quarta-feira, março 28, 2012

A VIAGEM: O FIM



POR LETÍCIA VIDICA

- Alguém me diz por que tudo que é bom dura pouco? – eu questionava minhas amigas enquanto comíamos no nosso restaurante que já havia se tornado o nosso preferido La Cocina de Carmela. Um bistrô muito aconchegante, com uma dona muito simpática e, o melhor de tudo, comida boa e barata. O que é providencial para os últimos dias de uma viagem.

- Dura pouco mas ainda não acabou. Por isso, sou a favor de aproveitarmos até o último minuto. – dizia Lili – Descobri que essa noite vai rolar uma aulinha de salsa lá no albergue e a gente vai participar, óbvio né? Aquele americano gracinha vai
participar e eu é que não vou perder...

- Será que o Christian vai estar lá? – eu perguntava avaliando as minhas possibilidades de ainda terminar aquela viagem me dando bem.

- Não só estará como vai ser o professor... – completava Lili, a nossa Sherlock do amor.

Continuamos a tagarelar enquanto terminávamos o almoço. Digo tagarelar – eu e a Lili- porque a Betina não parava de responder e-mails no Iphone dela.

Depois do almoço resolvemos bater perna pelas ruas da cidade e fazermos umas comprinhas básicas. Afinal, de que vale uma viagem sem as comprinhas?

***

- Meninas, não tenho palavras para agradecer o que vocês fizeram por mim. É como se eu fosse sair daqui uma outra Diana, sabia? – eu suspirava enquanto admirávamos o mar sentadas nas muralhas da cidade.

- A gente não fez nada. Você foi quem se ligou, amiga. – dizia Betina

- Mas o Pedro não deu sinal mesmo?

- Não sei, Lili. Resolvi não ir mais atrás de notícias. Quando eu chegar no Brasil, resolvo isso. Agora acho bom a gente se apressar porque eu não quero perder a aula de salsa. Por que esse problema eu tenho que resolver hoje...

Voltamos para o albergue abarrotadas de sacolas, despertando os olhares dos moradores locais e elogios – principalmente – dos homens. Tenho certeza que a gente foi assunto na coluna social do jornal da cidade. Em poucos dias, já tínhamos feito amizade com o garoto da carruagem, o tiozinho que vendia comida na rua, o gerente do supermercado, a dona do bistrô...já estava me sentindo parte daquele lugar. Vai ver esse é o meu lugar né? Pensei seriamente em não voltar ao Brasil.

***

A noite estava quente e todos os hóspedes do albergue resolveram sair de suas tocas e confraternizavam no hall central antes da aula de salsa. Lili foi logo se envolvendo com os brasileiros que estavam servindo gelatina de vodka. Betina e eu conversávamos com uma australiana e uma londrina (doidas) que estavam no quarto da frente até sermos interrompidas por duas brasileiras que descobriram nossa verdadeira identidade ao nos flagrar falando em português. Foi então que o americano que a Lili achava gracinha – apesar da timidez – foi introduzido em nosso grupo e, em poucos minutos, aquele lugar parecia a torre de babel. Cada um se virava do jeito que sabia para conversar e, o melhor, é que todo mundo se comunicava. Foi quando... o Christian chegou. Me deu um sorriso encantador e organizou o pessoal para a aula de salsa.

Poucos minutos de aula foram suficientes para me deixar suada e com a língua de fora. Só não desisti porque a aula estava divertidíssima e o argentino que era meu parceiro não me deixava parar de dançar.

- Então, estava escondendo o jogo? – perguntava o meu Deus de Ébano ao se aproximar de mim.

- Eu? Quase morri em cinco minutos de aula... não tenho mais idade para isso. – eu dizia ainda ofegante.

- Mas a noite está só começando e você já está cansada?! Estou de folga essa noite...

Foi a deixa que eu precisava.

- Alguma proposta?! – insinuei.

Foi quando fomos interrompidos pela Lili que já estava bem louca de gelatina de vodka e gritava para nos convidar a ir a uma balada tradicional de salsa na cidade. Sob forte insistência dela, aceitamos o convite. E o Christian, claro, foi junto.

Seguimos em caravana até o tal local. E nem foi preciso uma bandeira para identificarem que éramos – em maioria – brasileiros. A nossa animação, as músicas que cantávamos e as gargalhadas revelavam o nosso jeitinho brasileiro de ser. Durante o caminho, percebi que uma teenager de Bogotá estava jogando as asinhas dela para cima do MEU Christian.

- Alguém pode me dizer o que aquela piriguete Chiquitita tá fazendo? – perguntei furiosa para Betina.

- Nega, a pivetinha ali está jogando com todas as armas para cima do negão. Daqui a pouco, ela vai tacar outra coisa na cara dele.

Fiquei irritadíssima, mas resolvi não jogar com a mesma moeda. Me afastei dele.
Durante toda a balada, tentamos ficar juntos, mas a pirralha estava sempre no pé. Resolvi desencanar e caí na salsa no meio da pista com as meninas. Ali, achei que meu jogo já estava vencido.

***

- Está com sono? – perguntava Christian quando retornamos ao albergue no meio da madrugada.

- Um pouco. – respondi rispidamente.

- Não quer dar uma volta?

- Achei que já tivesse companhia para essa noite...

Christian me estendeu as mãos e fomos andar pelas vielas de Cartagena. Como sempre, a companhia dele era agradabilíssima e mais agradável ainda foi ouvir que ele não aguentava mais a teenager no pé dele.

- E pensar que amanhã a essa hora estarei quase chegando no Brasil... – eu suspirava.

- Pensa nisso agora não. Vai ser muito chato ficar em Cartagena sem você.

- Para de ser bobo. Aposto que você diz isso para todas as turistas que vem para cá.

- Apenas para as mais especiais. – dizia ele segurando nas minhas mãos e olhando nos meus olhos.

Sorri para não ficar sem graça.

- Adoro o seu sorriso sabia? Te deixa ainda mais linda. – disse ele mexendo nos meus cabelos, no meu rosto e... tcham tcham tacham tcham... finalmente nos beijamos. Intensa e longamente, nos beijamos.

- Eu não te deixaria voltar para o Brasil sem antes ficar com uma lembrança sua. – ele disse.

***

- Meninas, agora sim posso voltar para casa. – eu dizia enquanto esperávamos a chamada do voo na sala de embarque.

- Também depois do beijo daquele homem maravilhoso, até eu né? – dizia Betina.

- Mas não falo só pelo Christian. Ele é um gato, claro. Não posso negar...mas é que eu me sinto mais eu sabe? Não sei como explicar, mas é como se algo que eu tinha perdido...eu encontrei aqui... Amo vocês. Já disse isso hoje?

- já!!! – repetia as duas em coro.

Assim como cena final de novela, nos abraçamos no meio do saguão do aeroporto. E me senti ainda mais forte para encarar os fantasmas que me aguardavam a cerca de seis horas dali.

quarta-feira, março 21, 2012

A VIAGEM - PARTE II



POR LETÍCIA VIDICA


Depois de enfrentarmos um congestionamento de pessoas no porto da cidade e de quase sermos enganadas pela tiazinha que nos vendeu o ticket, mas só esqueceu de avisar que não tinha barco – mas que não contava com a nossa advogada de plantão, Betina, que foi logo defendendo os nossos direitos – chegamos ao paraíso. Uma ilha rodeada por um mar com os mais variados tons de azul, que chamei de mar de gelatina, todinho para gente. Ali tive a certeza de que o paraíso é na terra e que eu já tinha garantido a minha vaga por lá.

- Meninas, que lugar é esse!!! Só vocês mesmo... nem sei como agradecer... – eu maravilhava aquela visão enquanto pegava uma corzinha naquele sol de queimar o coco e me refrescava com uma dessas bebidas caribenhas colombianas tropicais.

- Quem te viu quem te vê, hein, mona? O que um corpinho novo na nossa vida não faz né? Pode desembuchando logo hein... – era Lili que me colocava na parede.

Resolvi então não esconder mais o jogo e contei tudo o que tinha acontecido na noite passada para as minhas fiéis escudeiras. Revelei até mesmo que eu tinha bancado uma de Sherlock Holmes e tinha dado uma espiadinha na vida virtual do Pedro.

- Eu não acredito que você foi fuçar nas coisas do Pedro?! Você não prometeu dar um tempo nessa história? – Betina brigava comigo pela quebra da promessa.

- Eu que não acredito que você não beijou aquele negão maravilhoso????!!!! – precisa dizer que era a Lili?!

- Calma, amadas! Foi uma noite realmente fantástica sabe? Tem alguma coisa mágica nesse lugar que me fez olhar para mim. Eu não vou me enganar fingindo que eu não estou sofrendo com tudo isso, mas também vou me dar uma oportunidade.

- Assim que se fala, garota! Olha só esse mar, esse lugar...vai ficar perdendo tempo choramingando? – era Betina que levantava o meu moral.

E para recuperar as lágrimas perdidas, resolvi ir desbravar aquela pequena ilha sozinha porque a Lili preferiu ficar de bunda para o sol pegando um bronzeado e a Betina ficou lendo um livro. Bastaram alguns passos ilha adentro para perceber que eu não estava tão sozinha assim como eu queria ficar. Um dos milhares vendedores locais de colares-artesanatos-e afins , que trabalhavam na ilha, resolveu me perseguir. Me assustei um pouco no começo com a aproximação, achando que ele poderia me comer viva (em ambos sentidos), mas logo percebi que ele só queria ser simpático e cordial – coisa bem comum naquela ilha.

- Vai conhecer a ilha? – perguntava o vendedor. – Prazer, Jose! – dizia ele me estendendo cordialmente a mão – Melhor seguir por aqui. Eu te acompanho.

Que mal teria ter a companhia daquele pobre homem com sorriso cordial e surrado com a vida? Enquanto Jose me apresentava a ilha que conhecemos dando apenas 15 passos, ele aproveitou para me contar sua vida: morava na ilha em frente, fazia colares com pedras naturais pela noite e os revendia aos turistas pela manhã. Apesar da aparência de 50 anos, não passava dos 30. Tinha filhos e sustentava a família com o suor do seu trabalho. Também me surpreendeu que, apesar da vida dura, ainda mantinha um relacionamento. Ele era embarazado , como diziam, algo como tico tico no fubá.

- Você tem namorado? – perguntou ele.

Nossa, Jose, a conversa estava tão boa. Tinha que tocar nesse assunto sórdido?

- Não, eu não tenho. – respondi depois de repensar, repensar e repensar.

- NÃO?! Como uma mulher tão especial como você não tem namorado?! Olha o homem que ficar com você será muito sortudo porque você é muito especial.

Ai, gente, derreti. O humilde vendedor de colares me fez enxergar quem eu era com um elogio tão sincero e nobre. Realmente, eu sou muito especial. O azar não é meu de estar sem o Pedro e sem o Pierre e sim deles por estarem sem mim. O que um mar azul e um lugar paradisíaco não faz com a gente né?

Como eu não podia e nem queria beijar Jose, agradeci a gentileza da companhia e do elogio comprando colares para mim e para as meninas e de quebra ainda ganhei um lindo colar vermelho que ele disse que era o colar do amor... e, claro, eu iria usá-lo naquela noite para ver se já atraía algum amor por lá.

***

- Nossa! Como você está linda! Nem parece a mesma muchacha da noite passada. – era Christian, gentil como sempre, me elogiando ao me ver pronta para cair em la noche Cartagena.

- Devo isso a você, muchacho! – deixei meu lado piriguete aflorar. – Estou afim de dançar uma salsa hoje e aí vamos?

- Gata, hoje eu vou ter que ficar até mais tarde. Infelizmente, não vou poder te acompanhar, mas tem uma festinha muito bacana num albergue parceiro nosso. Acho que vocês vão gostar. Divirtam-se.

Por alguns segundos, fiquei chateada que o meu príncipe negro não iria me acompanhar, mas rapidamente esqueci disso. A vontade de cair na gandaia falava mais algo e rumamos para o tal do albergue.

O lugar era simplesmente fantástico. Fizemos um esquenta no bar do albergue e, claro, tomei o meu mojito. Enquanto bebíamos, um grego – que ainda parecia cheirar leite – se aproximou de nós e foi logo se engraçando para o lado da Betina. O bebê grego estava viajando sozinho pela América Latina e estava hospedado no albergue. Depois de alguns mojitos a mais na cabeça, fomos para a festa que acontecia na cobertura do albergue sob a luz do luar. A noite já dava sinais de que ia ser boa.

