou onde?
- No bazar comigo...já falei para todas as minhas amigas que você vai nos ajudar...
- Poxa, dona Mary, eu adoraria...mas hoje eu fiquei de fiscalizar a obra lá no meu apartamento...o pedreiro está me esperando...
- Ah, ele ligou aqui e já desmarquei com ele.
- Como assim a senhora desmarcou???!!!
- Desmarquei, meu amor. Você estava aí hibernando e como você vai comigo no bazar.
Como eu não tenho sangue de barata, resolvi atacar a velha.
- Como assim desmarcou e eu vou no bazar? Eu não vou a lugar nenhum!!! A senhora ficou louca? Só pode ser...como pode desmarcar um compromisso meu? Sabe muito bem que eu estou reformando o meu apartamento...
- Eu só quis te ajudar, meu amor...além do mais para que pressa de ir embora??? Acho até que você devia vender esse apartamento e se mudar para cá.
- Isso é uma piada né?

Nesse momento, Pierre chegou e pegou nossa conversa acalorada. Logo se tocou que estávamos trocando palavras nada carinhosas.

- O que está acontecendo aqui?
- A sua mãe - eu comecei a tentar me explicar, mas a minha sogra logo se intrometeu...
- Nada, filho. Besteira da Diana. Olha, Di, tô te esperando lá embaixo...vê se desce logo porque não podemos nos atrasar hein?

....

- Eu não aguento mais, Pierre. Eu vou embora!
- Como assim vai embora?
- A sua mãe...a sua mãe me sufoca. Você nao sabe o que ela fez...ela desmarcou com o pedreiro e está me obrigando a ir nesse bazar com ela...sem contar que ela doou as minhas roupas...se eu ficar aqui mais um minuto eu vou morrer sem ar...
- Você não acha que está exagerando, Diana? A minha mãe só quer te agradar...
- Exagerando eu?! Sua mãe não quer me agradar, ela quer me sufocar...olha eu amo você, mas se eu ficar aqui mais um minuto vai ser a morte do nosso relacionamento e eu não quero me desentender mais com a sua mãe do que eu já me desentendi.
- Dá um tempinho, gata. Eu vou falar com ela.

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O Pierre até falou com ela, mas nada adiantou. Ela começou a se fazer de vítima e tudo que ela fazia para mim se justificava que era para o meu bem, se eu não me incomodaria e dessa forma sobrevivi aos últimos dias.

- Obrigada pela estadia, dona Mary - eu disse aliviada e pronta para voltar para meu apartamento reformado em folha
- Que isso. Espero que tenha gostado. Sempre que quiser voltar será um prazer.
- Claro...- claro que eu jamais voltaria aqueles tinham sido os dias mais difíceis da minha vida.

...

- Oi, Di, o bom filho a casa torna? - dizia Betina ao telefone para saber como tinha sido o retorno para o apê
- Graças a Deus eu tenho casa para retornar né?
- Ué achei que você tinha gostado da vidinha a três (risos)
- Nem por brincadeira, Bê... eu amo o meu namorado, mas aguentar a mãe dele é amor demais para mim...só sei que eu aprendi uma lição...eu amo a minha privacidade e namoro a parte e melhor cada um no seu quadrado...hahahahahahaha

Papo de Calcinha: Você já passou por alguma situação semelhante ou teve sua privacidade diminuída por dividir a casa com alguém?