terça-feira, fevereiro 08, 2011

HORA DE RECOMEÇAR


Por Letícia Vidica


Pior do que terminar um namoro é ter de encarar o dia seguinte. E todos os outros que se seguem se você estiver na solidão. Acordar e perceber que aquela barba que te roçava o rosto e aquele corpo que te abraçava já não estão mais lá. Que agora te restou apenas o travesseiro para apalpar. Olhar o visor do celular e não ter nenhum torpedo ou ligação perdida de quem te desejava o ‘bom dia’ sagrado. Acho até que os peixes fora d’água se sentem melhor.

‘E agora?’ Foi essa a pergunta que me fiz durante muito tempo depois que terminei com o Pierre. ‘E agora, José? O que vai ser de mim? Será que tenho forças para recomeçar?’. Incrível que a gente passa tanto tempo solteira, depois arruma um namorado e, quando se separa, parece até que nunca viveu sozinha. É como se você tivesse desaprendido a andar e de um dia para o outro precisa competir a São Silvestre.

Amigas. Ainda bem que não me desfiz das minhas, enquanto namorei. Pior seria sem elas para nos ajudar a recomeçar.

- Gente, acho que vou enlouquecer. Eu não consigo parar de pensar no Pierre!!! Eu não sei viver sem ele. – dizia choramingando no colo da Betina e da Lili.

- Muita calma nessa hora! Ora, o Pierre não nasceu grudado com você. – recriminava Betina

- Força na peruca, Di. Dá um trato no visu, sei lá, cuida mais de você...vai te fazer bem. – dizia Lili.

Incrível como os meses tinham passado e eu tinha deixado a minha vaidade totalmente de lado. Realmente, de nada adiantaria virar um bicho das cavernas. O Pierre não ia me querer daquele jeito.

*******

PRIMEIRO PASSO. Resolvi mudar o visual. Me olhei no espelho e vi que não queria mais ver a imagem daquela Diana, a ex namorada do Pierre. Então, marquei um dia no salão.
- Corta, repica, faz o que você quiser...mas me deixe sair daqui outra pessoa, pelo amor de Deus. – supliquei ao cabeleireiro.

- Ih, terminou com o bofe né?

- Como você sabe???

- Ah, minha filha, mulher quando chega desesperada desse jeito para cortar, repicar, mudar...das duas uma...ou arrumou um amante ou levou um pé na bunda. – dizia o Beto, o meu cabeleireiro.

- Ai, Beto, o Pierre não me ama mais ... – eu dizia com a voz marejada.

- Ih, mona, pode fechar o berreiro. Azar do bofe. Vou te deixar poderosa...aposto que você arruma outro em dois tempos.

Passei a tarde toda no cabeleireiro. Fiz barba, cabelo e bigode. Tudo como manda o figurino. Quando o Beto me mostrou frente ao espelho, mal reconheci. Eu realmente tinha mudado...externamente...porque a minha dor e saudade continuavam as mesmas.

- E agora? Vai para onde? – perguntou o Beto.

- Ah, vou para casa. – respondi desanimada.

- Nuncaaaaaa...eu não desperdicei todo o meu talento em você para você ir para casa, chorar, assistindo a novela das nove. Bora para balada né?

- Balada, Beto? Acho que nem sei mais dançar.

- Isso a gente nunca esquece. Olha, tenho alguns ingressos para uma baladinha nova no centro. Liga para suas amigas, daqui uma hora estou liberado e faço um esforço para ir com vocês...o DJ é meu amigo.

Apesar de não estar muito animada com a balada, resolvi aceitar. Quem sabe me ajudaria?

*****

SEGUNDO PASSO. Lá estava eu na balada. Enquanto a Lili, Betina e o Beto se acabavam na pista, eu me sentia um E.T.. Meus braços e pernas não conseguiam acompanhar o ritmo da música. E falando em música, percebi que não conhecia nenhuma. Para evitar o mico total, preferi ir ao bar pedir uma bebida.

- Ih, desistiu, fofa? – perguntou o Beto que correu atrás de mim ao perceber a minha fuga.

- Ah, tô com sede.

- Me engana, nega...desembucha...

- Ai. Beto, estou me sentindo uma velha nesse lugar. Não sei mais dançar. Não conheço música nenhuma...

- Di, recomeçar não é fácil. Gata. Mas a gente precisa dar o primeiro passo. E se você não colaborar, vai ser pior. Toma esse drink aqui, relaxa, se solta e divirta-se. Hoje a noite é sua.