A cobertura estava lotada. Gente do mundo inteiro estava ali tentando se comunicar de alguma maneira e o DJ tocava ragatton – o que chamamos de funk colombiano – uma música muy caliente e divertida. Aquela música tinha algum efeito afrodisíaco porque logo vi a Betina entrelaçada com o bebê grego dançando num cantinho qualquer.

Eu e a Lili dançávamos feito duas loucas e felizes no meio da pista. Pouco me importava se olhavam para mim e não olhavam porque cada um era feliz do jeito que sabia ser. Até que dois rapazes, com cara de que eram colombianos, se aproximaram e começaram dançar o tal do ragatton com a gente. No começo fiquei um pouco envergonhada, mas não demorou muito para que eu entrasse no clima. Dançamos várias músicas sem parar. Eu estava hipnotizada com aquela dança, aquele contato físico, aquele suor que caía do meu e do rosto do muchacho colombiano, com o olhar que a gente trocava enquanto dançava... meu Deus, que dança é essa!!!

- Lili, isso aqui é o paraíso minha amiga!!!

- Você ainda não viu nada, Diana! Poxa, fico tão feliz de te ver assim sorrindo novamente. Essa sim é a minha Diana – me abraçava Lili.

- Te amo sua louquinha!!! - eu retribuía o abraço num daqueles momentos de mela cueca entre amigas que, nós, mulheres entendemos muito bem.

- Epa, eu quero participar também hein? – era Betina que se aproximava toda descabelada.

- Apareceu margarida? Cadê o grego?

-Ai, eu estou fugindo dele, gente, o menininho tá com os hormônios a flor da pele...eu preciso respirar...não tenho mais idade para essas coisas.

Caímos na risada e começamos a dançar a próxima música que, naquele minuto, elegemos como o hino da nossa amizade e juramos mais uma vez amor eterno. Pulávamos feito três doidas abraçadas no meio da balada. Momento crazy total!!

Lá pelo meio da madrugada, quando eu aproveitava para tomar uma fresca encostada no muro da cobertura e admirando a cidade, o tal colombiano que tinha dançado comigo se aproximou. Me ofereceu uma cachaça colombiana que, de início fiquei com medo de ser algum tipo de boa noite Cinderela, mas depois virou a bebida dos deuses. E foi graças a bebida dos deuses que eu fiquei facinho, facinho...dancei várias músicas com o tal colombiano sem nome , no silêncio do nosso relacionamento, roubei um beijo dele.

***

- Uhu!! Ninguém dorme hein??? – gritava Lili descalça com os sapatos nas mãos enquanto voltávamos para o albergue na calada da noite.

- Eu não dormiria jamais se morasse nessa ilha maravilhosa. Esse lugar é mágico só pode ser... – eu dizia com a cabeça um pouco tonta.

- Safadinha hein? E o cartageno hein? – perguntava Betina que também trançava as pernas e ainda segurava uma garrafa de cachaça colombiana nas mãos – presente do cartageno.

- Não sei o que me deu. Aquele calor, aquela música, aquela dança, corpo com corpo, olho no olho... só sei que eu ataquei. Fui lá e roubei um beijo e pronto. – eu confessava.

- Ai, que tudoooooo!!! – berrava Lili – E o que é que o cartageno tem hein?

- Nada demais. O beijo do Pedro é bem melhor – por um instante me lembrei dele.

- Ih, amiga. Esse nome aqui na Colômbia está proibido ok? PROI-BI-DO... – dizia Lili escorando em mim em meio a gargalhadas e soluços.

- Putz. Perdão. Pedro tá mortinho e enterrado. E não se fala mais nisso ok?

Voltamos para casa em meio às nossas gargalhadas que deviam ter acordado a ilha inteira, cantando, dançando, soluçando, bebendo cachaça colombiana e, acima de tudo, sendo muito feliz. E mais feliz ainda eu fiquei quando cheguei no albergue e o meu negão colombiano maravilhoso estava na recepção. As meninas saíram dando risinho pela culatra, mas eu fui barrada por aquele paredão de homem.

- Quase fui te buscar.

- Ihhhh...relaxa, baby. Sei cuidar de mim viu? – eu disse revelando que não estava nada sóbria.

- Pelo visto, a balada foi boa?

- Ótima!!! Mas seria melhor se... se... se... você estivesse lá!!! – pronto, falei!!

Aproveitei o meu momento piriguete da noite e xavequei o homem.
Christian me olhou como quem não esperava aquela resposta, mas logo abriu o seu sorriso encantador. Ele então foi se aproximando de mim, olhos nos olhos, respiração ofegante, o silêncio a nossa volta, lábios prontos para serem selados e... a campainha do albergue tocou e fomos interrompidos pelo grupo de australianos que chegavam da balada. Mais uma vez, a bola foi na trave.

- Boa noite!!! A gente termina aquele assunto amanhã... – me despedi dando um beijo demorado e molhado no rosto dele e fui para a cama dormir naquela manhã que já estava
chegando. Feliz e decidida a marcar logo aquele gol no dia seguinte.

... CONTINUA

quinta-feira, março 15, 2012

A VIAGEM

POR LETÍCIA VIDICA

- Diana, a gente tá a um passo da terra do sol, da salsa e do mojito e você fica com essa cara de velório? – dizia Lili em meio às suas trocentas malas cor de rosa para uma semana de viagem.

- Até eu que estava achando essa viagem um mico, estou animada!!! – dizia Betina, enquanto terminava de responder alguns e-mails de trabalho no seu Iphone.
Nem o apoio moral das minhas amigas inseparáveis que tinham preparado aquela viagem que, segundo elas, ia me tirar da fossa, nem o mar azul, a salsa e o mojito que eu encontraria em Cartagena das índias – o novo paraíso caribenho da América do Sul, como dizia Lili. Nada disso melhorava o meu astral. Tudo que eu queria era embarcar naquele voo para Londres que o alto falante anunciava e ir atrás do Pedro em busca de
uma satisfação.

- Desculpa, meninas. Acho que não é uma boa idéia eu ir viajar com vocês. Podem ir.
Eu não vou ser boa companhia. – eu dizia já cansada de esperar por aquele voo
atrasado há mais de 2 horas.

- Diana, você esqueceu que VOCÊ é o motivo dessa viagem?! – relembrava Betina.

Eu não só era o motivo da viagem como tinha feito minhas amigas pararem suas vidas para me acompanhar naquela viagem-jornada. A idéia tinha sido da Lili que convenceu a Betina a fechar o escritório por alguns dias (coisa rara de acontecer) e me imploraram para que eu pedisse alguns dias de folga do trabalho.

Tentei disfarçar o meu mau humor mas aquele dilema Pedro-Pierre avisou logo na porta de entrada do avião que me perseguiria a viagem toda. Durante as cerca de seis horas de voo, nada me fazia dispersar. Nem mesmo os comprimidos que tomei para dormir. Entre uma turbulência e outra a dupla dinâmica dava sinais de que estava ali enraizada em minha cabeça. Pedro tentava expulsar Pierre dizendo que já tinha conquistado seu espaço, mas Pierre relembrava que tinha chegado por lá primeiro e que ainda mandava no pedaço.



Chegamos ao novo paraíso caribenho sob um forte sol de quarenta graus. Partimos rumo ao albergue que a Lili tinha reservado e, que segundo a nossa guia da CVC, era um ótimo lugar para que eu conhecesse gente nova, gente do mundo inteiro e que cabia muito bem no bolso da Betina que tinha exigido não gastar muito dinheiro nessa viagem de última hora.

Logo na recepção, Lili foi logo se encantando com os dois belos rapazes que nos atenderam. Um moreno muy guapo com sorriso encantador de Deus de Ébano e um outro com lindos olhos azuis que depois apelidamos de Jesus Luz. Fomos levadas pelo Jesus até o nosso quarto e no caminho tive a impressão da rapidinha da Lili ter passado o número do telefone dela.

- Meninas, preparem-se porque o gato do Jesus já me passou o nome das melhores baladinhas do pedaço. Amanhã vamos cair na pista hein? – dizia Lili enquanto tomávamos um chope numa bela pracinha da cidade.

- Eu andei olhando também e acho que poderíamos ir numa ilha maravilhosa que vi num guia da cidade lá do albergue...- dizia Betina. – O que acham?

- Tem outra. Aposto!! – eu matava a charada sem ter prestado a mínima atenção no que minhas amigas tinham dito.

- Ahn? Outra balada? – perguntava Lili

- O Pedro. Aposto que ele tem outra. Esse papinho de que precisa de tempo, que eu preciso pensar e que ele tem que me entender?! História para boi dormir. – eu desabafava tomando o meu mojito num gole só.

- Diana, não pira!!! O Pedro não ia fazer uma cachorrada dessas. E olha que eu conheço bem os homens hein?

- Concordo com a Lili. Diana, tenta esquecer dele um pouco e pensar em você?

- Essa história tá muito estranha. Vai ver ele conheceu outra pessoa, ou melhor, aposto que tá ficando com aquela globeleza lá da Camila e resolveu me dar um pé na bunda de maneira sutil. Essa história de que eu preciso de um tempo para pensar e me resolver com o Pierre é balela!!!

- Diana, eu duvido que o Pedro faria isso. Para de se martirizar. Ele não te deu um tempo? Aproveita. Está mais do que na hora de sair dessa vidinha de Pedro e Pierre.

Talvez as minhas amigas estivessem certas, mas naquela noite nada me convenceria ainda de que eu estava pirando. Tanto é que, quando chegamos ao albergue, resolvi ficar mais um pouco na recepção. Não confessei às meninas que aquela era uma tática para dar uma espiadinha na internet em busca de algum recado do Pedro ou alguma pista do seu novo affair em Londres. Aproveitei que elas foram dormir e ataquei de Sherlock Holmes. O problema é que de detetive eu não tenho nada e nada foi o que eu também encontrei em todas as minhas redes sociais, e-mails e afins. Nenhuma mensagem ou sinal de fogo dele.

Poxa, faz três semanas que ele viajou e até agora eu nem sei, ao menos, se o avião caiu, se ele foi sequestrado em Londres ou se ele ainda sente falta de mim. Talvez ele esteja com as mãos um pouco ocupadas demais para me mandar alguma mensagem ou talvez eu esteja realmente pirando. Será que eu tô pirando? Antes que eu respondesse, fui surpreendida por um mojito feito pelo Deus de Ébano e tentei disfarçar limpando rapidamente as lágrimas teimosas que caíam dos meus olhos.

- Aposto que jamais tomará mojito melhor do que o meu. É minha especialidade. – dizia ele sentando-se ao meu lado no sofá da recepção. ((pausa: considere a tecla SAP em nossos diálogos))

- Obrigada. Não precisa se incomodar. – por mais lindo que ele fosse eu ainda estava preferindo a solidão ou uma resposta do Pedro do que um mojito na calada da noite, mas tive que aceitar porque seu rosto parecia de quem acharia minha negativa uma grande desfeita.

- E aí já conheceram a cidade?

- Ainda não. Fomos apenas até uma pracinha aqui próxima hoje à noite beber algo, mas parece ser realmente linda.

- Linda, romântica e caliente... – ele dizia olhando profundamente nos meus olhos.

- Claro, claro... não vai faltar oportunidade. – respondi ainda um pouco sem graça.
Percebi o quanto estou enferrujada para cantadas.

- Que tal agora?

- O quê?

- Vou adorar te mostrar a cidade.

- Mas agora?! Essa hora? Já está tarde. Não quero te atrapalhar... e as meninas...

- Relaxa, muchacha. A noite é uma criança. E se quer saber... Cartagena é ainda mais encantadora de madrugada. Ao menos, uma vez, faça uma loucura na vida.

Nossa, quem é esse homem? Algum amigo da Jane, minha terapeuta?! Só sei que deixei as lágrimas de lado e resolvi desbravar aquela cidadezinha. No caminho, Christian – esse era o nome dele – foi me contando cada detalhe daquele paraíso perdido na costa norte da Colômbia que tinha sido descoberto no século 16 pelos espanhóis e construída com o sangue e o suor da escravidão – motivo de orgulho para ele que carregava em seu sangue esse suor.

No meio do passeio, encontramos um amigo de Christian com sua carruagem costumeira de levar turistas para um city tour. Ele gentilmente nos emprestou seu ganha pão e segui encantada por aquele lugar ao lado daquele negro maravilhoso.

Cada ruazinha, cada beco respirava história. Christian sabia cada detalhe, cada segredo escondido naquelas casinhas coloridas, nas varandas com suas flores primaveras, nos bares que ainda estavam abertos tocando algo como salsa para corações machucados, nas pracinhas que ainda carregavam o perfume dos namorados até as muralhas que cercavam o centro da cidade e que ainda mantinha intactos os seus canhões que em outros tempos atacaram muitos navios piratas.

