terça-feira, novembro 08, 2011

OS AMIGOS DELE



Por Letícia Vidica


Costumo dizer que só há uma coisa pior do que conhecer a sogra: é conhecer os amigos dele. O que parece ser apenas um encontrinho informal para te enturmar com a galera dele, na verdade, é um ritual de aprovação. Se você não for aprovada pela galera, minha amiga, você vai enfrentar grandes muralhas no seu relacionamento. E, naquele dia, eu me preparava para encarar mais essa batalha. Os amigos ‘cariocas’ do Pedro queriam me conhecer e resolveram organizar um churrasco na casa de um deles. Tentei escapar, mas foi impossível.

- Vamos, Diana. A gente já tá atrasado...é só um churrasco! Parece até que vai casar... – gritava Pedro que já me esperava impaciente na sala.

Os homens realmente não entendem. Não é só um churrasco. Eu não posso ir de qualquer jeito. Se uma mulher já demora naturalmente para se arrumar, imagina só o quanto a gente não demora para se arrumar para conhecer os amigos dele? Seria bem mais fácil se a Lili e a Betina estivessem aqui. Tenho certeza de que elas me ajudariam a encontrar o que vestir, mas sem elas vou ter que apelar para o meu feeling.

Tenho que vestir algo casual, afinal é um churrasco, mas também não posso ir de qualquer jeito porque sei bem que vão dizer ‘Nossa, você viu a roupinha xumbrega da namorada do Pedro? Que mal gosto!’. Meu feeling então me indicou um vestidinho leve, florido, romântico com clima de tarde e uma maquiagem natural, mas perceptível entende?

- O que você acha, Pedro? Tá boa essa roupa?

- Nossa! Você está ótima. Até chique demais...

- Você acha? Ah, então, eu vou trocar... – ameacei mudar de roupa, mas o Pedro foi logo me puxando pelo braço e me avisando que a gente estava mais do que atrasado e que eu estava linda, tentando me convencer.

...

- Será que seus amigos vão gostar de mim? – eu perguntava a ele enquanto seguíamos para o churras.

- Relaxa, amor. – disse Pedro pegando em minhas mãos – É impossível não gostar de você!

Apesar de suspeita a resposta dele, resolvi tentar relaxar. Chegando ao churras, fomos recebidos pelo dono da casa. David, o palhaço da turma, um gordinho bem humorado que adorava fazer piadas sobre tudo.

- Pedroca, até que enfim, merrrrmão! Achei que tinha ido parar na Cidade de Deus...falando em Deus...prazer, Dona Diana! Uma gata, hein, com todo respeito, Pedrão.

- David! Não vai deixar a menina sem graça – era Juliana, a namorada dele, que chegava dando um tapa nele. Juliana era encantadora e super meiga. Tratou logo de me abraçar e pedir que eu ficasse à vontade. Seria possível?

Quando entrei senti que todos os olhares me fuzilavam. Sabe aquela sensação de entrar em algum lugar e parecer que está pelada? Foi assim. Alguns olhares masculinos me mediam dos pés a cabeça e tentavam imaginar realmente como eu seria sem roupa e minha performance com Pedro, já outros olhares femininos literalmente me fuzilavam. Afinal de contas, é bem típico da mulherada achar algum defeito na namorada do nosso amigo né?

Comecei então a parte que mais odeio: chegar por último em um lugar que você não conhece ninguém e ter que ser apresentada a todos. Além dos anfitriões, conheci também o Pablo, o garanhão da galera, que foi logo me dando um beijo e um abraço apertado (até que ele era bem bonitinho, mas não posso perder o meu foco). Pablo estava acompanhado de uma bela loira, que não sei bem o nome, mas fazia o tipo mulher-fruta-carioca-malhada-aspirante a próxima musa do BBB. Disseram as más línguas que Pablo trocava de mulher como troca de cuecas, se é que ele usava uma.

