quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM


Por Letícia Vidica

Quem, quando era pré-adolescente já não brincou de inventar nomes impossíveis para filmes? Do tipo, ‘Os cantos da sala redonda’, ‘Fogo em Alto Mar’, ‘As visões de um cego’, ‘O discurso de um mudo’, dentre outros que eu tenho certeza que você acabou de lembrar. Mas pára de pensar um pouquinho e presta atenção no que eu vou dizer.

Quando virei uma mocinha, tive a certeza de que estes filmes jamais poderiam ser feitos, mas bem que seriam engraçados não é? Errado! Isto porque, existe um deles que pode ser filmado, tem protagonista, diretor, contra regra e está ou esteve presente na vida de toda mulher, pelo menos uma vez.

‘A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM’. Este é aquele tipo de filme que você assiste uma vez e já basta, mas a Sessão da Tarde insiste em reprisar e você como não tinha nada para fazer naquela tarde, resolveu assistir.

Este filme do qual quero e preciso falar com você, cara amiga, tem como personagem principal aquele ou aqueles milhares de caras que fizeram parte da sua vida um dia e que não precisavam voltar, mas voltam. Num encontro casual, numa trombada na rua, numa ligação inesperada, num encontro tão sonhado...não importa! Ele volta!

Eu já assisti este filme algumas vezes em minha vida e seria uma falta de respeito senão dividisse com você! Ou achou que eu ia ser a única a assistir tudo isto de novo?

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NO SHOPPING...

Era véspera de Natal, 24 de dezembro, seis da tarde. Já imaginou o caos em que a cidade se transforma nestas datas comerciais comemorativas, né? Eu, como boa tia que sou e organizada acima de tudo, deixei para comprar os presentes para os meus cinco lindos sobrinhos, no dia 24. Sabe como é: falta de dinheiro, de tempo, shopping lotado, horas extras no trabalho, somado com mais um trilhão de preguiça, eu resolvi comprar tudo último dia.

O meu adorável chefe me fez entregar um projeto na véspera do Natal e eu só consegui ser liberada, depois de muita discussão, pra variar, às 17 horas da tarde. Saí como uma louca até o Shopping. Naquela altura do campeonato, ia comprar o que eu visse primeiro. Meus sobrinhos tinham que entender. A minha maratona começou na Avenida Paulista - demorei 30 minutos para andar 5 km!

O estacionamento do shopping estava lotado. Mais de 20 minutos para conseguir uma vaga. Entrei no shopping desesperada e buscando fôlego, entre as pessoas, que se espremiam nos corredores do shopping. Descobri então que existem outros mil como eu.

Até que avistei uma loja de brinquedos e entrei. Parecia que haviam aberto a porta do inferno. Pais, tios, avós, madrinhas e padrinhos atrasados disputavam a última Barbie, a última bola, o último jogo da moda, o último tudo porque não havia mais nada na loja.

Depois de muito sufoco, recolhi meus presentes e fui para a quilométrica fila do caixa. Já eram quase nove horas e eu ainda estava no shopping, comecei a ficar irada. De repente, o homem que estava na minha frente virou-se e perguntou que horas eram. Eu respondi, mas ele permaneceu olhando fixamente nos meus olhos. Eu já ia dar uma resposta bem educada, quando ele disse...

'Diana? É você?'
'Sim, sou eu...você me conhece?'
'Como eu ia esquecer de uma pessoa tão bacana...sou o Arnaldo, não lembra?'

Arnaldo? Nossa, como tinha mudado. Estava barbudo, careca, irreconhecível, barrigudo e cheio de brinquedos nas mãos. O Arnaldo foi uma das minhas paixões antigas. Foi um dos meus primeiros namoradinhos. Eu tinha uns 16 anos na época e ele 20. Namoramos quase 2 anos até que ele se mudou para Sorocaba e nunca mais nos falamos. E agora o destino nos cruzava naquele shopping lotado, naquela loja lotada e naquela fila lotada. Sorri então.

'Nossa, Arnaldo ...você está tão diferente que eu quase não o reconheci!'
'Mas você continua a mesma, sincera como sempre! Eu realmente mudei, engordei um pouquinho, caiu uns cabelinhos, mas ainda sou o Arnaldo.'
'E então o que faz por aqui?'