Permanecemos sentados nas muralhas e em silêncio por algum tempo. Olhando para aquele mar escuro e ouvindo a brisa e o barulho das ondas. Fiquei repensando na minha vida. E, naquele momento, a dupla Pedro-Pierre reapareceu em meus pensamentos, mas foram expulsos pela pergunta do Christian. Eu poderia ter aproveitado aquele lugar propício para bombardeá-los da minha mente.

- Por que estava chorando lá no albergue?

- Coração partido, digamos assim. – eu respondia ainda hipnotizada pela escuridão do
mar.

- E quem teria coragem de machucar o coração de uma moça tão especial? -dizia ele se aproximando mais de mim.

Não sei porque mas senti uma vontade arrebatadora de contar a minha história para ele. Era como se eu me sentisse na obrigação de retribuir aquela gentileza do passeio com algo tão valioso. Contei com mínimos detalhes a minha história com o Pierre – a confusão de sentimentos dele, a traição, a Olívia, o filho, o possível casamento, a nossa história mal resolvida, as investidas dele – e com o Pedro – a nossa amizade de maternidade, o sentimento nobre dele por mim, o carinho, o respeito, o afeto, o tempo, Londres e a minha insegurança.

- Eles não merecem suas lágrimas. Mas tenho que admitir que esse Pedro teve uma atitude nobre.

- Não vejo nada de nobre em me deixar sozinha. Eu não pedi tempo nenhum. Quem é ele para dizer que eu preciso de um tempo para me resolver?

- Talvez seja o cara que te ama de verdade. Eu não sei se teria coragem de abrir mão de uma jóia tão rara quanto você. Mas se ele não tivesse feito isso, eu não teria te conhecido...

Nos olhamos fixamente. Christian foi se aproximando de mim. Pegou nas minhas mãos, acariciou meu rosto e se preparava para me beijar, quando um raio de sol entrou nos meus olhos e me assustei que já estava amanhecendo.

- Meu Deus, já está amanhecendo... uau que por do sol lindo!!! – fiquei petrificada com a vista.

- Meu presente para você!

O beijo acabou não rolando, mas deixemos para depois. Senti que algo naquela noite tinha me mudado. Voltamos para o albergue com a carruagem do amigo do Christian. Nos despedimos na porta com um abraço apertado e prometi aceitar o convite dele de sair para dançar salsa na noite seguinte. Encontrei Lili e Betina acordadas e assustadas.

- Achei que as FARC tinham te sequestrado!!! – dizia Betina.

- Hummm. Tá com cara de quem aprontou hein? Pode contando tudo. – dizia Lili com seu faro infalível.

- Tive uma noite maravilhosa sim. Mas depois eu conto tudo. Vou tomar um banho senão a gente vai perder o passeio para as ilhas. Só quero dizer uma coisa: esse lugar é o paraíso e eu quero piriguetar muitooooo...

Saí dançando feito uma adolescente do quarto e as duas ficaram me olhando com cara de quem não tinham entendido nada...

CONTINUA...


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quarta-feira, fevereiro 29, 2012

A TPM É DELES



POR LETÍCIA VIDICA

- Diana, tudo bem? Nossa, que cara péssima é essa?

Fui flagrada pela Julia, namorado do Digão, um dos melhores amigos do Pierre. Tudo que eu menos precisava naquele dia em que meu humor não estava dos melhores, aconteceu. Tentei me esconder de tudo e de todos na praça de alimentação de um shopping qualquer, mas não foi possível.

- Oi, Julia, tudo bem? – respondi tentando disfarçar o meu ânimo depressivo.

- Nossa, que bom te encontrar, menina. Estava mesmo querendo falar com você... – dizia Julia já se acomodando na minha mesa.

Pena que eu não podia dizer o mesmo. Naquele momento, eu não desejava encontrar ninguém sabe? Eu adoro a Julia. Ela é uma fofa, sempre nos demos muito bem...mas é aquela coisa. Ela me fazia lembrar do Pierre. Era incontrolável.

- Tenho uma novidade para te contar... Eu estou grávida!!! – saltitava Julia no seu momento cegonha. – E estava desesperada atrás de você porque vou fazer o meu chá de bebê no sábado e quero muito que você vá. E sem desculpas!!!

Pois é, eu bem queria inventar uma desculpa. Ainda tentei argumentar com a Julia, mas ela estava decidida com relação a minha presença no chá de bebê dela. Apesar de gostar muito dela, eu já não pertencia àquele mundo e também não estava a fim de dar explicações sobre eu e o Pierre ... e o pior ter que enfrentar a Olívia.

- Pode ficar tranquila que aquela lá não foi convidada viu? – adiantou-se Julia, referindo-se a Olivia. Acho que ela leu meus pensamentos.

- Não, tudo bem. Se ela for, vou ficar na minha. – menti.

- Você sabe muito bem que eu não gosto dela e não perdoei o Pierre. Ele foi um canalha. O Digão vive insistindo para que eu seja simpática com a garota e tal, mas eu não consigo, Diana. Eu acho um absurdo... – Julia desatou a falar, falar, falar...eu mal ouvia o que ela dizia...mas algo me chamou a atenção... – Você acha... agora estão com uma idéia de casar. Casar???

Epa! Agora a história ficou interessante. O Pierre vai casar? Foi como uma faca atravessando o meu peito a sangue frio e sem anestesia. Julia se despediu porque tinha algum compromisso e me intimou sobre o chá de bebê mais uma vez.

***

- E aí, gata, ainda não tá pronta para o chá de fraldas? – essa era Lili que tinha se candidatado a ir comigo no chá de bebê da Julia.

- Essa idéia é maluca, Lili. Eu não vou... – eu dizia ainda de pijamas no sofá.

- Nananinanão. Pode levantar que a gente vai sim. E vamos tirar essa história de casamento a limpo viu?

Convencida por minha fiel escudeira, me troquei e fui arrastada ao chá de bebê. Óbvio que cheguei lá com um frio na barriga e medo de encontrar o Pierre e a Olivia, mas a barra estava limpa...ainda. Todas as namoradas dos amigos do Pierre fizeram festa ao me ver e ficaram me interrogando sobre como eu estava, se estava namorando, se estava trabalhando e etc etc etc.

Ainda bem que consegui me desvencilhar do interrogatório quando o Digão apareceu e me ofereceu uma cerveja. Acompanhei-o até a cozinha, mas não percebi que aquilo era uma saída de mestre.

- Que bom te ver, Diana. Continua lindona hein? Tá tudo bem com você? – insinuava Digão. Eu senti que ele estava analisando o meu terreno.

- Tá tudo bem sim. Parabéns pelo bebê. Estou muito feliz por vocês. Sabe que sou fã de vocês né? Formam um belo casal...

- Eu digo o mesmo sobre você e o Pierre, mas já que insistem nessa bobagem de ficarem separados né? – Digão dava o seu xeque-mate.

Antes que eu respondesse que eu e o Pierre não tínhamos mais nada a ver (ou tínhamos), Julia entrou na cozinha feito um furacão.

- Rodrigo, quem convidou aquelazinha?? – pelos olhos vermelhos pude ver que a fogueira estava esquentando.

- Calma, Julia. O que houve? Você sabe que não pode ficar nervosa!!! – dizia Digão tentando amansar a fera.

- A Olívia! Ela acabou de chegar... eu não falei que não queria ela aqui? Desculpe, Diana!!

- Calma, gente, tudo bem. Sem problemas. – mentira. Tinha todo o problema.

Digão puxou Julia de canto e não pude ouvir a explicação dele, mas logo imaginei que ele fez isso pelo grande amigo. Fui para a sala e encontrei Olívia sentada no meio das meninas como se fosse íntima de todas. Ela me lançou um sorriso amarelo e um olhar fatal.

- Lili, vamos embora daqui? – eu dizia de canto.

- Tá louca? Agora que o show vai começar?

- Eu não quero confusão e não me sinto nada bem no mesmo ambiente que essa daí.

- Diana, sobe no salto e deixa comigo hein?

Acho que vivi os piores sessenta minutos da minha vida. Eu só consegui olhar para o Olívia e imaginá-la beijando o Pierre, abraçando o Pierre, rindo da minha cara e quando olhava para a barriga dela meu coração doía. Ali estava sendo gerado o fruto de uma traição. Eu queria voar no pescoço dela. Me segurei. E tive que me segurar mais ainda quando ela se aproximou de mim.

- Oi, Diana, tudo bem?

Respirei fundo, contei até dez.

- Tudo sim e você?

- Não achei que ia te encontrar por aqui. Mas que bom que você veio.

Alguma ironia no ar?

- Pois é. A Julia é uma pessoa muito querida e fez questão que eu estivesse aqui. E como vai a gravidez? – alfinetei.

- Já não me aguento em pé né? Ando muito cansada sabe? Mas ainda bem que o Pierre vai morar lá em casa e vai me dar uma mãozinha.

Eu sabia que ela queria jogar isso na minha cara.

- Que bom. Parabéns ao casal!!! Dá uma licencinha...

Antes que eu cometesse um assassinato, inventei uma desculpa e zarpei de lá. A Julia me pediu mil desculpas pelo ocorrido, mas eu sabia que a culpa não era dela.

- Diana, eu não creio que você vai embora no melhor da festa.

- Lili, acorda! Melhor da festa para quem? Por que só você estava se divertindo com a desgraça alheia... A sirigaita ainda tem a cara de pau de vir ser simpática comigo? Rouba o meu namorado, engravida dele e vem jogar na minha cara que eles vão morar juntos e eu tenho que ficar bem? Me poupe, Liliana. Chega! Acabou!! Eu vou colocar um ponto final na minha história com o Pierre tá decidido.

- Di, mas será que ela roubou o Pierre de você? Ela sabia que vocês estavam juntos? Você nunca tirou essa história a limpo! Criou um monte de coisas na sua cabeça...

Talvez a Lili estivesse certa, mas eu estava puta demais para filosofar. E mais puta ainda eu fiquei quando, depois de um banho renovador, o interfone tocou e o porteiro disse que o Pierre estava lá embaixo.

- O que você quer aqui? – perguntei a ele como quem não está para bons amigos.

- Posso entrar? – ele perguntava com o rabinho entre as pernas.

- O Pedro tá aí?

- Não, o Pedro não está. – lá vinha ele sondando território.

- Eu to precisando de uma ajuda.

Ajuda? No que EU poderia ajudar? Quer que te ajude a se jogar da varanda do meu prédio? Com prazer!!!

- Eu sei que a gente não está mais junto, que eu fui um canalha, mas você é a única pessoa que ainda me ouve...

Ainda bem que ele reconhece o próprio caráter...

- Eu não sei o que fazer. A Olívia tá me pressionando para gente morar juntos, mas eu não quero. Já não basta eu ter assumido a criança? O que eu faço , Diana?

- É pegadinha né, Pierre? Chama o Ivolanda. Você não está perguntando isso para mim né?

- Eu estou confuso, Diana. Não sei o que eu faço. Tá todo mundo me pressionando, mas não é isso que eu quero para minha vida...eu quero vo...

- Pierre! Seja homem, pelo menos, uma vez na sua vida!! Assuma os seus erros. Para de ser um garoto mimado que brinca com os outros e quando cansa quer largar. Você tem uma vida que depende de você agora.

- Mas eu tenho que morar com ela? – suplicava ele. – E a gente?

- Pierre, esse não é o momento para pensar na gente. Quando você tinha que pensar, não pensou. Agora é tarde. Eu não sei o que você vai fazer, não me interessa mais e, por favor, para de me procurar como seu eu fosse a sua mãe, a sua terapeuta... Se um dia você achar que tem que me procurar como mulher, talvez eu até te ajude...mas agora, sai daqui, pelo amor de Deus!!!

Pierre ainda tentou lançar o olhar de cachorro sem dono para mim, mas eu já me vacinei contra isso. Saiu como cão abandonado na calada da noite.

- Eu não acredito que ele fez isso. Estou bege! – dizia Lili enquanto tomávamos nosso chopinho de sexta.

- Gente, bege estou eu né? O que acontece com esses homens hoje em dia? A gente que menstrua e eles que tem TPM? O Pedro precisando de um tempo, o Pierre vindo choramingar as pitangas para mim... Deus, me ajuda!!!

- Eu falo gente. Os homens viraram mulherzinha hoje em dia. Esperam que a gente ligue, que a gente pague... – desabafava Betina – Mas adorei que você pôs ele para correr. Vamos ver se ele vai ser homem mesmo.