Enquanto eu bebia o tal drink, percebi que um homem me olhava. Tentei disfarçar, mas os olhos do Beto foram mais rápidos.

- Diana do céu, que bofe lindoooo...e tá dando mole para você viu?

- Impressão sua, Beto. E eu nem quero ficar com ninguém.

- E porque não? Não esquece que você é solteira agora, viu??? – disse o Beto se empirulitando no meio da pista.

Realmente, eu era solteira. Tantas vezes desejei ser livre para me acabar de dançar a noite toda, beber com as amigas e beijar novas bocas. Agora que tinha meu desejo concedido achava tudo aquilo tão sem graça. Dava tudo para estar em casa embaixo do edredon comendo pipoca e assistindo a um filme velho na tevê ao lado do Pierre. Mas tive de acordar do sonho, quando aquele homem se aproximou.

- Tá afim de dançar?

- Obrigada, mas não vou fazer você pagar um mico. Eu não danço muito bem.

- Não tem problema. Me acompanha num chope então? Qual o seu nome?

Começamos a jogar conversa fora. Ele era até que bonito, solteiro, educado... mas não era o que eu queria. Ele deu algumas investidas, eu desbaratinei, disse que ia ao banheiro e resolvi esperar as meninas do lado de fora da balada.

- O que houve, Diana? Porque você sumiu? – perguntou Betina.

- Eu não estava me sentindo bem.

- Achei que tinha se perdido com o bonitão. – disse Lili.

- Nada a ver, Lili.

- Num creio que você disperdiçou aquele Deus...ai se ele fosse gay! – lamentava Beto.

- Amiga, vi que você não curtiu a noite né? Mas não desiste ok? – consolava Betina me abraçando.

- Acho que só tem uma solução para você esquecer o Pierre!!! Arrumando um novo amor. – sugeriu Lili.

Será que um outro amor seria capaz de me fazer esquecer do Pierre? Curaria essa mágoa e angústia que eu trazia no peito?

********

TERCEIRO PASSO. Empenhei a batalha na procura do meu novo príncipe encantado. Estava disposta a arrumar um novo namorado ou, pelo menos, um novo caso.

Foi quando eu conheci o Rodolfo. Ele era amigo de uma prima minha. Trocamos telefones, começamos a sair e a nos envolver. Ele parecia estar completamente caído por mim e eu? Me esforçava para gostar dele.

- E o Rodolfo, Di? Como vocês estão? – perguntava Lili.

- Ah, tá bem.

- Nossa, que empolgação! – dizia Betina.

- Ah, ele é educado, romântico, carinhoso, inteligente, beija bem, mas...

- ...mas não é o Pierre né? Diana, pare de procurar o Pierre em todos os caras que você conhece. Ninguém é igual. Não vai adiantar mudar o visual, ir para balada, arrumar um novo namorado se você não está disposta a esquecê-lo e a tocar sua vida em frente.

Mais uma vez, Betina me fez enxergar a realidade. Eu não gostava do Rodolfo. Eu estava o usando. Não era justo fazer dele uma muleta para esquecer o Pierre. Eu tinha que encarar aquela parada sozinha.

Foi o que fiz. Terminei o ‘lance’ com o Rodolfo. Disse que não estava num bom momento e que não era justo magoá-lo. Ele ficou um pouco inconformado, mas acho que percebeu a desculpa e sumiu.

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QUARTO E ÚLTIMO PASSO. Parti para a fase mais difícil do processo. Encarar que estava solteira, livre , leve e solta. Aos poucos, fui me acostumando com a idéia e aprendendo a me valorizar. Aprendendo a conviver comigo mesma. Me redescobrir.

Redescobrindo meus gostos, preferências, desejos, metas...realizando sonhos..fazendo tudo e nada comigo mesma.

Ao final da descoberta, novamente me apaixonei por mim. E hoje sei que, independente do homem que aparecer, sou mais eu e sou eu em primeiro lugar. SEMPRE!!!

PAPO DE CALCINHA: Conte-nos qual foi a sua receita para recomeçar...

Um comentário:

Mary Q. disse...

Me apaixonei por você! rs
Obrigada por contar um pouco da minha história! Adorei me enxergar em palavras (e histórias, claro) alheias e me sentir bem. Acho que todas nós passamos por esses momentos, que você soube traduzir perfeitamente!
Parabéns! Já é uma queridinha aqui!
Muito bons seus textos!!!