Nem preciso dizer que ele desatou a falar sobre a vida dele, como se fôssemos amigos de longa data que se vêem todos os dias. Foi até bom porque assim a fila andou mais rápido. Ele me contou que se formou em Contabilidade e que estava casado há 5 anos. Casado? Até o Arnaldo casou! Também disse que aqueles brinquedos eram para os seus filhos. Dois. Talita e Felipe. Fez questão (lógico!) de me mostrar a foto deles. Ele falou tanto que eu, graças a Deus, não falei nada sobre a minha vida emocionante na caça de um marido. Ele pagou e eu também.

Adorei reencontrá-la. Pega meu telefone, aparece lá em casa para conhecer os meus filhos.
Lógico, eu ia aparecer sim! O Arnaldo estava tão diferente que nem parecia que a gente já tinha namorado um dia. Gostei de revê-lo. Ou melhor, acho que não gostei não. A sensação de ver que as longas madeixas louras viraram reles fios de cabelo sob sua careca brilhante, que sua barriga de tanquinho havia dado lugar há um reservatório de feijoada, Brahma e docinhos da esposa e que seu papo sobre curtir a vida adoidado havia se transformado em contos de fada que ele agora contava para os seus filhos antes de dormir; só me fez lembrar que o tempo havia passado e RÁPIDO e que eu estava ficando velha, não só velha...como pra titia, literalmente, cheia de pacotes saindo de uma loja de brinquedos infantis. Como o destino é cruel, algumas vezes...

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NA BALADA...

Sábado à noite sempre foi sagrado para mim e para as minhas amigas. É na noite que a gente afoga as nossas mágoas e elaboramos teses e mais teses sobre como os homens não prestam.

Num desses sábados, a gente estava louca pra estravasar. Sair por aí, parar numa danceteria e dançar a noite toda sem parar. Foi o que fizemos. Nos vestimos para matar e fomos rumo à festa.
Enfrentamos um pouco de fila para entrar. A balada era nova e super recomendada por milhares de amigos. A gente tinha que conhecer né? Assim que entramos a Juju já foi logo puxada por um negão lindo e se perdeu a noite inteira com ele. Se perdeu tanto que só deu sinal de vida no domingo às 14 horas da tarde.

Eu, a Paty e a Betina caímos na pista. Dançamos tudo, era só o DJ colocar.
Certa hora, suada e com sede resolvi buscar uma bebida no bar. Assim que cheguei no balcão, escutei alguém chamar por mim.

'Diana, minha princesa...eu sabia que o destino ia nos unir novamente!'

Olhei para o lado e constatei que era o chato do Júlio. Um cara, amigo da Betina. A gente havia ficado numa dessas noites que eu estava de porre e ele tinha grudado na minha. Ligava todo dia, queria me ver todo dia, era um chato de galochas. Adorava usar frases feitas, cantadas velhas e se achava a última Coca-Cola do deserto. Porém, era um dos melhores amigos da Betina. Achei que tinha me livrado dele, quando ela disse que tinha ido morar na Flórida, mas...

'Júlio! Você não estava na Flórida?'
'E você acha que eu agüentei de saudades suas?'
'Não exagera tá?'
'Vai beber o quê? Pode pedir que eu pago o que você quiser.'

Estava pronta para dar um tapa na cara dele, quando a Betina já bem louca de tequila chegou gritando. Tudo o que eu menos queria aconteceu. Os dois amigos se encontraram. Preciso dizer que o chato do Júlio ficou a noite toda com a gente e, além do mais, estrategicamente do meu lado? Cheio de graças, me abraçando, querendo me beijar, mas eu sempre arrumava um jeito de desviar minha boca. A Betina pra ajudar ficava botando pilha. Eu bem que tentei fugir dele, mas ele me monitorava.

Ele ficou com a gente a balada toda. Saiu com a gente. O pior de tudo ainda estava por vir. Eu estava dirigindo e tinha que levar a bêbada da Betina pra casa e o chato do Júlio havia se perdido dos amigos e estava sem carona. Resultado: foi todo mundo embora juntos pra minha casa. O Júlio ainda inventou de passar na padaria e comprar uns pães e tomar o café da manhã com a gente. Não vou mais enrolar, ele ficou o dia todo na minha casa e só foi embora de noite e, depois de pegar todos os meus telefones.

Ele me ligou umas trocentas vezes, mas eu inventei umas trocentas desculpas. Até que eu acho que ele percebeu que eu não estava afim e que ele era um daqueles que podia Ter ido e não voltado mais. Que ele não me ouça,ops, não me leia!

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NO TELEFONEMA (IN)ESPERADO....

Sabe aquelas épocas em que você acha que ninguém te quer e ninguém te ama? Era uma daquelas que eu estava passando. Fazia quinze dias que eu não saía de casa. Era só casa- trabalho-trabalho-casa. Não tinha vontade de fazer nada. Minhas amigas bem que tentaram, mas depois de tantas negativas, elas desistiram e entenderam minha depressão emocional.