- Ai, meninas, eu estou tão confusa, tão triste. Se eu pudesse, eu abria um buraco e só voltava ano que vem.

- Nada que uma boa viagem não cure. – dizia Lili.

- Tá louca, Lili? Viajar? Agora?

- Sabe que não é uma má idéia? – concordava Betina – Acho que você precisa de um pouco de diversão, companheira!!! Eu topo!!

- Fechou então. De malas prontas aí vamos nós.

Sem pensar, apenas ri e concordei embarcar nessa viagem sem destino. Se isso me ajudar a ficar longe de todos esses meus problemas, eu estou dentro. Agora basta saber o que me aguarda na estrada.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ ACHA QUE OS HOMENS TEM TPM? ESTÃO COMPLICADOS DEMAIS?

domingo, fevereiro 12, 2012

TEMPO



Por Letícia Vidica


- Eu estraguei tudo!

Essa era eu deixando meu corpo cair feito pena no divã da Jane. A santa Jane, minha terapeuta. Apesar dela ter me dado ‘alta’ há alguns meses, mesmo sob forte recriminação da minha consciência insistindo para ficar eternamente na UTI do divã, eu acabei voltando ao consultório. Ela era a minha última saída. A luz no fim do túnel. A minha salvação.

Eu tinha acabado de contar o pesadelo que vivi na noite das bodas de prata dos meus pais. Falei sobre a aparição repentina e planejada do Pierre naquela noite, do absurdo das pessoas me recriminarem achando um absurdo eu me incomodar com a presença dele, da pressão do Pedro questionando se eu o amava ou não e fazendo planos comigo , da pressão que fiz sobre mim mesma me questionando se eu amava o Pedro e se eu queria fazer planos com ele e da dor que senti quando o Pedro me propôs um tempo.

- Tempo? Eu não quero tempo!!! Poxa, eu não escolhi ficar com ele?! Pronto. Para quê complicar? - eu me questionava almejando uma resposta da Jane. Algo como um remédio para curar algum mal. Mas esqueci de que a Jane não dá respostas. Ela faz perguntas que me fazem buscar respostas fazendo mais perguntas para ela. Um círculo irritantemente vicioso.

- Tem certeza de que não precisa de um tempo? Você realmente escolheu ficar com ele ou se viu sem saída? - perguntava Jane com sua voz de professora primária, recompondo os óculos e com uma calma invejável que me despertava uma raiva e admiração tudo ao mesmo tempo.

As perguntas da Jane me lembravam a da minha mãe que saiu da festa de bodas desesperada depois de ter enfrentado uma busca desenfreada pela cidade atrás da minha pessoa, a qual tinha saído feito louca da festa com a Betina e quis ficar rodando sem rumo por mais de três horas. Marisa, minha irmã, já sem paciência comigo e depois de me chamar de mimada - egocêntrica- confusa (coisa que me admirou muito tendo em vista a mosca morta que ela é), também me fez o mesmo questionamento e Betina no seu silêncio mortal, que conheço bem quando está com raiva de mim por alguma besteira que eu tenha feito, também me perguntou isso com seu olhar.

***

- Diana?! Tá tudo bem?!

Foi isso que o Pedro me perguntou com cara de espanto depois de me deixar plantada por quase duas horas na sala da casa da mãe dele, ouvindo as lamentações da minha ex-futura-sogra de que ia ficar tudo bem e que era questão de tempo. Tempo? Essa palavra deu para me perseguir agora?!

Deixei o meu orgulho ferido de lado e fui atrás do Pedro sem pensar. Ao vê-lo, abracei-o também sem pensar como uma criança que abraça um ursinho de pelúcia.

- Não me deixa sozinha! - eu disse, mais uma vez, sem pensar parecendo uma criança que tem medo do escuro e percebe que a mãe já acabou de ler a historinha e está saindo de fininho do quarto.

Acho que o Pedro percebeu o meu desespero e não sei se por dó,piedade, amor, amizade...sei lá pediu que eu me acalmasse e fomos conversar na garagem. Nem me toquei de que a mãe dele assistia àquela cena sentada no sofá parecendo ver uma cena romântica da novela das nove.

- Por que você fez isso comigo? Por que me deixar? Você jurou que não ia me abandonar...eu não preciso de um tempo, Pedro. - desembestei a falar e a perguntar e perguntar assim como a Jane faz comigo.

- Diana, mais cedo ou mais tarde, isso ia acontecer. Não dá mais para gente se enganar. Não dá mais para você se enganar.

- Você não gosta mais de mim? - perguntei ignorando totalmente a pergunta acima. - Cadê aquele amor que você disse que sentia por mim? É assim? Você se sente ameaçado pelo Pierre e prefere cair fora? Por que os homens enfrentam seus problemas desse jeito?

- Diana, não confunda as coisas. Eu continuo gostando de você do mesmo jeito. Se eu pensasse só em mim, continuaria com você numa boa. Apenas pelo fato e pelo orgulho de ter você comigo. Eu também estou correndo um risco. Se você descobrir que realmente gosta do Pierre, eu sei que vou perder você para sempre. Mas eu preciso correr esse risco em seu respeito...

***

- ... eu fiquei sem resposta, Jane. O Pedro sempre me deixa sem resposta. Acho que foi a declaração de amor mais linda que já ouvi. Isso foi uma declaração de amor?

- Realmente, Diana, é uma atitude nobre e rara hoje em dia. Mas o que você sente pelo Pedro? Fala para mim... - perguntava Jane tomando nota de cada sílaba que eu soletrava.

- Ai, Jane. O que eu sinto pelo Pedro é algo muito calmo, tranquilo, ele me dá uma segurança que nunca senti com ninguém...quando ele está comigo eu não tenho medo de nada porque eu sei que ele vai me proteger, sabe? Eu gosto de conversar com ele, ele me escuta, me entende...tem sempre uma pergunta que me faz pensar...eu odeio quando ele pergunta mas adoro quando encontro a resposta... Eu não tenho aquele calafrio, aquele turbilhão de emoções por ele como eu tinha pelo Pierre... mas eu tenho muito carinho e um sentimento diferente que eu não sei explicar... - nossa, é tudo isso mesmo? Se eu estou dizendo, é né?

- O Pierre mexe com meus instintos mais primitivos...é como se ele despertasse em mim um vulcão. Parece amor e ódio juntos sabe?! Confesso que eu ainda sinto isso quando vejo ele...mas acho que é coisa de pele né? O Pierre me leva do 8 ao 80 num segundo...ultimamente tenho ficado mais no 80 sabe? Foi isso que eu senti na festa... acho que fiquei com raiva de mim mesma quando percebi que eu não consegui disfarçar tudo isso.

***

Apesar de ter toda essa consciência sobre os meus sentimentos pierrianos, eu não tive coragem de revelar isso para o Pedro quando ele perguntou...

- Confessa, Diana, você ainda gosta do Pierre né?

Fiquei muda por alguns segundos, mas lembrei que quem cala consente. Voltei a tagarelar.

- Para com essa bobagem, Pedro. O Pierre é passado...

- É um passado presente, Diana. E eu não posso suportar conviver com esse passado mal resolvido de vocês. Não me entenda mal. Eu não estou brigando...eu sabia que eu corria esse risco quando me envolvi com você...mas também achei que ia se resolver logo e vejo que não é assim...

- Então vai me entregar de bandeja para ele? É isso mesmo? - comecei a me irritar com o lado Freudiano do Pedro. Poxa! Eu vim até aqui, enfrentei o meu orgulho, estou me humilhando para o cara fazer doce?!

- Diana, eu já te disse. Eu não estou te entregando de bandeja...estou te ajudando.

- Bela ajuda, viu?! Não vê que, mesmo se eu quisesse, a minha história com o Pierre já está para lá de complicada? O cara vai ter um filho com a piriguete que ele me traiu e você ainda acha que eu ainda tenho algo para resolver com ele? - eu disse enfurecida.

O silêncio mortal do Pedro e o olhar irônico dele me respondiam que a raiva que eu esbanjei nessa declaração já era um sinal de que eu realmente tinha muito a resolver com o Pierre. Tudo bem, eu me rendo, mas tem que ser sozinha mesmo?

- E se eu admitir que talvez eu realmente tenha algumas lacunas em aberto com o Pierre, mas juro que numa conversa se resolve...você fica comigo?

Eu mal pude me reconhecer. O meu coração batia descompassado, eu parecia uma louca descabelada e meu olhar seguia o Pedro que andava de um lado a outro da garagem.

- Eu sempre ficarei com você, mas agora não dá. Eu estou indo viajar.

Opa! Por que eu não desconfiei que a vida não ia deixar de me pregar uma peça?

- Eu estou indo para Inglaterra. Seis meses. Vou fazer um curso. Me avisaram ontem que eu passei.

- Como assim?! Seis meses?! Logo agora? Por que não me contou nada ou você já estava planejando tudo isso?

- Diana, não pira. Eu não esperava por isso. E, naquela época que eu fiquei desempregado,eu atirei para todos os lados né. Além do mais, esse curso vai me ajudar muito na minha nova sociedade e esse tempo vai fazer muito bem para gente.

Tempo...aí está a palavrinha mágica de novo.

***


- Eu não podia ser tão egoísta com ele, Jane. Ele estava sendo tão compreensível com a minha vida, mas seis meses? Será que eu vou agüentar? É tempo demais... - eu lamentava.

- Nada é por acaso, querida. Aproveita esse tempo para cuidar de você, pensar em você, conhecer você... a gente nunca vai amar ninguém sem conhecermos a nós mesmas, sem amarmos a nós mesmas...

- Ele partiu ontem. Nem quis que eu fosse no aeroporto. - eu dizia deixando algumas lágrimas caírem dos meus olhos. - A Betina disse que foi melhor assim...mas eu estou me sentindo meio perdida sabe? Mais até do que quando terminei com o Pierre...

- É que agora não tem muleta, Diana. Agora é você com você mesma. E ficar com a gente mesmo pode ser assustador em alguns casos, mas a descoberta vale muito a pena. Escute-se, Diana. Sinta-se. Não tenha medo de mergulhar para dentro de você. Vai te fazer muito bem. Te vejo semana que vem, tudo bem?

Como uma sineta que soa dizendo que a hora do recreio acabou, eu retornei para casa com as frases da Jane ecoando na minha mente. Não tenha medo de mergulhar para dentro de você.
Estou agora me preparando, treinando para esse mergulho... o problema é que ainda não descobri se vou encontrar um tubarão , uma sereia ou um baú de tesouros dentro de mim, mas a vida é mesmo uma caixinha de surpresas né? Então, vamos embora.

PAPO DE CALCINHA - Você acha que o tempo funciona?

terça-feira, janeiro 24, 2012

O QUE É O AMOR?



POR LETÍCIA VIDICA

- Nossa, mãe, para quê tanto nervoso? Parece até que nunca casou... - para variar, eu brigava com a minha mãe ao vê-la parecendo uma virgem que vai se casar pela primeira vez. Era a boda de prata dos meus pais e eu e a Marisa (minha irmã) ajudávamos minha mãe a se trocar no camarim da igreja.

- Ai, filha! É como eu me sinto. Como se tivesse casando com seu pai pela primeira vez mesmo. - suspirava minha mãe - Será que ele já chegou?

- Calma, mãe, a noiva aqui é a senhora. A senhora tem o direito de se atrasar. Papai deve estar lá fora. - acalmava Marisa.

- Nossa, nem parece que nossa história de amor nasceu há 25 anos, ou melhor. há quase 30 né? - suspirava minha mãe pela quinquagésima vez e sempre suspirava quando falava do papai. - E o melhor de tudo é que eu o amo cada dia mais...

- Ai, que lindo, mãe! Queria tanto que fosse assim entre eu e o Arnaldo... - dizia Marisa, enxugando uma lágrima teimosa que insistia em cair do olhos dela anunciando que o casamento dela talvez nem completasse as bodas de plástico.

Enquanto minha mãe me abraçava, fiquei pensando se um dia eu sentiria o mesmo que minha mãe sente pelo meu pai. Amor. Isso sim é amor. Será que vou amar um único homem um dia por tantos anos? Será que eu já amei? Ou será que nem sei o que é o amor? O que eu sentia pelo Pedro? E o que eu senti (ou sinto) pelo Pierre? Amei algum dos dois? Fiquei delirando nessas e em outras questões enquanto assistia á cerimônia das bodas no altar.

***

- Será que um dia vai ser a nossa vez, Di? - perguntava Pedro na festa, depois da cerimônia.

