
Por Letícia Vidica
Me respondam uma coisa: quem foi a mulher infeliz que inventou o feminismo? Aposto que foi uma prima da Betina. E também aposto que uma prima distante minha gritava lá no fundo com um cartaz nas mãos “Eu não quero isso!”, “Eu não pedi isso!”. Mas, as mulheres estavam tão ensandecidas queimando nossos sutiens (falando nisso, eu não pedi para queimar os meus sutiens. Eles podem ser bem sexies e confortáveis). Mas elas não a ouviam.
Mas, naquele fim de noite, era como se minha prima distante gritasse através da memória do meu DNA. “Eu não quero isso!”, “Eu não pedi isso!”. É que eu saía estressada e estafada de uma reunião de trabalho, enlouquecida depois de 3 horas de discussões, cobranças, metas, cobranças, metas. E tudo em cima do meu salto 15, interpretando o papel da mulher poderosa, independente, autoritária, feliz, bonita, gostosa, mandona e,ainda por cima, inteligente e antenada.
Tudo para ser respeitada e valorizada naquele universo masculino de leões. Mas, no fundo no fundo, meu pé doía e meu instinto de leoa não estava lá essas coisas. E, no fundo no fundo do fundo, tudo que eu queria era estar em casa, cozinhando um jantarzinho gostoso para o meu marido, que chegaria cansado e estressado depois de um dia de leão, eu daria um beijo nele e estaria cheirosa e poderosa para acalmá-lo, depois da minha tarde relaxante na drenagem linfática, na academia, de ter ido buscar as crianças e outros afazeres domésticos.
Mas não! Eu não era a dona de casa perfeita, mas no fundo do fundo acho que era o que almejava ser, mas eu não podia gritar naquele momento: “Eu não quero isso!”, “Eu não pedi isso!”. Ao contrário, tenho que agüentar todas as pressões desse mundo cruel na minha carcaça de mulher poderosa do século XXI , só porque a desgraçada da prima da Betina inventou há um tempo aí, o tal do feminismo.
Mas parei de divanear e corri para o supermercado para comprar algo para comer porque lembrei-me repentinamente de que minha geladeira estava vazia e eu não tinha um marido ou uma cozinheira, me esperando com o jantar pronto ou que trouxesse dinheiro para as compras do mês. O que me esperava era uma geladeira suja e vazia, uma pia lotada de louças acumuladas da semana (que não tive tempo de lavar porque tive que fazer uns projetos do trabalho até tarde e a filha da Dona Soninha pegou dengue e ela não veio essa semana). Ou seja, depois de ser a mulher leoa poderosa numa mistura de Sex and the City com Diabo Veste Prada, a parte dois do meu dia me esperava. Era hora de encarar a minha própria Amélia.
Enchi o carrinho de compras, mas fui barrada pelo limite do meu cartão assim que passei pelo caixa. Ele estava estourado. Tive que reduzir minha super compra. Mais uma vez, me lembrei que se eu realizasse o meu sonho de ser apenas uma dona de casa feliz (mas com marido rico), eu não estaria passando por aquele papelão. Mas não. Tudo pela merda do feminismo.
Nove horas da noite e meia dúzia de sacolas de supermercado. Recorri a uma opção prática, saudável e saborosa. Jantar na casa dos meus pais. Cheguei lá com vontade de gritar e dizer que eu queria parar o mundo e descer e que brincar de ser a mulher independente tinha perdido a graça. Porém, o brilho nos olhos do meu pai ao ver sua filha executiva, como ele dizia, chegar apertou meu coração. EU não podia destruir os sonhos do meu pobre pai que se orgulhava tanto de ter uma filha formada, executiva e dona de si. Totalmente o oposto da mulher perfeita que era minha mãe, mas que ele também amava.
- E como vai minha executiva? – dizia meu pai me abraçando. – Isso sim é que é mulher.
- Ai, pai, tô matando um leão por dia.
- Isso mesmo, minha menina. Não pode bobear não, mostra para eles a sua garra.
Mal sabia meu pai que eu não queria isso, mas eu tinha que ser isso. Será que você me entende? Em contrapartida, eu olhava minha mãe. Uma mulher simples, dona de casa, feliz a cantar e cozinhar o seu jantar. Ao contrário de mim, minha mãe não terminou o ginásio, encontrou seu príncipe aos 16 anos e casou-se aos 20, está casada há 30 anos, nunca trabalhou, sempre foi sustentada pelo meu pai, mas é sábia e feliz.