Numa Sexta-feira chuvosa, eu havia acabado de chegar do trabalho. Tomei um banho, coloquei meu pijama de bolinha, minha pantufa, fiz um miojo, deitei no sofá e comecei a assistir o ‘Titanic’ pela milésima vez. Por volta de meia-noite, meu telefone tocou. Não ia atender, pois só podia ser uma das minhas queridas amigas.

'Quem é?'
'Pelo visto, atrapalhei seu sonho, né, princesa?'
'Quem está falando?'
'Não reconhece mais a minha voz? Vou dar só uma dica...lembra daquele dia naquele restaurante japonês que eu sei que você adora?'

Não, não podia ser. O Dú? O fofo do Dú? Não, não era. Eu esperei horas, dias, meses pela ligação deste canalha e não podia ser ele agora. Mas era.

'É, o Dú.'
'Oi, Eduardo! – tive que esconder a empolgação – como vai?'
'Estou ótimo e você minha gata?'

Adorava quando ele me chamava assim.

'Também estou ótima.' – confesso que a minha vontade era xingá-lo e ir perguntando porque ele demorou tanto pra ligar, mas eu sabia que ele ia dar mil e uma desculpas. Resolvi não perder o meu tempo.

O Dú foi um daqueles canalhas que a gente sabe que não presta mais gosta. Eu conheci ele, quando fui fazer um curso de especialização. A gente ficou junto por uns 3 meses. Ele era (é) galinha, cantava qualquer rabo de saia, mas tinha a pegada entende? Depois que acabou o curso, a gente se viu mais umas 5 vezes e ele desapareceu do nada. Mas eu sempre esperei uma ligação.

Naquela noite, ficamos conversando por umas 2 horas no telefone. Ele disse que estava solteiro, que tinha pensado muito em mim naquele dia e que resolveu saber se eu ainda gostava de comida japonesa. Preciso dizer que eu me arrumei em 20 minutos, que ele passou no meu prédio, me pegou e a gente foi comer sushi às três horas da manhã?

Ficamos falando da nossa vida. Ele estava trabalhando numa agência super bacana e não se preocupou, em nenhum momento, em me dar satisfações. Mas eu nem liguei,seus olhos azuis me hipnotizavam.

No fim das contas, fui parar no apê dele e só saí de lá depois do café da manhã. Foi uma noite maravilhosa. Ele prometeu me ligar, mas desta vez fingi acreditar porque eu sabia que ele não ia ligar e não ligou. Porém, pra mim, já valeu a pena aquele telefonema. Confesso que, até hoje, quando chove nas noites de Sexta-feira faço um plantãozinho básico ao lado do telefone...mas ele ainda não tocou.

PAPO DE CALCINHA: Confessa, amiga! Já assistiu ao filme ‘A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM’? Já?! Então conta pra mim todo o script do seu filme ou me diz se tem alguém que foi e que você bem queria que não fosse? Ou queria que não voltasse mais?

3 comentários:

Patrícia disse...

Já vi esse filme vááárias vezes. Meu recente ex namorado foi um "a volta dos que não foram" clássico. Voltará ele um dia (mais uma vez???)? Não importa. Sei que lendo o seu post e recordando todos os re-encontros do passado chego a conclusão de que o novo, o inédito, sim, as "estréias" são mais do que necessárias! Imagina ficar vendo só filme repetido? Merecemos as novidades! Nem sempre serão boas, mas quem escolhe somos nós. Os filmes clássicos continuarão existindo? Sim. Mas há sempre a chance do Clark Gable ter se transformado e um tiozinho careca, barrigudo, sem graça e que vc se livrou! E quando vemos isso é um alivio pensar "graças a Deus que estou solteira"! Eu sei que cansei dos filmes antigos, mesmo os clássicos. Quero uma pré-estreia só pra mim!

Anônimo disse...

Acho que todos eles adoram esse filme, rs.... so eu conheço varios que resolvem surgir das cinzas depois de meses, anos, sem dar noticias, e voltam como se nada tivesse acontecido.
Mas, dependendo das circuntancias que mal tem usar eles um pouquinho tb, rs.

Anônimo disse...

Acho que todos eles adoram esse filme, rs.... so eu conheço varios que resolvem surgir das cinzas depois de meses, anos, sem dar noticias, e voltam como se nada tivesse acontecido.
Mas, dependendo das circuntancias que mal tem usar eles um pouquinho tb, rs.