O que eu ia responder se ao menos sei o que sinto por ele. Será que é paixão suficiente para durar tantos anos? Ou será amor que vai se eternizar e um dia seremos nós? Mas eu quero que seja nós? Quero que seja com ele?


- Calma, apressadinho! Tudo no seu tempo - saí pela culatra.

- Você sempre desliza, né? Mas eu ainda te pego viu? - Pedro me deu um selinho e foi socializar com os outros homens da festa. Resolvi então dar uma fugidinha para a mesa das luluzinhas.

- Parabéns pelos seus pais, Diana - dizia Lili - Chorei tanto na cerimônia. Acho lindo o amor verdadeiro sabe? Quando forem as minhas bodas com o Tavinho quero que seja assim.

- Não me faça rir, Lili. - ironizava Betina - O dia que você completar 25 dias sem terminar com o Luis Otávio já se sinta vitoriosa...

- Pode zoar, Betina, eu não ligo. Eu amo o Luis Otávio e ficaremos juntos sim - batia o pé a insistente da bela adormecida.

- E você sabe o que é amor, Lili?! - senti que o circo ia começar a pegar fogo - O que você sente pelo canalha do Otávio é qualquer coisa menos amor.

- E você sabe, por um acaso? Vive aí sozinha, mal amada... - irritou-se Lili

- Calma, meninas. Não é hora para lavar roupa suja né? - eu tentava amenizar.

- Oi, meninas, posso sentar aqui? - era Marisa que chegava na mesa.

- Senta'í, mana. As meninas estão aqui se atracando para descobrir quem já amou e quem não amou...a Betina ia começar a aulinha dela...

- Que ótimo. Estou mesmo precisando ouvir isso... Eu já nem sei mais o que eu sinto pelo Arnaldo. Ainda não superei a traição. - dizia Marisa se rendendo a um copo de cerveja servido pelo garçom.

- Então, sabichona, você já amou? - alfinetava Lili.

- Já amei sim. Amei e muito...

Betina começou a nos contar que seu ex-noivo foi o grande amor da vida dela. No melhor momento da história, fomos interrompidas por um convidado ilustre da festa. Meu coração parou ou acelerou ou sambou quando vi o Pierre chegando na festa.

- O que o Pierre tá fazendo aqui? - perguntei abismada.

- Calma, Diana. A mamãe não queria que eu te contasse, mas foi ela quem convidou ele.

- Como assim?! A mamãe não tinha o direito de convidar o Pierre sem me contar...ele não tem nada para fazer aqui... eu vou lá falar com ele!!

- Diana, segura a onda.

Dessa vez, ignorei o conselho da Betina e saí como um furacão em direção ao Pierre.

- Oi, Diana, tudo bem?

- O que você tá fazendo aqui?

- A sua mãe me convidou. Ela não te falou nada? Eu não queria vir, mas ela insistiu...

- Falou e disse. Não tinha que vir.

- Te incomodo?

É óbvio que você me incomoda. Que belo dia para ficar entre o ex e o atual. Eu não tava afim de bancar a Dona Flor logo naquela noite em que eu estava me questionando quem eu amei e por quem eu me apaixonei. Mas esqueci que o destino adora me pregar peças né? Antes que eu respondesse ao Pierre, o Pedro se aproximou de mim.


- Tudo bem por aqui, gata? - disse ele me abraçando por trás e marcando território - Oi, Pierre, tudo bem?

Para minha surpresa, os dois se cumprimentaram como dois velhos amigos. Marisa sentindo a temperatura tratou de levar o Pierre para cumprimentar os meus pais.

- Você sabia que o Pierre viria? - perguntei ao Pedro.

- Sabia sim. Sua mãe me consultou antes...

- Que ótimo! Eu fui a única trouxa que não sabia de nada né? E o que você disse para ela?

- Eu disse que tudo bem. O Pierre não me incomoda. Afinal, sou eu que estou com o tesouro...

- Tô falando sério, Pedro. Fez muito mal. - eu disse soltando fogo pelas ventas e me desvencilhando do abraço do Pedro.

- Eu também estou falando sério. O Pierre não me incomoda, mas acho que ele incomoda você. E muito.

Pedro virou as costas e me deixou no vácuo pensativa com as suas frases de efeito. Odeio quando ele faz isso. E ele sempre faz isso. Insinua e deixa uma indireta no ar. Espumante. Só um espumante e uma chacoalhada na pista me fariam desestressar. Porém, nem 3 taças de espumante me fizeram relaxar. Eu estava muito, mas muito, muito puta mesmo e eu não podia falar nada para minha mãe. Afinal, a noite era dela e eu não tinha o direito de estragar tudo. Mas depois da lua de mel de bodas ela vai me ouvir. Oh se vai!!! Resolvi voltar para a mesa das meninas e me surpreendi ao ver o Pierre sentado na mesa delas.

- Senta'í, Diana. - dizia Betina com olhar de quem me diz 'segura sua onda e não desce do salto, nega'.

Eu não segurei a onda, desci do salto, mas sentei na mesa.

- Viram o Pedro por aí? - perguntei tentando disfarçar a minha vontade de expulsar o Pierre da festa.

- Acho que ele foi buscar mais bebida com o seu irmão... - dizia Betina.

- E aí, Pierre, quando nasce o filhão? - perguntou a sem-noção da Lili, loura burra, tocando no último assunto que eu queria tocar naquela mesa.

- Ah... é uma menina. Nasce daqui dois meses. - respondeu Pierre sem graça e não sei por quê olhando para mim.

- Menina? Que bacana! E qual vai ser o nome?


O que eu faço para a Lili calar a boca hein? Não é possível! Será que ela esqueceu que o Pierre fez o bebê enquanto ainda namorava comigo ?!


- Lili, para de ser curiosa... - recriminava Betina.

- Ai, gente...desculpe, Pierre, é que eu adoro crianças, sabe... - insistia Lili.

- Não, tudo bem. Dá uma licença, meninas, eu vou pegar uma cerveja ali... - Pierre saiu pela culatra, mas dessa vez eu nem liguei. Achei ótimo.

- Lili, eu vou dar um tapa na sua cara se você não calar essa boca... - eu dizia.

- Nossa, Diana, quanta ignorância. Eu não quis ofender. Afinal, você não tá com o Pedro? Não está superado?

- É, Diana, segura a onda ou , pelo menos, tenta né?

Será que todo mundo só sabe me dizer isso? Segura a onda? Espera um pouquinho. A festa é dos meus pais, o Pierre não é mais o meu namorado, ele vai ter um filho com a sirigaita que ele traçou quando estava comigo e eu não posso ficar puta? Tenho que segurar a onda? Me poupe né? Para não estragar ainda mais a festa das meninas, resolvi ir respirar no jardim do salão. Um pouco de ar puro podia me ajudar a resolver, mas o problema só estava começando.


- Até que enfim eu te achei hein...te procurei o salão todo. Tá fazendo o quê aqui sozinha? - era o Pedro.

- Só vim respirar um pouco. Tá muito quente lá dentro. - disfarcei. Eu não queria que o Pedro percebesse o quanto eu estava incomodada com o Pierre, mas ele percebeu.

- É o Pierre né? Eu sei. Desde que ele chegou na festa você está assim. Eu sei que ele te incomoda ainda.

- Não, não é isso. Já até esqueci que o Pierre está na festa. - mentira! Era impossível esquecer.

- Não precisa mais mentir para mim, Diana. Tudo bem. Você está certa. Acho que talvez você precise de um tempo mesmo...

Que papo estranho é esse?

- ... tenho pensado muito nisso. Eu te pressionei. Nem te dei tempo para esquecer o Pierre e já fui entrando na sua vida. Acho que você tem direito a esse tempo. Não é justo eu te pressionar assim...

Onde você quer chegar com esse papo, Pedro?

- ... acho que é melhor a gente dar um tempo.

- O quê? - infartei. Isso era tudo que eu não queria ouvir naquele momento. - Você tá brincando, né, Pedro?

- Não. Eu não estou brincando. Estou falando isso numa boa. Pense um pouco. Eu vou te esperar. Sempre. - dizia ele pegando nas minhas mãos.

- Não, não, Pedro. Você entendeu tudo errado. - eu suplicava desesperada. - Não é isso. Ai, meu Deus , por que eu sempre complico as coisas?! Não me deixa sozinha. - nesse momento, as lágrimas já caíam dos meus olhos.

- Vai te fazer bem, Diana. Você precisa desse tempo. Você ainda gosta do Pierre, eu sei.

- Não, NÃO!!! - acho que gritei. - Eu não gosto mais dele.

- Tá, tá... você pode até não gostar mais dele, mas de mim você ainda não gosta...

- Pedro, o que deu em você? Que papo é esse? Eu estou com você porque eu quero estar. Eu escolhi você. - eu disse abraçando ele.

- Diana, você não teve escolha. Eu fui o primeiro ombro que te ofereceram para chorar... eu te amo, você sabe disso. Mas eu não quero ser a sua muleta e também não acho justo te forçar a ter um sentimento por mim que talvez você não tenha ainda. Isso não é culpa sua. Eu não estou bravo com você... para de chorar... - ele levantava meu rosto já melado de tanta lágrima e borrado de maquiagem.

- Sai daqui, Pedro. Vai embora. Pode ir. Me deixa sozinha... - fiquei puta de tanto inconformismo. Por que os homens tem o dom de complicar quando tudo já está tão complicado?

- Não vou te deixar aqui assim. Eu te levo para casa.

- Me solta. Sai daqui. Chama a Betina - eu dizia feito um bebê chorão.

Pedro me deu um beijo na testa. Acho que sussurrrou algo como 'mande notícias ou acho que foi vou te esperar ou vai ficar tudo bem, sei lá'. Só sei que quando fui resgatada pela Betina, eu estava enterrada entre as plantas do jardim, chorando como um bebê.

- Me tira daqui. Me leva para casa. - eu sussurrei.

- Vamos. Eu levo você. Vai ficar tudo bem. - Betina me abraçou e depois saímos sem ninguém ver.

Será que vai ficar tudo bem mesmo? Mais uma vez, a vida foi uma comediante comigo. Nada mais do que tragicomédia do que me questionar sobre os meus sentimentos no dia das bodas de prata dos meus pais, sendo surpreendida pelo meu ex namorado e recriminada por todos porque não queria que aquele filho da puta traidor que eu tanto...tanto...amo, eu acho, estivesse naquela festa. Daí, termino perdendo o meu chão, o meu protetor, o meu amigo amado que me faz tanto bem, mas que não sei se amo, se admiro ou se realmente me apoio apenas. Ai, meu Deus, será que vai ficar tudo bem?


... Continua


PAPO DE CALCINHA: Você já amou alguém? Para você, qual a diferença entre AMOR E PAIXÃO?

terça-feira, janeiro 17, 2012

VALE NIGHT



Por Letícia Vidica

- Oi, Di, tudo bem? Como foi seu dia?

- Oi, Pê, nossa que animação!!! O que aconteceu? - fui logo estanhando a ligação dele quase onze horas da noite daquela sexta-feira. Alguma coisa ele queria. Bem conheço os homens!!

- Você vai ficar chateada se eu não for para São Paulo esse final de semana? – dizia ele como uma criança que faz manha para a mãe perguntando se ela não ficaria chateada se ele faltasse à escola no dia da prova de matemática.

Eu sabia que vinha bomba. Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Ficar chateada? Eu? Magina... só porque eu saí do trabalho depois de uma reunião fudida, passei no supermercado e usei o limite do limite do meu cartão de crédito comprando quitutes e gostosuras para o nosso final de semana, mas você só me avisou que não vem agora??? Chateada? Bobagem!!! *+#@#$

- É que vai ser a despedida do Rafa... lembra do Rafa?


Não, eu não sei quem é o Rafa, tenho raiva de quem conhece o Rafa e agora eu já odeio o Rafa!!!


- Diana? Diana? Tá na linha? - eu tinha paralisado para digerir melhor - Então, ele vai para Londres e o pessoal vai sair. Só os homens. Tipo clube do Bolinha, sabe? – é aí que mora o perigo. - Faz tanto tempo que eu não saio com eles... tem algum problema?

- Problema? Não. Nenhum. Que isso...vai lá. Aproveite. - incrível como nós, mulheres, temos esse terrível dom da ironia. Por que, na hora da fúria, a gente só consegue dizer mensagens motivacionais positivas???!!!

- Aproveita e sai com as meninas também. Vou te dar uma folguinha... – nossa, muito obrigada pela sua gratidão e pelo prêmio de consolação.

- Ah é... a Betina tinha até me ligado me chamando para sair. Acho que vou aceitar.