Diego, era o mais velho da galera e parecia o mais centrado. Fazia o tipo paizão da rapaziada. Telma era a amigona de todos. Adorei ela de cara. Fez vários elogios ao Pedro, mas também prometeu ficar de olho nele para ele não aprontar comigo. Julio era o mascote da turma e estava acompanhado de Priscila, sua nova namoradinha, que também parecia um peixe fora d‘água como eu.

Kamilla, ah, Kamilla...era uma mulata de causar inveja e parar a Sapucaí no meio do desfile da Mangueira. Ela era a amiga gostosa da turma. Obviamente, me senti ameaçada quando vi o corpo escultural daquela mulata de cabelos afros no estilo Black Power com cintura de pilão, um quadril de mola e uma bunda tamanho GG ... que até eu tive que conferir porque era impossível não olhar. Kamilla me cumprimentou com aquele sorrisinho falso de mulher e me mediu dos pés a cabeça. Ah, minha amiga, ali meu sexto sentido piscou. Algo naquela garota não tinha me descido muito bem...tinha algum caroço naquele angu.

Para tentar me enturmar, Juliana me convidou para ir à cozinha com ela e as outras mulheres. Nada melhor do que a mulherada reunida na cozinha para se socializar. Resolvi me sentar do lado da Priscila, a novinha, e ficar apenas escutando as conversas e boiar um pouco nas histórias da turma que não fazem parte do meu universo. Eu apenas ria para parecer simpática.

- Mas então você e o Pedro estão namorando? – era a mulata gostosa que se aproximava de mim como quem queria sondar.

- Ah, a gente tá se conhecendo melhor...digamos assim. – respondi. Não queria dar
detalhes para o provável inimigo.

- Poxa, Diana, o Pedro tava me contando que a história de vocês começou praticamente na maternidade? Que legal! – eu não queria dar detalhes, mas a fofa da Telma fez o favor de dar.

- É, a gente cresceu juntos praticamente, mas só agora que rolou o clima né. – respondi meio sem graça.

- Ah, então tava escrito nas estrelas. – ria Juliana – Acho tão lindo isso. Eu sempre digo que todo mundo tem a tampa da sua panela e, às vezes, tá do lado e a gente não vê. Igual a mim e ao David.

- Nossa, que legal! – respondeu Kamilla – Eu não sabia. O Pedro não tinha me dito nada ...

Essa eu não entendi. Por que o Pedro teria que contar isso para ela? Antes que eu concluísse minha tese, David chegou gritando na cozinha e acabando como clube da Luluzinha, empurrando todo mundo para fora porque ia começar o samba.

Os meninos começaram a se arriscar a fazer um samba. Como era de se esperar, todos suplicaram para que Kamilla mostrasse o seu gingado. Foi a deixa para ela que entrou no meio da roda e mostrou o que a mulata tem. A garota sambava de um jeito de causar inveja , jogando alguns olhares para o Pedro que tentava disfarçar e olhava apenas para o pandeiro que ele tava tocando. Foi com a mão na cintura e requebrando as cadeiras que ela me desafiou para o meio da roda. Era chegada a hora da vergonha alheia. Eu adoro um samba, mas não sei sambar. Ou, melhor, o meu samba de turista alemão nem se compara ao da Globeleza da Kamilla. Arrisquei uns passos e fui logo saindo da roda. Se ela queria me envergonhar, tinha conseguido. O pior foi quando ela desafiou o Pedro a sambar. Fiquei boaquiaberta porque nem eu sabia que ele tinha toda a ginga no pé. Tenho que confessar que os dois sambaram lindamente.

Apesar da minha vontade de arrancar cada molinha do cabelo da Kamilla, não desci do salto e me fiz de morta, mas tratei logo de tentar sondar melhor o terreno.

- Poxa, fico feliz que o Pedro tenha encontrado alguém tão bacana como você – era Juliana. – Ele é um cara tão bacana. Merece alguém legal.

- É, o Pedro é um cara bem especial mesmo. – eu dizia.