Vendo aquela cena da minha mãe cozinhando no fogão, cheguei a conclusão de que passei a vida inteira tentando ser diferente dela. Uma mulher independente, dona de si, que não dependa de marido, que não se case cedo, mas com o passar dos anos está querendo cada vez mais e mais ser como ela. Apenas uma mulher simples, feliz a cozinhar para o seu marido. Sem esse negócio de salto 15 e de ter que mostrar as garras.
- O que tá me olhando tanto, Diana? – perguntava minha mãe com toda sua sabedoria materna, adivinhando que eu não estava bem.
- Mãe, você é feliz?
- Que pergunta mais doida, menina. Por que isso agora? – assustou-se ela quase queimando a barriga na panela de feijão.
- Sim ou não?
- Claro! E por que eu não seria? Olha só! Tenho um marido maravilhoso, filhos maravilhosos, tenho saúde, estou viva...mas espera’í...quem não me parece muito feliz é você! Quem te magoou dessa vez?
- Ninguém. É que eu acho que estou cansada de tudo isso. Cansada de ter que provar todo dia que eu sou boa, que sou mulher, mas sou capaz. Que sou independente, que tenho boas idéias, que me viro sozinha, que não dependo de homem...estou ficando sem forças!!! Poxa, por que eu não posso apenas admitir que eu quero ser como você?! – eu perguntava quase em lágrimas.
Minha mãe sentou-se ao meu lado na mesa, me abraçou e depois olhou fundo nos meus olhos.
- Filha, fico muito feliz com isso, mas você nunca vai ser como eu. Os tempos são outros...e quem me dera que eu vivesse no seu tempo... – então quer dizer que minha mãe queria ser como eu? – erga essa cabeça, seja você mesma e pare de querer provar para si mesma o quanto você é capaz. O mundo cobra sim, mas a gente também se cobra tanto que quer colocar a culpa no mundo né? – ela me beijou e continuou a mexer no fogão.
Mais uma vez, vinha minha mãe e seus conselhos que me fazem pensar. Então a culpa do peso que eu sentia por ter que provar o tempo inteiro que eu era a mulher-sexy-poderosa-inteligente-capaz-criativa-bonita ERA CULPA MNHA??!!!!
Fiquei pensando naquilo durante a lasanha do jantar, o pudim da sobremesa e carreguei aquilo por todas as refeições até aquele happy hour no bar do Pedrão, onde pude colocar pra fora, enquanto comia frango à passarinho e bebia várias, mas várias cervejas.
- Betina, estou quase matando a sua prima...- eu disse.
- Prima? Que prima, posso saber?
- Aquelazinha que veio com essa história de direitos iguais, feminismo, vamos queimar sutiens...se ela soubesse o quanto ela atrapalhou tudo...
- Ih, tá em crise é? – perguntava Betina.
- Eu to de saco cheio, isso sim! Ninguém nunca me perguntou nada e lá foi a bobona, se formou, estudou línguas, viajou, conseguiu um emprego bacana, teve uma promoção, mas todo santo dia tem que matar um puta leão para provar que é capaz e que é uma mulher foda. Engraçado né? E eu só quero achar um príncipe e ser feliz. – eu dizia rindo, um pouco alterada com as cervejas, mas sendo sincera.
- E você acha isso ruim, Diana?!
- Eu acho uma merdaaaaa!!! – eu dizia em alto e bom som.
- Eu concordo!
- Concorda com o quê, Lili? Você mal sabe o que é feminismo! – ironizava Betina.
- Mas sei o quanto é bom ser dondoca, paparicada e ter alguém para bancar.- ria Lili.
- Acho que eu vou me inscrever na sua turma, Lili. Porque essa da Betina está ficando chata.
Nem vou terminar essa conversa porque ela foi longa e sempre será. Pode ter sido apenas uma fase rebelde contra o feminismo. Sei que tem seu lado bom de ser uma mulher independente lutando pelos direitos iguais, mas vamos confessar que tem dias que se a gente fosse só a Amélia seria tão bom né?
PAPO DE CALCINHA: AMIGA, TEM DIAS QUE VOCÊ TAMBÉM QUER LUTAR CONTRA O FEMINISMO E SER APENAS UMA 'AMÉLIA'? DIVIDA SUAS ANGÚSTIAS COM A GENTE.