Mentira, claro!!! Eu não tinha nenhuma proposta para sair, mas como os meus planos foram por água abaixo, tive que apelar para uma mentirinha. Claro que desliguei o telefone putíssima e joguei todas as sacolas do supermercado em cima da mesa enfurecida. A vida é mesmo engraçada né? Outro dia, eu reclamava porque ia ter mais um final de semana sozinha e agora estou reclamando que vou ter um final de semana sozinha?!

***

- Oi, divas!!! Nem tô acreditando que a gente vai sair juntas... que saudades!! Trouxe até uma bebidinha para um esquenta... - essa empolgada era a Lili que chegava em casa animadíssima para a balada.

- Oi, Lili!!! Gente, tem certeza que querem sair? Tá me batando um soninho... Acho que tô meio enferrujada. - eram 23 horas de sábado e eu queria mais era a minha cama.

- Pode jogar essa preguiça para lá e vamos cair na night. Consegui aquelas entradinhas vips na balada do meu amigo e com direito a camarote hein? - dizia Lili.

- Diana, dá para mudar essa cara? E vê se para de pensar no Pedro...

- Quem disse que eu tô pensando no Pedro, Betina?! - tentei disfarçar.

- E precisa dizer?! Aproveita o seu vale night!!!

****

Depois da saga do estacionamento, da fila enorme e de aguentar as cantadas e assovios dos caras para gente, entramos na tal balada. O lugar era lindo, a música era ótima, tinha uns caras lindos, mas eu me sentia um peixe fora d'água. Só pensava no Pedro, onde estaria o Pedro, no que o Pedro estaria fazendo...eu trocaria tudo aquilo para estar em casa com o Pedro vendo filme e comendo pipoca.

- Poxa, o Pedro nem me ligou hoje. - eu desabafava e conferia mais uma vez a minha caixa de mensagens.

- Dá para esquecer o Pedro essa noite, gata? Ele deve estar curtindo com os amigos...curte também. Vou pegar uma bebidinha para gente... - disse Lili.

- Diana, relaxa!!! O Pedro sabe o que faz...

- Ai, Bê, eu não consigo me desligar. É estranho. Eu adorava uma baladinha, mas agora daria tudo para ficar com ele. Aposto que ele está em algum baile funk dançando com alguma mulher fruta...

- Diana, não pira!! Aproveita a noite. Afinal não é sempre que você tem uma folguinha né?

A Betina estava certa. Duvido que o Pedro esteja pensando em mim agora. Então não vou pensar nele. Resolvi então curtir a noite. E para relaxar um saquêzinho sempre vai bem. Acho que depois de 1, 2, 3...eu relaxei. Caímos na pista para dançar.

- Uhuuuuu!!!! É isso aí!!! - gritava Lili despirocada. Já tinha até esquecido que a minha amiga costumava ser escandalosa na balada e, principalmente, quando bebe. - Diiiiiiiiii... olha quem chegou... o gato do Murilo.

Lili me puxou pela mão e me arrastou até o gato do Murilo. O gato do Murilo é amigo do Luis Otávio. Sempre paguei um pau para ele, mas ele nunca me deu bola.

- Oi, MUUUUUUU - gritava Lili trêbada.

- Oi, Lili, doçura... tá fazendo o quê perdida aqui?

- A Diana tá alforriada essa noite... estamos aproveitando. Eu já venho... – saiu correndo, para variar. Por que a Lili adora correr na balada?

Ela me deixou com cara de pamonha com o gato do Murilo. Engraçado que nem achei ele tão gato assim?

- Tá sozinha?

- Ahn? Não, tô namorando... - eu gritava no ouvido dele tentando me comunicar, mas o som impedia.

- Não. Aqui?

- O quê? Não tô ouvindo...

Murilo pegou nas minhas mãos e saiu me arrastando até o fumódromo, onde era possível conversar sem gritar.

- A Lili não muda mesmo né? A mesma piradinha de sempre. E você? Tá namorando então? - perguntou Murilo com olhar 43. – Continua com o Zé Mané do Pierre?

- Não. – ri – A fila anda né.

- Poxa, já tem outro? Nem deixou me candidatar, gata? E cadê ele?

- Saiu com os amigos hoje.

- E deixou a gatinha sozinha? Se fosse minha namorada, eu não deixava assim dando bobeira não. Se precisar de companhia, estamos aí hein... – dizia ele me dando um abraço cheio de intenções.

Engraçado como eu desejei que o Murilo fosse a minha companhia algumas noites mas, naquele momento, eu queria mais que ele sumisse da minha frente. Não tinha reparado que ele era grudento, chato e tinha xaveco barato?!

- Oi, Diana, achei que tinha ido embora!!!

Graças a Deus, Betina apareceu (como sempre) para me salvar. Inventei que ia ao banheiro e desbaratinei o Don Juan de quinta.

- Rolou algo com o Murilo?

- Que nada. O cara é um babaca. E pensar que eu quis um dia ficar com ele...

- Olha, o Pedro te laçou mesmo hein?

- Ai, Bê...sei lá...mas eu não tô vendo a menor graça nessa balada... e o pior é que eu tô aqui quase infartando querendo saber onde ele está e nem um sinal de fogo... ele não me ligou o dia todo... será que ele arrumou alguma funkeira e esqueceu de mim?

- Diana, hello! Menos ok? É só um final de semana e é muito saudável esses momentos livres sabia? Tô começando a achar que você já não se diverte mais com suas amigas né?

- Não é isso, Betina...

Ou era? O que estava acontecendo comigo? Eu tinha um final de semana todinho só para mim e para as minhas amigas, uma baladinha nova cheia de gatos e eu não consegui achar graça em nada?! Só posso estar doente.

****

- Gente, vocês não vão acreditar... – era Lili que tinha reaparecido – beijei um cara gatooooo...muito gatooooo!!!! E aí pegou o Murilo???

- Tá louca?

- Tá perdendo tempo isso sim. Ele é muito bom de cama.

- Como você sabe? – perguntei.

- Acha que eu nunca provei da fruta? – desabafava Lili.

- Lili, acho que tá na hora de ir para casa né? – era Betina que pressentia que Lili já estava azedando.

- Casa? Agora? Nunca. Eu quero mais é curtir.

Lili ameaçou ir para a pista, mas tropeçou e caiu como merda no chão. Era sempre assim. Ela bebia e quem pagava o mico de levá-la carregada para o carro éramos eu e Betina. E foi o que fizemos. Levamos Lili para o meu apartamento e ela desabou no sofá.

- Melhor agora? – perguntava Betina enquanto fumava na sacada.

- Desculpa, Bê, eu fui uma chata né? – eu disse abraçando Betina como quem abraça um bichinho de pelúcia.

- Tô acostumada com a sua chatice. – zombava ela.

- Ah sei lá. Estou mal acostumada. O Pedro tá sempre comigo e hoje foi estranho essa tal liberdade que ele me deu.

- Posso saber o que estão fofocando? – era Lili que tinha acordado e apareceu na sacada.

- Passou o efeito da cachaça? –perguntava Betina.

- Tô pronta pra outra... E aí, Di, beijou o Murilo?

- Ah Lili, o cara é um babaca. E pensar que eu quis ficar com ele um dia? Xavequeiro falso. Além do mais, não tô afim de pegar baba sua...

- Ah mas de boca fechada ele manda bem ... – desabafava Lili.

Caímos na gargalhada e mal percebemos o dia clarear. Ficamos jogando conversa fora e colocando o papo em dia. Nem me lembrei do Pedro naquele momento e percebi o quanto é bom ter essas folguinhas com minhas amigas. Adormecemos sem perceber. Betina capotou na cadeira da sacada. A Lili se jogou no sofá e eu acordei com o celular vibrando e percebi que estava no tapete.

Quando olhei o visor percebi que era uma mensagem do Pedro me desejando bom dia e dizendo que estava com saudades. Fiquei olhando para a mensagem por alguns minutos, mas resolvi não responder. Afinal, o meu vale night ainda não tinha acabado e eu estava adorando a companhia das minhas amigas na minha alforria. Já que não aproveitei a noite, nada mal aproveitar o ‘vale dia’ né?

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ É A FAVOR OU CONTRA AO 'VALE NIGHT'? COSTUMA DAR UM 'VALE NIGHT' PARA SEU(A) NAMORADO(A)?

segunda-feira, janeiro 09, 2012

MULHERES PODEROSAS, HOMENS MEDROSOS


POR LETÍCIA VIDICA

- Amoreco, pode avisar o Cristo Redentor que amanhã eu tô descendo na Cidade Maravilhosa ... - eu dizia para Pedro, ao telefone, enquanto decidia o que levar na mala.

- Que bom, Diana!! Mas o que aconteceu? - Pedro se assustou com a minha empolgação e com a minha decisão repentina de ir para o Rio.

- Tenho uma surpresa muito boa para você, mas tenho que te contar pessoalmente.

- Poxa, que bacana!!! Eu também tenho que te falar uma coisa... - disse ele numa empolgação congelante, mas eu como eu borbulhava de euforia nem me toquei disso tão rápido. Apenas desliguei (nem sei se me despedi). Só sei que eu ainda tinha que terminar a mala para poder cumprir a minha promessa de pegar a primeira ponte aérea.

O motivo de tanta empolgação era que, finalmente, depois de 3 anos de muito trabalho e dedicação lá na agência, eu fui reconhecida. Finalmente, tive a minha grande oportunidade. A história foi a seguinte. A agência tinha conseguido uma conta de uma grande indústria de bebidas nacional e assumiu desenvolver toda a campanha da empresa e adivinha quem foi chamada para gerenciar essa conta e liderar a equipe??? Isso mesmo. Euzinha!!! Acho que meu coração parou e eu tive um infarte quando fui chamada pelo meu chefe na sala dele e recebi a notícia. Agora o que eu mais queria era ir correndo para o Rio dividir a minha alegria com o Pedro. Será que agora posso dizer, enfim, que sou uma mulher independente, dona do meu próprio nariz e de sucesso?

***

- Tava falando com quem, amore??? - eu disse em tom dócil ao sair do banho e flagrar Pedro finalizando um telefonema.

- Acabei de pedir uma pizza.

- Pizza?! Mas Pedro a gente não combinou de ir jantar naquele restaurante no Morro da Urca? - questionei abismada com o descaso dele.

- É, Di...mas achei melhor algo caseiro, aqui em casa... eu e você... e aquele restaurante é tão caro né...

- Mas eu já reservei e se o problema é grana, relaxa. Eu pago. Já te falei isso não é?

- É, mas...

- Mas nada. Sem discussão e ponto final. E vai tomar banho logo que a gente vai se atrasar.


Por que os homens insistem nessa idéia idiota de que não podem aceitar que a mulher pague a conta? Oras!!! Somos namorados. Qual o problema de eu pagar?
Porém, o problema ainda estava por vir, mas a noite estava apenas começando e achei que aquilo tinha sido apenas mais uma crise machista boba.

****

- E aí gostou do lugar? - perguntei empolgadíssima quando chegamos ao restaurante.

- É, bem bacana né? Caro também né... - insistia Pedro no discurso machista.

- Pê, não vamos mais falar disso ok?

Enquanto saboreávamos o nosso delicioso e caríssimo (mas bem pago jantar), desandei a falar. Poxa, aquela era minha noite, o meu momento...eu tinha que celebrar né?

- ... nossa, eu desacreditei quando o Rossini me deu a promoção. Mas era em tempo né? Finalmente me reconheceram.... poxa e atender esse cliente vai ser um grande desafio...mas pela grana que vão me pagar eu falo qualquer coisa...esse dinheirinho será a solução dos meus problemas... tudo bem que eu vou trabalhar igual um jegue e não vai ser nada fácil criar essa campanha...esses caras sempre foram tão quadrados e agora querem ficar moderninhos... sem contar que eu vou virar chefe, Pê! Chefe, eu? Eu não mando nem em mim...mas eu acho que vou dar conta do recado não vou?... Ai, amor, tô tão feliz...Pedro, Pedro, tá me ouvindo? .. Ah começo segunda... hora para entrar e sem hora para sair né...mas vai dar certo... ah, nossa, desculpe, tô aqui falando feito uma matraca e nem deixei você falar... o que você queria me contar mesmo?

- Eu? Eu?

- É. Você me disse no telefone que tinha algo para me contar não foi?

- Bobagem, Di. A noite é sua hoje. Deixa para lá.

Realmente a noite era minha. Por isso, nem me importei muito com o que ele tinha a me dizer. Tratei logo de ir para a parte dois da minha noite. Eu merecia uma hidro e um espelho no teto à minha altura né? Mesmo sob a recriminação do Pedro de que estava gastando demais e que a gente podia ir para casa, seguimos para a segunda parte.