- Segura o peixe hein, colega. Homem assim está difícil de arrumar hoje em dia. – retrucava Telma, que parecia não ter encontrado o seu peixe ainda.

- Eu que o diga ... – retrucou Kamilla – Mas e aí? Vai deixar o peixão abandonado aqui no Rio? – alfinetou ela.

- Ih, Kamilla, não vai começar a colocar minhocas na cabeça da Diana... – recriminava Juliana que parecia muito bem conhecer a Globeleza.

- Ai, gente, não falei nada demais. É que namorar a distância é meio complicado né?

E você sugere que eu te contrate para cuidar dele? Era o que eu queria responder, mas apenas pensei. Fui interrompida por Pedro que chegava de surpresa e me abraçava...

- Já estão fuzilando a Diana, né?

- A gente tá só dando umas dicas para ela sobre você, Pedro – ria Telma – Pode deixar. Não vamos falar nada que ela já não saiba...

- Ixi, to perdido! – brincou ele.

O churrasco seguiu noite adentro em clima bem agradável. E, aos poucos, fui me sentindo à vontade e inserida na turma.

...

- E aí o que achou deles? – perguntava Pedro enquanto voltávamos para casa.

- Nossa, adorei. Eles são super legais ... foi um dia maravilhoso. Mas... posso te perguntar uma coisa? Não vai ficar bravo?

- Diga, linda.

- A Kamilla...qual é a dela hein? Acho que ela não foi muito com a minha cara.

- A Kamilla? Que isso! Ela é super gente boa...

- Que ela é boa é perceptível, mas achei que ela estava dando em cima de você... Você bem sabe que sexto sentido de mulher não falha e nem adianta dizer que não tem nada a ver, hein, Pedro!

- Tá, tá... eu não gosto de ficar falando de passado, mas eu não vou mentir para você. A gente já saiu algumas vezes, mas não tem mais nada a ver.

Eu sabia. Sexto sentido de mulher não falha. E como assim ele diz com essa naturalidade que já saiu algumas vezes com aquela Deusa de Ébano?! Claro que me senti ameaçada e fiquei bicuda.

- Diana, vai ficar brava? Não tem nada a ver. Faz muito tempo. A Kamilla já está em outra e eu também.

- Pedro, para com essa cegueira masculina! Tá na cara que ela ainda é caidinha por você!! Eu vi o jeito que ela te olha... vi o jeito que ela sambou olhando para você e jogando aquele popozão na sua cara. Acha que eu sou cega?!

- Ah, se ela me quiser ainda... tô nas pistas né? – dizia ele rindo da minha cara.

- Pedro! Não brinca com coisa séria.

- Adoro quando você fica brava. – dizia ele rindo e depois me dando um beijo.

Incrível como os homens tem o dom de zombarem da gente quando nos sentimos ameaçadas. O Pedro pode até ter desviado do assunto, mas eu não ia desviar dela jamais. Hoje em dia, minha filha, é um olho no peixe e outro no gato. Tô até pensando em pedir transferência para o Rio ou quem sabe me matricular numa aula de samba? A gente tem que lutar com as armas que a gente tem né?

PAPO DE CALCINHA: Você se dá bem com os amigos dele (a)? Já teve algum problema?

3 comentários:

Carissinha disse...

Não conhecia o blog, mas li uma resenha do livro e me interessei em conhecer.

Não me decepcionei.

Muito bom o texto. Todo mundo sempre passa por uma situação dessas, e todo namorado sempre tem uma "Kamila" na vida.

Beijos!

Anônimo disse...

Olha, depende muito da fase/idade do namoro. Quando tinha 20 anos os amigos da minha namorada eram inevitavelmente meus amigos, então sem problema. Na faculdade, tinha um pouco a ver com o curso, pois normalmente a PROFISSÂO determina alguma coisa na personalidade de quem a cursa, então às vezes tínhamos afinidades, com outras, absolutamtne nada, e por aí vai........

Mel Silva disse...

Xii, sempre tem uma kamilla na turma neh.

Mas o Pedro sabe a quem da valor.