**

Depois de enfrentaruma verdadeira maratona para colocar a cinta-liga, saí do banheiro para o quarto me sentindo uma leoa poderosa-chefe do bando, mas encontrei o meu Rei Leão parecendo um aprendiz de leãozinho. Apesar das minhas tentativas para acender aquela juba com a conta-liga vermelha, tudo foi em vão. Brochei, ou melhor, brochamos na hora.

- O que tá acontecendo, Pedro? - desisti e resolvi bancar a terapeuta.

- Desculpe, Diana. Eu não queria estragar a sua noite.

Tarde demais. Já estragou. Agora vamos desembuchar?

- O clima tá meio complicado lá na empresa. - dizia ele andando de um lado a outro do quarto e coçando a cabeça. Já tava me deixando tonta. - Pediram falência semana passada, mas o nosso principal concorrente resolveu comprar.

E qual é o motivo para tanto estresse? Não vão vender a empresa não é mesmo? Não tô entendendo a TPM. Anda logo que ainda podemos aproveitar as 2 horas e meia que nos falta.

- Tô com medo. Acho que vou ser mandado embora. Os caras, com certeza, vão trazer gente deles. Não vão querer manter o pessoal de lá...

- Pedro, para. Olha para mim. - eu dizia brecando aquela barata tonta - Calma. Não sofra por antecedência. Você nem sabe o que vai acontecer e já tá concluindo o fim da novela?

Sei que esse discurso não é muito Diana, mas poxa 'por que os homens encucam tanto às vezes?'. E agora só porque você acha que pode ser mandando embora então você não consegue colocar a pipa para voar? Queria ver se você fosse mulher. Teria descoberto que engordou 5 kilos pela manhã, receberia a notícia da possível demissão à tarde, ganharia de brinde uma TPM fudida transformada em hemorragia no banco do seu carro, ia sofrer de ansiedade, mas ia sair para jantar com seu homem na miior classe e transaria a melhor foda da sua vida naquela noite. Entendeu, garotos? Tá explicado porque somos mil e uma utilidades né? Agora não me venham com chorinho.


Preciso dizer que voltei meio putinha para São Paulo? Tudo o que eu queria era o meu namorado celebrando a minha vitória, mas acabei tendo que aturar crise masculina? Mas tudo bem. Eu só conseguia pensar no meu primeiro dia como chefe.

***

Apesar de toda a minha empolgação com a nova função, a minha vida deu um giro 1360 graus. O que parecia um castelo, na verdade, era uma bucha grande. Tive que pegar a minha espada e enfrentar alguns dragões: cobrança acirradas, prazos apertados, cliente que não sabe o que quer, uma equipe para liderar, um respeito para impor, um lugar para ocupar, home office... mas era o meu momento. E eu acabei abrindo mão de algumas coisas. Uma delas foi a minha casa que virou um chiqueiro. Eu não tinha mais tempo para me dedicar à limpeza de casa, aos choppinhos de sexta-feira, era trabalho e trabalho.

- Ai, mãe, você é uma santa!!! - eu disse à minha querida mãezinha que estava dando uma força na organização de casa porque, justo agora, a minha empregada tinha resolvido voltar para Alagoas.

- Vai tomar um banho. Tem comida pronta. - dizia ela me dando um beijo e vendo o caco que eu estava chegando às 23h30 de uma quarta-feira depois de ter entrado às 06h30!!!

- Acho que eu não vou aguentar, mãe... eu quase surtei hoje!!! - eu me derramei no colo de mamãe.

- Pode ir pro banho que amanhã tem mais. Acha que ser chefe é fácil? Ah, o Pedro ligou o dia todo hoje...


Nossa, o Pedro!!!! Meu Deus, eu tinha me esquecido dele. Na verdade, não me esqueci, mas eu tava tão louca com o trabalho que o meu tempo tinha ficado reduzido. Ah depois eu ligo para ele...


,,, o sono e o cansaço não me permitiram ligar para ele, claro!!! No dia seguinte, acordei cedo e fui encarar uma reunião daquelas com o meu cliente.

***

- Pedro? Tá fazendo o quê aqui? - assustei-me ao abrir o meu apartamento e encontrar o Pedro no sofá de casa.

- Eu marquei um horário na sua agenda. A sua secretária não te avisou?

Hello! Que declaração foi essa? É uma piada ou ... prefiro acreditar que é uma piada.

- Não fica bravo comigo... eu tô trabalhando demais... - eu fazia charminho para amolecê-lo.

- Já sei, já sei... tá trabalhando demais, não tem vida própria... mas tudo bem. Fiz uma sopinha para você. Vai tomar um banho. Eu te espero.

O Pedro é um principe né? Mas me assustei ao ver as malas do príncipe no meu quarto que não pareciam ser para apenas uns 2 dias.

- Vai viajar, Pedro? - perguntei enquanto tomávamos o caldinho.

- Tô de férias.

- Férias? Ué, mas você não me falou nada... - assustei.

- É, nem eu sabia. Fui avisado ontem e saí de férias hoje. Férias coletivas forçadas. Estou á beira da demissão. A nova gerência assumiu e deu férias para algumas pessoas. Tenho certeza de que quando voltar vou direto para o RH.

- Poxa, Pedro, não fica assim. Aproveita para descansar. Curte o seu momento.

- Curtir o quê, Diana?! Fácil para você que tá com a vida resolvida né?

Mais uma piada? Mas tá perdendo a graça hein?

- Posso ficar aqui por uns dias?

Ficar aqui? Agora? Não tive escolha. Tive que aceitar né?

***

O problema foi que as férias forçadas do Pedro se tornaram um problema a mais na minha vida. Acho que ele achava que eu estava brincando de trabalhar. Me ligava nas horas mais inoportunas, entrou em crise paranóica profissional e achava que eu era obrigada a entender. Poxa, vamos se mexer?

- Dona Diana, o Pedro ligou e pediu para a senhora retornar.

- Meu Deus, é a quinquagésima vez que ele me liga hoje!!! Eu tenho que ir até o cliente agora... eu falo com ele depois. - saí bufando e enlouquecida porque eu já estava atrasada para a minha reunião.

***

Cheguei em casa querendo apenas paz, um banho e uma cama quente. Mas encontrei um cão de guarda na sala querendo guerra, tirar a sujeira do tapete e não tava nem um pouco a fim de esquentar a minha cama.

- Já ia acionar o FBI. Não recebeu os meus recados? Acho que tem que mudar de secretária hein... - ele disse ironicamente.

- Pedro, eu tô aqui não estou?! - minha alma respondeu por mim porque eu tava um caco - Eu vou tomar um banho.

- Eu preciso falar com você, Diana. Pode me ouvir? – brecou-me aquela voz autoritária que em nada lembrava o meu dócil e amado Pedro.

- Fala, Pedro. Fala. – me rendi.

- Liguei lá na empresa e confirmei o que eu suspeitava. Estou na lista de corte. E agora, o que eu faço? – surtava o mais novo desempregado brasileiro.

- Bola pra frente. Vai arrumar outro emprego e pronto. Você já não esperava por esse final? Por que a surpresa?! - sei que fui um pouco cruel, mas a minha paciência zero só conseguia ser realista.

- Legal hein? Eu aqui na rua da amargura. Sem emprego. Correndo o risco de ter que voltar para São Paulo para casa dos meus pais a essa altura e você fala isso?

- O QUÊ MAIS VOCÊ QUER QUE EU FALE???? - me exaltei

- Achei que podia contar com a minha namorada, mas agora que você virou chefe acho que não se importa com mais nada né? – eu sabia que vinha chumbo grosso.

- Pedro, não adianta bancar a vítima. Se mexe, pô. E por que você se incomoda tanto com a minha promoção? Eu também achei que podia contar com você. Achei que você era diferente, mas você é igual a todos os homens. Mesquinho e só pensa no seu umbigo. Alguma vez você já perguntou como eu me sinto? Como estão os meus desafios? Se a campanha vai dar certo? Não. Você só quer me cobrar, cobrar e cobrar. Se não tá feliz pode pegar aquelas malinhas lá do quarto e ir chorar as pitangas na casa da sua mãe. Por que é lá que você vai ficar.

Saí batendo as tamancas para o banheiro. Eu estava puta com a falta de sensatez do Pedro. Confesso que se tivesse sido com o Pierre, eu não teria me magoado tanto, mas não esperava aquilo do Pedro. Assim como não esperava que, quando eu saísse do banho, ele realmente tivesse ido para a casa da mãe dele.

***

- Diana, o problema é que a sua carreira tá muito melhor que a dele... - era Betina me trazendo à realidade. - Os homens, hoje em dia, não se conformam que nós, mulheres, estamos chegando lá e que, em alguns casos, estamos mais à frente deles. Eles continuam com o machismo enraizado.

A Betina estava certa. A luta do novo século, mulheres, é fazer os homens se conformarem com a nossa igualdade e liberdade profissional. Qual é o problema?

Confesso que fiquei engasgada com tudo aquilo e chateada também, mas eu tinha que seguir em frente. O meu cliente, a minha equipe e a minha campanha não tinham nada a ver com o machismo do Pedro. Machismo este que ele tentou engolir e foi me procurar.

- Você tá certa, Diana.

- Eu sempre estou. - orgulhei-me.

- Me desculpe. Eu fui um tolo. Só me importei comigo.

- E... – tá achando que vai me ganhar com pouco?

- Eu tenho mesmo que seguir em frente...não vou ficar chorando as pitangas. E tenho uma boa notícia para te dar...

- Qual? – perguntei sem interesse algum.

- Um grande amigo meu tá abrindo um negócio no Rio e me chamou para ser sócio... É a minha oportunidade. Realmente há males que vem para o bem...

- Parabéns! – disse sem a mínima empolgação. Afinal, quando foi comigo o que eu recebi?

- E para celebrar a minha sociedade, para te pedir perdão e para celebrar com todas as honras a sua guinada profissional... eu reservei um lugar para gente no terraço daquele restaurante.

- Qual? Aquele que a gente vê toda a cidade? – disse empolgadíssima com a idéia.

- Acho que ainda é pouco para você. Mas como o que você merece está muito além...é aquele mesmo. Se importa?

-- Você é um anjo.

Claro que não foi apenas o restaurante mega caro e que eu tanto queria ir que amoleceu meu coração. Resolvi baixar a guarda já que o Pedro se ligou e baixou a dele. Porém, sei muito bem que esse caroço da mulher que manda ele ainda não engoliu, mas aos poucos eu ajudo ele a engolir. Agora eu quero é mais!!! Fui...


PAPO DE CALCINHA: MENINAS, VOCÊS JÁ PASSARAM POR ISSO? ACHAM QUE OS HOMENS TEM MEDO DE MULHERES QUE MANDAM, PODEROSAS OU FINANCEIRAMENTE MAIS EVOLUÍDA QUE ELES?
MENINOS, E AÍ?

sexta-feira, dezembro 16, 2011

REUNIÃO DE FAMÍLIA



Por Letícia Vidica


- Nossa, quem morreu? – perguntou Pedro ao ver a minha cara de desânimo ao desligar de uma ligação com a minha mãe.

- Minha mãe chamou a gente para almoçar na casa dela amanhã.

- E precisa ficar com essa cara de velório?

- Não ficaria se minha mãe não tivesse arrumado um pretexto para chamar toda a família para conhecer o novo namorado da Diana!!! – bufei.

- Ótimo!!! Vou adorar conhecer a sua família toda... acho até que vou dar uma ligadinha pro sogrão para saber se ele quer uma ajudinha na churrasqueira... posso fazer aquela minha caipiroska. Minha especialidade!!!

Enquanto o Pedro delirava planejando o churrasco na casa dos sogrinhos, eu tentava me acostumar com a idéia de que aquele almoço era uma espécie de celebração ao meu desencalhe. Tudo que eu menos queria. Tudo que eu sempre implorei para que minha mãe não fizesse, mas ela nunca me ouve mesmo né? Agora bastava me vestir de paciência e agüentar o mico.

***

- Diana, anda logo!!!! – gritava Pedro do hall do meu apartamento segurando o elevador.

- Tem certeza que quer ir? Eu posso ligar e dar uma desculpa qualquer... eles vão entender... eu nunca fui muito fã desses almoços mesmo... – joguei meu último apelo.

- Vou com ou sem você. – dizia Pedro, que estava irredutível, e animado como uma criança que vai pela primeira vez ao parque andar de bicicletas. – Estou começando a achar que você tá com vergonha de me apresentar para a sua família...

- Não é nada disso, Pedro, é que...

- Sua família não conheceu o Pierre também?!

- Mais ou menos... o Pi... o Pierre também não curtia muito isso sabe?

- Aí está a diferença entre eu e ele. E eu não sou o Pierre e como os opostos se atraem...entre no carro que estamos atrasados... – dizia Pedro segurando a porta e um
saco de carvão e colocando um ponto final naquela conversa.

Preferi finalizar também. Não queria ter que chegar em pé de guerra na casa da minha mãe e como ele já tinha colocado o Pierre (como sempre) no meio da conversa, preferi levantar a bandeira da paz.

***

Mal reconheci a casa da minha mãe quando cheguei porque ‘chovia gente pelo ladrão’. Um bando de carros estacionados na rua. A fumaça do churrasco correndo solta pelo céu. Uma creche brincando e gritando na garagem de casa. De onde surgiram todas essas gracinhas? Em que século eu parei que todo mundo procriou? Quase fui derrubada pelos meus sobrinhos lindos que pularam no meu colo em disparada ao me ver. Os pestinhas paralisaram ao ver o Pedro, como quem vê um extraterrestre. Devem ter pensado algo como ‘nossa, mas ele era diferente da última vez.’ E, como são muito novos para entender algumas coisas, preferiram sair correndo (por que as crianças correm tanto?) e continuar brincando numa espécie de MMA.

- Diana, até que enfim, né? O povo já tá verde de fome... – essa era a minha mãe querida, como sempre, me cobrando. – Oi, Pedro, tudo bem, meu filho? – dizia ela dando beijinhos e abraços nele.

- Oi, minha filha, tudo bem? E aí, Pedrão? – esse era meu pai. – Poxa, não precisava se incomodar com nada, mas já que trouxe... – dizia ele pegando o carvão.

- Ahá... agora eu já sei porque demorou tanto para você apresentar seu novo namorado, Diana. Mas ele é um pedaço de mau caminho. Com todo respeito, meu filho, prazer, Doralice. Tia Dora. – apresentava-se a desbocada da irmã do meu pai.

Pedro cumprimentou a tia piriguete educadamente e depois perdeu-se junto ao meu pai
naquele mundaréu de gente.

- Mãe, mas não era apenas uma reuniãozinha com os tios e as tias? Tem gente aqui que eu nem lembro a cara... – eu cochichava para minha mãe na cozinha.

- Ah, filha, sabe aqueles meus primos do interior? Então, fazia tanto que eles não
vinham para cá e acabei chamando também... É tão bom reunir a família né?

Eu até podia ter dado uma resposta atravessada para minha mãe, mas nada paga o preço de vê-la tão feliz. E a santa da minha irmã , Marisa, recriminou meus pensamentos com os olhos e me acalmou com seu sorriso. Para relaxar, então, peguei uma cerveja para entrar no clima e fui em busca do meu príncipe, que estava perdido na festa.

- Sempre rapidinha, né, dona Diana. Já trocou de namorado? Essa juventude hoje em dia
troca de namorado como troca de roupas... Tudo bem com você?

A minha vontade era mandar a chata da tia Sonia, que adora se meter onde não é chamada para um lugar impronunciável, mas o meu respeito pelos mais velhos me impediu disso. Apenas sorri e resolvi não perder tempo em responder a ela que a vida era minha e que talvez não seja à toa que ela é uma solteirona convicta mal amada e sem filhos.

- Já te pegaram para Cristo, Pê? – me surpreendi ao ver Pedro de avental, dominando a churrasqueira e liderando a conversa com a homarada no fundo do quintal. Bem diferente do Pierre. Com o Pedro não tinha tempo ruim. Confesso que fiquei paralisada com aquela cena por alguns segundos e ainda me apaixonei ainda mais por ele.

- Tava falando pro cunhadão aqui que ele é um santo por aturar você hein? – esse era o meu irmão, Paco, que já me irritava para não perder o costume.

- Ele tem que levantar as mãos aos céus por eu ter dado uma oportunidade para ele ... isso sim!!! – eu retrucava.

- Filha, vem aqui... quero te apresentar uma pessoa!!! – essa era minha mãe dando sinais de que a sessão tortura iria começar. Justo agora que eu tinha relaxado?

Comecei então uma via sacra pela minha casa sendo apresentada aos parentes do interior. Vesti um sorriso amarelo e cumprimentei a quinhentas mil pessoas que repetiam em coro: ‘Nossa, como você cresceu!”, ‘Mas que bonitona’, Nossa, te peguei no colo... troquei suas fraldas... to ficando velha... (ainda bem que ninguém disse que também tinha trocado meu absorvente), Parabéns pelo namorado, Vai casar quando?
Ainda não desistiu da idéia maluca de morar sozinha? Hipnotizada por todas aquelas declarações, só tive uma certeza: nenhuma daquelas pessoas fará parte da minha lista de convidados para o meu casamento (se eu casar um dia).

- Satisfeita agora, mãe? - era a minha paciência que dava sinais de que tinha chegado ao limite.

- Será que você não pode mudar essa cara, não, Diana? São seus parentes, poxa!!!

- Eu sei. Mas a senhora tá fazendo do meu namoro um carnaval... Eu mal comecei a namorar com o Pedro, mal sei se vai dar certo... não precisava disso. – eu ralhava com minha mãe, como de costume.

- Tá tudo bem por aqui? – era Pedro que nos flagrava discutindo no corredor da sala.

– Querem uma carninha? – ele perguntava tentando desbaratinar e quebrar o gelo. Será que ele ouviu algo? Só sei que ele virou as costas e saiu. Minha mãe me lançou um daqueles olhares diabólicos dela e saiu bufando.

Pronto. Agora eu era de vez a ovelha negra da família. De saco cheio, resolvi sentar na sala para respirar um pouco.

- Primota.. até que enfim te achei!!! – era a Sheila, minha prima favorita. A Sheila era a ovelhinha número 2 da família também. Ela tinha voltado recentemente de uma temporada em Londres e me entendia muito bem.

- Tá fazendo o quê refugiada aqui?

- Ah, nem me fala... não viu o que a sua tia me aprontou? Armou todo esse circo para apresentar o Pedro para família... ela sabe que eu odeio isso...

- Não tem jeito mesmo, né? Eu bem vi o seu bonitão lá na churrasqueira... Mas e o Pierre? Já era? Da última vez que nos falamos, eu ainda estava em Londres e você tava com ele né?

- Uma longa e complicada história, prima. Temos que marcar um cervejinha para eu te contar tudo. Mas me conta e você?

Felizmente, tive meus 15 minutos de paz, enquanto tricotava com a Sheila na sala e me atualizava sobre todas as mudanças na vida dela, mas fomos interrompidas pela minha irmã, Marisa.

- Di, tá todo mundo te procurando. A mamãe vai servir o almoço!!!

- Ah... tinha me esquecido... podem ir comendo sem mim...

- Diana, pega leve também né? – recriminava Marisa – Parece até que não conhece a
mamãe...

A Marisa estava certa. Eu bem conhecia a minha mãe e não deveria ter me espantado com tudo aquilo. Resolvi voltar para a festa. Todos já devoravam o almoço como cães famintos. Nem sei se iam sobrar migalhas para mim.

Olhando todo mundo comer senti falta do Pedro. Resolvi procurá-lo e o flagrei no maior papo com a Dani, a minha prima piriguete. A Dani, além de mais nova e de ser cinco vezes mais gostosa do que eu, tinha a fama de atacar o homem alheio. E não importava se esse homem era da família.

- Não vai comer, amor? – disse com voz doce me aproximando de Pedro para marcar território. – Oi, Dani, tudo bem?

- Ah, já vou. Fiquei beliscando aqui na churrasqueira. Você sumiu e a Dani ficou aqui me fazendo companhia.

- Obrigada, Dani. Eu estava falando com a Sheila, aquela minha prima de Londres... mas já estou aqui... E do que estavam falando? – perguntei curiosa.

- Bobagens. – disse Pedro (havia algo de ríspido e seco na sua voz. Será que ele tinha ficado chateado com o que ouviu na sala?)

- Imagina só, Diana... que infeliz coincidência... a gente tava aqui lembrando que foi com o Pedro que eu dei o meu primeiro beijo.
Para tudo que eu quero descer. Como é que é? Como assim o Pedro foi o cara que você beijou pela primeira vez?

- Ah é... eu não sabia... – eu disse fuzilando o Pedro.

- Coisa de criança, Diana. Deixa eu olhar a picanha que tá queimando. – saiu Pedro pela culatra.

- Bobeira, prima. Eu era uma criança. Lembra quando eu vinha dormir aqui na sua casa? – como eu não ia lembrar? Eu odiava quando você dormia aqui em casa porque destruía todas as minhas bonecas - Eu sempre gostei de brincar com os meninos da rua né – tinha me esquecido que desde pequena ela já tinha o dom – numa noite dessas , enquanto a gente brincava de esconde esconde, me escondi com o Pedro na rua de baixo e rolou um selinho.

- Aceitam picanha?

- Eu não quero nada, Pedro.

Inventei uma desculpa e sai batendo as tamancas. Tudo bem que tinham se passado 10 anos, mas agora o Pedro era o meu namorado!!!

- Diana, precisava daquela ceninha toda? – era Pedro que tinha vindo atrás de mim.

- Eu não fiz nada. Apenas sai.

- Como não? Deixou a sua prima com cara de tacho...

- E tá preocupado com ela por que? Tá afim de brincar de esconde esconde com ela? Vai
lá! – virei as costas e fui olhar o portão.

- Para de ser infantil. O que tá acontecendo com você? Desde que esse lance de almoço começou que você não facilita... daí me larga na festa e quando vejo está brigando com a sua mãe porque ela quis me apresentar a família. Algum problema quanto a isso?
Eu não sou bom o suficiente para ser apresentado a sua família? Ou será que é porque você não sabe se o nosso lance vai dar certo e já está pensando no fim e não quer ter que fazer outro almoço para explicar a nossa separação?

Nossa, o Pedro pegou pesado e eu me senti um rato.

- Não é nada disso, Pedro... – eu disse tentando abraçá-lo, mas ele estava irredutível.

- Que que tá pegando aí? – era Paco que nos flagrava soltando faíscas.

- Nada não. E aí vai rolar aquele sambinha? - desbaratinou Pedro.

Samba? Não bastava todo o carnaval?! Mas, para finalizar, o meu irmão que agora tinha virado pagodeiro chamou o grupo Chama Chuva dele para batucar no meu almoço de união-separação com o Pedro. E o meu atual-ex-namorado se enfiou na roda e preferiu dar boas palmadas no pandeiro para se acalmar. Acho até que ele imaginava a minha cara no couro do pandeiro. Resultado: ficamos sem nos falar a festa toda.

***

- Mãe, desculpe. – essa era eu levantando a bandeira da paz enquanto ela lavava as louças que tinha sobrado do almoço

- Eu bem conheço os meus passarinhos, Diana... Eu que tenho que me desculpar. É que eu fico tão feliz em ver vocês felizes que eu quero esbanjar sabe? Prometo me controlar.

Nos abraçamos e como sempre nos acertamos. Eu e minha mãe somos como Tom e Jerry. Vivemos trocando faíscas, mas não vivemos uma sem a outra. Falando em faíscas, ainda tinha uma que faltava ser apagada...

- Não vai subir? – perguntei ao Pedro quando ele parou na porta do meu prédio.

- Não. Vou dar uma passada na casa dos meus pais.

- Vem dormir aqui depois?

- Não sei. – respondeu seco.

Fiquei muda e em silêncio por uns instantes, mas eu tinha que deixar o meu orgulho de lado.

- Desculpa, Pedro. Sei que eu pego pesado, às vezes... mas tenta me entender.

- Te entender é o que eu venho fazendo desde que a gente tá junto, Diana. Juro que é o que eu mais faço. Te entender e te agradar. Mas e você ... será que você também me entende?

- Eu te adoro, Pedro.

- Não foi isso que eu perguntei, mas tudo bem. Olha, suba, tenha uma boa noite de sono e amanhã a gente conversa.

- Mas...

- To precisando de um colo de mãe agora. Durma com os anjos.

Ele me deu um selinho frio. E saiu cantando os pneus. E eu fiquei ali, parada, feito uma idiota e com raiva de mim mesma por ter estragado tudo. Por que eu não facilito as coisas, hein? Acho que vou ter que convocar uma outra reunião de família para gente se conciliar.

PAPO DE CALCINHA: Já teve que encarar alguma reunião de família para apresentar o(a) novo(a) namorado(a)?